quarta-feira, 30 de outubro de 2024

ALDISIO FILGUEIRAS: Ai de ti, Manaus

 
AI DE TI, MANAUS

Aldisio Filgueiras

 

Ai de ti Manaus:

                    tu viste

na televisão

             o crime

suprir

             tua lei

-- no teu olho --

          & preferiste

voltar

          as costas

para o rio

                    & a floresta

           & riste

& te chamaram sorriso

                             & riste

           ...Deus dá o riso

a quem não tem dentes...

                      (...o riso...

                      & não o ciso...)

& riste!

                      De quê Manaus?

                     Decidi

ser didático contigo:

                     Muitas

cidades já foram devoradas

pelo fogo

           & pela água

& pelo vento

           & pela terra

& pela...bala...

           & pela peste

                     Muitas.

                     Tu não:

depois

            de um porre

no Bar do Armando

                     em qualquer

poste tu estás

                     qualquer

& o teu rancor

                     de pobre

 

porto de lenha:

a província

           se defende

                     como pode.

Entre o porto

                      & o aeroporto

a retórica dos hipócritas

           desfila

a fome das favelas

                      em fila única.

 

Mas tu cagas pra isso.

 

“Quem vencerá:

           o ovo ou a galinha?”

 

& te chamaram equívoco, Manaus.

 

                      Ai

de mim de mim

                poeta

     menor

em prosa

    com o mundo

-- que será de ti?

-- o que é de mim?

Perco o fôlego

                     & logo & logo

os olhos leigos

                     -- curto triscar --

         surpresa

de taxistas

         furiosos

com a vida &

         mulheres &

crianças

          -- malditos idiotas --

sem crédito

          & sem dúvidas

na chacota dos boçais.

Ai de ti Manaus.

                   Um simples

cisco de rio

                   no teu sistema

         viário

                   nada demais

um risco simples de giz

 

                mas não Manaus.

 

Negas-te

          & te basta.

Quando te dás

          és outra.

& te bastas.

             Já capitulaste

tantas vezes

             que a próxima

não te fará

             nenhuma

vergonha na cara.

 

Ninguém te amou mais de uma vez.

& se disseres:

 

-- por que não outro sítio que não eu...

-- de tantas caras & máscaras é impossível

           fugir de ti sem encontrar-te em cada

esquina de aeroporto & polícia rodoviária

:

a última vez

                    -- conta um signatário

anônimo: foi

                    a que jurei estar livre!

otário!

 

& mais não disse

          não disse, Manaus

mas lhe foi perguntado.

Todo descuido

           em ti será

fatal, Manaus.

           Espremeste

todas as seringueiras

& oprimiste

            todos os seringueiros

que o Nordeste

            não teve tempo

quente o bastante

                 para queimar.

& extraiste

          látex

& extraiste

          sangue

& extraiste

          divisas

& extraiste

          sonhos

& vaudevilles

          & foste produzir

pneus em Detroit

          & guerras

neuróticas na Europa.

& se eu

          acreditasse

mesmo em Deus

                      rezaria

que ele estudasse

                      mais geografia

& te descobrisse

                      aqui onde estás

encolhida & devassa

                      & te bombardeasse

nem que fosse

           com uma nuvem

enxuta de Chernobyl

           sobre os legumes

que vêm de São Paulo

           alimentar

de cadáveres &

           filmes

de Spielberg

           tua produção

de informática.

Mas o anjo

           não me diz

nada. Deus?

           Arcanjo?

Quê -- senão

           o nada

dimensionado?

 

Mas tu cagas pra isso.

 

                      Massacraste

os teus poetas &

                      pintores

& músicos & malucos

de todos os matizes

-- os que mais te amaram --

com discursos

& crimes pós-barba

                      & piadas obscenas

& quadros & romances

                      que só tu

superas em ficção

                      & maldade

Ouve a pobreza

           dos teus

bairros Manaus.

           Eles comem

lixo & tu vestes luxo.

Eles querem viver

           & ensinas

lições suicidas

           desde a Baixa

Cachoeirinha

           -- onde quintais

viram danceterias

           & os igarapés

estão bêbados de

           neon & mercúrio.

Sim: eles querem viver.

Mas o ônibus

           fede & os sovacos

& as bocetas

           & os homens bebem

movidos a ódio cru

           para sonhar

mas o sonho fede

           & tu cagas pra isso.

Ai de ti Manaus

           não venhas chorar no meu ombro.

 

FILGUEIRAS, Aldisio. Manaus – as muitas Manaus. Manaus: Edição do Autor, 1994. p. 71-90

segunda-feira, 21 de outubro de 2024

ADONAI DE MEDEIROS: Jamachi: coisas da Amazônia

Jamachi: coisas da Amazônia, 1934.

 

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UMA EXPLICAÇÃO

Não sou candidato à Academia de Letras. Tampouco ao prêmio Nobel. Nem quero ser membro de Juri... Os contos são meus. Assunto da minha terra – o Amazonas. É regionalismo puro. Alguma fantasia. Quem achar que poderia sair melhor tem um recurso: as livrarias vendem papel, tinta, lápis, máquinas de escrever e outros artigos de que se servem os escritores sente à mesa e escreva... Se não tiver dinheiro para comprar o material suficiente – exceto a inteligência – venha a mim que eu forneço. Contanto que venha para a liça. Se não agradarem ao leitor, tenho a dizer que os contos são filhos desta coruja que sou eu. Eu os achei bons, ótimos mesmos. Por mim, estou contente. Sou muito egoísta.

 

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AS POMAS DE IACI

Adonai de Medeiros

 

Logo que a montaria encalhou na praia, à entrada do lago, arregaçamos as calças e nos dirigimos ao velho caboclo que recolhia num paneiro as raízes de macaxeira.

Estávamos dentro do grande lago em Manacapuru e tratávamos de aproveitar aquele chorrilho de feriados e dias santos que os primeiros dias de Novembro nos concediam, procurando passá-los da melhor maneira. Uma digressão pelas casas à margem do enorme lago era agradável e, por isso, pedimos uma canoa por empréstimo ao coronel Juvêncio, dono do barracão onde nos hospedamos e nos metemos à folia.

Éramos ao todo cinco: o Pimenta, que a par de boa voz tocava magistralmente o cavaquinho; o Salles, que reunia ao vezo de exímio bebedor de “Janauacá” o de bom violão; o Almeida, emérito no fazer soar o caracaxá; o Oliveira, que se fizera notável na harmônica, e eu, que brilhava por não saber nem cantar nem tocar, acompanhando-os nas repetidas saudações às garrafas da famosa aguardente amazonense.

Ao nosso cumprimento o caboclo respondeu com um “bom dia” acompanhado de um gesto à aba do chapéu de palha e, amarrando com umas embiras as bordas do paneiro, levantou-o ao ombro e conduziu-o para a barraca na terra firme. Acompanhamo-lo e, gente da cidade, curiosa, crivamo-lo de perguntas sobre o lugar e suas lendas. Ele, vergado ao peso do paneiro, cuspinhando para os lados, remexendo na boca a masca de fumo, respondia à nossa fala, com aquele jeito peculiar de quem envelheceu ao contato da natureza selvagem e maravilhosa do vale.

Entrando na tosca residência, toda de palha, ordenou à mulher nos servisse café batido ao pilão, e enquanto o saboreávamos, aromatizado com cravo, ele, cedendo à nossa insistência, começou a narrar uma das muitas lendas que os seus ancestrais lhe legaram:

– Foi ali, moços, no outro lado, e há muito que se passou, foi naquela margem onde está a tapera do Pedro Jerômo, aquele que matou a mulher por falsidade. Houve aqui nestas terras uma tribo de índios. O tuichaua, o velho Kemembaua, morreu há cinco anos; tinha uma filha, Iaci, linda entre todas as tapuias, de cabelos e olhos tão negros como as noites de tempestade; os seios turgidos davam a impressão de flechas retesadas num arco.

Toda a mocidade guerreira da aldeia desejava-a por esposa e era com ansiedade que esperava a celebração da sua puberdade. A maloca inteira venerava-a; sendo a sua palavra um oráculo, como me disse o velho pajé Muipiraua: uns diziam que o Grande Espírito a tinha feito nascer da Lua com o Sol; faziam-na outros gerada da Noite com o Dia.

Certa manhã em que ela se banhava no igarapé que fica atrás daquele cumaru, mostrando aos olhos invisíveis de Tupã o esplendor do seu corpo moreno, um branco, um viajor incumbido da catequese dos silvícolas, apareceu e, sem que ela pudesse evitar a insânia que sua beleza causara ao aventureiro, furtou toda a ventura do tapuio escolhido para seu marido...

Kemembaua, cientificado da afronta infligida à filha, lança o seu “Hi-o-há” de guerra, dardeja do arco e põe-se no encalço daquele que a maculara. O branco, sabedor do ódio que o seu ato motivara entre aqueles que tinha por dever chamar à civilização, tratou de fugir para lugar onde a ira dos ofendidos não o alcançasse. Vendo baldados os esforços para a captura do catequista, Kemembaua aplicou à filha, vilipendiada, a lei da tribo: sujeitou-a ao suplício de lhe cortar os seios.

E, sob a revolta que tal cena despertava na gente que a adorava, revolta velada pelo respeito aos desígnios do chefe, vindo através dos tempos, até eles, Kemembaua os lançou na água parada do lago. Muipiraua repetiu-me as palavras que proferiu:

– Iaci sofre porque branco fugiu.

Assim, o ídolo da maloca, com o peito em chaga, expirou a castigo tão cruel...

 

MEDEIROS, Adonai de. Jamachi: coisas da Amazônia. São Paulo: Gráfica São José, 1934. p. 9-12

 

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*Acerca de Adonai de Medeiros não foi possível encontrar quaisquer referências biográficas, além da que diz ser do Amazonas, no início da obra.

sexta-feira, 4 de outubro de 2024

QUATRO MOVIMENTOS: Luiz Bacellar

Quatro Movimentos, o terceiro livro do poeta amazonense Luiz Bacellar (1928-2012), publicado pela Editora Artenova, em 1975, do Rio de Janeiro. Com prefácio de L. Ruas e ilustrações de Van Pereira.

 

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VII

 

Uma rosa de sal, entretecida

de mágoa, de pavor, de angústia e espanto,

por espinhos de gelo guarnecida,

foi se lavrando ao longo do meu canto!

Uma rosa de sal! Não fenecida,

pelas salobras lágrimas, que enquanto

cantei fui derramando, foi nascida

como estalagmite do meu pranto.

Uma rosa de sal! Ai quem pudera,

nessa corola branca constelada

de brilhos claros, de perenes lumes,

ver todo o sentimento que a fizera

sem contudo a tomar, menos amada,

por rosa dolorosa e sem perfumes? p. 21

 

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VIII

 

Rosa do mar! Se o mar tivesse rosas...

Rosa do céu? Se o céu também tivesse

e uma estrelar corola compusesse

de fluidas lactescências vaporosas.

Rosa de lumes claros, de olorosas

opalescências, ciciar de prece

erguida à Virgem pelo que padece,

para tecer grinaldas luminosas!

Ó rosa de impossíveis... transparências

que minha mente cria e que minh’alma

procura nos espaços siderais!

Ó rosa de purezas e inocências,

rosa da fé, rosa da paz, da calma,

rosa do além, rosa do nunca mais... p. 22

 

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IX

 

Essa rosa farpada, essa reouvida

rosa inconsútil plena em ressonâncias,

essa é a rosa dos ecos de uma vida

feita em procura dela em fundas ânsias;

essa rosa que dói mas que é amada

assim mutável, desassossegada

girando em chamas com seu rubro lume

de redolente cor, claro perfume,

é rosa mais na dor, mais na vivência,

mais no vibrátil som que é sua essência:

deslumbramento de um destino adverso;

essa rosa contínua e ressonhada,

por pétalas de pálpebras formada,

é rosa renascida em sono e em verso. p. 23

 

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XIX

 

Esta lua é a dos loucos. E eu pressinto

que vizinho já sou dessa loucura...

No entanto sinto quanto a noite é pura

com um diurno sentimento de que minto

sorvendo o azul e trágico absinto

do luar: me garimpando na procura

de uma razão de ser... (Essa tortura

de pressentir o louco que em mim sinto!)

Luar peripatético e falaz,

deambulatório luar, atro e minaz:

versos contados por passadas lentas.

Pelo meu ritmo interior levado

eu vou compondo, a passo magoado

o poema. E enchendo as horas lutulentas. p. 34

 

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XX

 

O meu verso é um fragor: desmoronar -

me sinto quando escrevo. E o ruído é tanto

que vou com passo incerto no meu canto

como se caminhasse à beira-mar

num dia de ressaca sob um luar

como o de agora (a via-láctea é um manto

salpicado de sal, de prata e pranto)

em que as horas se esquecem de passar.

Meu verso é um natural correr de pena

que rasga, que destrói, mutila e mata

minhalma que é de espuma e de verbena:

é um vestido deixado sobre a cama,

vazio de um corpo amado. E me arrebata

no vácuo intenso do meu próprio drama. p. 35

 

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XXXIII

 

Nos meandros do verbo abrindo as claves,

supremas solidões de angústias tensas

num denso tumultuar de asas imensas

de sombras vivas em revoadas de aves,

guardas as mais recônditas sentenças:

negros silêncios de pesadas chaves,

marulho surdo de perdidas naves,

proas rompendo o duro mar que pensas...

Mar de secos sargaços e de ossuários

com as amplas solidões, vastos silêncios

das planuras mortais do irrevelado,

arcabouço de sonhos refratários

que, alta corola calcinando-os, vence-os

o sol do espanto, lívido e nevado. p. 49

 

BACELLAR, Luiz. Quatro Movimentos. Rio de Janeiro: Artenova, 1975. p. 21-23

quinta-feira, 26 de setembro de 2024

INQUIETAÇÃO DE UM FETO: Adrino Aragão

 

Inquietação de um feto, livro de contos de Adrino Aragão, publicado em 1976, pela Casa Editora Madrugada. Adrino é manauara, nascido em 1936, integrante do Clube da Madrugada, e é considerado uma das grandes referências do miniconto no Brasil.

 

                                           ֎

 

inquietação de um feto

 

enfiou a mão na placenta e rompeu o cordão umbilical. o ar invadindo os pulmões se antepôs ao riso. apanhou a bússola, confirmou o roteiro da viagem ao planeta nunca explorado. sinto-me ridículo na roupa de astronauta mas pouco importa, já que eles me aclamam triunfalmente. na estação espero o trem que não chega porque nunca existiu. o importante é ir. por isso espero. cansaço. me liberto dos braços, pernas, intestinos, rins, coração e tudo mais:apenas a cabeça se mantém na posição anterior. flutuo como um balão. o menino passa batendo tambor. penso montar no cabo de vassoura e sair cavalgando pelo mundo. desisto. os bichos se escondem nas frutas. os galhos das árvores estão apodrecidos e os pássaros não cantam mais. no pico da montanha a águia faz o ninho. não sinto mais nem sede nem fome. não preciso me levantar. estou. sem braços. sem pernas. estou. a noção do tempo inexiste para mim. arranco os ponteiros do relógio. nem dia nem noite. vácuo. como nas sagradas escrituras. espero. desta vez, com os braços, pernas, rins, intestinos, coração e tudo mais. o vento açoita as árvores e logo cairão os frutos. o menino volta a passar, agora chorando porque o balão espocou. estalo os dedos e o menino sorri com outro balão que me sai das mãos. descubro em mim poderes mágicos nunca antes revelados. sorrio, eu que julgava não saber sorrir. decido. retorno à placenta e desta vez vou aguardar pacientemente os nove meses.

 

FREITAS, Adrino Aragão de. Inquietação de um feto. Manaus: Casa Editora Madrugada, 1976. p. 31-34

domingo, 22 de setembro de 2024

O TRÁFICO DE MULHER [NOS SERINGAIS DO ACRE]

Araújo Lima (1884-1945)

 

A prolação das massas colonizadoras consumou-se, no Amazonas, à revelia dos preceitos da higiene e da ciência econômica, sem os aprestos que a previdência dos povos cultos dispõe nos domínios destinados a abrigar populações imigradas, civilizadas ou por civilizar.

Há, porém, alguma coisa ainda a registrar. Ao colono ignorante e desaparelhado, com as mais negativas qualidades de adaptação, faltou até mesmo a assistência moral, afetiva e fisiológica da mulher.

A etapa a vencer na transmigração penosa, dos arenais calcinados do Nordeste para os semipousos lacustres da famosa Hiléia do Norte, foi sempre dura, áspera, dispendiosa.

Debitada, como parcela agravante da conta do freguês, a soma das despesas de viagem desde os sertões nordestinos aos recôncavos amazônicos, aportava a seu destino o futuro extrator já comprometido por uma dívida correspondente ao seu valor econômico, pela qual respondia a sua liberdade.

O homem chegava hipotecado, comprometido; impraticável, portanto, quase sempre o transporte de uma companheira, que tornaria exorbitante o valor estimativo do colono – o seu preço.

Esboçava-se, assim, uma sociedade singularíssima, tendo como decalque o agrupamento masculino ao invés da família; e, com o fenômeno, definia-se um paradoxo demográfico, de que nos dá testemunho esta estatística anômala, traduzida numa desproporção censitária: mais homens do que mulheres.

Operou-se, conseguintemente, com a expressão dessa fórmula de censo aberrante, uma contingência antinatural, gerada pela unilateralidade decorrente para a função genésica, mutiladora da espécie e comprometedora da normalidade orgânica do indivíduo.

Porque foi essa uma sociedade que se formou contrariando as leis naturais, ao sabor da sorte – da má sorte, aliás, – através de regiões enigmáticas, inexploradas, trancadas ao homem, quanto mais à mulher!

De Honoré de Balzac a Paul Bourget, o realismo, na literatura francesa vem demonstrando que a família é a verdadeira célula social. E Henri Bordeaux, num livro que é um excelso ensinamento evangélico da mais santa das indulgências – a de perdoar e de esquecer; Bordeaux, que é um dos grandes, profundos investigadores da psicologia social contemporânea, transmite-nos esta lição magistral, por ele aprendida de um mísero sofredor, lá pelas ondulações escarpadas das montanhas da Savóia: Não há uma “casa”, não há um “lar” verdadeiro, onde não arde uma chama, onde não se acende um fogão, onde não assiste o gênio tutelar da mulher.

Só lentamente passou ela a influir naquele mundo novo, aberto penosamente a uma colonização tumultuária e anárquica, angariada à custa de meios-valores econômicos – homens sem saúde, sem cultura, sem recursos.

Por muito tempo o homem lutou quase só nos altos sertões amazônicos.

A moral é a mais relativa das leis sociais: varia geograficamente, através do tempo, por pressão mesológica, por contágio de costumes, por determinação histórica, por atuação do momento.

Os preconceitos são infiltrações hereditárias, preceituadas pelo convencionalismo da ética, artificial ou legal, aceita ou decretada pelas sociedades.

Há, entretanto, na formação e evolução dos núcleos sociais, alguma coisa mais fatal que o despotismo atávico e mais incoercível que o voluntarismo governante – é a tirania das contingências. E ali, naquelas paragens quase misteriosas do Acre lendário, por volta de menos de meio século, o absolutismo do instinto se havia de chocar de encontro à muralha das premências ambientes, para desse entrechoque surgir um novo costume, uma prática nova, e, com ela, uma nova moral.

Transplantado para este solo cheio de antagonismos, sofre o homem, refletindo o contraste do meio cósmico no seu próprio senso psicológico, a subversão, a mutação de um sentimento inato, congênito, secular. Lutando com a falta da mulher, aceita-a como objeto de transação comercial, concorrendo para a implantação desse tráfico, senão generalizado ao menos adotado naqueles tempos remotos, cuja memória se vai já apagando sem que ao menos registrada fique a sua história.

A carência da mulher, dentro do seio de um organismo social que teve por gênese uma calamidade, ainda sem a prostituição a ulcerar-lhe a intimidade dos tecidos, criou, – na época de ebulição da vida acreana, na idade trepidante do contagioso delírio de grandezas no far-west amazônico, – um novo gênero de comércio, de “camelotage”, de “ciganagem” (esta a expressão perfeitamente ajustada à gíria local), que consistia no tráfico de mulheres decaídas, transformadas em objeto de negócio de certos agenciadores ou regatões. Praticavam tal comércio menos por falta de escrúpulo do que pelo desejo de bem servir a freguesia do alto; consignavam as “vênus” mercenárias, mediante fatura especificada em gastos e comissões, ao pessoal mais abonado dos seringais, contra resgate em borracha ou carta de ordem.

A resultante daquela aberração censitária, em função do amálgama de uma sociedade de originalidades chocantes, forneceu à crônica daqueles tempos incipientes, já hoje lendários, episódios impressionantes, com a tônica alternativamente dramática ou cômica, dos quais trasladamos dois específicos, desdobrados naqueles cenários selvagens, há por aí cerca de quatro decênios.

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A. B., guarda-livros de importante seringal do Alto Acre, exercendo aí a atividade de “faz-tudo”, exercício que lhe era facultado por uma cuidada educação de família ilustre, de cujo seio no Rio de Janeiro se desprendera ao impulso quase alucinado de uma aventura amorosa; mentalidade instável de estroina e sentimental, boêmio e misantropo, aventureiro e tímido, A. B. regressava ao “barracão”, do qual se ausentara por oito dias, em incursão pelo seringal adentro, até o “centro” distante ermo, através de varadouros inóspitos e igapós sombrios, em busca de uma borracha arrancada a fregueses mais negligentes, quando ao chegar foi acolhido com uma expressão dúbia, entre maliciosa e alvissareira, do “gerente”, que lhe anunciava, além da nova da passagem do “gaiola” X, ansiosamente esperada desde longos dias, o recebimento de um pacote de jornais, um volume de correspondência e... – enfeitando a narração das novidades com um ar comicamente misterioso – a “encomenda” que fizera ao comandante E. G. A cena fora movimentada pela concorrência de todos os habituês da loja do barracão: os demais empregados; os fregueses atraídos do centro pelo acontecimento da chegada de um navio, que há cerca de seis meses ali não aportava; alguns convalescentes, que em procura de pílulas ou cafés-panacéias se haviam ali homiziado, acossados pelas tremedeiras de sezões inveteradas; finalmente os “brabos” aparvalhados que haviam desembarcado recentemente do “gaiola”, pasmados numa alvar e meio atordoada curiosidade.

A. B., num instantâneo fenômeno de desagregação da personalidade, sente-se desfeito, sacudido por estremecimento estranho, tolhido por uma inibição brusca na audácia aventureira, caso inédito em sua acidentada história passional. O seu arquivo de conquistas mais ou menos fáceis recolhera, através de uma vida boémia e aventurosa no sul, lances mais ou menos emotivos, mais ou menos ousados; mas aquele aviso imprevisto despertou-lhe uma sensação nova, estranha, inexplicável, em que trepidava a sua emotividade, numa crispação histérica, paroxística, intimamente convulsiva, para se lhe derramar a alma logo após, como aniquilada, num delíquio sincopal.

Guiado por um gesto expressivo do “gerente”, que picarescamente lhe indicava a “encomenda”, depositada no quarto, para este se encaminhou sonambulicamente; mas, caminha e recua, quer e não quer, pretende ver de surpresa sem ser visto, surpreendê-la na atitude espontânea e natural... Banhado num estado emocional que não conhecia, agitado por uma ânsia que não sabia interpretar – uma espécie de desejo contraditório de ir e não ir, uma dúvida entre angustiosa e terna, consoladora e amedrontada, – segue, caminha vacilante, amortece as pisadas, retoma os passos, e assim, imperceptível, aproxima-se do local buscado. A emoção lhe hipertrofiara toda a vibração cardíaca e respiratória. Tremia e arfava. Mas não quer alcançá-la de chofre; queria vê-la sem ser visto. Foi-lhe fácil o intento, furando com o olhar voraz a fresta da “paxiúba” mal aparelhada; e abre-se-lhe então à pupila estreitada uma visão surpreendente que lhe compraz o espírito, enternecendo-o suavemente, com uma sedação instantânea. Era uma rapariga vistosa, de feições proporcionadas, morena clara, compungida na sua dor, numa atitude contrafeita, com uma expressão que dizia estar trabalhada por um pesar, que não conseguira lenir, e que se objetivava nas pálpebras entumescidas e conjuntivas avermelhadas, das quais corriam, de quando em quando, compassadas, si- lentes lágrimas. Embalava-se dolentemente numa rede e voltava os olhos, implorando, para uma oleografia suspensa à parede, com a imagem da Senhora do Perpétuo Socorro. Tudo nela refletia mágoa serena e digna.

A. B. perde a noção do tempo naquela contemplação. Dentro no seu ser, nos arcanos inacessíveis até aquele momento às reflexões do altruísmo, opera-se uma demonstração raciocinada: ali estava a mulher que seria sua por algumas “peles de borracha” e que, fascinada pelas mentirosas seduções daquele “inferno dourado” que a ele enganara tão torpemente, vinha arrebatada pela mesma ilusão enganadora, por essa miragem fatídica, e deixava talvez – e deixou certamente – uma afeição real, espontânea, gratuita. Estavam, em verdade, atingidos os dois pelo mesmo golpe do destino; eram dois mistificados por essa traidora tentação de um éden malogrado... Recua voluntariamente e reentra na “loja”, onde os circunstantes o recebem com estrepitosa ovação. Correspondeu de um modo vago, incompreensível de todos, que o julgavam tolhido de satisfação. E dentre os abraços a que ele automaticamente correspondia, um foi mais demorado, prolongou-se por mais tempo, enquanto o manifestante, um “freguês” abonado e com “saldo”, assim transmitia o seu entusiasmo: – É tão bonita que, se não a quisesse, com ela eu me casaria hoje mesmo. Desvencilhado do último abraço, A. B. chamou de parte o pretendente e interpelou-o: – Queres a moça para casar? Toma-a; é tua. É só pagares a fatura ao gerente.

E naquele mesmo dia, com as formalidades sumárias, perante o juiz distrital, realizou-se o casamento.

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Jazia sobre três tábuas, improvisadas em leito de morte, o corpo deformado de F. S., que um tronco de árvore gigantesca, ao ser por ele derrubada, às primeiras horas do dia, abatera inanimado e sem vida.

A triste nova correra, com a velocidade das “montarias” céleres, até onde as águas escassas daquela vazante extrema permitiam. E, depois de algumas horas, começaram a afluir os moradores das barracas daqueles arredores, após duas, três e até quatro horas de viagem. Já ao anoitecer chegava um dos mais retardatários, por de mais longe se ter movido. Cumprimenta os presentes, contempla o cadáver com desalento, e, aproximando-se da viúva, que chorosa velava à cabeceira do cadáver, aventurou: – Dona Isabel, a senhora quer se casar comigo? Ao que ela opôs, prontamente, a voz entrecortada por soluços: – Não posso, porque já estou comprometida com seu Serapião.

 

LIMA, Araújo. Amazônia, a terra e o homem. 4.ed. São Paulo: Ed. Nacional; Brasília: INL, 1975. p. 147-151 (Coleção Brasiliana volume 104)