quarta-feira, 30 de junho de 2010

QUANDO O SILÊNCIO COBRE O NOME

Rubem Alves

Havia certa vez um homem que dizia o nome de Deus.
Quando o coração lhe doía por uma criança que chorava,
ou um pobre que mendigava,
ele andava até a floresta,
acendia o fogo,
entoava canções
e dizia as palavras.
E Deus o ouviu...

O tempo passou.
Voltou à mesma floresta.
Mas não carregava fogo nas mãos.
Só lhe restou cantar as canções
e dizer as palavras.
E Deus o atendeu ainda assim.

Um tempo mais longo se foi.
Sem fogo nas mãos,
sem força nas pernas,
não alcançou a floresta.
Mas do seu quarto
saíram as mesmas canções
e as mesmas palavras.
E Deus lhe disse que sim...

Chegou a velhice.
Nem floresta nem fogo ou canções...
Restaram as palavras.
E o mesmo milagre, ocorreu.

Por fim
sem fogo ou floresta,
sem canções ou palavras.
Só mesmo o infinito desejo
e o silêncio:
E Deus tudo entendeu...


Estória que me contaram.

***   ***
*

ALVES, Rubem. Pai Nosso: Meditações. São Paulo: CEDI, Ed. Paulinas, 1987.
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