quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

ESSA TÃO SONHADA FELICIDADE

Luísa Galvão Lessa
colunaletras@yahoo.com.br
Um dos temas mais importantes de toda a história da humanidade é a Felicidade. Ninguém ousou dizer ser o dono da verdade sobre uma definição precisa, pois mesmo os grandes gênios da Filosofia sabiam da dificuldade em definir essa tão procurada felicidade. Por isso é bom caminhar na trilha de alguns sábios para que se possa revelar seus pensamentos e certezas acerca de tal compreensão e definição.

Desde os primórdios da Filosofia, a natureza foi o referencial para as explicações da humanidade. E, de certa forma, a única verdade para aqueles que viveram esse tempo é a esperança de encontrar nos preceitos filosóficos um caminho para se buscar a felicidade. E, embora esses sábios não dominassem os mistérios da natureza buscavam, nos fenômenos naturais, uma resposta para suas inquietações interiores.

A Filosofia, enquanto ciência, é a técnica da vida. E técnica é fazer algo que a pessoa já fazia com menos esforço e mais qualidade. A Filosofia existe para que as pessoas possam viver melhor, sofrer menos e lidar mais serenamente com as adversidades. A missão essencial da Filosofia é tornar viável a busca da felicidade.

Dessa forma, todos os grandes pensadores sublinharam esse ponto. A Filosofia que não é útil na vida prática pode ser jogada no lixo. Alguém definiu os filósofos como os amigos eternos da humanidade. Nas noites frias e escuras que enfrentamos, no correr dos longos dias, eles podem iluminar e aquecer. A Filosofia apóia e consola. "O ofício da filosofia é serenar as tempestades da alma", escreveu o sábio francês Montaigne (1533-1592). Numa outra definição magistral, Montaigne definiu a Filosofia como a "ciência de viver bem".

Segundo leituras empreendidas, para Sócrates o "conhece-te a ti mesmo" é a chave para a conquista da felicidade. Para Platão a noção de felicidade é relativa à situação do ser humano no mundo, e aos deveres que aqui lhe cabem. Para Aristóteles a felicidade é mais acessível ao sábio que mais facilmente basta a si mesmo, mas é aquilo que, na realidade, devem tender todos os seres humanos das cidades, vilas, povoados.

Avista-se, então, independente do pensamento socrático, platônico ou aristotélico, a felicidade, embora possível e fonte de busca incansável, não pode ser encarada como realização final da existência, ou seja, a última azeitona da empada, pois, se for assim, não encontrá-la significa ficar com fome. E fome é algo muito ruim.

Para Aristóteles, a felicidade é relatada como sendo um bem supremo tanto para os vulgos quanto para os homens de cultura superior, considerando-a como o bem viver e o bem agir. Outros identificam a felicidade com o bem e com o prazer e, por isso, amam a vida agradável.

Para a modernidade, felicidade seria um estado afetivo ou emocional de sentir-se bem ou sentir prazer. Para Aristóteles, ter felicidade ou ser feliz é usar a razão como propriedade e fazer de tal modo que isso se torne uma virtude. Segundo o filósofo, a felicidade é o bem mais nobre e mais desejável entre os homens, chegando a identificá-la como "uma atividade da alma em consonância com a virtude."

De outro lado, para alguns, a felicidade é pautada na existência de outra pessoa em sua vida. Aí, então, a felicidade fica muito complexa e difícil para alcançar. Colocar os sonhos/realizações/desejos nos ombros de outro ser, não só castiga quem recebe essa incumbência, como escraviza quem faz isso. A busca pela felicidade, embora possa ser feita em conjunto, trás uma realização pessoal. Se é para ser feliz, é preciso ser por conta própria. Do contrário, não se é feliz nunca.

Então, compreender realmente o que seja felicidade para um indivíduo é, de certa forma, ver nas atitudes humanas, ora na sua cultura, ora em seus pensamentos, a sua necessidade, ou seja, aquilo que realmente se precisa para ser feliz. Muitas são as respostas de como se chegar à felicidade. Albert Einstein, por exemplo, disse certa vez: "se quer viver uma vida feliz, amarre-se a uma meta, não às pessoas nem as coisas", pois sabia que as paixões destroem a liberdade do ser e o apego as coisas desvirtualiza uma pessoa.

Também, já foi dito que a felicidade é algo bastante relativo, pois depende, incondicionalmente, da visão de necessidade de cada indivíduo, ou seja, a felicidade, para um capitalista, é acumular riquezas; já para um socialista-comunista, reparti-la; para um estudante, a felicidade seria construir conhecimento; para um analfabeto, saber ler e escrever; para um colecionador, completar a sua coleção; já para um amador iniciante, ter a primeira peça e assim por diante. Nessa linha de raciocínio, infere-se que o ser humano entendia e entende a Felicidade como a satisfação do "Eu-querer".

À luz dos dicionários a Felicidade “é qualidade ou estado de feliz; ventura, contentamento. Feliz é o ser ditoso, afortunado, venturoso. Contente, alegre, satisfeito. “Que denota ou em que há alegria, satisfação, contentamento”.

Existem diferentes abordagens ao estudo da felicidade - pela Filosofia, pelas religiões ou pela Psicologia. E a resposta mais concreta a essa pergunta “ O quê é a felicidade?”, pode ser assim dada: A felicidade é um estado durável de plenitude, satisfação e equilíbrio físico e psíquico, em que o sofrimento e a inquietude estão ausentes. Abrange uma gama de emoções ou sentimentos que vai desde o contentamento até a alegria intensa ou júbilo. A felicidade tem, ainda, o significado de bem-estar espiritual ou paz interior.

Contudo, toda essa definição do que seja felicidade não está completa.  Isso porque a felicidade plena e absoluta não existe. Também não existe receita, manual que possa dar garantia plena de se viver 100% feliz.  A busca é por mais momentos e sensação de felicidade. Descobrindo suas necessidades, suas metas, como e quando alcançá-las, saber reconhecer limite, respeitando e se fazendo respeitar, sabendo diferenciar você do outro, é um começo. E nessa busca, cabe a cada pessoa criar a sua receita e escrever o seu manual do que é a SUA sensação de felicidade.

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* Luísa Galvão Lessa é membro da Academia Brasileira de Filologia e da Academia Acreana de Letras. Colunista do Jornal A Gazeta do Acre e do site Gosto de Ler. Artigo publicado em LINGUAGEM E CULTURA.
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