segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

O DIÁRIO DE CRISTHINE ASTHER ROJAS FUENTES Leila Jalul

Mal anoiteceu, o primeiro grito. Logo um segundo, abafado, e... um terceiro, cortado ao meio.

Semírames nem deu tratos à bola. Parou, parou! Já estava cansada de ouvir gritos na casa da conhecida. Não podia dizê-la amiga. Por qualquer motivo ela se assustava. Até quando uma mosca pousava em seu braço era motivo de faniquitos. Mas aqueles gritos soaram diferentes. Soaram, sim. Nada podendo fazer, desligou-se e não deu tratos à bola. Semírames só ouvia e registrava o que queria ouvir. E registrar, consequentemente!

Pouco antes das oito, outro grito. Este foi mais doído. E mais curto. Logo as luzes da casa foram todas apagadas e Semírames mais nada ouviu. Reinaram silêncio e escuridão. Pensou chamar Ricardo, ex-médico e marido de Cristhine. Desistiu. Fosse um mal-estar, ele cuidaria. Fosse uma cólica, medicaria. Fosse mais grave, conduziria a esposa para o hospital mais próximo. Por volta das onze, ainda mais abafado, um gemido e nada mais. Não se atreveu a oferecer ajuda. Nem tinha curiosidade tão aguçada, para assim agir. Mais cedo usou o telefone e não foi atendida. E foi dormir sem dar tratos à bola e sem registrar o que não gostaria ter ouvido. E fim!

No outro dia, passado o vento, tudo voltou a parecer normal. Do jirau, antes das cinco da manhã, os cumprimentos de sempre.

- Oi, Cristhine! Passou bem a noite?

- Sim, Semírames. E você?

Passaram bem a noite. As duas. Semírames evitou falar dos gritos abafados. O casal era jovem e bem poderia ter brincado de “acha eu”. Nesta brincadeira, nos costumes antigos, o marido procurava a mulher através de pistas deixadas com roupas espalhadas nos diversos cantos da casa. Havia erotismo na tal brincadeira. O ato de amor só se concretizaria quando fosse achada a calcinha e no exato lugar onde fosse encontrada. Se na sala, na sala. Se no chão do banheiro, no chão do banheiro. O assunto morreu aí. Não era curiosa e sabia do bom que era trepar.

Cristhine Asther era de origem sueca. Seus pais, geólogos, migraram para a Bolívia, instalaram-se em Oruro e trabalharam nas empresas de pesquisa e exploração de minério pertencentes a Dom Patiño, o Rei do Estanho. Ele, sim, o mesmo que inspirou Walt Disney a criar o personagem Tio Patinhas, que nadava em piscinas de moedas de ouro. As minas de Potosí não tinham fundos. E Patiño não tinha preguiça. E aliou-se a bons sócios, inclusive. E adquiriu o direito de explorar minas e mais minas. E foi dono da Bolívia. E impiedoso com os mineiros...

Tempos depois, quando Cristhine ainda era mocinha, foi morar em La Paz. Foi ali que a menina conheceu Ricardo Rojas Fuentes, estudante de medicina. Ali casaram. Contra a vontade dos pais de ambos. O choque cultural era mais que evidente. E a educação, idem.

O fundador da família:
Simón Iturri Patiño
Neste período, na década de 1940, o império de Simón Patiño, já nas mãos de Antenor, seu filho, declinava. Declinava não é bem o termo. O governo boliviano decidira nacionalizar as minas. Até os dias de hoje, entretanto, o nome do cholo Simon Iturri Patiño, o imperador, faz o maior sentido no país hermano, hoje dirigido pelo índio Evo Morales. Há os que o adoram e os que o odeiam. Do fundo das minas ecoam lamentos dos que sucumbiram.

Ricos, ainda, os pais de Cristhine voltaram para a Suécia. Insistiram para que a filha e o marido os acompanhassem. Que nada! Ricardo empacou e, em nome do laço do casamento, fez com que a menina também ficasse. Grávida de poucos meses, apaixonada, deixou que os pais voltassem sozinhos.

Miséria pouca é tiquinho; desgraça muita é vizinho ruim, diz o dito. Descoberto em falcatruas no estado boliviano e por erros no desempenho da profissão, Ricardo foi cassado nos seus direitos políticos e profissionais. Os grandes chefes militares não perdoavam! Fora o lixo boliviano! Por la pátria, compañeros! Viva Bolívia, nuestra pátria querida! Gritos de guerra eram ouvidos por las calles. De norte a sul, de leste a oeste.

O lixo Ricardo Rojas Fuentes bandeou-se de mala e cuia para o Brasil. Ainda tentou exercer a medicina, no que foi impedido, felizmente! De genro de um auxiliar direto do império de Simon Patiño, o Rei do Estanho, virou o Rei das Saltenhas. E foi no Brasil, na região fronteiriça, que nasceu Juan Simon Patiño Asther Rojas Fuentes – o Juanito. Nasceu sem pernas e com apenas tocos de braços. A talidomida havia feito mais uma de suas vítimas. Por prescrição do próprio pai. Sem culpas, diga-se. Fossem condenados todos os médicos que se valeram da talidomida...

Juanito, segundo Semírames, foi a criança mais querida e bem tratada pela mãe. Do pai, em dobro, teve o desprezo. Durou pouco o menino. Não resistiu às fragilidades da época. E o casal ainda estava jovem.

As finanças estavam de mal a pior. As saltenhas, embora saborosas, não geravam a fortuna do estanho e nem eram compatíveis com os honorários médicos. Muito trabalho e pouco ganho. Vida difícil! Por mais que Cristhine se desdobrasse. Tinha tremores de cansaço e maçãs do rosto em brasas. De sol a sol, debaixo do calor infernal amazônico, o forno de barro assava as empanadas famosas e representativas da gastronomia boliviana.

Os ventos sopravam os dias. Vez por outra, entre brisas, Semírames ouvia coisas. Deviam vir da brincadeira do “acha eu”. Não, não era. Era improvável que ainda mantivessem tanto tesão para o esconde-esconde. Há muito não se brincava mais disso. Deixou de ser moda. Havia, isto sim, sessões de tortura na casa vizinha. Certa ocasião, não tolerando mais tantos maltratos, confidenciou com Semírames sobre as atrocidades do marido.

Um dia, luzes apagadas e muitos gritos, Semírames sentiu-se na obrigação de chamar a polícia. Arrombada a porta, sobre a cama, deformada, estava Cristhine. Seu rosto desfigurado parecia uma bola de carne moída. A agressão foi tamanha que roubou-lhe os sentidos.

Em flagrante, sem desculpas, o Rei das Saltenhas foi levado pelos policiais. No mês seguinte, com a ajuda das autoridades brasileiras, Cristhine embarcou para junto de seus pais, em Gotemburgo, na nórdica Suécia.

Os fatos narrados em um cuaderno de apontamentos de Cristhine , nunca mostrados ao mundo, diziam, com passagens encobertas por tarjas pretas, do sofrimento de um ser humano que, por anos, experimentou períodos de terror e sofrimento. Saiu da escravidão com a altivez própria das mulheres verdadeiramente dignas. Entre receitas com a utilização de calabazas, choclos, maiz, papas e frijoles, as razões que levavam o marido a fazê-la a mais humilhada das criaturas: a fortuna dos seus pais. Ele a queria a qualquer custo.

Na última narrativa sobre torturas sofridas, estavam, com todos os erres e esses, os planos sórdidos de Eduardo Rojas Fuentes: Cristhine deveria pedir uma viagem até onde eles estavam e lá, sem deixar rastros, ele mesmo daria fim aos dois. Herdeira única...

Semírames ficou aliviada. O Rei das Saltenhas, torturador por vocação, cumpriria o seu degredo. Os reinados acabam. Até o de Simon Patiño, cuja memória causou orgulho aos seus herdeiros. Com uma diferença: a história de Cristhine é verdadeira. É real. A de Simon Patiño, sabe Deus! Sua “história” oficial mais parece fantasia. Biógrafos da época, entretanto, dizem de outra faceta do bilionário, não bem ao estilo de Walt Disney.

Das minas de Potosí ainda ecoam gemidos e uivos de dor. Na alma e no coração de Cristhine reina a paz. Não quis viver às custas dos pais e, corajosamente, empenhou-se em ter seu próprio meio de vida. Em Gotemburgo, até pouco tempo, era a rainha das saltenhas e delas sobreviveu. A iguaria fez mais sucesso que a sopa de urtigas com couve e era o que ela bem sabia fazer.

Do repulsivo Eduardo Rojas Fuentes, felizmente, Semírames nada mais soube. É o inferno o seu merecido lugar, assim responde quando perguntada.

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*** Publicado originalmente no site Lima Coelho.
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