domingo, 9 de setembro de 2012

À PUTANESCA

Leila Jalul


Ava Gardner
Carmélia e Ava Gardner não se conheceram, nem por meio da telona. A beleza e a semelhança entre as duas, no entanto, faria qualquer cristão imaginar que estava vendo coisas. Nem sei qual foi o lugar onde Ava nasceu.

De Carmélia, sei que nasceu no Acre, viveu no Acre e morreu no Acre. Isso é o bastante. Se fez e se criou na curva do tempo. Num lugar onde o remoto ainda queima e o futuro era e é desprovido de porvir.

Conheci Carmélia quando comprei uma casa sem número numa rua com nome de um general qualquer, sem sobrenome. Os vizinhos, um tanto de gente também sem sobrenome. Lugar perfeito para esconder minha identidade sem desejo de aparecer. Coisa boa.

Como alternativa de me enfiar no meio das vizinhas lavadeiras, nada mais restava senão aproveitar os olhos d'água e lavar meus trapos, ali, juntinho, e, numa conversa de comadres, portar-me como uma delas. Tempos bons.

Carmélia era fera. Enquanto eu lavava uma bacia, ela já vinha com o angu. Nada de Confort, nada de cheiros, de clareadores. Tudo no muque. Uma tábua na frente, dois nacos de sabão Zebu, e lá estava tudo lavadinho, enxaguado com a erva catinga de mulata, pronto para secar e passar, fazer a trouxa, embrulhar com jeito numa toalha felpuda, prender com dois alfinetes de segurança e entregar para a patroa. Cacete de agilidade!

Aí, no meio dessa algazarra, resolvi fazer a horta comunitária. Precisava fazer com que aquelas meninas aprendessem o valor da berinjela, da rúcula, do agrião de terra molhada, do espinafre, da azedinha, do manjão gomes. Precisava dizer da riqueza dos talos, das vitaminas do sopão de ossos, do caldo engrossado com aveia Quaker. Coisas que a gente aprende com quem entende e ensina para quem ama.

Carmélia era atenta. Atenta até que as disfunções da menopausa a tornassem quase uma demente. Na falta de condições para a reposição de hormônios, seus filhos preferiram interná-la no antigo hospital dos doidos. Ali era o lugar certo para quem enfiava a cabeça na geladeira e tomava banho de água gelada em plena noite de junho, inclusive nas em plenilúnio.

Depois dos achaques, Carmélia, todos os dias, antes das seis da matina, me procurava e dizia:

– Posso entrar?

– Claro!

– Posso plantar?

– Pode.

– Aqui, nesse canteiro?

– Sim, Carmélia, pode plantar.

Em silêncio, Carmélia plantava pés de macarrão espaguete, enquanto eu regava os canteiros de manjericão, hortelãs e os das alfavacas que teimavam ser maiores que os nanicos da região.

No dia em que Carmélia Gardner morreu, servi (por acaso?), no almoço, um espaguete à putanesca. Coisa fina, aprendida com os italianos, preparado num panelão que me foi dado pelas minhas comadres lavadeiras da Rua General Severiano. Coisas que a gente aprende com quem entende e convida a quem ama.
 
 
* Crônica também publicada no site Lima Coelho.
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