sábado, 30 de junho de 2012

LILI MARLENE: O Vento e A Tempestade

LUIZ FELIPE JARDIM


Durante a Primeira Guerra Mundial, em 1915, um soldado da Guarda Imperial Alemã, Hans Leip, imaginou e criou uma poesia. Uma poesia que, embora feita sob o lume ardente, no calor incandescente dos combates, não tinha caráter belicista e falava de coisas simples: um soldado sentinela e sua namorada que namoravam clandestinamente sob o farol de uma guarita. Lembranças dos encontros entre ele e sua garota em um quartel de sua cidade natal. Coisas de poetas e de suas poesias.

Despretensiosa que era a poesia, não teve repercussão até que, em 1937 é publicada em uma coleção dos poemas de Leip e é observada pela cantora Lale Andersen que a apresenta ao compositor alemão Norbert Schultze.

Shultze, que tinha bom reconhecimento do público pelas músicas que fazia, principalmente as para bandas militares, cria uma partitura para a poesia de Leip e a canção é gravada por Lale Andersen em 1939, às portas da Segunda Guerra Mundial.

Lale Andersen já era cantora relativamente famosa em Berlim, mas não conseguiu impulsionar o sucesso da canção. Assim, o disco com a primeira gravação de LILI MARLENE tem somente 700 cópias vendidas.

Em 1940, com a Segunda Guerra já em pleno andamento, uma Companhia Alemã de Reconhecimento adotou a canção Lili Marlene como 'canção da companhia'. Em 1941 esta mesma companhia é enviada para o Norte da África e passa a fazer parte do Afrik Korp, braço do exército alemão comandado por Rommel.

Em agosto de 1941, um ex-oficial da companhia, que agora dirigia a Rádio Militar de Belgrado - uma estação alemã encravada na Iugoslávia, leva ao ar a canção dedicando-a aos seus colegas que se encontravam nos desertos africanos. Tantos foram os pedidos para que a música fosse outras vezes tocada, inclusive do próprio Rommel, que Lili Marlene, passou a ser tocada todos os dias às 21h59m como música de encerramento da emissora.

A Rádio Militar de Belgrado estava estrategicamente localizada e equipada com poderoso e moderno equipamento de transmissão. Era a primeira vez na História que a rádio era usada em uma guerra de tamanhas proporções. Na verdade as primeiras estações de rádio transmissão haviam surgido a menos de 20 anos. Porém, a tecnologia que desenvolveram foi suficientemente ágil e poderosa para que, em 1941 a Rádio Militar de Belgrado pudesse cobrir, com suas transmissões, uma área de seis milhões de habitantes. Hoje essa mesma área tem cerca de 30 milhões de habitantes. Em Tobruk, norte da África, onde os combates eram intensos, Lili Marlene, tocada às 21h59m pela rádio de Belgrado, era a senha para o cessar fogo entre os dois lados. E os dois lados ouviam-se cantando a mesma canção, que muitos dos ingleses, para surpresa dos alemães, cantavam em alemão.

O sucesso de Lili Marlene foi imediato, e não somente entre alemães e ingleses. As rádios européias passam a tocar a música em suas programações, e civis e militares de ambos os lados adotam a canção que passa a ser a canção militar mais tocada de todos os tempos, superando La Madelon música francesa da Primeira Guerra Mundial.

Um correspondente de guerra inglês na África noticiou, em 1941, que "em qualquer lugar do deserto, os soldados ingleses estão assoviando ou cantando Lili Marlene".

As rádios de toda a Europa executam a música insistentemente (como uma na Suíça que a tocava cerca de 30 vezes em um só dia) que agora era gravada nas diversas línguas européias e de outros continentes.

No espaço de seis meses Lili Marlene é gravada em 43 idiomas. Isso numa época em que as condições para as gravações não eram nada fáceis, muito menos em tempos de guerra onde o material necessário para as gravações como gasolina e goma-laca, estavam sendo racionados em todo o mundo. Em todas as gravações, a música é a mesma, com variações apenas no andamento e instrumentalização. E, embora a letra sofra mudanças signifativas, algumas vezes até mesmo em um único idioma, mantém-se o sentido original de Leip, além do título.

Em 1942, discos de Lale Andersen com a canção têm venda de 160 mil cópias só na Alemanha.

Em 1944 a música foi adotada pelo VIII Exército Britânico e passa a ser tocada em quartéis e hospitais militares.

Também em 1944, esteve por treze semanas no topo da parada de sucessos nos EUA.

Marlene Dietrich
Em 1944, a atriz Marlene Dietrich grava Lili Marlene em alemão e inglês, e percorre as frentes aliadas da África à Groelandia, da Europa à Asia.

Mesmo depois da Guerra, Lili Marlene continua a fazer sucesso, e se torna a primeira música alemã a vender um milhão de cópias. Até 1960 venderá dois milhões de cópias.

Uma pessoa que nasceu em 1938, 39 ou 40, ou nas cercanias, terá, em quase todos os lugares do planeta, a canção Lili Marlene como uma das suas primeiras canções mais ouvidas. Uma espécie de ‘berço sonoro’, que certamente embalará e marcará sua sensibilidade musical. Será essa mesma geração que, com 18, 17, 16 anos, um pouco mais e um pouco menos, qual rastilho de pólvora, espalhará pelo Mundo o Rock and Roll. E que terá vinte, vinte tantos anos quando nas revoluções dos anos 60. Bob Dylan tinha 21 anos de quando compôs Blowin’ in the Wind em 1962.

A gravadora alemã Bear Family, lançou mais recentemente uma caixa de 7 cds com 197 interpretações diferentes de Lili Marlene.

Um dos aspectos interessantes que o sucesso instantâneo da música evidencia, é o caráter cosmopolita da época. A humanidade, em meio a uma guerra violentíssima, vivia em carne e espírito, a experiência de uma internacionalização que nascia traumática e vertiginosamente, e que não pararia mais de crescer. Ao ser, simultaneamente cantada, assoviada, tocada, ouvida ou pensada por mais de vinte milhões de pessoas em todo o mundo, num momento em que a humanidade dava a si mesma as dores de uma guerra (como as de um parto às avessas) com mais de 40 milhões de mortos, 120 milhões de órfãos etc., Lili Marlene se fazia, não só um hino da guerra como querem uns, nem só da liberdade, como querem outros, mas também um canto que anunciava ao mundo a integração que ele passava a viver. Como se a canção, ao sopro dos ventos, e nos quatro cantos do planeta, dissesse a cada habitante da aldeia global que então se fazia: “Veja, o mundo está chegando. Cante. Anuncie a sua chegada”.

Lili Marlene mostrava que os sentimentos daqueles namorados lá da aldeia da Alemanha eram os mesmos daqueles namorados lá da aldeia na Indonésia. Que a ânsia de liberdade daquele jovem que guerreava era a mesma daquele outro que o combatia. A humanidade se globalizava e desenhava em si os traços mais marcantes de uma humanidade que se globalizava.

Em 1967, Norbert Schultze, que durante a guerra havia composto várias músicas para o governo nazista, perguntado se tinha algum remorso por isso respondeu: “Não posso arrepender-me. Eram uma exigência da época, não minha. Uns faziam outras coisas. Eu compunha canções”.

Assim como o espírito universal se realiza nos indivíduos, a humanidade se realiza nas pessoas que a compõe. Não existe uma ‘humanidade’ exterior que, numa época diga: “essas são as minhas exigências”. Mas existem múltiplas realidades, objetivas e subjetivas, que produzem e selecionam pessoas para fazerem bem o que fazem. Como os bons cientistas, ou os bons músicos. Uns produzirão a penicilina, como Fleming. Outros produzirão boas canções e poesias como Schultze/Lale/Leip. Uns darão mais vigor, mais resistência ao físico do homem; outros trarão mais sensibilidade ao homem e ao espírito da humanidade.

Perguntada sobre o porquê do sucesso rápido e fulminante de Lili Marlene, Lale Andersen respondeu: “pode o vento explicar porque se torna tempestade”?

Gosto dessa resposta porque ela pergunta. Se o vento não conhecer as respostas, soprará as perguntas. Com o tempo, no vôo calmo das suas brisas ou nas rajadas das tempestades, soprará as respostas que suas asas irão defrontar. E que nos seus sopros estarão a voar.

Ah! Bob Dylan, compositor, nasceu em 1941 e tinha 21 anos quando fez Blowin’ in the Wind.
“Pode, por acaso, o vento explicar porque se torna tempestade”?
Fonte - Rosa Sala Rose: Lili Marlene, Barcelona

INTERPRETAÇÕES DE LILI MARLENE

LALE ANDERSEN
 MARLENE DIETRICH
MILVA
VERA LYNN

sexta-feira, 29 de junho de 2012

quarta-feira, 27 de junho de 2012

ACRE: REGISTRO CINEMATOGRÁFICO DE UMA ÉPOCA

O portal Agência de Notícias do Acre disponibilizou, por ocasião dos 50 anos do Acre estado, interessante registro cinematográfico do Estado de fins da década de 40 até por volta da década de 60. O documentário revela peculiaridades em relação à educação, produção e alagação.

Posse do major José Guiomard dos Santos como governador do Território Federal do Acre, nomeado por Eurico Gaspar Dutra.

terça-feira, 26 de junho de 2012

BRASILEIRO POR OPÇÃO-VIII

JOSÉ AUGUSTO DE CASTRO E COSTA*


No início de uma tarde o “Rio Tapajós” atinge sem novidade, a confluência do rio Purus com o rio Acre onde, segundo a tripulação, distinguia-se o barracão do conhecido cearense “Barão da Boca do Acre”, que marcava suas mercadorias com três eles – L.L.L. – que significavam seu nome: Lixandre Liveira Lima. Evidentemente os bolivianos não intuíram-se da esdrúxula curiosidade.

Prossegue o vapor rio acima, impelido pela hélice, já de onde os bolivianos começariam a vislumbrar, não obstante o anoitecer, a imensa planura de terra firme coberta de floresta, “habitat” natural e abundante da “Hevea Brasiliensis”, de látex farto e de boa qualidade, constituindo a grande riqueza da região.

A noite, sob um céu alegremente estrelado, o “Rio Tapajós” chega à Vila do Antimarí, sede da Superintendência do Estado do Amazonas.

No navio as horas passavam preenchidas por certa celeuma que contrastava com a quietude entorpecida da vila. Paralelamente ao aprovisionamento da expedição boliviana, não foram esquecidos instrumentos musicais, como Charango (um tipo de bandolim), a Zaponha, a Quena e a Tarka (espécie de flauta), a Huancara e a Caixa (percussão). Mesmo sem a participação feminina, alguns sempre ensejavam passos da Cueca ou Lhamero, ao som da melodia da Takirári, uma das mais populares canções bolivianas. Tudo isso regado à famosa Paceña, que já existia desde 1877 e à queimante Mocochinchi, uma cachaça que fazia cuspir fogo.

Dom José Paravicini resolve então balançar a vila, precisamente na véspera da virada do ano de 1898, quando alguns, na calada da noite, ainda jogavam conversa fora, regada a umas lapadas de Cocal para uns, Quinado ou Gin com Vermouth ou a cerveja amazonense XPTO, para outros.

Tudo ia bem, mas eis que estronda de repente, um pavoroso e aterrorizante estampido, de fazer tremer nas árvores as mais encravadas arborícolas (preguiça), elucidando de súbito como seria o Apocalipse. Houve até quem se lançasse do assento, tal a intensidade da grave detonação do apito do gaiola.

Passado o susto, embora não ainda refeitos do terrível sobressalto, os moradores da Vila Antimarí certificaram-se que aquela viagem do “Rio Tapajós” não se tratava de finalidade comercial, mas de objetivo de estabelecer Posto Aduaneiro nos rios Acre, Purús e Iaco, inclusive tomar posse de um patrimônio, tudo isso com o descuidado consentimento do Governo brasileiro.

Atordoadas, confusas, entontecidas com o alvoroço do inesperado acontecimento, as pessoas acorreram, instintivamente, ao barranco, a fim de ver e entender a causa de tão estranho escarcéu.

Misturado com os demais habitantes, também atônito e surpreso, o advogado José de Carvalho, ao saber das primeiras informações de que o vapor transportava uma expedição boliviana, com a finalidade de instalar postos aduaneiros, estranhou não haver recebido comunicação das autoridades brasileiras de Manaus.

As palavras pronunciadas em idioma desconhecido agravavam a perplexidade. Quem fora despertado, não compreendia o pesadelo. Quem tomara uns tragos a mais, cismou que talvez bebera sem moderação.

A verdade é que a compreensão dos fatos foi a única ausente, na noite de 30 de dezembro de 1898, na Vila do Antimarí. Ainda mais pelo fato de o “Rio Tapajós” levar pouco tempo atracado, adicionado a falta de esclarecimentos acerca da numerosa comitiva estrangeira que transportara.

Como não havia nenhuma embarcação ancorada no porto, Dom Paravicini, ansioso para por em prática seu propósito, mandou desatracar a embarcação e ordenou que o “Rio Tapajós” prosseguisse rio Acre acima. Acabara de tomar ciência de que umas duas dezenas de navios haviam subido naquela direção e todos, evidentemente, deveriam retornar superlotados de borracha, o que proporcionaria uma excelente arrecadação para o recém fisco boliviano.

Enquanto não fora estabelecido a base para a instalação do Posto alfandegário, o devido expediente neste sentido seria efetivado no próprio navio.


Puerto Alonso (atual Porto Acre) no início do século XX.
Desenho do artista Hélio Cardoni
Site Kaxiana

Em 3 de janeiro de 1899 D. José Paravicini funda, literalmente, a localidade denominada “Puerto Alonso”, em homenagem ao Presidente da Bolívia, Don Severo Fernandes Alonso, hasteando pela vez primeira o pavilhão boliviano.

O espírito de audácia do conquistador boliviano refletiu-se de imediato, numa região de espessa floresta, praticamente impenetrável em muitos pontos, rica em árvores colossais, onde destacavam-se as nativas seringueiras, castanheiras, cumarus, louros e muitas e muitas outras, símbolos de economia que ajudaria a fixação do homem à terra.

Tão logo aprovou a localização para sua base, D. Paravicini dividiu sua expedição em grupos destinados aos afazeres – de desmatamento, de construção e de burocracia. A prioridade para a efetivação dos trabalhos continuaria sendo a arrecadação de impostos. Para tal, o “Rio Tapajós” seria utilizado como posto alfandegário ambulante.

Enquanto as devidas providências eram tomadas em terra, inclusive com a participação de alguns habitantes da redondeza, o vapor deslocara-se rio acima e logo ao completar uma curva, é avistado, encalhado num baixio, o vapor “Franklin”, no qual achavam-se duas autoridades amazonenses – O Juiz de Direito da Comarca e o Superintendentes da Vila Antimarí, Coronel Francisco Monteiro de Souza Júnior.

As autoridades brasileiras estranharam o pavilhão boliviano tremulando no mastro de um navio brasileiro. Maior impacto tiveram quando do “Rio Tapajós”, ao aproximar-se, apresentaram-se um grupo de estrangeiros, ocasião em que D. Paravicini, em aparente autoritarismo, dera conhecimento a todos, do propósito que o levara àquele lugar, informando-os, sobretudo do encerramento das atividades atribuídas aos brasileiros naquela região, passando todos os encargos para a responsabilidade da Bolívia.

Sempre tocado pelo sentimento de patriotismo, D. Paravicini julgava estar na Bolívia, motivo pelo qual experimentava a alegria de navegar e pisar em território pátrio, após inúmeras contrariedades vividas na empreitada a que propusera-se.

Em aditamento ao objetivo da ocupação, a autoridade boliviana cientificara ao Comandante do “Franklin”, Tenente-honorário Joaquim Sarmanho, acerca da instalação do posto alfandegário, entregando-o a notificação para o devido pagamento, tão logo descesse o rio, com destino a Manaus.


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* José Augusto de Castro e Costa é cronista e poeta acreano. Mora em Brasília e escreve o Blog FELICIDACRE.

domingo, 24 de junho de 2012

NAS GIRAS DA VIDA

LEILA JALUL


Sálvio Correia estava exausto. Acabara de dirigir por mais de 13 horas pela perigosa rodovia e de descarregar a carga no frigorífico da cidade. Os frios e embutidos que deveria levar de volta não estavam prontos para embarque.

Procurou um lugar para um banho e aguardaria o horário para receber o frete prometido. Caminhão vazio é prejuízo garantido. Tomou um banho gelado no sujo banheiro do Posto do Km 2, jantou uma comida quase passada e sem gosto e, confortado na marra e resignado no grito, foi recarregar o carro. Somente depois, já com as notas fiscais em mãos, foi possível pensar em tirar um ronco na cama improvisada na boleia do baú.

Mal se deitou e já ouviu uma leve batida na porta do carro. Assustado, pensou tratar-se de assalto. Esperou um pouco e, novamente, três leves toques e uma voz de mulher.

- Moço, por favor... Abra, por favor...

Precavido, Sálvio tirou o relógio do pulso e, junto com os poucos trocados que tinha, guardou-o no fundo falso do banco traseiro e, deste mesmo lugar, pegou o “ferro” e armou o gatilho. Antes de abrir a porta, com os olhos apertados e a fé forte em Deus, benzeu-se e pediu proteção a São Francisco do Assis.

A moça que viu diante de si, se muito, tinha 35 anos. Nem bonita, nem feia. Seu jeito simples e sua forma de falar, a quem quer que a escutasse, de primeira, inspirava confiança.

A conversa foi rápida e direta. O que relatou em breves palavras ao motorista não passava de uma estória comum, mas, nem assim, deixava de encerrar sofrimento, mágoa, desilusão e impotência.

Adília – era esse seu nome – saiu de Rio Verde em Goiás, à procura de um filho que teve com um arrendatário de terras na região. Certo dia, ao viajar pra Catalão para prestar socorro à mãe doente, ao voltar, não mais encontrou o filho, menos ainda o pai dele. Encontrou o vazio.

Foi aí que começou sua via crucis. Uns diziam que o plantador de café estava em Campo Grande, no Mato Grosso do Sul. Outros, que o tinham visto em Tocantins. Outros diziam que estava mesmo em Goiás.

Sem dinheiro, passou a, de caminhão em caminhão, contando a mesma história, percorrer várias cidades da região central do país. Em vão. E seguiu adiante.

E foi ali, em Pernambuco, onde, finalmente, encontrou seu filho. Esteve com ele e com o pai que lhe negou levasse o garoto, então com 16 anos. Adília viu o filho dividido. Ficar com o pai, com estudos garantidos ou seguir com a mãe rumo ao incerto? Na mesma carona com Sálvio, foi em frente.

- E então Adília? Após entregar esta carga vou para Rio Verde. Minha velha mãe está me aguardando? Onde pretendes ficar?

- Também volto para Rio Verde, talvez possa morar com uma prima. Preciso de trabalho e um lugar para morar.

- Enquanto arrumas tua vida, um trabalho, posso te oferecer que fiques com minha mãe. Não temos muito conforto, mas somos trabalhadores. Mamãe é doceira e bem podes ajudá-la. Tenho duas irmãs solteiras que te acolherão como irmã. Não estarás com teu filho, mas ganharás uma família.

Proposta aceita, na boca da noite, chegaram a Rio Verde. O fato de Sálvio estar acompanhado de uma mulher não pareceu causar espanto. Na hora da janta, tudo esclarecido, a presença de Adília foi comemorada.

Na lida diária, já no amanhecer, a fabriqueta de doces não parava um só instante. As mulheres, agora com a força dos braços de Adília, se alternavam no cabo das colheres de pau. O forte de Dona Tininha na preferência das freguesas era o doce do tenro caule do mamoeiro.

O caldeirão de água no fogareiro do quintal fervia os vidros de maionese que seriam reutilizados, após total esterilização. Nas horas de folga da noite, enquanto viam televisão, as tampas dos vidros eram recobertas de tecido vistoso e laçarotes de fitilhos coloridos. Todo este esmero era o principal responsável pela preferência da clientela que crescia a olhos nus. O doce já era bom. Enfeitado, ficava melhor!

Adília parecia acostumada e resignada com a distância do filho Carlos César. Rezava por ele. Desejava fortuna e saúde ao pai dele. Fervorosa, pedia à virgem que não a deixasse morrer sem antes abraçar seu filho. Dia após dia, sem notícias, sofria.

Vez por outra, nas férias, ou quando de passagem por Rio Verde, Sálvio marcava presença para pedir a bênção à Tininha e ver o resto da mulherada da casa. Sua vida de caminhoneiro de empresa era agitada e sem escolhas de paragens e preferências de paisagens. Não raro, em seis meses, cortava o Brasil de ponta a ponta. Bastava que devesse substituir um companheiro enfermo ou em descanso obrigatório anual. Por Deus e por necessidade, gostava da vida errante, percorrendo caminhos na cabine do caminhão baú. Faltava pouco para ter sua própria terra, seu rebanho de boi de corte e realizar seu sonho de criança: ser patrão de si mesmo.

Passados seis anos de trabalho à beira do fogão, em tempo corrido na fabriqueta de doces e nas estradas da vida, chega a hora da reunião definitiva da família de Dona Tininha. Sálvio havia comprado sua terra e adquirido umas cabeças de gado. Ao todo, quatro bezerras em tempo de cruza e um touro de boa pegada.

Marcado o dia do reencontro, em polvorosa, as mulheres largaram os doces e foram agilizar o preparo do jantar especial. Uma pururuca com farofa de banana verde e torresmo, um tutu especial, um arroz com queijo Minas meia cura e a especialíssima fritada de couve com ovos cozidos que somente dona Tininha sabia preparar.

Era boca da noite quando a caminhonete chegou ao portão. Sálvio entrou com sorriso escancarado de orelha a orelha e lágrimas nos olhos. Chegou chorando e rindo de felicidade. Beijou a mãe e as irmãs. Agarrou-as como se quisesse fundir suas almas em uma só.

De longe, não tão de longe, Adília também chorava e ria. Alegre por um lado, triste por outro. Ao receber de volta o amigo e benfeitor, logo foi perguntando:

- Tens notícias de meu filho?

- Não. Ainda não.

Dona Tininha, com toalha e sabonete novos na mão, pede ao filho:

- Anda, menino! Estamos com fome e a comida vai esfriar. Toma teu banho e vem.

- Pronto, mãe, pode servir a janta. Vou até o carro buscar uns presentes pra vocês e já volto. Também estou com fome. Adília, faz um favor? Põe mais um prato na mesa. Temos convidado.

Ao voltar, com pacotes e mais pacotes nas mãos, entra ajudado por um rapaz de uns vinte e poucos anos.

- Mãe, meninas, este é Carlos César, filho da nossa amiga Adília. Ela viveu a procurá-lo, mas, só agora, está aqui para fazer parte da nossa família.

Filho e mãe, lado a lado, não sabiam o que fazer ou dizer. A comida foi apenas um detalhe. A alegria tomou conta de todos.

Nos dias que vieram pela frente, entre mãe e filho, muito a viver. Nas horas de folga, apenas. A fabriqueta de doces seguiu sua rotina. Carlos César e Sálvio tinham que começar do zero a labuta na fazendola. Uma das bezerras já estava coberta e exigia acompanhamento dos futuros donos do tão imaginado plantel.

Hoje, em Rio verde, uma família numerosa se desdobra entre doces e bois. Adília e Sálvio, não cabendo em si, estão prestes a abençoar o neto, filho de Carlos César e de Malvina, a filha mais moça de dona Tininha.

Alguém já disse que as vidas, sejam como foram vividas, deveriam acabar em livros. Inclusive a minha!


Publicado originalmente no site Lima Coelho.

sexta-feira, 22 de junho de 2012

HOMENAGEM A LEANDRO TOCANTINS

A primeira obra de Leandro Tocantins que tive contato foi o monumental livro ‘Formação Histórica do Acre’. Desde então fiquei fascinado pela história acreana e pela obra de Leandro Tocantins. Aproveito a ocasição para saudar, entre outros, Marcos Afonso e Marcos Vinícius Neves que ultimamente têm-se empenhado no resgate da memória e do pensamento de Leandro Tocantins, inclusive  com a aquisição de parte do acervo pessoal do escritor, doado pela família à Biblioteca da Floresta, em Rio Branco. Que este possa ser apenas um passo inicial, e que trabalhos semelhantes possam se dar com J.G. de Araújo Jorge, Djalma Batista, José Potyguara, Miguel Ferrante, por exemplo, personagens ainda olvidados no Acre recente ou que não vão além de nomes de escolas.

BRASILEIRO POR OPÇÃO – VII

JOSÉ AUGUSTO DE CASTRO E COSTA*


Em 1897, aos 30 anos, o Tratado de Ayacucho é despertado de um adormecido estágio para necessárias adaptações. É que fora observado tratar-se de um instrumento, de certa forma insano, produzido por mentes precipitadas, desprovidas do censo comum, por elaborá-lo não apenas com deficiência interpretativa, mas também com um perímetro de demarcação mutilado.

Ao estudar o referido Tratado, ninguém sabia onde encontrava-se as nascentes, no caso, do rio Javari, que seria o ponto inicial da fronteira e, o que é pior, o traçado geodésico não continha a longitude. O Tratado de Ayacucho assemelha-se à figura de um terreno que só possui a área frontal, sem a menor coordenada referente ao todo. Com respeito ao Tratado, nada consta acerca da extensão longitudinal.

Don Paravicini, Ministro Plenipotenciário boliviano, por possuir aguçada perspicácia e assustadora ousadia, aventurara-se a por em prática, pessoalmente, seu projeto para concretizar a instalação do posto aduaneiro no rio Acre, em detrimento dos debates em busca dos dados corretos da demarcação da área pertinente ao Tratado de Ayacucho.

Para D. Paravicini e até para muitos brasileiros, pouca importância havia se a área demarcada estava correta ou incorreta. O interesse movido pelo imperialismo econômico, prendia-se ao cobiçado imposto aduaneiro de exportação, adicionado aos impostos de vendas a vista e em consignação, com os quais o Brasil deixaria de contar.

Com o beneplácito brasileiro, o Ministro Paravicini e sua comitiva são recebidos com saudações, ovações e excessivos acatamentos, pelo mesmo governador Ramalho Junior, que, meses anteriores, discordara dos propósitos da expedição boliviana, que eram exatamente os mesmos.

Após tomar conhecimento de que inúmeros gaiolas havia partido para os rios acreanos, Juruá, Iaco e Acre, Don Paravicini, dispensou a diplomacia, não fez cerimônia para interromper as solenidades a si prestadas e partiu para o Alto Acre, por assegurar-se que o maior número de transportadores havia-se dirigido para aquela região. Seu plano era dar início à devida cobrança de imediato, até mesmo antes de solidificar a acomodação da Alfândega.

O Ministro Paravicini recebeu, das autoridades amazonenses, votos de boa viagem e magnífico desempenho, agradeceu e fechou a ordem do dia levantando um brinde à imprensa brasileira.

Vapor Rio Tapajós.
Fotografia em Álbum do Rio Acre 1906-1907, de Emílio Falcão.
Era dezembro de 1898, quando o vapor “Rio Tapajós”, fretado pelo governo boliviano zarpou, aproveitando as primeiras águas, com destino aos rios Purus e Acre. Com seus largos corredores laterais, para onde abriam os camarotes, os quais estendiam-se em fila dupla central, e com um vasto salão de jantar, à traseira, o navio era externamente todo aberto, apenas protegido do sol e da chuva por grossas lonas verdes, que permaneciam enroladas. Era assim, claro e alegre, como os “gaiolas” da região, em geral.

Subindo o rio Purus cheio, o “Rio Tapajós” procurava encurtar a distância e evitar a maior correnteza, cortando as voltas e costeando as mansas praias convexas e afastando-se dos barrancos recôncavos, por onde se precipitavam as águas impetuosas.

Para guardar o carvão para o Acre, onde a lenha preparada era cara e escassa, a tripulação brasileira, que já possuía experiência, procurava suprir-se desse combustível, ao longo do Purus, aportando em diversos portos de lenha, onde compravam alguns milheiros de achas de madeiras de lei, tipo maçaranduba e pau-mulato.

O “Rio Tapajós” entra, finalmente no tão falado rio Acre, o qual afigurou-se aos bolivianos muito estreito para comportar a fama de importância e de riqueza que o celebrizava. Parecia-lhes incrível que um rio tão exíguo tivesse mais de mil quilômetros de curso, quase totalmente navegável.

Enquanto isso, em Manaus ficara no ar, nos gabinetes, nas residências, nas esquinas, o assunto contido no cotidiano, a propósito da questão do Acre, acolchoado pela incerteza quanto ao destino da opulência manauara, contida na grandiosidade de um Teatro Amazonas, na beleza arquitetônica do Tribunal de Justiça, na beleza confortante dos palacetes, na admirabilidade do conjunto de pré-moldados do prédio da Alfândega, que vieram em blocos e foram montados em Manaus, nos entretenimentos do espírito que enlevavam a alma do manauara. Tudo isso parecia ter dias contados!

Na região acreana, a vida transcorria dentro da normalidade, com a acomodação das peles de borracha nos porões, assim como o acoplamento das jangadas do mesmo produto nas diversas embarcações, sejam gaiolas, lanchas e batelões.

Chegando ao porto, a embarcação lançava os cabos, que eram amarrados, e as pranchas, por onde passariam os moradores, ansiosos por notícias e correspondências.

Alguns donos de seringal, mais pressurosos ou modestos, eram os primeiros a subir a bordo, para cumprimentar o comandante e o representante da casa, com quem tomavam os tragos.

O descarregamento era feito rapidamente iniciando pelas garrafas da saborosa aguardente Cocal e pelos cestos de farinha, que eram transportados do porto para o barracão, pelos seringueiros em festa.

Descarregado o aviamento dos diversos seringais fregueses, as embarcações retornavam a Manaus e Belém, fazendo as mesmas escalas.

À noite, o devido descanso era precedido por rodas de conversa de uns, acerca das atividades do dia, enquanto outros quedavam-se a contemplar a lua ou o doce reluzir das águas barrentas do rio Acre, não obstante os inquietantes ataques das vorazes carapanãs, que ferravam mesmo através da roupa – geralmente de mescla ou caqui.

Quando dois vapores se encontravam, saudavam-se mutuamente com sonoros apitos, acerca das atividades do dia. Característicos de cada casa armadora, delicado cumprimento, geralmente acompanhado pelos amistosos acenos trocados entre os passageiros.

Esta cultura já havia completado trinta anos, desde quando João Gabriel de Carvalho e Melo, a frente de seus homens, ergueu as barracas para sinalizar o primeiro seringal organizado e estável da região acreana.

Ia o vapor dos bolivianos subindo, aproando sempre na tangência da curva que contornava, fugindo da correnteza da água, que lambia o barranco fronteiro, solapando as raízes das árvores ribeirinhas.

O prático, na roda do leme, de olhos atentos, evitava o rebojo dos “troncos”, paus enfincados no fundo do rio, constituindo um grande perigo, temidos pelo encalhe ou furos do casco da embarcação. Iam desfilando à vista dos passageiros, numa demorada sucessão, os barracões dos seringais acreanos.

O Estado do Amazonas exercia jurisdição sobre as regiões dos rios acreanos, com a Superintendência sediada na vila Antimarí, cujo secretário era o advogado José de Carvalho, cearense do Crato e a direção a encargo do Superintendente Francisco Monteiro de Souza Junior.

O advogado José de Carvalho Alencar não viria a ser o primeiro de sua família a ter envolvimento com o Acre. A matriarca de sua família, Bárbara de Alencar, foi considerada a primeira prisioneira política, quando coadjuvou o comando da Revolução do Equador, uma manifestação revolucionária ocorrida na metade do século XVII, defendendo a autonomia de Pernambuco. Após o embate retirou-se para o Crato, onde constituiu família e deu continuidade às questões políticas, sempre visando a conquista das liberdades sociais. Teve, inclusive, um filho seu ocupando o posto de Presidente da Província do Ceará.

Quatorze anos após a estada de José de Carvalho em regiões acreanas, outro parente seu, Coronel da Força Nacional, Tristão de Alencar Araripe, ao ser nomeado Prefeito do Departamento do Alto Purus, iria protagonizar sérias questões políticas em Sena Madureira, relacionadas ao movimento separatista e autônomo do Juruá e Alto Purus.


Leia também:
BRASILEIRO POR OPÇÃO – VI


* José Augusto de Castro e Costa é cronista e poeta acreano. Mora em Brasília e escreve o Blog FELICIDACRE.

quarta-feira, 20 de junho de 2012

POESIA DOS OLHOS

Quando a palavra nos falta, é hora de falar pela imagem. A fotografia é arte. Não tem o defeito da palavra, apenas sussurra ao coração. Fascina. Angustia. Arrebata. Capta a beleza no súbito instante em que é. Eterniza o efêmero. Enaltece o ínfimo.
A aurora e o por do sol exercem um fascínio sobre mim, assim como o contraste luz e sombra. Nas minhas fotografias abaixo, capturadas com câmera simples, vão um pouco da poesia dos meus olhos. As dezessete primeiras foram tomadas em Belo Horizonte; as cinco últimas, em Roma.

O céu, quatro fios, um pássaro
e a canção do infinito...
Nasceu no meu jardim um pé de mato
que dá flor amarela...
...Toda manhã vou lá pra escutar a zoeira
da insetaria na festa.
Adélia Prado
Azul da flor
convite ao amor
Rosa na roseira
é a que te alumbra.
Pendente do galho,
é muito mais rosa.
Carlos Drummond de Andrade
amarela flor
em curta dor
flor ama ela
amarela
Amar guarida da vida
na branca margarida
amoRosa vida
ardoRosa
Fiz a escalada da montanha da vida,
removendo pedras e plantando flores.
Cora Coralina
entre o planeta e o sem-fim,
a asa de uma borboleta
Cecília Meireles
Há só uma janela fechada, e todo o mundo lá fora;
E um sonho do que se poderia ver se a janela se abrisse,
Que nunca é o que se vê quando se abre a janela.
Alberto Caeiro 
Aurora a cor da vida
desperta
Poesia nascente
no sol poente
A manhã tecer
beleza é amanhecer
Passa, ave, passa e ensina-me a passar.
Fernando Pessoa
Poste, fios e fulgor
gera dor e luz
Longe sol se levanta
montanha acaricia
Minha alma é como um pastor,
Conhece o vento e o sol
E anda pela mão das Estações
A seguir e a olhar.
Alberto Caeiro
Roma desperta
e dispersa
Não estou vazio,
não estou sozinho,
pois anda comigo
algo indescritível.
Carlos Drummond de Andrade
Ó Deus, meu Deus, a noite tem valores com os quais o dia nunca sonhou.
Thomas Merthon

terça-feira, 19 de junho de 2012

SÃO JOÃO NA VISÃO DE SAMUEL MACHADO CAMPOS

Anualmente, em Rio Branco, na comunidade do Alto Santo, ergue-se uma enorme fogueira que, por horas a fio, queima na fria noite de junho, quando se festeja São João.

Samuel Machado Campos, 10 anos, neto de Altino Machado gravou a imagem e mandou ver no papel. O menino é talentoso. E vai longe!

LEILA JALUL

segunda-feira, 18 de junho de 2012

UMA MESA PARA TRÊS

LEILA JLAUL


A mesa estava arrumadinha. Mesa para dois.

Há quinze anos, ainda que nunca juntos ou de namoro real, o ritual era o mesmo. No dia dos namorados, Helenita, com expressão de felicidade, aguardava a chegada do seu “namorado” de meninice.

Nunca houve troca de presentes comprados em lojas. Ele chegava com um raminho de flores roubadas da pracinha ou de algum jardim dos arredores, trocavam um abraço demorado e um beijo na testa ou na bochecha. Jantavam juntos. Às vezes, nem isso. Comiam uma fatia de bolo, ou saboreavam uma tigela de pudim, ou, ainda, se em dia muito quente, sorviam taças de sorvete caseiro.

Nunca, em nenhum momento, durante aqueles quinze anos, sequer passou pela cabeça de Helenita e Juarez que a noite terminasse entre lençóis. Nem juras de amor eterno. Nada disso! Não ia além de um encontro rápido e às claras. Tanto assim que Auxiliadora, esposa de Juarez, sabia de tudo e também privava da amizade de Helenita. Até almoçavam ou jantavam juntas. Nada de mais concreto existia naqueles eventos afetivos entre seu marido e Helenita que a fizesse supor estar vivendo um triângulo amoroso.

O dia dos Namorados, por cláusula tácita, era comemorado primeiro com Helenita e depois com Auxiliadora. Sem quaisquer rusgas ou marcas de ciúmes.

Helenita, quando no despertar do amor, aceitou uns beijinhos escondidos do seu vizinho Juarez. Fugiam dos pais, tomavam banho de rio e sorriam ao sabor das águas e dos ventos. Abrigavam-se em cabaninhas montadas por ele e se esquentavam juntinhos com o calor dos corpos.

Embora alvoroçado e louco para fazer um algo mais que nunca lhe fora permitido, jogava-se na água. Nem sem penetração, como propunha o amigo. Helenita não aceitava intimidades. Somente abraços, beijos no rosto e mais abraços. Então, com o corpo em brasas, Juarez jogava-se na água. Somente assim dava um esfriamento nos desejos.

Um dia, depois de muito ardor contido e um pulo no rio a corredeira levou Juarez e empurrou o rapazola para um poço com redemoinhos. Águas do paredão onde o rio se faz mais profundo e traiçoeiro. Águas que puxam pra baixo. Poço onde dorme o demônio. Águas do temível salão.

Estava a se afogar o jovem em desespero. Helenita, num ato de bravura, tirou o menino dos braços do hediondo. Deitou-o no barranco e, no soprar em sua boca trouxe-o de volta à vida. E se tornaram “namorados” pra sempre, sem nunca terem sido. Helenita amava meninas. Somente as meninas lhe faziam subir o sangue no sentir dos delicados toques.

E o tempo passou. Sem mais banhos no rio. Sem nada de amor carnal. Sublimidades e suavidades... Era tudo o que Helenita desejava.

A mesa continuava arrumadinha. Mesa para dois. E Juarez demorava. Muito!

Helenita, num misto de tristeza e saudade, chorou. Sentiu-se abandonada, embora soubesse que a companheira Ângela logo chegaria. Cansada, desarrumou a mesa e vestiu a camisola da noite dos namorados. Juarez não chegou . E...jamais chegaria. Teria apenas os afagos da amiga. Afagos que não supririam a ausência de seu amor de infância.

Por telefone, agoniada e até certo ponto com aspereza, Auxiliadora quis notícias de onde se havia escondido o marido. Quis saber se ele ainda estava com Helenita. Eram passadas muitas horas além do prometido para que estivessem num jantar já programado.

Não, ele ali não estava. Nem deveria.

No outro dia, ainda madrugada, foi encontrado morto, esbagaçado por atropelamento com autoria nunca identificada. Ao seu lado, um raminho de jasmins e um cartão para Helenita, sua eterna “namorada”. Helenita, sua salvadora do redemoinho da casa do demônio, nas profundezas do salão do rio.

Helenita e sua companheira Ângela estiveram juntas com Auxiliadora, numa demonstração de total amizade e apoio incondicionais.

Helenita, com o mesmo carinho de sempre, ainda mantém a tradição e, no dia dos namorados, curte arrumar uma mesa especial. Uma mesa não para dois e sim para três. Virou hábito entre as amigas, após a missa de aniversário de morte de Juarez, jantarem juntas. É que um amor morreu e a amizade seguiu em frente.



* Publicado originalmente no Site Lima Coelho.

sexta-feira, 15 de junho de 2012

ROCK AND ROLL 55

Luiz Felipe Jardim*


Em fins da década de 1940 e começo dos anos 50, estava pronta, nos Estados Unidos, a fusão principal de ritmos (Blues, Rhythm & blues e Country Music) que resultaria num novo ritmo: o Rock and Roll. Agora era só uma questão de tempo e oportunidade para este poderoso ritmo espalhar-se pelo mundo e materializar sua universalidade.

Em outubro de 1955, o Rock and Roll chega ao Brasil. E chega com muito estardalhaço, como, aliás, é de seu mais nobre temperamento. Chega embutido no filme Sementes da Violência, (Blackboard Jungle) que de rock mesmo só o tinha na sua abertura e encerramento, quando Billy Haley e seus Cometas interpretavam Rock Around the Clock.

Alguns poucos minutos de Rock. Mas foi o bastante para poder se dizer que a partir dali a juventude do Brasil nunca mais seria a mesma.

Durante as sessões nos cines os jovens falavam mais alto, cantavam, pulavam nas poltronas, faziam 'guerras de jujubas e bombons', devastaram o Cine Paulista, na Rua Augusta... e quase devastaram outros.

Após o filme estendiam as brincadeiras e, além de danças em praças públicas, promoviam perigosas corridas de lambretas e carros por estradas e ruas das cidades. Com os faróis dos carros apagados e na contramão, desciam ladeiras em alta velocidade, deixando a responsabilidade pela não colisão para os motoristas que vinham em sentido contrário.

É bem certo que esta descrição está um tanto quanto caricaturada e generalizada, mas cenas como estas, ou parecidas, aconteceram em várias cidades brasileiras por onde o filme passava, principalmente no Rio de Janeiro e em São Paulo, onde havia maior concentração de jovens de famílias ricas e de classe média.

Poucos dias antes da estréia do filme, aconteceram as eleições que fizeram Juscelino presidente do Brasil. Campanha e eleições tensas, marcadas por atentados, golpes e contragolpes.

Jânio Quadros que havia sido eleito governador de São Paulo um ano antes, ficou indignado com o comportamento dos jovens e por diversas vezes fez contundentes pronunciamentos em que manifestava sua indignação.

Miguel Couto era o Governador do RJ e, igualmente, fez incisivas manifestações contra o Rock e o comportamento dos jovens. Aliás, este mesmo senhor, alguns anos antes, na Assembléia Nacional Constituinte de 1946, havia proposto uma Emenda Constitucional na qual se declarava a proibição de migrantes japoneses de entrarem no Brasil. Pasme: na votação em Plenário aconteceu empate em 99 votos! Pasme mais ainda, Luiz Carlos Prestes e Jorge Amado votaram a favor da proibição!! O Voto de Minerva, dado pelo presidente da Assembléia, garantiu a continuidade do direito à entrada e permanência de cidadãos japoneses em território brasileiro. Era esse, portanto, o comitê de recepção político que tinha o Rock ao chegar ao Brasil. Jorge Amado, em 1961 ainda assinará um manifesto contra o Rock no Brasil.

Mas, ainda em outubro de 1955, e na onda do impacto sonoro e comportamental que o filme provocara, Nora Ney gravaria a mesma Rock Around the Clock. Nora não tinha exatamente o perfil de uma cantora jovem, mas era a única cantora do cast de sua gravadora que dominava o inglês. Uma semana após o lançamento e o disco já estava no topo da parada de sucessos.

Contraditoriamente, a protagonista do primeiro rock gravado no Brasil, era uma artista que, por gravar boleros, sambas-canções e coisas do gênero estava muitíssimo mais para a Velha Guarda do que para a Jovem Guarda que ali, sem perceber, ela semeava.

Velha Guarda era um movimento musical, surgido após o sucesso do programa 'O Pessoal da Velha Guarda' criado na Rádio Nacional em 1948, pelo compositor, cantor, radialista Almirante. Tal foi o sucesso do programa ao longo dos anos, que, transformado em movimento, em 1954, no Parque Ibirapuera, em Sampa, reuniu 30 mil pessoas no Festival da Velha Guarda. O movimento ganhou certa formalidade e instituiu o dia 23 de abril como o dia da Velha Guarda.

Pixinguinha, em 1955, com o seu ' Grupo da Velha Guarda', lança seu primeiro LP (formato de disco recém chegado ao Brasil) Carnaval da Velha Guarda. Ainda em 1955, com o mesmo grupo, lançará o LP A Velha Guarda e em 1956 o Festival da Velha Guarda.

Nora Ney estava identificada com esse movimento, que abrigava em seu seio, segmentos muito ricos, belos e expressivos da música brasileira. Onde gênios compositores e instrumentistas como Pixinguinha, Jacob do Bandolim, Carolina Cardoso de Menezes e cantores geniais como Francisco Alves, Augusto Calheiros, Aracy de Almeida, cultuavam gênios do passado como Noel Rosa, Chiquinha Gonzaga, Ernesto Nazareth, entre outros. Nora, que não gravara mais rock, em 1960, lançará a 'Estou cansada de rock', umas das cem músicas mais tocadas no ano.

Cauby Peixoto, em 1957, lançará a gravação do primeiro rock feito por brasileiro e em português: Rock and Roll em Copacabana, de Miguel Gustavo.

Ainda em 1955, 1956 e 1957, vários artistas gravariam canções de rock no Brasil. Agostinho dos Santos, Carlos Gonzaga, o acordeonista Aluísio Figueiredo, Lana Bitencourt, Heleninha Silveira, Cauby Peixoto, Bola Sete, Bolão e seus Rockettes entre outros. A maioria já não tão jovem, ou em outras palavras, “jovem há mais tempo”. Mas isso não era novidade. O próprio Bill Haley já tinha mais de 30 anos em 1956.

E é em 1956 que nos chega o filme 'Ao Balanço das Horas' com Bill Haley, The Platers e outros. Este sim com bem mais tempo de rock and roll na fita. O filme foi realmente impactante a ponto de Caetano Veloso, ter sentido “medo de ser possuído por alguma força irracional”. Raul Seixas ficou realmente ‘possuido’ e nunca mais se distanciou do rock. Algumas previsões sobre o comportamento dos jovens ao assistirem o filme se realizaram. Agitação nas salas dos cines, confusão nas praças, balbúrdia no trânsito, quebra-quebra nos cinemas, e por aí vai. Desta vez o cine devastado foi o Cine Roxi de Copacabana.
Jânio Quadros, governador de São Paulo, tenta proibir a exibição do filme no seu estado. Não consegue seu intento mas promove grande discussão e fortalece a oposição institucional àquele comportamento 'estranho, desviante e indesejável’ dos jovens.

O secretário de Segurança de São Paulo aproveita e baixa Portaria proibindo o filme para menores de 18 anos sob o argumento de que “o novo ritmo é excitante, frenético, alucinante e mesmo provocante, de estranha sensação...".

Isso também não era novidade. Nos EUA e na Europa, setores mais conservadores da sociedade, promoviam campanhas apaixonadas contra o rock, impedindo a realização de shows, dificultando a obtenção das licenças públicas para os eventos, incentivando a tomada de atitudes policiais e policialescas diante dos jovens roqueiros, etc.

Não obstante as enérgicas ações de sua oposição, o Rock'n’ Roll foi se impondo pelo mundo a fora e conquistando público em quase todos os lugares do planeta. Juventude e Rock foram se fundindo a ponto de se tornarem quase que sinônimos. Para tanto, o Rock foi assumindo, além de suas batidas rítmicas mais frenéticas, outras mais brandas, mais suaves, mas de linguajem igualmente universal como as da balada p ex. Essa capacidade de autotransformação, de adaptação, de tomar para si as fisionomias que o ambiente cultural que o continha necessitava para a promoção de algumas de suas inevitáveis mudanças, deu ao Rock possibilidades fenomenais de ampliação de si próprio e de sua importância no mundo.

No Brasil, o Rock chegou com força tanto nos espaços urbanos e suburbanos como em muitas cidades do seu interior. E é exatamente do interior que lhe chega sua primeira Rainha do Rock Brasileiro: Cely Campelo. Vem de Taubaté, interior de São Paulo e é “eleita” em 1961, quando já existia intensa movimentação em torno do novo ritmo em todo o Brasil. Ou seja, poucos anos após a apresentação do filme Sementes da Violência, o Rock, além de definitivamente enraizado no país, apresenta ao mundo aspectos próprios, particulares das fisionomias que assumia no Brasil.

É bem certo que o Rock foi perdendo muito do seu ímpeto inicial e assumindo formas mais adocicadas em suas batidas e muitas de suas letras como em 'Lacinhos cor de rosa', e em 'Estúpido Cupido'. Mas ainda assim é protagonista de mudanças significativas na sociedade.

Num Brasil onde a mulher não podia andar sozinha nas ruas; onde mulheres que dirigiam automóveis eram permanentemente importunadas por isso; onde as mulheres não podiam ir a bailes, bares ou cinemas sozinhas, e às vezes nem podiam escolher seus namorados ou mesmo maridos - falar dessas coisas com a naturalidade e a extroversão que o rock sugeria, era algo que naturalmente promovia reflexão e movimento. E isso trouxe resultados altamente positivos tanto para a ampliação do diálogo entre os jovens, quanto para os diálogos entre as diferentes gerações.

Ademais, o Rock reinventava as formas de se ouvir música e de dançá-las, também. Ao contrário da ópera ou do samba-canção, p ex., onde o ouvinte é convidado a acompanhar emocionado, mas passivamente, o drama apresentado na canção, ou a dançá-la com movimentos indefinidamente repetitivos, o Rock chama à participação intensa, ao movimento ágil, criativo, seja com estalar de dedos, com vocalizações, guerreando com pipocas, etc, seja dançando. Ao contrário do Bolero, ou da valsa, o Rock (e também seus derivados como o twist e o hully-gully) estimulava que se dançasse 'solto'. Em pares ou em grupos, mas 'soltos'. Ou seja, ampliava as possibilidades de liberdade e de liberdade de movimentos.

Por isso as três notas básicas (os tais acordes simples e quadrados), mais a batida do Rock, e letras mesmo que ingênuas, ou aparentemente sem sentido, provocavam tanto movimento, tanta agitação. Por trazerem implícitas no seu conjunto a sugestão de liberdade, de busca de liberdade.

Essa sugestão permanente de liberdade, de sua busca e de sua afirmação é um dos mais poderosos e fascinantes atrativos do Rock'n'roll desde o seu nascimento. Ao identificar-se com a sua estética, ao alinhar-se à sua ‘causa’, que apontavam no sentido das liberdades, de um modo geral, o jovem potencializava suas qualidades naturais e se fazia mais humano e criativo. Por isso o Rock passou a ser natural porta voz, rito de passagem para uma juventude que atualizava sua fisionomia no mundo, que se afirmava como segmento demográfico de características próprias, com velhos, novos e novíssimos desejos; com antigas e novas aspirações. Com renovados questionamentos e eternas buscas.

Há mais de 55 anos que o Rock and Roll chegou ao Brasil. Simples assim. Mas esta verdade oculta outra igualmente simples e importante. A de que, em cada um desses mais de vinte mil dias, descompromissado, irreverente e divertido, ele esteve a nos dizer ou sugerir - nas rádios, nos discos, nas roupas, nos bailes, nos cines, nos templos, nas praças, nas escolas, nos lares, nas ruas e onde mais pudesse ele estar - que os desejos de liberdade movem as sociedades e que os sonhos de amor e paz dão asas, cores e vida aos sonhos da humanidade.



* Luiz Felipe Jardim é historiador.