sábado, 29 de setembro de 2012

ACRE QUERIDO do ilustre sambista DA COSTA

Jofre Barbosa da Costa nasceu em 1930, ou o ano da Revolução, como o mesmo gostava de frisar. Sobreviveu trabalhando nas mais diversas áreas, fazendo de tudo: foi pedreiro, agricultor, inspetor de alunos. Era filho de tacacazeira e carpinteiro. Ajudou a construir o Palácio Rio Branco, sede do governo acreano. E, sempre que podia, fazia um samba.

O cantor e compositor de sambas Da Costa, como ficou conhecido em sua carreira musical, gravou e vendeu diversos LP’s. Se apresentou em Manaus, em Brasília e no Rio de Janeiro, o berço do samba. Gravou e realizou parcerias com importantes nomes da cultura acreana, como Jorge Cardoso. Em seu repertório, desfiava canções de Ataulfo Alves e Cyro Monteiro. Dividiu o palco com duas lendas do samba nacional, Noite Ilustrada e Paulinho da Viola.

Da Costa faleceu em agosto de 2005.

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

BRASILEIRO POR OPÇÃO – XVI

José Augusto de Castro e Costa



Rodrigo de Carvalho

O Coronel Rodrigo de Carvalho, no então cenário acreano, não seria apenas um extremado revolucionário, ainda que teoricamente, mas era um elemento precioso de êxito, mesmo sem contar com sua função de alto funcionário do governo amazonense.

Fora através de sua simpatia que ele servira-se para subornar um brasileiro, funcionário da Delegação Boliviana para obter todas as informações e até particularidades oficiais das autoridades de Puerto Alonso, ao longo dos dois anos do domínio da Bolívia.

Corria a metade do ano de 1902, quando aos seringais chegara a preocupante notícia de que a Bolívia arrendara toda a região acreana a uma empresa estrangeira, o "Bolivian Syndicate".

Todos sentiram o pavor da presença da aliança que vinha de fazer o invasor, colocando a seu lado o imperialismo americano para disputar o território brasileiro, de onde saiam os capitais para a exploração comercial que pretendiam os estrangeiros.

Foi então que surgiu, dos bastidores das tentativas revolucionárias, a figura empolgante de José Plácido de Castro, um gaúcho que àquela região chegara há uns dois anos antes, estimulado pelo convite de dois conterrâneos, Gentil Norberto e Orlando Lopes.

Plácido de Castro
Há muito que Plácido de Castro considerava que a presença das autoridades bolivianas, alí instaladas com o consentimento prévio do governo brasileiro e pela força das armas impondo-se à população acreana, afigurava-se uma afronta à Nação, um atentado inominável à integridade da pátria.

Os acontecimentos que presenciara ao longo do rio Acre, Purus e Iaco viriam tornar apreensível sua alma patriótica, clamando uma reparação. O arrendamento daquelas terras, por fim, apresentara-se como um grande perigo à ordem política continental e à própria integridade do Brasil.

Fora Plácido quem apelidara a Expedição que sucedera Galvez, de “Expedição dos Poetas”, por tratar-se de um grupo formado por intelectuais sonhadores, entusiasmados utopistas, quando vira da janela da pensão, aquela euforia desembarcar em Lábrea.

Seis meses após, no exercício da profissão de agrimensor, munido da indispensável provisão, achava-se Plácido de Castro demarcando o seringal "Vitória", de propriedade de José Galdino. Testemunhara que os bolivianos haviam elevado à categoria de Vila o povoado de Xapurí, com o nome de Antonio Antunes de Alencar, que alí gozava de algum prestígio e que envidara esforços para conciliar os brasileiros com os bolivianos, em parte conseguindo, tanto que se fez eleger intendente conjuntamente com o Dr. Magalhães. Continuava, entretanto, o desgosto dos brasileiros, sobretudo devido aos rumores que lá chegaram do arrendamento do Acre a uma companhia estrangeira.

Precisamente em 23 de junho de 1902 chegaram às mãos de Plácido de Castro alguns jornais que noticiavam como definitivo o arrendamento do território acreano e estampavam o teor do contrato, então firmado entre a Bolívia e o "Bolivian Syndicate". Plácido de Castro considerara a matéria como uma completa espoliação feita aos acreanos, aos quais obviamente sentira-se incluído. Viera-lhe à mente a idéia cruel de que a Pátria Brasileira iria-se desmembrar, pressentindo que aquilo era o caminho que os Estados Unidos abriam para futuros planos, forçando o Brasil desde então a lhes franquear à navegação dos nossos rios, inclusive o Acre. Qualquer resistência ensejaria aos poderosos americanos o emprego da força e a desgraça nacional em breve estaria consumada, conforme precedentes ocorridos na Ásia e na África.

Plácido de Castro guardara, apressado, a bússula de Casella, de que se estava servindo, abandonara as balisas e demais utensílios e saira no mesmo dia para a margem do rio Acre. Lembrara-se do apelo suplicante e desesperado que lhe fizera Rodrigo de Carvalho, anteriormente, ainda em Manaus, após o fracasso da Expedição dos Poetas, tendo ele declinado.

Há algum termpo, porém, pressentindo essa situação, houvera ele falado a vários proprietários de seringais na possibilidade de uma resistência, consultando-os se com eles poderia contar.


José Galdino

Segundo o Caudilho, de todos foi o coronel José Galdino, incontestavelmente, quem demonstrara melhores disposições de auxiliá-lo. Com ele combinara em como a revolução se faria: Plácido desceria até "Caquetá", concitando à luta os demais proprietários, devendo romper o movimento em "Bom Destino", seringal de propriedade de Joaquim Victor da Silva, um grande entusiasta da revolução e a pessoa de maior prestígio no baixo Acre.

Nessa conformidade Plácido descera a 25 de junho de 1902 de "Vitória", em uma canoa de José Galdino, passara a 29 em "Bagaço" e a 30 chegara a "Bom Destino".

Depois de entender-se com o coronel Joaquim Victor, que, segundo o Caudilho, foi o acreano que maiores sacrifícios pecuniários fizera pela revolução, ficara acertado descerem até "Caquetá", onde se achara o diretor da Mesa de Rendas do Estado do Amazonas, Rodrigo de Carvalho, o qual proclamara lhe haver o governador Silvério Nery, remetido grande quantidade de armamentos com destino à revolução. Logo a seguir encontrara o engenheiro Gentil Norberto apresentando-lhe, verbalmente, idêntica credencial do governador amazonense.

Em "Caquetá", no dia 2 de julho de 1902, em reunião que contara com as presenças de mais adeptos, trataram tão-somente da revolução e, por proposta de Plácido, ficara assentado em que seria formado uma junta revolucionária composta dos coronéis Joaquim Victor da Silva, José Galdino de Assis Marinho e Rodrigo de Carvalho, e que, rompendo as hostilidades, a mesma ficaria automaticamente extinta, para que só ficasse em ação uma única autoridade - o comandante-chefe, no caso Plácido de Castro.

Plácido não conseguira apoio para que a revolução rompesse no baixo Acre, como desejara, ficando assentado que o movimento romperia em Xapurí. Tendo para alí regressado, o Caudilho não tinha certeza do êxito da revolução, de vez que todos declaravam empenhar o melhor de sí, mas ninguém se dispusera a ser o primeiro.

A 4 de agosto era a primeira segunda-feira do mês e, segundo superstição local, os acreanos consideravam dia aziago. Como um dos seus remadores dissera-lhe que não trabalharia, por ser a primeira segunda-feira de agosto, e poderia haver algum desastre, Plácido sacara o revólver e repreendera em alto e bom tom: "Se trabalhares, pode ser que te aconteça algum desastre, mas se não trabalhares é certo que morrerás já" - e com um tiro n'água indicou-lhe o caminho a seguir.

O homem que parecera firmemente a não mexer-se, rompeu imediatamente em movimento a canoa.

Às 22 horas, em meio de profunda escuridão estavam passando em frente à povoação de Xapurí, sem serem percebidos, pois Plácido tivera o cuidado de advertir de que não fizessem barulho com os remos na borda da canoa. O velho canoeiro, ainda aí se portara mal, obrigando o Caudilho a fazê-lo compreender que, se fossem descobertos, ele perderia a vida no mesmo instante.

Ao passar pela povoação Plácido mandara por terra um homem a "Vitória" comunicar ao coronel José Galdino que estava indo por água e que ele deveria reunir imediatamente todo seu pessoal, pois, conforme ficara assentado, aquela hora todo o baixo Acre deveria estar conflagrado.

O mensageiro chegara à "Vitória" na mesma noite, enquanto Plácido, somente no dia seguinte, às 9 horas da manhã, aparentando uma alegria e, em bom humor, dizendo que a revolução não duraria 20 dias, pois achara que o entusiasmo no baixo Acre era imenso.

O coronel Galdino mandara efetivamente reunir o seu pessoal, conseguindo o comparecimento de 33 homens, inclusive seu filho Matoso. Passaram o resto do dia confabulando e recaptulando os passos da revolução.

Com esses 33 homens, ao cerrar da noite, seguiram em canoas para Xapurí, onde chegaram às 5 horas da manhã, quando vinha rompendo a aurora.

Era 6 de agosto, sem que soubessem os revolucionários, dia comemorativo à independência da Bolívia, pelo que estava preparada uma grande festa. Na véspera as autoridades bolivianas haviam dormido muito tarde, depois de abundantes libações e dos cânticos patrióticos do costume, pelo que àquela hora da manhã dormiam ainda a sono solto.


Leia aqui a série


* José Augusto de Castro e Costa é cronista e poeta acreano. Mora em Brasília e escreve o Blog FELICIDACRE.
** Fotos retiradas do Livro 'O Acre e os seus heróis' de Napoleão Ribeiro.

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

A VOLTA DOS MATUTOS ACREANOS

Isaac Melo


Enquanto o mundo, no turbilhão de encrencas e bestialidades, gira a 360 graus na escala da imoralidade política e econômica, nossos dois bons e velhos matutos acreanos, na calmaria da floresta, se preparam para um pequeno temporal que se aproxima: as eleições. Sezarino e Bastião conhecem de perto as intempéries da natureza, por trazer no sangue a força do sertanejo mesclada a do indígena. Lá a seca do sertão, aqui, a imensidão do deserto verde. Duas contradições a se complementar, na incompletude do viver.

Foto: Márcio Ferreira
A vida na beira do barranco, sob o reinado das águas do Rio Tarauacá, corre mansa e fugaz, vez por outra, entre repiquetes e remansos, ao modo do próprio rio. Os dois, semianalfabetos, aprenderam da selva “a ferro e fogo” o abecê da sobrevivência, mais aos barrancos que aos trancos.

Sezarino goza fama na região de melhor caçador. Rasteja anta por três dias seguidos, se assim for necessário. Derruba arara de olho de cumaru. Não há tempo ruim para mim, gaba-se. A não ser quando está “enrascado”, com panema dos diachos. Então reúne pelos e penas de bichos que já abatera em outras caçadas. E ‘toma’ uma boa “defumação”. Pronto, eis o homem em ponto de bala novamente. Já o negócio de Bastião é cana. Tanto é que ganhou a alcunha de “Bastião da Cana”. E claro, por gostar de uma boa “cana”. Pois ninguém é de ferro, diz pilhérico. Faz mel, rapadura, alfenim, garapa e assim por diante. Não tem viajante rio acima rio abaixo que não “encoste” na casa de Bastião, para saborear ou comprar alguma de suas iguarias.

A tarde enfraquece. A noite com sua grande boca principia em abocanhar o dia. Fim de lida, Sezarino e Bastião contemplam, de cima do barranco, o sol modorrento a esconder-se por detrás do capão de mato, a refletir último filete de luz, a dourar as águas pacíficas do “rio das tronqueiras”. Bastião sentado num pequeno banco fincado no chão. Sezarino, de cócoras, em cima da pedra de amolar terçados. Bastião pondo-se de pé, diz, enquanto arremessa um “rebolo” em direção à outra margem do rio:

- E cumpade Sezarino, vai votar esse ano? Porque daqui a pouco começa desembestar gente “da rua”, pedindo voto daqui, dali... Eu já tô fazendo uma farinhada e semana “quinhenta” vou dá uma caçada pra ver se consigo levar um rancho pra mode de ir comendo.

- É nisso que tenho pensado nesses últimos dias, cumpade. Eu por mim mesmo não arredava o pé do que é meu pra ir votar em seu fulano, que só vai ficar ganhando dinheiro em cima do nosso rabo. Aqui, ó! dizia Sezarino, a bater uma mão sobre a outra, num gesto nada cortês.

- Mas a lei obriga, cumpade.

- Que lei que nada. E eu sou homem de conversa fiada, Bastião! Eu por mim mandava todas essas leis é para a... a... a merda, isso sim! – berrava, a levantar-se da pedra, indo postar-se frente à Bastião. É diacho de tanta lei hôme! Pra tudo no mundo existe uma lei, não derrube, não cace... Não, não e não. Ninguém num pode fazer mais nada. É coisa demais pra minha cabeça!!! Sezarino enfatizava, a virar-se para o rio.

Bastião ouvia atento as palavras de justa revolta escarradas pelo amigo. Embora menos vivaz, era praticamente o oposto de Sezarino. Considerava importante votar, e se interessava por política. Inclusive era filiado a um partido. Por isso, já estava de trouxa arrumada para descer às eleições em Tarauacá. Iria ajudar o partido, pois tinha recebido um bilhete, escrito a punho, pelo próprio presidente, entre outras coisas, a ressaltar ser muito importante sua presença para o futuro do partido nas eleições atuais.

- É importante cumprir as leis, cumpade!

- Agora essa é boa! Vamos ver no dia em que ela muntá em tua cacunda! redarguiu enfático Severino, voltando-se em direção ao amigo.

- Mas cumpade, o senhor já pensou se cada um pudesse fazer o que quisesse. Nóis já não tinha mais mata, nem bicho nessa mata de meu Deus. Talvez num encontrasse nem mais um peixe, nem pra fazer remédio, nas águas desse rio. E a política é uma maneira de também a gente exigir nossos direitos. O senhor não acha? A gente sabe que tem muito sem vergonhas no meio, mas isso em todo lugar tem. É fazer a nossa parte, e esperar que eles façam a deles.

- Num me venha com sermão, Bastião! Eu sou hôme vivido. Aqui, nesse braço, corre sangue e não leite de mamão. Apois vem ano e sai ano, e as coisas só pioram. Essa cambada só sabe é prometer, e roubar. Agora é engraçado, eu deixo minhas coisas aqui: criação, casa, roçado, tudo ao léu pra ir votar pro seu cicrano, que, no final das contas, num me ajuda nem nas despesas da viage. Se num sair do bolso desse aqui, – e apontava para si – eu ficava com minha réca de menino na beira do barranco. Como é que pode isso!?

A amainar os ânimos, os dois são surpreendidos por um boto que acabara de aflorar à superfície da água, em busca de oxigênio.

- Vixe, que boto enorme, cumpade!!! É dos vermelhos.

- Vai buscar água das cabeceiras. É bem provável que agora dê uma água no rio, porque baixar desse jeito que o rio tá, seco, seco, num vai ser fácil! completou Sezarino, enquanto dizia “olha o limão, boto!”, velho costume que, segundos os ribeirinhos, irrita e afugenta os botos.

- Pois é cumpade, finalzin do mês risco na cidade. Num perco essa eleição de jeito nenhum, apois dizem que em Tarauacá o negóço tá fervendo. Mesmo porque o partido me chama também.

- Não sei de onde cumpade Bastião tira tanto entusiasmo para essas coisas. Apois eu vou porque é o jeito, se não fosse eu num arredava o pé desse chão daqui tão cedo. Ninguém nunca olhou por nós, não vai ser agora, concluiu pessimista.

- Deixa disso, hôme! A gente nunca deve perder a esperança, nunca! A esperança corre em nosso sangue como a água corre por esse rio. É nossa sina! redarguiu Bastião com um largo sorriso, como quem visse no magnífico entardecer amazônico, ali, a descortinar ante seus olhos, um prenúncio de dias melhores. Quem sabe!

- Queira Deus que tudo isso que você falô seja verdade! Mas as coisas num mudam assim do dia pra noite. Pode crer! Esses olhos aqui já viram muita coisa... Mas mudando de assunto, cumpade, você não tem um pacote de café pra me arranjar. O nosso talvez dê só para amanhã.

- Apois, porque não vamos lá a casa agora mesmo buscar. Assim o senhor aproveita e traz umas rapaduras, e já me dá passagem pra casa também. finalizou Bastião enquanto batia nas costas do amigo.

Os dois desceram o porto. Entraram num pequeno “casco”, arte cabocla, que desliza mansamente por sobre as águas barrentas, em carícia de namorados enlevados. Metidos à pequena embarcação, avançam rio adentro no encalce à outra margem. Por um momento homem e selva se confundem. Fundem-se. Duas sombras a perder-se na bruma da noite.

domingo, 23 de setembro de 2012

REAIS FICÇÕES DE LEILA JALUL

Isaac Melo


“Luzinete: um angu de caroço?” é o insólito título do mais novo livro de Leila Jalul. Trata-se de uma série de crônicas concatenadas que fizeram vir à tona um romance. Jalul não se utiliza de um hermetismo literário, nem de um eruditismo para tecer o seu fazer literário. Ela vai à vida, bruta como é. Para então recolher as pérolas jogadas aos porcos.

Sou do parecer de uma literatura acreana desacreanizada, para se tornar creditada e acreditada. Entenda por desacreanizar, o afastar-se de um mero regionalismo que espelha apenas os aspectos histórico-sociológicos do Acre, aspectos estes que podem ser trampolins para se chegar à literatura, não um fim em si. Clodomir Monteiro, em “A sinuca da Olaria”, e Florentina Esteves, em o “Empate”, são claros exemplos de como a literatura acreana progride. Embora se utilizem de elementos locais, o que fazem assume dimensão universal, entre outros, por contemplarem em seus enredos elementos comuns a qualquer um, em qualquer lugar, a qualquer tempo. Assim também penso em relação à Leila Jalul.

Nota-se, nos escritos de Jalul, a facilidade com que transita por caminhos e temas diversos, em sintonia com o ambiente dos enredos. Assim ela vai do norte da Itália a um seringal da Amazônia ou a uma fazenda no interior da Bahia, e traduz, com precisão literária, a realidade de cada um, com suas peculiaridades. O tecido de tramas, no entanto, não se afasta da vida humana, com toda a teia de complexidade que a envolve. Jalul é uma escritora de seu tempo, com as glórias e os horrores de seu tempo. Suas personagens não são andróides ou seres de um mundo desconhecido, mas homens e mulheres que se assemelham a qualquer um de nós. É assim com Luzinete.

Dante cantou Beatriz, Jorge Amado imortalizou Gabriela, Bandeira poetou às moças do sabonete Araxá, e Leila Jalul nos legou a baiana Luzinete. Conforme Nicinha Padilha, Luzinete nos “transporta para o universo de mulheres com as quais convivemos diariamente”. Ela é a realidade que emerge da ficção ou seria a ficção que emerge da realidade? Como faz saber Luiz Felipe Jardim, a “Ficção é uma realidade que se diferencia da pura realidade somente por não ter acontecido como a Realidade gostaria que tivesse acontecido”.

Ao longo do viver, deparamo-nos com pessoas que não se encaixam nos padrões convencionais a que estamos habituados a conviver. Fogem e fazem fugir da mesmice de uma vida em constante linha reta de insignificâncias. Provocam-nos, concomitantemente, os mais distintos sentimentos, ao passo que incitam raiva, inspiram ternura. Pois, como revela a autora, “não são todos os dias e nem sempre que ela entra macio nas goelas estreitas e entupidas da grande maioria das pessoas”. A relação entre as duas, Leila e Luzinete, a iniciar em aparente desacordo, solidificou-se com o passar do tempo numa relação quase maternal, de mãe e filha. A discrepância de idade e de cultura não fez com que uma precisasse “descer para baixo” e nem a outra “subir para cima”. Talvez poder-se-ia utilizar, em analogia às duas, os célebres personagens de Cervantes, Dom Quixote e seu fiel escudeiro Sancho Pança, em que um se apresenta necessário ao outro.

Luzinete, por sua vez, não pode ser reduzida a um mero estereótipo, a de mulher sem papas na língua, grosseira, mexeriqueira, nociva até. Embora pareça andar na contramão de certas convenções, como fazer tatuagem nas sobrancelhas e arrancar o próprio dente com o alicate de mecânico do marido, revela-se uma mulher sensível, capaz de se enternecer com as flores, atenta aos acontecimentos a sua volta, honesta e destemida, não se curva às injustiças, uma mulher que ama, mesmo não recebendo a mesma medida de amor com que amou, e que sempre tem um sorriso a partilhar, em sua vivacidade arguta e sofrida. Tem certo quê de ingenuidade, com suas deduções literais, como a que faz usar Cândida (ácido muriático) para curar candidíase. Porém, é uma ingenuidade de quem desde cedo foi privada das asas da educação, que, deduz-se, um dia a faria alçar voos mais profundos, altaneiros. Portanto não se trata de uma ingenuidade à la Macabéa clariciana, como alguém fizera recordar acertadamente. Quiça, a lembrar vagamente o espírito atormentado de uma Emma Bovary.

Segundo as palavras de André Alexandre, “Luzinete é forte, é presente, é real. Sua espirituosidade, esperteza, brejeirice, malemolência, são maiores que as de Leila Jalul”. Cabe assim perguntar-nos: o que há de Leila em Luzinete e o que há de Luzinete em Leila? A diacronia de ambas parece formar única sinfonia. Seria caso de afirmar então que Leila e Luzinete são duas verdades, duas ficções intercaladas pelo real.

Um autor consegue superar-se quando seus personagens ou criações o superam. Milan Kundera recomendava mudar de profissão os autores que fossem maiores que seus romances. Como recorda-nos André Alexandre, Luzinete já tem vida própria. Isso demonstra o amadurecimento literário de Leila Jalul no próprio amadurecer de seu viver. Cresce a literatura brasileira. Agiganta-se, a acreana.

Aprendi de Kundera, sob a influência de Richard Rorty, que romance não pode reduzir-se apenas a um divertimento literário. Sua função também é possibilitar o desvelamamento de nosso ser. Kundera ainda afirmava que romance que não descobre uma porção até então desconhecida da existência é imoral. Porém ressalta, a única moral do romance é o conhecimento. Por isso, os romances que não estendem a conquista do ser, a nada se prestam, pois não descobrem nenhuma parcela nova da existência, apenas confirmam o que já se disse. Leila recolheu pedra bruta e transformou-a em formosa obra de arte. Sua originalidade não está no tema, vulgar, por sinal, mas naquilo que desperta em nós, seja alegria ou insatisfação. Pois, ao modo de Drummond, ela só tem duas mãos e o sentimento do mundo.


sábado, 22 de setembro de 2012

CARMINA BURANA

"Não reconhecemos nela (na música) nenhuma cópia, reprodução de uma ideia dos seres no mundo; contudo trata-se de uma arte a tal ponto grandiosa e majestosa, a atuar tão intensamente sobre o que há de mais interior no homem, onde é compreendida com tal intensidade e perfeição, como se fosse uma linguagem totalmente comum, cuja clareza ultrapassa mesmo a do próprio mundo intuitivo."

SCHOPENHAUER, Arthur, O mundo como Vontade e representação. São Paulo: Abril Cultural, 1980. Coleção os pensadores, p.72.
Carmina Burana trata-se de um conjunto de poesia medieval, em que o compositor alemão Carl Orff arranjou alguns dos poemas numa obra de beleza sublime.

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

O FACTOR DEUS

José Saramago


Algures na Índia. Uma fila de peças de artilharia em posição. Atado à boca de cada uma delas há um homem. No primeiro plano da fotografia um oficial britânico ergue a espada e vai dar ordem de fogo. Não dispomos de imagens do efeito dos disparos, mas até a mais obtusa das imaginações poderá "ver" cabeças e troncos dispersos pelo campo de tiro, restos sanguinolentos, vísceras, membros amputados. Os homens eram rebeldes.

Algures em Angola. Dois soldados portugueses levantam pelos braços um negro que talvez não esteja morto, outro soldado empunha um machete e prepara-se para lhe separar a cabeça do corpo. Esta é a primeira fotografia. Na segunda, desta vez há uma segunda fotografia, a cabeça já foi cortada, está espetada num pau, e os soldados riem. O negro era um guerrilheiro.

Algures em Israel. Enquanto alguns soldados israelitas imobilizam um palestino, outro militar parte-lhe à martelada os ossos da mão direita. O palestino tinha atirado pedras. Estados Unidos da América do Norte, cidade de Nova Iorque. Dois aviões comerciais norte-americanos, sequestrados por terroristas relacionados com o integrismo islâmico, lançam-se contra as torres do World Trade Center e deitam-nas abaixo. Pelo mesmo processo um terceiro avião causa danos enormes no edifício do Pentágono, sede do poder bélico dos States. Os mortos, soterrados nos escombros, reduzidos a migalhas, volatilizados, contam-se por milhares.

As fotografias da Índia, de Angola e de Israel atiram-nos com o horror à cara, as vítimas são-nos mostradas no próprio instante de tortura, da agónica expectativa, da morte ignóbil. Em Nova Iorque tudo pareceu irreal ao princípio, episódio repetido e sem novidade de mais uma catástrofe cinematográfica, realmente empolgante pelo grau de ilusão conseguido pelo engenheiro de efeitos especiais, mas limpo de estertores, de jorros de sangue, de carnes esmagadas, de ossos triturados, de merda. O horror, agachado como um animal imundo, esperou que saíssemos da estupefacção para nos saltar à garganta. O horror disse pela primeira vez "aqui estou" quando aquelas pessoas saltaram para o vazio como se tivessem acabado de escolher uma morte que fosse sua. Agora o horror aparecerá a cada instante ao remover-se uma pedra, um pedaço de parede, uma chapa de alumínio retorcida, e será uma cabeça irreconhecível, um braço, uma perna, um abdómen desfeito, um tórax espalmado. Mas até mesmo isto é repetitivo e monótono, de certo modo já conhecido pelas imagens que nos chegaram daquele Ruanda-de-um-milhão-de-mortos, daquele Vietname cozido a napalm, daquelas execuções em estádios cheios de gente, daqueles linchamentos e espancamentos daqueles soldados iraquianos sepultados vivos debaixo de toneladas de areia, daquelas bombas atómicas que arrasaram e calcinaram Hiroshima e Nagasaki, daqueles crematórios nazis a vomitar cinzas, daqueles camiões a despejar cadáveres como se de lixo se tratasse.

De algo sempre haveremos de morrer, mas já se perdeu a conta dos seres humanos mortos das piores maneiras que seres humanos foram capazes de inventar. Uma delas, a mais criminosa, a mais absurda, a que mais ofende a simples razão, é aquela que, desde o princípio dos tempos e das civilizações, tem mandado matar em nome de Deus. Já foi dito que as religiões, todas elas, sem excepção, nunca serviram para aproximar e congraçar os homens, que, pelo contrário, foram e continuam a ser causa de sofrimentos inenarráveis, de morticínios, de monstruosas violências físicas e espirituais que constituem um dos mais tenebrosos capítulos da miserável história humana. Ao menos em sinal de respeito pela vida, deveríamos ter a coragem de proclamar em todas as circunstâncias esta verdade evidente e demonstrável, mas a maioria dos crentes de qualquer religião não só fingem ignorá-lo, como se levantam iracundos e intolerantes contra aqueles para quem Deus não é mais que um nome, nada mais que um nome, o nome que, por medo de morrer, lhe pusemos um dia e que viria a travar-nos o passo para uma humanização real. Em troca prometeram-nos paraísos e ameaçaram-nos com infernos, tão falsos uns como os outros, insultos descarados a uma inteligência e a um sentido comum que tanto trabalho nos deram a criar.

Disse Nietzsche que tudo seria permitido se Deus não existisse, e eu respondo que precisamente por causa e em nome de Deus é que se tem permitido e justificado tudo, principalmente o pior, principalmente o mais horrendo e cruel. Durante séculos a Inquisição foi, ela também, como hoje os talibans, uma organização terrorista que se dedicou a interpretar perversamente textos sagrados que deveriam merecer o respeito de quem neles dizia crer, um monstruoso conúbio pactado entre a Religião e o Estado contra a liberdade de consciência e contra o mais humano dos direitos: o direito a dizer não, o direito à heresia, o direito a escolher outra coisa, que isso só a palavra heresia significa.

E, contudo, Deus está inocente. Inocente como algo que não existe, que não existiu nem existirá nunca, inocente de haver criado um universo inteiro para colocar nele seres capazes de cometer os maiores crimes para logo virem justificar-se dizendo que são celebrações do seu poder e da sua glória, enquanto os mortos se vão acumulando, estes das torres gémeas de Nova Iorque, e todos os outros que, em nome de um Deus tornado assassino pela vontade e pela acção dos homens, cobriram e teimam em cobrir de terror e sangue as páginas da História. Os deuses, acho eu, só existem no cérebro humano, prosperam ou definham dentro do mesmo universo que os inventou, mas o "factor Deus", esse, está presente na vida como se efectivamente fosse o dono e o senhor dela. Não é um deus, mas o "factor Deus" o que se exibe nas notas de dólar e se mostra nos cartazes que pedem para a América (a dos Estados Unidos, não a outra...) a bênção divina. E foi o "factor Deus" em que o deus islâmico se transformou que atirou contra as torres do World Trade Center os aviões da revolta contra os desprezos e da vingança contra as humilhações. Dir-se-á que um deus andou a semear ventos e que outro deus responde agora com tempestades. É possível, é mesmo certo. Mas não foram eles, pobres deuses sem culpa, foi o "factor Deus", esse que é terrivelmente igual em todos os seres humanos onde quer que estejam e seja qual for a religião que professem, esse que tem intoxicado o pensamento e aberto as portas às intolerâncias mais sórdidas, esse que não respeita senão aquilo em que manda crer, esse que depois de presumir ter feito da besta um homem acabou por fazer do homem uma besta.

Ao leitor crente (de qualquer crença...) que tenha conseguido suportar a repugnância que estas palavras provavelmente lhe inspiram, não peço que se passe ao ateísmo de quem as escreveu. Simplesmente lhe rogo que compreenda, pelo sentimento se não puder ser pela razão, que, se há Deus, há só um Deus, e que, na sua relação com ele, o que menos importa é o nome que lhe ensinaram a dar. E que desconfie do "factor Deus". Não faltam ao espírito humano inimigos, mas esse é um dos mais pertinazes e corrosivos. Como ficou demonstrado e desgraçadamente continuará a demonstrar-se.


publicado por Fundação Saramago

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

POR NÓS PELA ACADEMIA ESTEJAMOS NO SARAU LITERÁRIO - O POEMA É MEU AGRADECIMENTO

OFERTADO A TODOS OS MEMBROS DA ACADEMIA ACREANA DE LETRAS
e aos demais que os lerem


AOS GUARDADORES DE LEMBRANÇA
TENDA DE ZINCO

Clodomir Monteiro


veredas sonhos dimensões que ponho
acima mesmos derramando idades
amizades amorizações janelas
solar de filhos canto andando somos

espaços livros de memória
porões grilhões silenciados
cobrindo folhas livres zinco
paredes rachaduras martirizam

reféns alguns fendas que fomos
horizontes domos mastodontes
cativas ouvindo folhas zinco
fruindo brotos concertos saírem

mostremos fendas renovadas flores
manejo de esperantos horizontes
crianças rejeitadas em solares
amadas noites em tempos lunáticos

perdemos voos som de zinco sonos
soltando encantos cantos liberdade



* O poeta Clodomir Monteiro é o atual presidente da Academia Acreana de Letras.

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

A PONTE DO RIO CORAÇÃO

Leila Jalul


Em 93, de forma absolutamente inexplicável, quebrei uma perna em oito lugares. Até hoje ainda creio num empurrão vindo de algum invisível despeitado. Cansada de tanto amassar a minha cama, resolvi ir para Boca do Acre (AM) e amassar a cama dos outros.

E lá me fui com minhas muletas e dois amigos a tiracolo, para qualquer eventualidade. A última vez que lá estive havia sido em 53, quando, à bordo do Navio Benjamim, fui para o internato em Sena Madureira. Situações bem diferentes. Na primeira, fui na marra. Na última, fui por gosto, apesar de estar sem perna.

Boca do Acre me surpreendeu. Da cidade velha, pouco restava. O que vi foi uma estrutura urbana interessante construída na parte alta, chamada de Pequiá.

Logo avisto no porto um aviãozinho dentro d'água, novinho em folha. Fui logo perguntando o que estava fazendo ali aquele troço que pensei nem existisse mais. Um recepcionista do hotel me disse que era da Rede Globo e que estava transportando uma moçada para o Céu do Mapiá. Era a febre desse tempo.

E foi assim que decidi, de pronto, não ficar naquele hotel onde entrava e saía gente barulhenta, sem contar a multidão que se aglomerava na porta para ver o fulano de tal que trabalhava na novela das seis, na das sete e na das oito. Um bafafá!

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Pronto. Decidido. Vou para o São Paulo, que é terra firme. Vou para a casa do meu colega França. Contratei um estivador parrudo, que subia e descia com botijas de gás, para me transportar barranco abaixo. E assim fui para o segundo distrito de Boca do Acre. O apoio logístico que recebi do pessoal da balsa da Petrobrás e da turma da catraia foi perfeito. Nada a reclamar.

Fui recebida com uma cervejada. No trajeto, caras curiosas apareciam. Todos sabiam que o França ia hospedar uma velha de perna quebrada. Me acomodei. França armou uma rede na varanda. Tomei mais cerveja. Nunca tomei tanta cerveja de graça na minha vida. E foi dessa rede que avistei Coração.

Coração, 85 nos costados, andando sem auxílio de nada, também já sabendo da novidade, parou para cumprimentar a hóspede do seu vizinho.

Sabe aquela paixão à primeira vista? Coisa de pele? Fomos, segundo afirmam, feitas uma para a outra. Meus fins de tarde estavam garantidos. Conversar com Coração.

– Coração, me diga, nega, o que que você aprontou nessa vida? Conta tudo!

– Leilinha (lá se vem a intimidade), eu fiz de tudo. Até meus trinta e poucos, fui parteira. Depois cansei. Fui ser embarcadiça.

– Me conta! Em navio?

– Primeiro em navio. À medida que o tempo foi passando, a tonelagem também diminuía. Passei por batelões, baleeiras, por todo tipo de tripulação!

– Cozinhando?

– Sim. Sim.

– Todo tempo na cozinha?

– Sim. Peraí, era assim: eu servia o café da manhã e eu era a merenda. Fazia o almoço e eu era a sobremesa. Fazia o jantar e eu era a ceia. Depois de tudo a gente ia dançar um pouco, que ninguém vive só de trabalho!

– Era assim mesmo?

De repente, Coração olha para o Purus e me diz, com cara de saudade:

– Tá vendo esse rio? Se eu tivesse que construir uma ponte juntando os meninos que peguei e os homens que me pegaram, dava pra construir uma ponte que ia e outra que vinha.

– Coração, que coisa!

E rimos juntas. E tomamos mais cerveja juntas. E outras tardes juntas, eu e minha Coração, a quem nunca perguntei o nome. Se ela se chamasse Matilde, não teria a menor graça.

Já morreu, mas deixou uma lembrança que não me é possível arrancar. Toda vez que vejo uma água que corre, me ocorre perguntar de qual tamanho seria minha ponte. Já tive a resposta: nem do tamanho da ponte Rio-Niterói, nem do tamanho da pinguela do Igarapé Canela Fina.


* A crônica também encontra-se no site Lima Coelho.

sábado, 15 de setembro de 2012

MÃO DE ONÇA

“Mão-de-Onça” como era conhecido José Gomes Coelho, cantor, compositor e sargento da banda de música da Polícia Militar do Acre, deixou um legado interessante à música acreana, entre outras, a canção "Loucura e desejo". Mão de Onça, que falecera em 2003, era primo do cantor tarauacaense Dym Gomes.

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

NAS PALMAS DAS MÃOS

Luiz Felipe Jardim


De alguma forma que não me lembro,Leila, descobri que a professora Wolitz, como boa profissional do ensino que era, sintonizada com a melhor pedagogia, e municiada com as ferramentas da melhor didática da sua época, algumas vezes tratava seus alunos ‘nas palmas das mãos’, isto é: de vez em quando lhes aplicava algumas palmadas com uma palmatória que ficava sempre ao lado do quadro negro da sala de aulas que tinha em sua residência e que era visível a todos os que passavam pela avenida ao lado de sua casa.

Da varanda da casa dos meus tios, Helena e Amiraldo, que moravam ao lado da casa da professora Wolitz, deitado em uma rede atada no meio das tardes, ali quando meus cinco anos de idade já desaguavam nos seis, eu ficava abecorando, espreitando o momento exato do que eu achava ser o ponto culminante da relação ensino-aprendizag em: a hora das palmadas.
Henriques e Felipes dos 5 para os 6 anos  como Ícaro e Seringueiro
A professora tinha uma voz um pouco rouca e, não sei bem como aprendi isso, mas percebi que quanto mais alta e rouca ficava sua voz, mais possibilidades de palmadas havia. Assim, eu ficava atento ao tom rouco da sua voz. Ele anunciava o momento certo. Quando o percebia, eu saltava da rede e corria para uma enorme mangueira que vivia entre as duas casas e que existiu até a poucos dias. Dali, eu via a sala de aulas da professora Wolitz e, como bom menino que era, esfregava as mãos torcendo para que a sua voz enrouquecesse ainda mais. Era palmada na certa.

Às vezes, humilde e solene, ela ia até onde o aluno estava sentado aplicar-lhe a didática manual. Garbosa, majestosa mesmo, e com pulso firme, descia a ferramenta de ensino nas mãos do aprendiz com a precisão do talento e a força do saber. Ela era craque, Leila. Nunca ouvi um só gemido dos alunos. Só ouvia os estalos que as mãos deixavam escapar ao vigoroso contato com as poderosas forças do conhecimento. A esses, os sentados, eu via tranquilamente com o pescoço esticado e corpo oculto pelo tronco da mangueira.

Outras vezes o aluno é que deveria fazer-se humilde e solene e, com pulso firme ir até o quadro negro receber a didática aplicada; recolher com suas mãos e em pé, o conteúdo pedagógico que a palmatória deveria, simbólica, mas ardentemente, lhe transmitir. Esses eram os meus preferidos. Só que a melhor posição para ver a cena era do lado da Avenida. E eu tinha de correr, dar a volta pela frente da casa da professora e, finalmente, chegar à janela meio que disfarçadamente como se estivesse simplesmente por ali passando.

Fiz esse percurso muitas vezes, Leila, da varanda para a mangueira, da mangueira para a janela, da janela para a mangueira, dai para a varanda.

Tantas vezes que eu não poderia passar despercebido sempre.

Numa dessas vezes em que, da mangueira, eu observava a sala de aulas, no exato momento em que o trovão anunciava a tempestade, ou seja: quando a voz enrouquecida prenunciava as palmadas, seu Liscênio, marido da professora, me viu e perguntou o que eu fazia ali. Incontinente, me abaixei. Apanhei a primeira coisa que encontrei pelo chão e respondi que estava ‘ajuntando manga’. Ele disse: “mas, Henriques e Felipes, ainda estamos em junho. As mangas nem nasceram ainda”. Ao que respondi, dando-lhe as costas e já correndo: “Mas essa aqui tá bem madurinha”... E lá fui eu, em desabalada carreira, levando nas mãos um tijolo maciço que havia apanhado do chão. O tijolo não doía nas mãos como deviam doer as palmadas, Leila, mas acho que pesava tanto quanto e, por isso, se constituiu na primeira peça de peso da bagagem cultural de minha infância.
 

Memória ou Ficção?

Comentando sobre isso com minha mãe, ela me disse que profa. Wolitz não dava palmadas nos deus alunos e que a palmatória na parede era só decoração... Só isso: pura decoração!

Se isso é verdade, Leila, o que eu te disse ainda há pouco não é. Ou seja, o que eu te disse é ficção.

Talvez mais uma das muitas ficções dessas que trazemos fixas na memória como se fossem expressões ainda vivas, mesmo que esmaecidas, de antigos acontecimentos, de antigas realidades.

Não tenho certeza, até mesmo acho que não, mas se isso é verdade quero crer que tal ficção me foi fixada enquanto, na varanda da casa da tia Helena, deitado numa rede suspensa no meio das tardes, eu dormia os sonos de menino de 5 para 6 anos de idade, tendo ao lado um pé de mangas que unia, com suas sombras de boa mangueira, a sala de aulas da profa. Wolitz e a varanda onde a rede embalava a mim e aos meus sonhos. Os mesmos que um dia eu creria serem verdades. Verdades como as verdadeiras: tecidas e animadas pelo sopro da vivência; cuidadosamente acolhidas, e guardadas na memória; e deliciosamente reanimadas quando embaladas nas redes macias e envolventes das boas lembranças...

Certa vez, um caipira do Rio São Francisco assim falou sobre a História: "A nossa História é uma coisa interessante: a gente se alembra, se alembra... de repente se esquece. Daí, um dia, a gente não tá nem naquele sentido... de repente se alembra”...

Dante Gabriel Rossetti - Dantis Amore
Às vezes Leila, é necessário perder o 'sentido' de certas coisas para poder 'se alembrar', 'rever' o que aconteceu. Saber-lhes o sentido. Em Realidade e em Ficção. Sim porque muitas vezes a Ficção é uma realidade que se diferencia da pura realidade somente por não ter acontecido como a Realidade gostaria que tivesse acontecido. Na verdade, a Ficção é pura ficção por puro capricho da Realidade. Uma vingança desta por aquela se realizar nos espaços imaginários, fora do total e absoluto controle da realidade nua e crua, pura e verdadeira.

Realidade e Ficção têm a mesma natureza: dinâmica, profunda, intensa. Diferem entre si, e tão somente, por ao acontecerem, resultarem: uma da energia e das mãos de quem mais faz; outra das mãos e da energia de quem mais pensa. Uma resulta em energia simplesmente mais sólida. A outra, em matéria simplesmente menos densa.

terça-feira, 11 de setembro de 2012

BRASILEIRO POR OPÇÃO – XV

José Augusto de Castro e Costa


O espírito aventuroso de Dom Luiz Galvez, por certo, deixara fortes e exasperadas reflexões sequazes no cenário amazônico, tanto nas capitais Belém e Manaus, quanto ao longo dos rios Acre, Purus e Iaco.

Não foram poucos os jovens a lançarem-se à selva bruta da natureza amazônica, uns, liberais impoderados, enquanto outros, subalternos, designados que eram por empresas ou repartições públicas.

Jovens que, talvez, já teriam ingressado nas faculdades imaginando conciliar os conhecimentos que viriam adquirir à cognição dos mistérios do “inferno verde”, de seu meio, de seu mundo, de seus enigmas que viriam experimentar.

A exemplo do jovem advogado cearense, José Alencar de Carvalho, que surpreendera-se e revoltara-se ante ao que considerava uma invasão de Dom José Paravicini, ao final de 1898, outros bacharéis como ele, ou Juízes de Direito como Dr. Aristides de Moura Rios, engenheiros como Gentil Norberto, jornalistas como o também gaúcho Orlando Lopes, médicos como Francisco Mangabeira, um sem-número de diversos profissionais liberais e intelectuais dispuseram-se a envidar esforços para que o Acre permanecesse sendo brasileiro, já que julgavam que “ nele haviam deixado um cadáver embaixo de cada seringueira”.

A união dos ativistas em prol da liberdade do Acre, definira-se como uma séria Expedição dos Poetas, desta vez por constituir-se em sua maioria por intelectuais tal qual o futuro governador do Amazonas Efigênio Sales, acompanhado daquele que viria a ser o Primeiro Governador do Território do Acre unificado, médico Epaminondas Jácome, além do filho do grande filósofo brasileiro Tobias Barreto, João Barreto de Menezes, entre outros de destaque na atividade literária e artística.

A convicção idealista dos expedicionários prendia-se à natureza jurídica dos fatos, de que a região acreana pertencia realmente ao Brasil, por força do “utis possidetis”, caracterizado pela notória ocupação efetiva e prolongada de brasileiros, anteriormente ao Tratado de Ayacucho, o qual, por sinal, ainda estaria em reformulação de texto, submetido a apreciações bilaterais, aguardando os demorados dados definitivos, isto é, as informações conclusivas dos governos do Brasil e da Bolívia.

Empolgada a imaginação romântica dos conspiradores, logo fizera-se notar a explosão de entusiasmo dos poetas e letrados, que contava com a participação do Coronel Rodrigo de Carvalho, Administrador da Secretaria de Fazenda do Amazonas na região acreana, o qual não cessava de angariar apoio, entre Belém e Manaus, conquistando aprovação de comerciantes e da imprensa para o movimento revoltoso.

Ao atingir Lábrea, no rio Purus, a expedição começara a tomar real conhecimento da situação ao longo dos rios Purus, Acre e Iaco.

As manifestações eram bem acaloradas, defendidas por puro patriotismo, tanto pelos expedicionários, quanto por alguns seringalistas, que, em algumas situações, protagonizavam irrefletidas atitudes de coerção, a exemplo de forçar um escolhido prisioneiro boliviano a saudar o Acre independente, punindo-o com o fuzilamento, quando não fosse obedecido.

Muitos dos intelectuais, exaltados, chegaram a exceder-se na conduta pessoal e no arrebatamento de ideias mirabolantes, como o sonho de afortunarem-se, absortos na riqueza da borracha, outros na investidura de um futuro alto cargo vitalício, e aqueloutros simplesmente no extermínio sanguinário dos bolivianos.

Não obstante ao notável estado de espírito de brasilidade, refletido no empolgante poder de oratória que inflamava os ânimos, os expedicionários, em termos de guerra, eram totalmente despidos de qualquer conhecimento da mais rudimentar regra de combate.

Sempre objetivando aceso o espírito de luta incessante contra o domínio boliviano, a plêiade brasileira mantivera os ânimos revolucionários até ao limite da saturação da conjuntura.

Os bolivianos, por sua parte, estavam cientes do desenrolar dos acontecimentos no Acre, sobre os quais remetiam às autoridades brasileiras federais, consideradas avaliações, com pedidos de medidas contra possíveis sublevações, que não apenas estariam a sentir como a pressentir.

Em suas considerações ao Ministério do Exterior os bolivianos, com efeito, passaram a invocar princípios e teorias de Direito Internacional, com conclusões buscadas em lições de Direito Público e encerradas com preocupantes protestos.

Os expedicionários intelectuais prosseguiam em seus firmes propósitos, porém sem a devida organização e muito menos método de combate, fazendo-se sentir as desagregações de forças, subdivididas em vários grupos, com comandos diversificados e sem posições definidas.

Revelada na mais completa desinteligência, atingindo o mais absurdo desentendimento, a Expedição dos Poetas passara a enfraquecer-se, comprometendo o grupo, já debilitado pela ausência de coordenação militar.

Um mau pressentimento misturava-se com o pouco entusiasmo da tropa brasileira, que já alimentara o plano de atacar Puerto Alonso, na ante véspera do Natal de 1900. Mesmo assim seguiram os poetas, por água e por terra, para sitiar a cidade dos bolivianos, munidos de um canhão e uma metralhadora, além de fuzis e espingardas, destacando-se o empenho de Gentil Norberto, Orlando Lopes que, apesar dos desentendimentos decorridos pela autopromoção bilateral, jamais esmoreceram em seus propósitos.

Chegaram, com sacrifícios ao barranco em frente a Puerto Alonso e, finalmente, abriram fogo, quando, pela primeira vez o canhão trovejara nas brenhas do Acre. Os bolivianos não esperavam, porém, possuidores de conhecimentos militares, em pouco tempo de ação destroçaram a Expedição dos Poetas, infligindo-lhe uma severa lição bélica.

Pronunciada a derrota, os atacantes brasileiros dispersaram-se, abandonando o famoso canhão no chavascal para onde levara a tática desastrosa dos expedicionários.

O fracasso revolucionário dos intelectuais guerreiros ecoou em Manaus, de maneira dolorosa.

Não preocupando-se em fazer justiça aos seus companheiros, o Coronel Rodrigo de Carvalho, em correspondência ao governador Silvério Nery, arremeteu em farpas dizendo que não houvera ditado ordens de guerra, porque os expedicionários diziam-se sábios nela e que jamais julgara que pela cabeça de “tão ilustres generais passasse a ideia de deixarem lá os canhões em frente ao inimigo”.

Do desastre da Expedição dos Poetas, porém sabe-se que o que mais doera ao Coronel Rodrigo de Carvalho fora a perda do canhão e da metralhadora da polícia amazonense.

A expedição debandara, desiludida dos louros da guerra e justificando a indisciplina como o estado geral dos espíritos espantados. Quase todos os poetas e letrados da expedição volveram a Manaus, deixando pelos seringais acreanos um ar de desânimo e lástima.

A Bolívia, por suas autoridades no Acre, passara a efetuar prisões e entrara a tomar medidas mais sérias de prevenção. Porém, uma atitude do governador do Amazonas irritara os bolivianos, pronunciando-se um sério movimento diplomático entre as chancelarias brasileira e boliviana. Trata-se da Mensagem governamental de 1901, quando o Sr. Silvério Nery abordara a questão acreana, para, textualmente, “render um preito de homenagem àquela porção de brasileiros que, em zona longínqua, regaram com o seu sagrado sangue a ideia patriótica de fazer permanecer brasileira a larga faixa de terra ora ocupada pelo estrangeiro, que o governo vê-se obrigado a respeitar por força de um tratado. Homens que, arriscando a vida, conseguiram construir habitação, construir um lar, fundar uma propriedade em territórios inexplorado, que possuíam como pedaços da pátria, a cujas leis eram obedientes, não se podem conformar a ver, de um momento para outro, perdidos todos os seus esforços inteligentes, passando a leis diversas em estranha pátria. Honra a esses bravos! Paz à memória dos que pereceram!”

A 2 de abril de 1902 chegara a Puerto Alonso Dom Lino Romero, nomeado Delegado Nacional. Homem arguto e prático, cujas franquias governamentais raiavam pela ditadura, criou imediatamente uma situação destinada a favorecer todas as pretensões da Bolívia.

O novo mandatário boliviano, como ditador, impusera tributos odiosos à população, assim como marcara prazo exíguo para o registro dos processos de medição e demarcação dos seringais, ameaçando a quem o descumprisse, que perderiam suas terras, consideradas baldias ou devolutas, delas passando a dispor a Bolívia, “sem direito da mais leve oposição, embargos ou protestos”.

Muitos proprietários não possuíam, ainda, a legitimação de certas formalidades proteladas, dependendo dos requisitos legais da propriedade. A autoridade boliviana passou, então, desmedidamente, a dilatar as áreas de demarcação, chegando a invadir a território amazonense, “compreendendo todos os seringais abaixo da linha Cunha Gomes.

A população brasileira irritara-se e a ideia de varrer dali o boliviano recrudesceu, principalmente quando, a 29 de junho, um informativo boliviano declarara que “pretender que o Brasil intervenha em assunto da Bolívia, nos quais não tem por que intervir, é absurdo e impolítico. Crê a imprensa amazonense que a Bolívia não saberá defender seus direitos e não saberá lutar por eles com a bravura do que se vê injustamente ferido? Crê essa imprensa mercenária que se pode invadir o Acre com cem homens? Caso se repetissem as agressões à mão armada que ocorreram no ano de 1900, poderiam repetir-se também as derrotas que sofreram as forças revolucionárias em vários pontos deste rio”.

A lembrança provocadora da derrota humilhante do Natal de 1900 doera profundamente, e aquela ameaça, por certo, irritara sensivelmente o âmago brasileiro.

O amontoado de ofensas partidas dos bolivianos viera acirrar a animosidade brasileira, fazendo com que os acreanos fugissem do domínio boliviano, pondo-se em lugares seguros para a conjuntura.

Os brasileiros Rodrigo de Carvalho e Gentil Norberto, não obstante debruçarem-se em planos para a conquista do Acre, particularmente viviam às turras, inculpando um ao outro pela derrota de 1900. Essa desavença, em tese, deprimira os fins patrióticos da revolução.


Leia aqui a série


* José Augusto de Castro e Costa é cronista e poeta acreano. Mora em Brasília e escreve o Blog FELICIDACRE.

domingo, 9 de setembro de 2012

À PUTANESCA

Leila Jalul


Ava Gardner
Carmélia e Ava Gardner não se conheceram, nem por meio da telona. A beleza e a semelhança entre as duas, no entanto, faria qualquer cristão imaginar que estava vendo coisas. Nem sei qual foi o lugar onde Ava nasceu.

De Carmélia, sei que nasceu no Acre, viveu no Acre e morreu no Acre. Isso é o bastante. Se fez e se criou na curva do tempo. Num lugar onde o remoto ainda queima e o futuro era e é desprovido de porvir.

Conheci Carmélia quando comprei uma casa sem número numa rua com nome de um general qualquer, sem sobrenome. Os vizinhos, um tanto de gente também sem sobrenome. Lugar perfeito para esconder minha identidade sem desejo de aparecer. Coisa boa.

Como alternativa de me enfiar no meio das vizinhas lavadeiras, nada mais restava senão aproveitar os olhos d'água e lavar meus trapos, ali, juntinho, e, numa conversa de comadres, portar-me como uma delas. Tempos bons.

Carmélia era fera. Enquanto eu lavava uma bacia, ela já vinha com o angu. Nada de Confort, nada de cheiros, de clareadores. Tudo no muque. Uma tábua na frente, dois nacos de sabão Zebu, e lá estava tudo lavadinho, enxaguado com a erva catinga de mulata, pronto para secar e passar, fazer a trouxa, embrulhar com jeito numa toalha felpuda, prender com dois alfinetes de segurança e entregar para a patroa. Cacete de agilidade!

Aí, no meio dessa algazarra, resolvi fazer a horta comunitária. Precisava fazer com que aquelas meninas aprendessem o valor da berinjela, da rúcula, do agrião de terra molhada, do espinafre, da azedinha, do manjão gomes. Precisava dizer da riqueza dos talos, das vitaminas do sopão de ossos, do caldo engrossado com aveia Quaker. Coisas que a gente aprende com quem entende e ensina para quem ama.

Carmélia era atenta. Atenta até que as disfunções da menopausa a tornassem quase uma demente. Na falta de condições para a reposição de hormônios, seus filhos preferiram interná-la no antigo hospital dos doidos. Ali era o lugar certo para quem enfiava a cabeça na geladeira e tomava banho de água gelada em plena noite de junho, inclusive nas em plenilúnio.

Depois dos achaques, Carmélia, todos os dias, antes das seis da matina, me procurava e dizia:

– Posso entrar?

– Claro!

– Posso plantar?

– Pode.

– Aqui, nesse canteiro?

– Sim, Carmélia, pode plantar.

Em silêncio, Carmélia plantava pés de macarrão espaguete, enquanto eu regava os canteiros de manjericão, hortelãs e os das alfavacas que teimavam ser maiores que os nanicos da região.

No dia em que Carmélia Gardner morreu, servi (por acaso?), no almoço, um espaguete à putanesca. Coisa fina, aprendida com os italianos, preparado num panelão que me foi dado pelas minhas comadres lavadeiras da Rua General Severiano. Coisas que a gente aprende com quem entende e convida a quem ama.
 
 
* Crônica também publicada no site Lima Coelho.