quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

JOSÉ LOPES MARQUES: DOIS SONETOS SOBRE A VIDA E A MORTE

O MONÓLOGO DO ZIGOTO
José Lopes Marques

É o Beta evidência do meu ser,
Neste mundo estou e dele ausente,
E o líquido amniótico envolvente,
Minha metamorfose a tecer

O meu grito ainda é tão silente,
Mas sou eloquente em meu dizer,
Tenho o véu placentário a me envolver
E nutrindo meu ser constantemente.

Sou a parte que ao todo contraria,
Meu crepúsculo vital e inquieto,
Tem na plena potência o seu guia.

Desconheço o nome predileto,
Mas sou batizado a cada dia
Por ovo-zigoto, embrião, feto.

Dedicado ao meu filho Tomás quando ele era ainda uma minúscula centelha da existência confinada ao ventre materno. Belém-PA, maio de 2007.

***

É o tocar da última melodia,
pálido som da triste carpideira,
pranteando a viagem derradeira
e a entrega do corpo à cama fria.

Os sentidos entregues à cegueira,
pois a lira imponente silencia,
sol fulgente descansa ao fim do dia,
na antítese da sensação primeira.

Já se faz o mover petrificado,
rio venoso do corpo ‘se evapora’,
o intangível penetra o outro lado.

A fatídica e inexorável hora,
traz a morte com seu funéreo fado,
neste instante toda existência chora.

Belém-PA, agosto de 2006.


> José Lopes Marques é escritor e poeta acreano, nascido em Tarauacá. Formado em Teologia pelo Seminário Batista do Cariri, em Filosofia pela Universidade Federal do Pará (UFPA), especialista em Ensino de Filosofia (UFC) e mestrando em Filosofia pela Universidade Federal do Ceará. Além disso, é professor de Filosofia da rede pública do Estado do Ceará e da Faculdade Batista do Cariri. É autor de Diário de Sonhos do Doutor Satírico (All Print, 2013).
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