segunda-feira, 8 de setembro de 2014

MARINA: DRAGÃO VERDE E AVÓ DO MUNDO

JOSÉ RIBAMAR BESSA FREIRE


Ilmo. Sr. Prof. Dr. Rogério de Cerqueira Leite
Saudações

Inspirado no bolero de Waldick Soriano, escrevo esta carta, mas não repare os senões, para dizer o que sinto sobre o artigo de sua autoria Desvendando Marina, na Folha de S. Paulo, dia 31 de agosto, no qual declara: "Não me sinto confortável em ter como presidente uma pessoa que acredita concretamente que o Universo foi criado em sete dias há apenas 4.000 anos aproximadamente". Para lhe dar algum conforto, mostro que não é bem assim e assinalo três imprecisões no seu discurso.

A primeira está na contagem do tempo. Nota-se que de física V.S. entende muito, por isso ocupa merecidamente um lugar no Conselho Nacional de Ciência e Tecnologia. Mas de criacionismo, necas de pitibiribas. Quem leu os Anais do Antigo Testamento do anglicano James Ussher sabe muito bem que o mundo, criado num domingo à tarde, no dia 23 de outubro de 4.004 a.C, às 14h30, completa 6.018 anos entre um turno e outro das eleições. Tem, portanto, mais de 2.000 anos do que foi calculado por V.S.

A segunda imprecisão: sua crítica ao criacionismo tem como referência uma versão única prestigiada pela escrita, que parte do pressuposto de um Deus masculino como criador do universo. Isso é uma construção judaico-cristã que não pode ser generalizada para todas as culturas, especialmente para as da oralidade. Foi criada por machões incongruentes. Sem útero, como pode Deus parir gente? Para os Tukano – não o PSDB, mas o povo do Rio Negro (AM)  – quem criou o universo foi a Avó do Mundo, a Yepá-Bahuári-Mahsô. Quer saber como foi?

Filho da música

Foi assim. No princípio, o mundo não existia, só havia escuridão e o espaço vazio e triste, o espaço frio e sem ideias, como no horário eleitoral. Eis que surge a Ye´pá, dentro de uma nuvem branca, de brilho intenso, dançando, embalada por cantos sagrados. A música, em forma de redemoinho de vento, abraça, beija e acaricia o corpo da avó do mundo, penetra sua carne, seus ossos e até seus pensamentos e a engravida, fazendo aumentar a temperatura ambiente.   Esse ato amoroso intenso, realizado num clima extremamente quente, provoca uma enorme explosão com um grande estrondo, gerando raios que formam um círculo rosado da cor de jenipapo, todo iluminado. No meio da luz aparece sentada num banco uma mulher grávida de música. É a Avó do Mundo que cria a Casa da Terra, parindo os primeiros seres como narra Gabriel Gentil em Mito Tukano: Histórias proibidas do Começo do Mundo. Ou seja, somos todos filhos da música que fecundou a Avó do Mundo, incluindo aqui – incrível! – os físicos, os matemáticos e todos os representantes do núcleo duro da ciência, mesmo os que ignoram o fato.

A terceira imprecisão é a sua visão fundamentalista sobre ciência. Não me sinto confortável com o inventário que V.S. faz de "todo o patrimônio intelectual que a humanidade acumulou durante séculos", limitando-o exclusivamente ao campo da ciência. Deste patrimônio, onde só cabe a "montanha de dados cientificamente incontornáveis", V.S elimina a literatura, a música, a poesia, o mito e a religião, além de outras instituições igualmente respeitáveis como a fofoca e a jogada-de-conversa-fora.

Este discurso excludente de uma arrogância incomensurável assusta, porque vê a ciência – mais grave ainda uma forma de fazer ciência – como o único procedimento válido para a obtenção de conhecimentos, que seriam eternos, definitivos, o que evidencia incapacidade de ler outras linguagens simbólicas.

V.S. incursiona no campo médico para diagnosticar "uma desordem do desenvolvimento neural" de Marina, criada pela "perversão intelectual do fundamentalismo cristão". E conclui de forma contundente, esperando convencer os leitores da Folha de S. Paulo,  de cujo conselho editorial V.S. faz parte: "Essa é a razão por que espero que Marina não ganhe esta eleição".

O mito

Eu ouvi bem? V.S. falou de "razão"? Será que o pensamento racional, o método e as técnicas científicas suplantaram mesmo o mito e a religião? – pergunta Lévi-Strauss, que vê, sem ironias, a grandeza do Ocidente no pensamento científico, mas chama a atenção para a função do mito na contemporaneidade e mostra como a própria ciência produz mitos para explicar aos não-cientistas verdades inacessíveis ao leigo – big-bang, universo em expansão, etc. Depois de estudar mitos indígenas, ele concluiu em História de Lince que "de modo mais inesperado, é o diálogo com a ciência que torna o pensamento mítico novamente atual". O mistério do big-bang está dentro do mito tukano. Precisa apenas saber lê-lo.

Quem sabe ler e concordou com esse olhar foi um matemático e físico da Universidade da Califórnia, Brian Swimme, autor de vários livros sobre o tema, entre os quais The Universe Story e The Universe is a Green Dragon. Este seu colega escreveu que hoje os cientistas começam a perceber as limitações do texto científico para dar conta do universo e que a linguagem que consegue melhor expressar sua grandiosidade é a linguagem poética, metafórica, que afirma que o universo é um dragão verde.

V.S. conhece muito bem a história social da ciência que nos mostra como o conhecimento científico é resultado de uma acumulação de erros. Essa é, aliás, a grandeza da ciência. Por isso, nela confiamos, mas sempre relativizando. O que é verdade hoje, amanhã pode não ser. Lembro que dois grandes cientistas do séc. XIX, o botânico Martius e o zoólogo Spix, que viajaram em 1819-1820 pelo rio Amazonas, consideraram "fantasioso" o mito Tikuna de origem da vida, que fala de um único ser saído da água e do qual descendem os demais. A ciência da época – foi antes de Darwin e sua teoria da evolução – achava que o homem tinha aparecido no planeta acabado, já pronto.

Hoje, o biólogos ensinam nas universidades que toda a vida existente na terra descende de um único ancestral, de um organismo unicelular que deu origem a todas as espécies vivas, visão mais próxima do mito Tikuna do que da ciência de Martius e Spix. Além do caráter provisório da ciência, o fato mostra que em nossos países "se vê cada vez mais claro que a compreensão do mundo é muito mais ampla que a compreensão ocidental do mundo" – como quer Boaventura de Souza Santos, que considera a negação de outros modos de produzir conhecimento como "epistemicídio".

Rogério epistemicida

Considerada incapaz por V.S. para presidir o Brasil, além do mais Marina está sendo acusada de fundamentalista, homofóbica, cúmplice do capital financeiro e até mesmo protetora de torturadores. O título da matéria na FSP afirma: “Em novo recuo, marina agora defende anistia a torturadores da ditadura". Quando li seu conteúdo, constatei que não era bem aquilo. Os jornalistas pediram, no final da entrevista, que ela dissesse apenas "sim" ou "não" para perguntas no formato "pinga fogo". Revisão da Lei da Anistia? – indagaram. Ela respondeu "não", como Dilma e Aécio. Só isso. Não lhe foi permitido discutir a questão.

Desconfio de tudo aquilo que a mídia anuncia que Marina disse, fez ou fará. Só aceito aquilo que eu puder ouvir de sua voz de taquara rachada e se puder identificar o contexto que lhe dá significado. Não adianta Marina esclarecer que separa fé e religião, na hora de editar eles dão outra interpretação. O Jornal da Globo insistiu várias vezes para saber se ela consultava a Bíblia antes de tomar suas decisões. Além da falta de respeito, William Waack perdeu uma oportunidade de nos apresentar e criticar o programa de governo da candidata. Preferiu folclorizar.

Prezado prof. Rogério, não tenho medo de votar em Marina pelas razões que V.S. alega. Se fosse assim não teria votado no Lula todas as vezes em que ele se candidatou. Sinceramente, estou vagando e andando se Marina acredita que Deus criou o mundo, se Dilma reza para Nossa Senhora Aparecida e vai ao Templo de Salomão, se o pastor Everaldo, escondido, recebe mensagens da pomba gira, se o FHC é ateu ou se na hora de fazer sua primeira comunhão, Rogério Leite acreditava que Deus estava presente na hóstia consagrada, até porque a gente muda como mostram suas propostas em relação ao pré-sal e ao pró-álcool.

O que me interessa é saber o que os candidatos pretendem fazer com o Brasil e, mais especificamente, com as terras e as culturas indígenas – um tópico que não foi ainda abordado por nenhum deles e que é extremamente importante porque as sociedades indígenas constituem um indicador extremamente sensível da natureza da sociedade que com elas interage. No meu entender, é na política indigenista que cada candidato vai mostrar sua cara. Este locutor que vos fala, que é um analógico confesso por limitações genéticas e epistemológicas, espera de lideranças intelectuais, especialmente nos núcleos duros da ciência, um comportamento mais rizomático em relação aos saberes outros. Não seja um epistemicida ingrato, Rogério, reconheça que o big-bang é produto de um ato amoroso e agradeça ao povo Tukano o fato de ser filho da música.

Atenciosamente,
Taquiprati, filho da musica e da avó do mundo.
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