quarta-feira, 10 de agosto de 2016

CAPITAIS DA BORRACHA

Eliana Ferreira de Castela


No contexto das variantes que contribuíram com o imaginário de qualquer pessoa que viveu na Amazônia, no período da borracha está incluso a supremacia que Manaus e Belém exerceram em relação às demais cidades da região.  As duas cidades eram autônomas para cumprir as decisões tomadas pelos países importadores da borracha, decisões do mercado internacional.

Era para Manaus e Belém que os filhos dos seringalistas ou mesmo de famílias mais abastadas, iam para estudar. Vale dizer que a Universidade Federal do Amazonas foi fundada em 1909, a Universidade Federal do Pará, fundada em 1957, enquanto que a Universidade Federal do Acre, só foi fundada em 1974. A defasagem de tempo na implantação do ensino superior nas demais cidades da região era fator hierárquico marcante que reflete o todo desigual definido pela concentração do capital.

O extrativismo do látex, oriundo da seringueira (Hevea Brasillienses), árvore nativa da Amazônia, aconteceu na região, em dois ciclos, orientados por diferentes fatores históricos mundiais. O primeiro ciclo (1870 – 1910) ocorreu face à Revolução Industrial, e teve o aumento da demanda da borracha, com o desenvolvimento da indústria automobilística, com a vulcanização, processo de melhoramento da qualidade da borracha crua para fins industriais, mais especificamente na fabricação de pneus. Até então, a Amazônia era a única região fornecedora mundial do produto.

Mas, a um país como o Brasil considerado atrasado aos “olhos” do capital, não poderia ser permitida a exclusividade de fornecer um produto do valor que tinha a borracha no mercado mundial. Não demorou e o contrabando da semente da seringueira, por parte dos ingleses, assim como o bom desempenho das plantações na Ásia, local para onde as sementes foram levadas e cultivadas em condições favoráveis a atender o mercado internacional, foram determinantes para que em pouco tempo a borracha da Amazônia perdesse a exclusividade e a economia na região, entrasse em declínio.

O segundo ciclo da borracha (1940 – 1950) está associado à Segunda Guerra Mundial, período em que os seringais asiáticos tiveram a produção suspensa, face à intervenção do Japão, país inimigo dos dois maiores consumidores de borracha - Inglaterra e os Estados Unidos. Com o fim de suprir a necessidade, inclusive bélica, os EUA investiu na reativação dos seringais da Amazônia, momento em que novas levas de nordestinos foram para a região, dando continuidade ao processo migratório iniciado no primeiro ciclo da borracha. Mas após o fim da Segunda Guerra, a economia da borracha na Amazônia entrou totalmente em colapso.

Uma característica peculiar no segundo ciclo da borracha é a combinação entre a Segunda Guerra e os interesses nacionais, de promover o suposto desenvolvimento da Amazônia, com a fixação dos migrantes nordestinos na região, para acabar com o “vazio demográfico” que as autoridades julgavam existir, numa recorrente desconsideração das populações indígenas.

É nesse contexto que os nordestinos, em especial os cearenses, são convocados à escolher entre lutar na Segunda Guerra Mundial ou lutar na “batalha da borracha”, na floresta amazônica. Homens e mulheres são “transfigurados” em soldados da borracha, soldados sem farda e sem quartel, investidos do espírito cívico de defesa da nação, imposto pelo Governo de Getúlio Vargas. O hino do seringueiro, de autoria popular, diz do compromisso que eles tinham, ou melhor que lhes fora imposto, como defensores do Brasil:


“Vamos dar valor ao seringueiro,
Vamos dar valor a esta nação,
Porque com trabalho deste povo
É que se faz pneu de carro e pneu de avião.
Fizeram a chinelinha, fizeram o chinelão
Inventaram uma botina que a cobra não morde não”

“Tantas coisas da borracha eu não sei explicar não
Encontrei pedaço dela em panela de pressão.
Não é com chifre de vaca que se apaga a letra não 
São produtos fabricados feitos pelas nossas mãos.”

Se ainda hoje a comunicação entre a Amazônia e as demais regiões do país é precária, quanto mais no período da borracha, quando os meios de comunicação eram muito mais deficitários, sendo um fator que colaborava com a comunicação direta entre as duas capitais, Manaus e Belém com o exterior, mantendo pouca relação interna, com o Brasil. De certa forma essa autonomia favorecia a concentração dos lucros nas duas capitais, o que possibilitou na implantação de uma infraestrutura urbana, características da Belle Époque europeia.

É importante lembrar que a borracha chegou a ser um dos principais produtos de exportação nacional. Wilson Cano (1981) demonstra a importância da borracha, ao lado do café. No período considerado o boom, de 1901 a 1910, a borracha atingiu o valor correspondente a 78,3% do valor do café, que era produzido nas regiões mais desenvolvidas do país e evidentemente, em condições de produção que eram muito superiores às condições que a borracha era produzida, incluindo aí, fatores relevantes como, transporte, energia e mão de obra, principalmente.
          

 Teatro Amazonas, Manaus - AM  
Fonte: Francisco Dandão, 2013


  Theatro da Paz, Belém - PA  
Fonte: Oliveira de Castela, 2015

Os investimentos, fruto dos lucros com a economia do látex, em Manaus e Belém buscavam atrair mão de obra e oferecer aos coronéis da borracha, o lazer e as condições de urbanidade à altura de seus padrões econômicos.   Enquanto isso, os seringueiros amargavam na labuta com o corte da seringa, enfrentando dificuldades diversas para sobreviver na floresta, contraindo doenças como a malária e a febre amarela, riscos com os animais da floresta e o pior de todos os males na minha concepção, a relação com os patrões, que tornava o seringueiro preso à dívida impagável, com os barracões que mantinha as famílias sempre na pobreza.

O barracão era a unidade do seringal onde o seringueiro entregava a sua produção de borracha e recebia o pagamento, que era feito principalmente em insumos necessários ou minimamente necessários, para a manutenção das famílias no interior do seringal. Podemos considerar que o Barracão tem também seu valor simbólico, era a sede dos sonhos não realizados e da desilusão de se ter uma vida digna. Isso porque a prática comum, é que não se efetuava o justo pagamento pela produção do seringueiro e os produtos fornecidos eram superfaturados, depreciando em muito a mão de obra.

As cidades de Manaus e Belém sofreram mudanças locais profundas, ao longo dos dois ciclos da borracha. Primeiramente com o aumento populacional e as condições de vida das pessoas, tanto no trabalho com a borracha, quanto posteriormente com a desativação dos seringais.

O ambiente físico natural também sofreu alterações, com o soterramento de vários igarapés, para instalar uma infraestrutura nos moldes europeus, expresso na arquitetura que tem como ícone a construção do Teatro Amazonas, mas também expresso em igrejas, no Mercado municipal e  no Palácio Rio Negro. Com a decadência da economia gumífera, quando os seringais deixaram de atender ao mercado internacional, o êxodo rural deu nova cara às cidades que incharam, quando muitas famílias deixaram as florestas e foram para a área urbana.

No processo de migração para as cidades, as pessoas se instalaram em condições precárias, em palafitas, sem infraestrutura básica, sem emprego, escolas e saúde. Sem receber dos governantes a atenção que a situação requeria, as pessoas viviam completamente à margem da riqueza herdada da produção da borracha. Fato que ainda hoje é realidade.

 O êxodo rural, como consequência do fim da economia da borracha na Amazônia ocorreu em toda a região. A ocupação desordenada das cidades e a destruição ambiental nos espaços urbanos e rural foram marcantes em função do redirecionamento da economia, que migrou para o extrativismo madeireiro, a pecuária com a instalação de inúmeras fazendas de gado e o garimpo. Estes foram projetos de grupos econômicos que já vinham sendo beneficiados desde o período da borracha.

Os benefícios concedidos aos empresários estavam relacionados à redução de impostos, empréstimos de dinheiro público a fundo perdido e outros tipos de favoritismo por parte do Governo Federal. Para os seringueiros e pequenos produtores a mudança da economia tratou-se apenas de novos ciclos de exploração, eles continuavam excluídos dos lucros da riqueza gerada a partir de seu trabalho. Após a borracha, muitos seringueiros que eram posseiros dos antigos seringais foram expulsos das terras ou assassinados, gerando conflitos que também motivaram as grandes levas de famílias para as cidades.

Depois dessa muitíssima breve contextualização histórica, que tem como objetivo levar as pessoas que não conhecem a região, a dar um mergulho no que é essencial para a abordagem amazônica. Assim podemos voltar à viagem que realizamos em 2015.

Nas cidades de Manaus e Belém pode-se ver na paisagem a marca das transformações sociais numa composição de fácil percepção, por se tratar de cidades inchadas, com muita gente morando em palafitas. No que concerne ao trabalho muitas pessoas ocupadas no mercado informal, como vendedores ambulantes e estivadores sem carteira assinada, que fazem o descarregamento de produtos dos barcos, para abastecer os mercados. E na arquitetura, herança deixada pela borracha, com a existência dos teatros, mercados, igrejas e portos que abrigam características históricas.

            Não se pode passar por Belém, sem tomar uma água de coco, é o lugar onde o fruto tem o menor preço, entre as capitais brasileiras. Depois visitar o Mercado Ver-O-Peso, para observar a movimentação dos trabalhadores, atores sociais que têm o mercado, como palco que exibe um espetáculo de cores e sons originados da movimentação dos corpos e dos produtos, um cenário singular.

Ainda no Ver-O-Peso é bom circular entre as bancas abastecidas de peixes, cereais, batatas e frutas… Sentir o forte cheiro das plantas medicinais, dos condimentos que temperam os saborosos pratos, preparados com tucupi, jambu, a goma de mandioca, entre outros alimentos.

Se por acaso não se pode ficar para comer as iguarias oferecidas em pequenos restaurantes e lanchonetes, vale ao menos tomar um suco que pode ser de taperebá, cupuaçu, graviola ou bacuri, este último é o meu preferido.  Olhar o rico artesanato e depois sair caminhando até as docas, para tomar um sorvete de frutas regionais. Foi no sorvete que pude matar a saudade de dois sabores de frutas da infância, que não consegui encontrar em Rio Branco, bacaba e bacuri. Os sabores são inspiradores:


BACABA E PATAUÁ

Minha aldeia está escassa
De valiosas palmeiras
Na feira não tem bacaba,
Isso não é brincadeira!
E nas matas só se encontra
Uma aqui, outra acolá…

Mas quem sumiu de uma vez
Foi o fruto gorduroso,
Cujo nome é patauá.
Seu azeite era um colosso
Fazia parte da mesa,
No jantar e no almoço.

Só resta agora o açaí,
Este com grande fartura
Talvez, porque o açaí
Seja uma fruta de cor
Ora só, mas que besteira…
Não tem fruta incolor.

É que o açaí, minha gente,
Caiu na boca do mundo,
Patauá e a bacaba
Não puderam chegar lá
Foi grande o desmatamento,
A bacaba, quase acaba
E o patauá, ao Deus dará…

A título de provocação ao leitor que desconhece as frutas da região, cabe bem um destaque para enaltecer o bacuri, fruto da Platonia esculenta, grande árvore da Amazônia, até mesmo porque viajar pela região é um passeio pela gastronomia. No Acre o fruto é raro, só se encontra na época, e não se produz nenhum alimento, dele derivado. Diferentemente de Manaus e principalmente Belém, onde se encontra o fruto, em tamanho maior que no Acre, o que favorece a produção de muito suco e sorvete, mesmo fora da época, quando a polpa é congelada e consumida ao longo do ano.

Vale destacar que o suco e o sorvete de bacuri são mais caros de que muitos outros frutos regionais. Isso pelo fato da fruta dispor de pouca polpa e claro, a valorização dada pelos locais e pelos visitantes, em razão da textura macia e do delicioso sabor, um agridoce incomparável.

            Em meio a um suco e outro, chega a hora do almoço, a melhor opção é um prato de peixe, seja ele pirarucu, tambaqui, pacu e tantos outros que desconheço os nomes. Pode ser frito, assado cozido ou moqueado. Seja regado ao tucupi, leite de coco ou mesmo no caldo. Depois de tanta comida o corpo pede uma rede, mas é melhor fazer uma caminhada para visitar os monumentos de Belém. Observar a arquitetura pelas razões referidas anteriormente e entender um pouco da História da cidade. Nem é preciso repetir que o mercado Ver-O-Peso é o ponto de partida.

O ideal é que cada visitante faça o seu roteiro, desde que inclua o Forte do Presépio, o Theatro da Paz, a estação das docas e a casa das onze janelas. Tanto em Manaus, quanto em Belém a sugestão aqui é centrar a atenção nos trabalhadores das regiões portuárias e dos mercados. Lançar um olhar especial às crianças da Amazônia, que estão “há anos luz” de distância, de dispor da atenção merecida.

Em Manaus, nossa estada foi cheia de particularidades na companhia de amigos, velhos e novos. O carinho da hospedagem na casa de Laudicélia, Antonio e seus filhos, que nos fizeram desfrutar do convívio familiar, saboreando muitas tapiocas e charutos de couve com carne moída, no estilo bem acreano, afinal eles são do Acre também.

Ainda na companhia de Laudicélia e Antonio fizemos um passeio pelas ruas sombreadas de mangueiras e como não poderia deixar de ser, pelo mercado, para olhar as diferentes espécies de peixes, o descarregamento dos barcos, o frenético movimento dos trabalhadores que sobem e descem escadas e rampas transportando mercadoria. Depois de tudo apreciar, compramos algumas frutas, para em casa fazermos a maior festa com as crianças, que leram poemas e ouviram atentas algumas canções.

Entre folhas fizemos novos amigos nos dias manauaras, numa corrente do bem que, segundo a Rosângela Cardoso, a corrente tem um forte elo que é a Elione Benjó. Esta amiga, também é do Acre, se lá não nasceu, mas por lá viveu muitos dias. Foi nas reuniões da Secretaria Regional do Acre, da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência – SBPC, que conheci Elione Benjó, juntas aprofundamos os debates acadêmicos e científicos no Grupo de Estudos dos Povos Nativos – Gepon. As discussões científicas e a amizade foram se fortalecendo com o tempo, a ponto de hoje nos tratarmos como irmãs, dado o carinho que temos uma pela outra.

Mas porque iniciei o parágrafo anterior falando sobre, entre folhas e Rosângela Cardoso? Esta nova amiga abriu as portas de sua casa para nós e fizemos a maior festa, junto à família dela, com direito a peixe assado na brasa, para o almoço, café com tapioca para o lanche, fotografias das plantas e cotias, no quintal, cantorias e muita conversa boa.

Rosângela é uma artista que utiliza a técnica monotipia, para pintar camisetas, com folhas exclusivamente da Amazônia. Seu ateliê é na sua própria residência, ambiente mergulhado em plantas nativas e cultivadas que inspiram a produção de obras de arte, embora feitas para vender, não podem ser vistas como meros produtos comerciais.

Anama é a logomarca da arte de Rosângela Cardoso, que por enquanto pode ser adquirido em dois lugares - na galeria Amazônia, em Manaus e na loja Arco Íris, em Alter do Chão – PA. Este comercial não envolve valor financeiro, mas mesmo antes de pensar em fazê-lo, fomos presenteados por ela, com duas camisetas, uma com pintura da folha do cupuaçu e outra com a folha da taioba. Mas é bom o leitor saber que a folha da taioba da Amazônia, não é comestível, dela come-se a batata, embora a folha da taioba do Sudeste brasileiro seja semelhante a da Amazônia, são plantas diferentes, nada que um agricultor ou botânico não possa explicar melhor.
 
Camisetas da Rosangela Cardoso
Fonte: transeunte em Alter do Chão - PA, 2015

            A visita à casa/ateliê da Rosângela foi na volta do passeio da Praia da Lua, que Elione nos levou. Local onde podemos armar a rede, literalmente dentro do rio, nas árvores que povoam a praia e adentram as águas. Comemos Jaraqui assado na brasa, tomamos banho no rio Negro, aproveitando o máximo possível o dia de sol, só não esperamos a lua chegar. Um dia para não ser esquecido! 

            À noite, quando já nos encontrávamos instalados no barco que teria destino a Alter do Chão, no porto de Manaus, fomos surpreendidos com a presença da Rosângela que nos levou um pão caseiro integral, com linhaça, embrulhado com imenso capricho num guardanapo de tecido quadriculado, vermelho e branco, com borda rendada, um luxo!


> Segunda crônica que integra o livro, ainda não publicado, intitulado “Pelos rios ao sabor da fruta”, relato da viagem dos artistas Eliana Castela e Jorge Carlos, o Mané do Café, realizada no período de setembro a novembro de 2015, do Acre ao Ceará, com paradas em algumas cidades, a buscar a relação que se estabeleceu entre as pessoas da Amazônia e do Nordeste, a destacar as condições de vida das populações na atualidade. ELIANA CASTELA é natural de Rio Branco. Ativista cultural, é formada em Geografia (bacharelado e licenciatura) pela UFAC, especialista em História da Amazônia e mestre pela Universidade Federal de Viçosa. Leia aqui a primeira crônica da série.
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