quarta-feira, 17 de agosto de 2016

A “PÉROLA DO TAPAJÓS”

Eliana Ferreira de Castela

           
Santarém é o terceiro município do Estado do Pará em número de habitantes, fundada no século XVII, a “Pérola do Tapajós” como é chamada, é uma das cidades mais antigas da Amazônia. Mas para nós foi apenas um lugar de passagem obrigatória, tanto para ir a Alter do Chão, quanto para a Floresta Nacional do Tapajós.

O porto e os ônibus intermunicipais que ligam Santarém às demais localidades, partem do centro da cidade, local por onde passamos várias vezes. O sol escaldante exigia um suco de frutas regionais, graviola, cupuaçu, acerola... Opa, esta última não é bem regional, ou pelo menos não era. Eu só conheci acerola depois de adulta, mas a fruta é tão abundante na Amazônia que até parece ser originária da região.

Há informações que precisam ser estudadas e melhor conhecidas, de que a acerola entrou na região como um dos itens dos chamados “cultivos alternativos”, aqueles que são “sugeridos” em políticas públicas, com o fim de promover renda aos camponeses, como ocorre em países produtores de coca, na América. Mas parece que a tentativa com a acerola tem gerado, para alguns camponeses em Rondônia, uma dívida com o financiamento que eles não têm conseguido pagar. São essas pequenas realidades que a Amazônia abriga e ficam ocultas na floresta, onde a grande mídia não quer entrar.

De qualquer forma vale dizer que a nossa preferência é pelas frutas locais e quando possível, as frutas da época. Por isso não tomamos nenhum suco de acerola, ao longo dos dois meses de viagem, mesmo a fruta constando nos cardápios de todas as cidades por onde passamos.

Foi numa das paradinhas para tomar um suco, dessa vez de cupuaçu, que o dono do pequeno comércio, julgando que éramos do sul, devido a aparência de gringo que o Jorge Carlos vem adquirindo com o passar dos tempos, nos fez a seguinte pergunta – o suco de cupuaçu é com ou sem caroço? Peguei o cara na virada, respondendo – com caroço, que é muito melhor! Ele deu uma risadinha sem graça, ao perceber que estava falando com quem conhece do assunto. E mais sem graça ficou, porque ele não tinha o suco com caroço, pois nenhum comerciante vende suco com caroço, só se toma em casa. Mas tudo ficou num bom clima de brincadeira.

Para quem é da região e da minha idade, sabe que tomar suco de cupuaçu na infância, tinha que ser com caroços, para chupá-los até ficar liso. Na maioria das famílias, o suco não era servido em jarras, tinha que ser na panela, tirado com a concha, pois a meninada era numerosa e mais, o suco era feito manualmente, liquidificador é coisa moderna.

Ainda hoje, algumas famílias fazem o suco manualmente. Corta-se a polpa com a tesoura, depois de juntar o açúcar à polpa e caroços vai mexendo e espremendo com as mãos, até retirar o máximo de sumo possível, o que é facilitado pelo açúcar. O sabor é muito diferente daquele suco preparado com o liquidificar, vendido nas lanchonetes.

 A brincadeira do dono da lanchonete do suco de cupuaçu rendeu, pois um rapaz que se encontrava no local, percebendo que estávamos de viagem, puxou conversa para saber de onde éramos, ao dizermos - do Acre, ele se desdobrou em cortesias e disse que morou no Acre, na cidade de Tarauacá, que tinha fazendas, que era amigo do fazendeiro tal, dizia um nome e perguntava – vocês conhecem? Com a nossa negativa, ele dizia outro nome, e outros nomes mais, como não conhecíamos nenhum de seus amigos, o jeito foi mudar de assunto.

O rapaz continuou a falar de seus bens, inclusive que tinha casa em Alter do Chão, disse que viajar de barco era desconfortável e outros assuntos que ele puxava ia confirmando que vivíamos em mundos bem distintos. Ao dizermos que iríamos ao porto, comprar previamente passagens para Belém, ele questionou várias vezes - por que não vão de avião?

Por fim, o rapaz insistiu bastante para aceitarmos uma carona, no seu tremendo carrão, Hilux, com o ar condicionado regulado numa temperatura quase 0º, bancos de couro e outros equipamentos que um veículo moderno de luxo pode ter. Tudo isso, só porque somos do Acre! Em meio às divergências do modo de vida dele e o nosso, ficamos agradecidos, na certeza que ele quis mesmo agradar.

A riqueza natural da bacia do Tapajós, com rio de água clara e abundante, praias a perder de vista, vegetação diversificada e gente acolhedora, dispensaria qualquer outra beleza construída pelas pessoas. A cada obra que construímos destruímos outra já prontinha pela natureza, mas viver humanamente é transformar e destruir.

O planejamento da destruição das belezas do Tapajós já está elaborado. Atualmente estão previstas, e algumas em fase de execução, em torno de quarenta hidrelétricas, na Amazônia, cinco delas no Tapajós, a primeira a ser construída é a usina de São Luiz do Tapajós, que já vem sendo questionada a nível mundial, por apontar impactos desastrosos como a inundação das terras de populações indígenas do povo Munduruku, assim como todo o conjunto catastrófico, próprio da implantação das hidrelétricas.  

“Jamaguaringos”

As cores são recursos fundamentais na definição dos caminhos navegados pelos rios, Madeira, Solimões, Negro, Amazonas, Tapajós e seus tantos afluentes. Águas barrentas, negras, transparentes, cinza, verde, que banham areias brancas, floresta de múltipla tonalidade, pessoas de pele dourada do sol. O Sol… componente e contraste na paisagem, que devido a estiagem naquela época do ano, período das queimadas, a beleza entristece.

O poente fora substituído pelo que resolvi chamar de Sol Minguante, pois ele era engolido pela densa camada de fumaça que se formou no horizonte e mergulhava no rio, isso foi observado por toda a região, ao longo dos Estados do Acre, Rondônia, Amazonas e Pará. O colorido tem também a cor da destruição, que esconde a paisagem, com a fumaça das queimadas. O pôr do Sol, só pôde ser plenamente contemplado a partir de São Luis do Maranhão.

Sol Minguante

Mesmo com a luz,
Vive-se a escuridão,
Fumaça densa,
Fuligem, carvão...
Não há ocaso,
Sol em chamas
Natureza clama
Esfumaça a estação.

Foram mais de vinte dias na tentativa de fotografar o pôr do sol. Inútil intuito, vermelho, ele era queimado pela prática adotada na região, para limpar a terra, desnudá-la, vesti-la de soja, pasto e outras vegetações que o mercado elegeu como as mais lucrativas. Vale ressaltar que as queimadas ocorrem também nas áreas de conservação ambiental, como pudemos comprovar na Floresta Nacional do Tapajós – (Flona Tapajós), muitos foram os focos de incêndios que identificamos, tanto ao longo das estradas como na margem do rio Tapajós.

         Alter do Chão é a porta de entrada para a Flona, mal chegamos àquele lugarejo onde tudo acontece em função do rio Tapajós e de suas praias, fomos tomar uma sopa, numa pequena lanchonete, lá encontramos o velho do rio, Paulo Ganv, como ele mesmo diz - um pirata, que não faz parte da Associação de barqueiros, que não quer envolvimento com turistas sofisticados e por isso vive à margem dos pacotes turísticos e nas margens e leito do Tapajós, com uma programação alternativa, para quem não pode pagar altos preços - os “duristas”, termo que ele usa, para os turistas sem dinheiro, esses são os seus clientes.

Paulo conversava com um argentino, que havia chegado à Santarém, no mesmo barco que nós, fato que ajudou na aproximação de Paulo, para fazer a propaganda da excursão que realizaria no dia seguinte, quinta-feira, saindo de Alter do Chão para as comunidades de Jamaraquá e de São Domingos, na Flona Tapajós, retornando no sábado.

Mapa das Comunidades da Flona Tapajós
Fonte: Oliveira de Castela, 2015

Paulo é um sonhador que improvisa na viagem, a convivência familiar entre desconhecidos que fazem o passeio. Ele sugeriu que comprássemos os alimentos de nossa escolha, mas ao entrar no barco, o propósito era cozinhar juntos e harmoniosamente. Assim, fizemos a viagem juntamente com uma família de colombianos integrada por um jovem casal de artesãos, Carol e Camilo e as mães de cada um deles, Lilibette e Pilar. Além dos colombianos foi também, o filho do Paulo de mesmo nome do pai e sua namorada Adriana, um total de nove pessoas, para um barco com capacidade de doze passageiros. 

A viagem foi uma aventura que durou de quinta-feira de manhã, ao fim da tarde de sábado, quando retornamos a Alter do Chão. Nossa primeira parada foi para o almoço, na praia do Pindobal. Paulo filho e Camilo voluntariaram-se para fazer a comida. Paulo Ganv afastou-se do grupo, sem se deixar perceber, para recolher uma considerável quantidade de lixo deixada por outras pessoas na praia. Enquanto os demais nadavam nas mornas águas do rio Tapajós.  Andamos um pouco pela praia de areia branca, apreciando as pequenas árvores que forneciam boa sombra para fugir do forte sol e até para armar uma rede, se o tempo permitisse, mas logo após o almoço seguimos viagem.

 Rio Tapajós
Fonte: Oliveira de Castela, 2015


Navegar pelo rio Tapajós dá a sensação de estar no mar, tanto pelo volume das águas, que não permite ver a outra margem, quanto pela turbulência que oferece eminente risco de virar o barco, se não for a habilidade do barqueiro. No final da tarde chegamos à comunidade de Jamaraquá, na casa de Nice, Rosevaldo e seus cinco filhos, que nos receberam com amabilidade, fornecendo hospedagem e alimentação por um preço muito acessível.

Na floresta de céu estrelado, o silêncio foi o pano de fundo dos cantos, piados, esturros e outros ruídos indecifráveis, o que fez a insônia companheira noturna. O redário, termo local, é onde as redes são armadas. É uma casinha, sem paredes, com finos troncos bem rústicos, que dão suporte à cobertura de palha, denominada jará, muito usada para esse fim. A proximidade entre o redário e a floresta faz supor que a qualquer hora pode-se receber a visita de um animal, um onça por exemplo.

Em toda a região de praia, que costuma receber visitantes, os moradores constroem redários, normalmente com a mesma estrutura descrita acima, apta a atender ao descanso durante o dia, pois o sol obriga a sesta, e claro, a dormida noturna. Não só na Flona, mesmo em Alter do Chão, há vários redários, por ser uma hospedagem de baixo custo que atende a um público específico, como mochileiros e artesãos de vários lugares do Brasil e do exterior. A galera do turismo alternativo.

 No dia seguinte, após o saboroso café da manhã, preparado pela Nice, quando foi servido, sucos naturais, frutas, tapioca e café com leite, o grupo foi dividido, alguns foram fazer o passeio na trilha, conduzido por Rosevaldo, eu e Jorge ficamos com Paulo, para fazer uma caminhada pela estrada até o Igarapé de águas claras e gelada de doer nos ossos, o que só permitia rápidos mergulhos e sair correndo em busca do sol.

No fim da tarde de sexta-feira, demos início à caminhada pela trilha que nos levou de volta ao barco, quando pudemos observar os detalhes da diversidade da vegetação, as grandes e médias árvores de troncos marrons, retorcidos, entrelaçados, com muitos nós na madeira, beleza que não foi vista no dia anterior, quando chegamos à Jamaraquá, pois estava prestes a anoitecer, o que dificultaria a caminhada na trilha.

São Domingos foi a última parada da excursão. A comunidade já se encontra fora da área da Floresta Nacional do Tapajós, mas desfruta de toda a riqueza ambiental da Flona. Chegamos juntos com a noite, atracamos na praia, sob a luz da lua cheia, que caprichosamente clareava o rio, a areia branca, os pequenos galhos secos caídos ao chão e as pequenas árvores que povoam a praia.

A claridade facilitou a instalação do acampamento, fazendo par com a boa recepção do senhor Luiz, nosso anfitrião em São Domingos. Ele nos aguardava na praia e deu toda a orientação para o grupo que se espalhou, escolhendo os lugares para armar as redes. Ali passamos a melhor noite da excursão e de muitos dias da minha vida. 

O universo de lendas e fatos completava-se sem limites e sem separação, nas histórias contadas pelo Senhor Luiz. Aquela noite na imensa praia branca, enluarada, de céu repleto de estrelas e objetos voadores não identificados, vistos pelos amigos que estavam conosco, rendeu muitas conversas na manhã seguinte e serviu de motivação para se pensar num breve retorno ao local.

Ao despertar no sábado, pôde-se ver outra beleza da praia que passara a ser iluminada pelo sol de São Domingos, depois do cafezinho no barco, seguimos em caminhada pela trilha até a casa de Luiz, o homem da floresta, que estava encantado com a possibilidade de publicar um livro.

Embora ele não o tenha escrito, mas foi ele quem deu todas as informações para uma moça que efetuou a pesquisa. Ele não nos disse o objetivo da pesquisa, demonstrou não saber exatamente, ou talvez não quisesse explicitar. O fato é que ele tem uma boneca do livro, ilustrado com diversas espécies vegetais da floresta do Tapajós, exibindo frutos, folhas, raízes ou sementes, bem como, algumas das propriedades das plantas, de acordo com o uso popular.

Luiz fez algo, que nada tem de novo, que é oferecer o conhecimento tradicional sobre as plantas, para pesquisadores e/ou pessoas de má fé que se aproveitam da facilidade, combinada com a dificuldade de fiscalização e a boa receptividade dos habitantes das florestas. São os laboratórios, empresas de cosméticos e outros grupos econômicos, os beneficiários dessas práticas.

 Segundo Luiz, a moça levou com ela as informações da pesquisa, para efetuar a publicação do livro, deixou com ele um exemplar impresso, encadernado em espiral e não deu mais notícias, desde que saiu de lá, por volta de um ano, embora ele tenha tentando falar com ela, sem obter sucesso. 

É importante esclarecer que este registro em relação a Luiz e a provável pesquisadora, não é uma denúncia, isso por desconhecer os reais motivos que possam se caracterizar como atos criminosos, tanto no que se refere aos propósitos da moça, a quem não posso fazer nenhuma acusação, quanto ao que foi acordado entre ela e Luiz. Porém, considero pertinente trazer à tona, a pirataria da biodiversidade que é uma prática recorrente, no Brasil, não apenas na Amazônia.

Mas Luiz está muito animado, acredita que ela dará retorno e realizará o seu sonho de ter o livro publicado. O livro é resultado de um trabalho que ele nunca havia realizado antes, algo diferente do seu cotidiano. Tal possibilidade o transporta para o mundo das letras, mesmo ele não sabendo ler. A boneca é exibida em suas mãos com imenso orgulho. É o desejo que temos de entrar no mundo do outro e vivenciar o desconhecido. 

LUIZ

Tu,
Índio, caboclo, ribeirinho, pescador...
Quero ler teu livro,
Sem virar páginas,
Mergulhar em teu rio,
Verde, cinza, turbulento Tapajós…

Eu,
Viajo em teu universo,
Tu viajas no meu.
Quero entender da seiva
Que da árvore escorre
E tu conheces.

Tu,
Sem conheceres as letras,
Queres escrever um livro
Assim como escrevo.

Eu,
Mergulho no Tapajós,
Busco em profundidade.
Do rio tu emerges,
Buscas em superfície.

Dois mundos que se entrelaçam
Na busca de cada um
Querendo ler o mundo do outro.

“Deus por Nós” é o nome do barco do Paulo Ganv. Ele não quer que seu barco seja chamado de bajara, termo local denominado às embarcações de menor capacidade, pois afinal, a dele dispõe de coletes salva-vidas, colchonete, fogão e utensílios de cozinha.  Mas todos esses instrumentos não são suficientes para enfrentar a turbulência das águas do Tapajós, é preciso habilidade do condutor e quietude dos passageiros, um movimento brusco e inesperado pode ameaçar a estabilidade do barco. Algumas vezes é necessário esperar as águas acalmarem para seguir viagem. Ainda bem que não precisamos esperar, pois no barco faltava um equipamento fundamental, o farol, por isso a luz do sol foi imprescindível para concluir a viagem.

A tarde findava quando chegamos ao porto em Alter do Chão. Quando digo porto, não me refiro a um local com infraestrutura para tal, é apenas um lugarzinho na margem, perto da casa do barqueiro, onde algumas pequenas árvores povoavam a margem e dentro rio, sendo preciso navegar com cuidado, pois algumas árvores ficam submersas na época do ano em que nos encontrávamos. Face à pouca visibilidade e como dito antes, a inexistência de farol, nosso barco chocou-se com uma das árvores, causando certa apreensão em todos, atenuada pelo fato do impacto ter sido leve e já nos encontrarmos muito próximo à margem.

Finalmente em terra firme, depois de tantas emoções era o momento de encontrar uma hospedagem de baixo custo. Pretendíamos passar mais uma semana por lá. Paulo, o barqueiro já havia oferecido a hospedagem na Casa das Garrafas, a casa de seu irmão, o Pré. Este oferecia hospedagem semelhante ao redário, redes, café da manhã, (pão, café, manteiga, leite em pó), com baixo custo, muitas regras de boa convivência e de preservação da Casa.

A Casa das Garrafas é coberta de palha, sem paredes e claro, sem portas, um quarto na parte superior, que foi colocado a nossa disposição, mas pouco usamos, porque bom mesmo era ficar balançando na rede, o que não era possível no quartinho de cima, senão a casa iria ao chão, devido a sua frágil estrutura.

Pré é uma figura muito interessante, assim como o seu irmão Paulo, os dois são gêmeos, barqueiros e amantes daquele paraíso que engloba o rio Tapajós, a cidade de Alter do Chão, a Flona e as comunidades da região. O Pré não economiza em divulgar a beleza daquele lugar, enquanto ambiente potencial a qualidade de vida de gente e de bicho, por isso divulga somente para as pessoas que passam pelo seu crivo. Após uma investigação informal que ele faz, observando o comportamento de quem lá se hospeda.

Uma vez atendendo aos requisitos do dono da Casa das Garrafas, o hóspede aprovado é detentor de total confiança. Foi o nosso caso, ele nos presenteou com dois documentários sobre a região, onde ele figura como um dos atores. Os filmes tratam da beleza do lugar e das cidades, Fordlândia e Belterra, as quais eu já conhecia suas Histórias, razão da criação e o que levou ao fracasso do projeto que idealizou a formação das duas cidades. Os filmes nos levaram de volta à Flona. Dessa vez não mais de barco, mas pela estrada.

O que estava planejado para acontecer em dois dias, quando pretendíamos ficar apenas em Alter do Chão, foi realizado em dezessete dias, graças aquele encontro do “acaso” com o Paulo Ganv que nos apresentou a Flona e nos levou até o seu irmão Pré, este, que nem perguntou se gostaríamos de assistir aos documentários acima referidos, colocou os DVDs, um seguido do outro e nós fomos tomados pela curiosidade, no final de semana seguinte, pé na estrada. De Alter do Chão para Santarém, de lá para Belterra, onde passamos apenas uma tarde visitando a estrutura deixada pelo americano Henry Ford.

Belterra, de acordo com os documentários, preserva as construções feitas na década de 1930, pela Companhia Ford, de Henry Ford, o que pudemos comprovar. As casas com arquitetura tipicamente americana, igreja e outras construções de um projeto falido, que construiu o nada, no meio do tudo. Digo assim para contrapor aos que consideraram que estavam construindo um “tudo no meio do nada”, como está dito em um dos documentários.

Percebemos que em Belterra já havíamos cumprido nossos interesses, melhor foi seguir viagem para a Flona, onde a agenda pode ser interrompida, mas nunca cumprida totalmente, sempre faltará mais alguma coisa para dar uma olhadinha, seja um pássaro, uma planta ou a lua, em qualquer uma de suas fases. Fordlândia ficou para outra oportunidade.

Em Belterra tomamos um ônibus direto para Jamaraquá, onde permanecemos por três dias. O caminho de volta de “Jamaguaringos” para Santarém foi feito a pé no trecho, de Jamaraquá até São Domingo, passando pela comunidade de Maguary, daí criamos o termo “Jamaguaringos”, para englobar as três localidades. O percurso é de mais de sete quilômetros, se seguir direto pela estrada, mas resolvemos esticar um pouco mais a caminhada, descendo algumas vezes até o rio para tomar banho, refrescar o calor e caminhar descalços pela areia. Um passeio sem pressa. 

> Terceira crônica que integra o livro, ainda não publicado, intitulado “Pelos rios ao sabor da fruta”, relato da viagem dos artistas Eliana Castela e Jorge Carlos, realizada no período de setembro a novembro de 2015, do Acre ao Ceará, com paradas em algumas cidades, a buscar a relação que se estabeleceu entre as pessoas da Amazônia e do Nordeste, a destacar as condições de vida das populações na atualidade. ELIANA CASTELA é natural de Rio Branco. Ativista cultural, é formada em Geografia (bacharelado e licenciatura) pela UFAC, especialista em História da Amazônia e mestre pela Universidade Federal de Viçosa. Leia aqui a segunda crônica da série.
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