sábado, 29 de abril de 2017

ARTE DE AMAR (I 1-34)

Públio Ovídio Naso (43 a.C. - 18 d.C.)


Se alguém neste povo não conhece a arte de amar,
leia este poema e, tendo-o lido, já instruído, ame.
Pela arte os céleres barcos com a vela e o remo são movidos,
pela arte leve é o carro. Pela arte deve ser regido o Amor.
Nos carros e nas flexíveis rédeas Automedonte era destro,
Tífis da nau Hemônia era piloto.
De mim Vênus fez mestre do tenro Amor,
Tífis e Automedonte do Amor eu serei chamado.
Ele, na verdade, é bravo e a mim muitas vezes resiste,
mas é menino, idade dócil e fácil de dirigir.
Filírides com a cítara formou o menino Aquiles
e a alma brava com arte plácida reprimiu.
Quem, tantas vezes os seus, tantas vezes os inimigos aterrorizou,
um velho com muitos anos de vida, acredita-se, temeu.
As mãos que Heitor iria sentir, exigindo-o o mestre,
ao chicote de pronto ele entregou.
Do Eácides Quíron foi preceptor, eu do Amor.
Cruéis um e outro menino, nascidos um e outro de uma Deusa.
Mas até sobre a nuca do touro pesa o arado,
e os freios são mordidos pelo dente do cavalo cheio de ânimo,
e a mim cede o Amor, embora fira com o arco
meu peito, agite e lance suas tochas.
Quanto mais me feriu o Amor, quanto mais violento me queimou,
tanto mais vingador eu serei da ferida feita.
Não, Febo, eu não mentirei que tu me deste as artes,
nem somos instruídos pela voz da ave no ar,
nem por mim foram vistas Clio e as irmãs de Clio
quando guardava os rebanhos, ó Ascra, nos teus vales.
O uso provoca esta obra. A um vate experiente obedeci!
A verdade cantarei. A minha empresa, mão do Amor assisti!
Longe daqui, estreitas fitas, insígnias do pudor,
e tu, longo manto, que cobres a metade dos pés!
Nós a Vênus sem riscos, os segredos permitidos cantaremos,
e no meu poema nada de censurável haverá.

Anna Lia A. de Almeida Prado (tradução) 


NOVAK, Maria da Glória; NERI, Maria Luiza (orgs.). Poesia lírica latina. São Paulo: Martins Fontes, 2003. p.179-181
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