sexta-feira, 14 de abril de 2017

VELHA GAMELEIRA

Elzo Rodrigues

velha gameleira
antigo ancoradouro
de margens escorregadias
testemunho
da história

velha gameleira
ainda se debruça
braços abertos
sobre o rio
a espreitar
em silêncio
o passar da história

velha gameleira
ponto de união
de ardentes namorados
das beiras de barrancos
um tanto solitários
entregues aos jogos do amor
despreocupados
com os preconceitos
na placidez
das noites de sonhos

velha gameleira
onde as balas assassinas
se cruzavam
velozes
na defesa do solo
ensanguentado
pelo poder da ambição

velha gameleira
antigo ancoradouro
de margens escorregadias
em que se travam
as longas batalhas
dos dias ensolarados
ou das noites
tão frias
em nome da liberdade

velha gameleira
quantos heróis
e quantos canalhas
tombaram a teus pés
agonizantes
enquanto tu
hoje agasalhas
a dor
e o sangue
dos grandes guerreiros
e dos grandes patifes
e angústias
dos traidores
e covardes
em nome da pátria
por um nada

tu
velha gameleira
continuas a sentinela
na fugacidade de tua beleza
como símbolo da paz
guardiã da saudade
das alegrias
e tristezas
de outros tempos
que não voltam mais


RODRIGUES, Elzo. Pé no chão: ode ao caboclo da Amazônia. Rio Branco: Dhelta informática, 1990.
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