segunda-feira, 17 de setembro de 2012

A PONTE DO RIO CORAÇÃO

Leila Jalul


Em 93, de forma absolutamente inexplicável, quebrei uma perna em oito lugares. Até hoje ainda creio num empurrão vindo de algum invisível despeitado. Cansada de tanto amassar a minha cama, resolvi ir para Boca do Acre (AM) e amassar a cama dos outros.

E lá me fui com minhas muletas e dois amigos a tiracolo, para qualquer eventualidade. A última vez que lá estive havia sido em 53, quando, à bordo do Navio Benjamim, fui para o internato em Sena Madureira. Situações bem diferentes. Na primeira, fui na marra. Na última, fui por gosto, apesar de estar sem perna.

Boca do Acre me surpreendeu. Da cidade velha, pouco restava. O que vi foi uma estrutura urbana interessante construída na parte alta, chamada de Pequiá.

Logo avisto no porto um aviãozinho dentro d'água, novinho em folha. Fui logo perguntando o que estava fazendo ali aquele troço que pensei nem existisse mais. Um recepcionista do hotel me disse que era da Rede Globo e que estava transportando uma moçada para o Céu do Mapiá. Era a febre desse tempo.

E foi assim que decidi, de pronto, não ficar naquele hotel onde entrava e saía gente barulhenta, sem contar a multidão que se aglomerava na porta para ver o fulano de tal que trabalhava na novela das seis, na das sete e na das oito. Um bafafá!

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Pronto. Decidido. Vou para o São Paulo, que é terra firme. Vou para a casa do meu colega França. Contratei um estivador parrudo, que subia e descia com botijas de gás, para me transportar barranco abaixo. E assim fui para o segundo distrito de Boca do Acre. O apoio logístico que recebi do pessoal da balsa da Petrobrás e da turma da catraia foi perfeito. Nada a reclamar.

Fui recebida com uma cervejada. No trajeto, caras curiosas apareciam. Todos sabiam que o França ia hospedar uma velha de perna quebrada. Me acomodei. França armou uma rede na varanda. Tomei mais cerveja. Nunca tomei tanta cerveja de graça na minha vida. E foi dessa rede que avistei Coração.

Coração, 85 nos costados, andando sem auxílio de nada, também já sabendo da novidade, parou para cumprimentar a hóspede do seu vizinho.

Sabe aquela paixão à primeira vista? Coisa de pele? Fomos, segundo afirmam, feitas uma para a outra. Meus fins de tarde estavam garantidos. Conversar com Coração.

– Coração, me diga, nega, o que que você aprontou nessa vida? Conta tudo!

– Leilinha (lá se vem a intimidade), eu fiz de tudo. Até meus trinta e poucos, fui parteira. Depois cansei. Fui ser embarcadiça.

– Me conta! Em navio?

– Primeiro em navio. À medida que o tempo foi passando, a tonelagem também diminuía. Passei por batelões, baleeiras, por todo tipo de tripulação!

– Cozinhando?

– Sim. Sim.

– Todo tempo na cozinha?

– Sim. Peraí, era assim: eu servia o café da manhã e eu era a merenda. Fazia o almoço e eu era a sobremesa. Fazia o jantar e eu era a ceia. Depois de tudo a gente ia dançar um pouco, que ninguém vive só de trabalho!

– Era assim mesmo?

De repente, Coração olha para o Purus e me diz, com cara de saudade:

– Tá vendo esse rio? Se eu tivesse que construir uma ponte juntando os meninos que peguei e os homens que me pegaram, dava pra construir uma ponte que ia e outra que vinha.

– Coração, que coisa!

E rimos juntas. E tomamos mais cerveja juntas. E outras tardes juntas, eu e minha Coração, a quem nunca perguntei o nome. Se ela se chamasse Matilde, não teria a menor graça.

Já morreu, mas deixou uma lembrança que não me é possível arrancar. Toda vez que vejo uma água que corre, me ocorre perguntar de qual tamanho seria minha ponte. Já tive a resposta: nem do tamanho da ponte Rio-Niterói, nem do tamanho da pinguela do Igarapé Canela Fina.


* A crônica também encontra-se no site Lima Coelho.

sábado, 15 de setembro de 2012

MÃO DE ONÇA

“Mão-de-Onça” como era conhecido José Gomes Coelho, cantor, compositor e sargento da banda de música da Polícia Militar do Acre, deixou um legado interessante à música acreana, entre outras, a canção "Loucura e desejo". Mão de Onça, que falecera em 2003, era primo do cantor tarauacaense Dym Gomes.

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

NAS PALMAS DAS MÃOS

Luiz Felipe Jardim


De alguma forma que não me lembro,Leila, descobri que a professora Wolitz, como boa profissional do ensino que era, sintonizada com a melhor pedagogia, e municiada com as ferramentas da melhor didática da sua época, algumas vezes tratava seus alunos ‘nas palmas das mãos’, isto é: de vez em quando lhes aplicava algumas palmadas com uma palmatória que ficava sempre ao lado do quadro negro da sala de aulas que tinha em sua residência e que era visível a todos os que passavam pela avenida ao lado de sua casa.

Da varanda da casa dos meus tios, Helena e Amiraldo, que moravam ao lado da casa da professora Wolitz, deitado em uma rede atada no meio das tardes, ali quando meus cinco anos de idade já desaguavam nos seis, eu ficava abecorando, espreitando o momento exato do que eu achava ser o ponto culminante da relação ensino-aprendizag em: a hora das palmadas.
Henriques e Felipes dos 5 para os 6 anos  como Ícaro e Seringueiro
A professora tinha uma voz um pouco rouca e, não sei bem como aprendi isso, mas percebi que quanto mais alta e rouca ficava sua voz, mais possibilidades de palmadas havia. Assim, eu ficava atento ao tom rouco da sua voz. Ele anunciava o momento certo. Quando o percebia, eu saltava da rede e corria para uma enorme mangueira que vivia entre as duas casas e que existiu até a poucos dias. Dali, eu via a sala de aulas da professora Wolitz e, como bom menino que era, esfregava as mãos torcendo para que a sua voz enrouquecesse ainda mais. Era palmada na certa.

Às vezes, humilde e solene, ela ia até onde o aluno estava sentado aplicar-lhe a didática manual. Garbosa, majestosa mesmo, e com pulso firme, descia a ferramenta de ensino nas mãos do aprendiz com a precisão do talento e a força do saber. Ela era craque, Leila. Nunca ouvi um só gemido dos alunos. Só ouvia os estalos que as mãos deixavam escapar ao vigoroso contato com as poderosas forças do conhecimento. A esses, os sentados, eu via tranquilamente com o pescoço esticado e corpo oculto pelo tronco da mangueira.

Outras vezes o aluno é que deveria fazer-se humilde e solene e, com pulso firme ir até o quadro negro receber a didática aplicada; recolher com suas mãos e em pé, o conteúdo pedagógico que a palmatória deveria, simbólica, mas ardentemente, lhe transmitir. Esses eram os meus preferidos. Só que a melhor posição para ver a cena era do lado da Avenida. E eu tinha de correr, dar a volta pela frente da casa da professora e, finalmente, chegar à janela meio que disfarçadamente como se estivesse simplesmente por ali passando.

Fiz esse percurso muitas vezes, Leila, da varanda para a mangueira, da mangueira para a janela, da janela para a mangueira, dai para a varanda.

Tantas vezes que eu não poderia passar despercebido sempre.

Numa dessas vezes em que, da mangueira, eu observava a sala de aulas, no exato momento em que o trovão anunciava a tempestade, ou seja: quando a voz enrouquecida prenunciava as palmadas, seu Liscênio, marido da professora, me viu e perguntou o que eu fazia ali. Incontinente, me abaixei. Apanhei a primeira coisa que encontrei pelo chão e respondi que estava ‘ajuntando manga’. Ele disse: “mas, Henriques e Felipes, ainda estamos em junho. As mangas nem nasceram ainda”. Ao que respondi, dando-lhe as costas e já correndo: “Mas essa aqui tá bem madurinha”... E lá fui eu, em desabalada carreira, levando nas mãos um tijolo maciço que havia apanhado do chão. O tijolo não doía nas mãos como deviam doer as palmadas, Leila, mas acho que pesava tanto quanto e, por isso, se constituiu na primeira peça de peso da bagagem cultural de minha infância.
 

Memória ou Ficção?

Comentando sobre isso com minha mãe, ela me disse que profa. Wolitz não dava palmadas nos deus alunos e que a palmatória na parede era só decoração... Só isso: pura decoração!

Se isso é verdade, Leila, o que eu te disse ainda há pouco não é. Ou seja, o que eu te disse é ficção.

Talvez mais uma das muitas ficções dessas que trazemos fixas na memória como se fossem expressões ainda vivas, mesmo que esmaecidas, de antigos acontecimentos, de antigas realidades.

Não tenho certeza, até mesmo acho que não, mas se isso é verdade quero crer que tal ficção me foi fixada enquanto, na varanda da casa da tia Helena, deitado numa rede suspensa no meio das tardes, eu dormia os sonos de menino de 5 para 6 anos de idade, tendo ao lado um pé de mangas que unia, com suas sombras de boa mangueira, a sala de aulas da profa. Wolitz e a varanda onde a rede embalava a mim e aos meus sonhos. Os mesmos que um dia eu creria serem verdades. Verdades como as verdadeiras: tecidas e animadas pelo sopro da vivência; cuidadosamente acolhidas, e guardadas na memória; e deliciosamente reanimadas quando embaladas nas redes macias e envolventes das boas lembranças...

Certa vez, um caipira do Rio São Francisco assim falou sobre a História: "A nossa História é uma coisa interessante: a gente se alembra, se alembra... de repente se esquece. Daí, um dia, a gente não tá nem naquele sentido... de repente se alembra”...

Dante Gabriel Rossetti - Dantis Amore
Às vezes Leila, é necessário perder o 'sentido' de certas coisas para poder 'se alembrar', 'rever' o que aconteceu. Saber-lhes o sentido. Em Realidade e em Ficção. Sim porque muitas vezes a Ficção é uma realidade que se diferencia da pura realidade somente por não ter acontecido como a Realidade gostaria que tivesse acontecido. Na verdade, a Ficção é pura ficção por puro capricho da Realidade. Uma vingança desta por aquela se realizar nos espaços imaginários, fora do total e absoluto controle da realidade nua e crua, pura e verdadeira.

Realidade e Ficção têm a mesma natureza: dinâmica, profunda, intensa. Diferem entre si, e tão somente, por ao acontecerem, resultarem: uma da energia e das mãos de quem mais faz; outra das mãos e da energia de quem mais pensa. Uma resulta em energia simplesmente mais sólida. A outra, em matéria simplesmente menos densa.

terça-feira, 11 de setembro de 2012

BRASILEIRO POR OPÇÃO – XV

José Augusto de Castro e Costa


O espírito aventuroso de Dom Luiz Galvez, por certo, deixara fortes e exasperadas reflexões sequazes no cenário amazônico, tanto nas capitais Belém e Manaus, quanto ao longo dos rios Acre, Purus e Iaco.

Não foram poucos os jovens a lançarem-se à selva bruta da natureza amazônica, uns, liberais impoderados, enquanto outros, subalternos, designados que eram por empresas ou repartições públicas.

Jovens que, talvez, já teriam ingressado nas faculdades imaginando conciliar os conhecimentos que viriam adquirir à cognição dos mistérios do “inferno verde”, de seu meio, de seu mundo, de seus enigmas que viriam experimentar.

A exemplo do jovem advogado cearense, José Alencar de Carvalho, que surpreendera-se e revoltara-se ante ao que considerava uma invasão de Dom José Paravicini, ao final de 1898, outros bacharéis como ele, ou Juízes de Direito como Dr. Aristides de Moura Rios, engenheiros como Gentil Norberto, jornalistas como o também gaúcho Orlando Lopes, médicos como Francisco Mangabeira, um sem-número de diversos profissionais liberais e intelectuais dispuseram-se a envidar esforços para que o Acre permanecesse sendo brasileiro, já que julgavam que “ nele haviam deixado um cadáver embaixo de cada seringueira”.

A união dos ativistas em prol da liberdade do Acre, definira-se como uma séria Expedição dos Poetas, desta vez por constituir-se em sua maioria por intelectuais tal qual o futuro governador do Amazonas Efigênio Sales, acompanhado daquele que viria a ser o Primeiro Governador do Território do Acre unificado, médico Epaminondas Jácome, além do filho do grande filósofo brasileiro Tobias Barreto, João Barreto de Menezes, entre outros de destaque na atividade literária e artística.

A convicção idealista dos expedicionários prendia-se à natureza jurídica dos fatos, de que a região acreana pertencia realmente ao Brasil, por força do “utis possidetis”, caracterizado pela notória ocupação efetiva e prolongada de brasileiros, anteriormente ao Tratado de Ayacucho, o qual, por sinal, ainda estaria em reformulação de texto, submetido a apreciações bilaterais, aguardando os demorados dados definitivos, isto é, as informações conclusivas dos governos do Brasil e da Bolívia.

Empolgada a imaginação romântica dos conspiradores, logo fizera-se notar a explosão de entusiasmo dos poetas e letrados, que contava com a participação do Coronel Rodrigo de Carvalho, Administrador da Secretaria de Fazenda do Amazonas na região acreana, o qual não cessava de angariar apoio, entre Belém e Manaus, conquistando aprovação de comerciantes e da imprensa para o movimento revoltoso.

Ao atingir Lábrea, no rio Purus, a expedição começara a tomar real conhecimento da situação ao longo dos rios Purus, Acre e Iaco.

As manifestações eram bem acaloradas, defendidas por puro patriotismo, tanto pelos expedicionários, quanto por alguns seringalistas, que, em algumas situações, protagonizavam irrefletidas atitudes de coerção, a exemplo de forçar um escolhido prisioneiro boliviano a saudar o Acre independente, punindo-o com o fuzilamento, quando não fosse obedecido.

Muitos dos intelectuais, exaltados, chegaram a exceder-se na conduta pessoal e no arrebatamento de ideias mirabolantes, como o sonho de afortunarem-se, absortos na riqueza da borracha, outros na investidura de um futuro alto cargo vitalício, e aqueloutros simplesmente no extermínio sanguinário dos bolivianos.

Não obstante ao notável estado de espírito de brasilidade, refletido no empolgante poder de oratória que inflamava os ânimos, os expedicionários, em termos de guerra, eram totalmente despidos de qualquer conhecimento da mais rudimentar regra de combate.

Sempre objetivando aceso o espírito de luta incessante contra o domínio boliviano, a plêiade brasileira mantivera os ânimos revolucionários até ao limite da saturação da conjuntura.

Os bolivianos, por sua parte, estavam cientes do desenrolar dos acontecimentos no Acre, sobre os quais remetiam às autoridades brasileiras federais, consideradas avaliações, com pedidos de medidas contra possíveis sublevações, que não apenas estariam a sentir como a pressentir.

Em suas considerações ao Ministério do Exterior os bolivianos, com efeito, passaram a invocar princípios e teorias de Direito Internacional, com conclusões buscadas em lições de Direito Público e encerradas com preocupantes protestos.

Os expedicionários intelectuais prosseguiam em seus firmes propósitos, porém sem a devida organização e muito menos método de combate, fazendo-se sentir as desagregações de forças, subdivididas em vários grupos, com comandos diversificados e sem posições definidas.

Revelada na mais completa desinteligência, atingindo o mais absurdo desentendimento, a Expedição dos Poetas passara a enfraquecer-se, comprometendo o grupo, já debilitado pela ausência de coordenação militar.

Um mau pressentimento misturava-se com o pouco entusiasmo da tropa brasileira, que já alimentara o plano de atacar Puerto Alonso, na ante véspera do Natal de 1900. Mesmo assim seguiram os poetas, por água e por terra, para sitiar a cidade dos bolivianos, munidos de um canhão e uma metralhadora, além de fuzis e espingardas, destacando-se o empenho de Gentil Norberto, Orlando Lopes que, apesar dos desentendimentos decorridos pela autopromoção bilateral, jamais esmoreceram em seus propósitos.

Chegaram, com sacrifícios ao barranco em frente a Puerto Alonso e, finalmente, abriram fogo, quando, pela primeira vez o canhão trovejara nas brenhas do Acre. Os bolivianos não esperavam, porém, possuidores de conhecimentos militares, em pouco tempo de ação destroçaram a Expedição dos Poetas, infligindo-lhe uma severa lição bélica.

Pronunciada a derrota, os atacantes brasileiros dispersaram-se, abandonando o famoso canhão no chavascal para onde levara a tática desastrosa dos expedicionários.

O fracasso revolucionário dos intelectuais guerreiros ecoou em Manaus, de maneira dolorosa.

Não preocupando-se em fazer justiça aos seus companheiros, o Coronel Rodrigo de Carvalho, em correspondência ao governador Silvério Nery, arremeteu em farpas dizendo que não houvera ditado ordens de guerra, porque os expedicionários diziam-se sábios nela e que jamais julgara que pela cabeça de “tão ilustres generais passasse a ideia de deixarem lá os canhões em frente ao inimigo”.

Do desastre da Expedição dos Poetas, porém sabe-se que o que mais doera ao Coronel Rodrigo de Carvalho fora a perda do canhão e da metralhadora da polícia amazonense.

A expedição debandara, desiludida dos louros da guerra e justificando a indisciplina como o estado geral dos espíritos espantados. Quase todos os poetas e letrados da expedição volveram a Manaus, deixando pelos seringais acreanos um ar de desânimo e lástima.

A Bolívia, por suas autoridades no Acre, passara a efetuar prisões e entrara a tomar medidas mais sérias de prevenção. Porém, uma atitude do governador do Amazonas irritara os bolivianos, pronunciando-se um sério movimento diplomático entre as chancelarias brasileira e boliviana. Trata-se da Mensagem governamental de 1901, quando o Sr. Silvério Nery abordara a questão acreana, para, textualmente, “render um preito de homenagem àquela porção de brasileiros que, em zona longínqua, regaram com o seu sagrado sangue a ideia patriótica de fazer permanecer brasileira a larga faixa de terra ora ocupada pelo estrangeiro, que o governo vê-se obrigado a respeitar por força de um tratado. Homens que, arriscando a vida, conseguiram construir habitação, construir um lar, fundar uma propriedade em territórios inexplorado, que possuíam como pedaços da pátria, a cujas leis eram obedientes, não se podem conformar a ver, de um momento para outro, perdidos todos os seus esforços inteligentes, passando a leis diversas em estranha pátria. Honra a esses bravos! Paz à memória dos que pereceram!”

A 2 de abril de 1902 chegara a Puerto Alonso Dom Lino Romero, nomeado Delegado Nacional. Homem arguto e prático, cujas franquias governamentais raiavam pela ditadura, criou imediatamente uma situação destinada a favorecer todas as pretensões da Bolívia.

O novo mandatário boliviano, como ditador, impusera tributos odiosos à população, assim como marcara prazo exíguo para o registro dos processos de medição e demarcação dos seringais, ameaçando a quem o descumprisse, que perderiam suas terras, consideradas baldias ou devolutas, delas passando a dispor a Bolívia, “sem direito da mais leve oposição, embargos ou protestos”.

Muitos proprietários não possuíam, ainda, a legitimação de certas formalidades proteladas, dependendo dos requisitos legais da propriedade. A autoridade boliviana passou, então, desmedidamente, a dilatar as áreas de demarcação, chegando a invadir a território amazonense, “compreendendo todos os seringais abaixo da linha Cunha Gomes.

A população brasileira irritara-se e a ideia de varrer dali o boliviano recrudesceu, principalmente quando, a 29 de junho, um informativo boliviano declarara que “pretender que o Brasil intervenha em assunto da Bolívia, nos quais não tem por que intervir, é absurdo e impolítico. Crê a imprensa amazonense que a Bolívia não saberá defender seus direitos e não saberá lutar por eles com a bravura do que se vê injustamente ferido? Crê essa imprensa mercenária que se pode invadir o Acre com cem homens? Caso se repetissem as agressões à mão armada que ocorreram no ano de 1900, poderiam repetir-se também as derrotas que sofreram as forças revolucionárias em vários pontos deste rio”.

A lembrança provocadora da derrota humilhante do Natal de 1900 doera profundamente, e aquela ameaça, por certo, irritara sensivelmente o âmago brasileiro.

O amontoado de ofensas partidas dos bolivianos viera acirrar a animosidade brasileira, fazendo com que os acreanos fugissem do domínio boliviano, pondo-se em lugares seguros para a conjuntura.

Os brasileiros Rodrigo de Carvalho e Gentil Norberto, não obstante debruçarem-se em planos para a conquista do Acre, particularmente viviam às turras, inculpando um ao outro pela derrota de 1900. Essa desavença, em tese, deprimira os fins patrióticos da revolução.


Leia aqui a série


* José Augusto de Castro e Costa é cronista e poeta acreano. Mora em Brasília e escreve o Blog FELICIDACRE.

domingo, 9 de setembro de 2012

À PUTANESCA

Leila Jalul


Ava Gardner
Carmélia e Ava Gardner não se conheceram, nem por meio da telona. A beleza e a semelhança entre as duas, no entanto, faria qualquer cristão imaginar que estava vendo coisas. Nem sei qual foi o lugar onde Ava nasceu.

De Carmélia, sei que nasceu no Acre, viveu no Acre e morreu no Acre. Isso é o bastante. Se fez e se criou na curva do tempo. Num lugar onde o remoto ainda queima e o futuro era e é desprovido de porvir.

Conheci Carmélia quando comprei uma casa sem número numa rua com nome de um general qualquer, sem sobrenome. Os vizinhos, um tanto de gente também sem sobrenome. Lugar perfeito para esconder minha identidade sem desejo de aparecer. Coisa boa.

Como alternativa de me enfiar no meio das vizinhas lavadeiras, nada mais restava senão aproveitar os olhos d'água e lavar meus trapos, ali, juntinho, e, numa conversa de comadres, portar-me como uma delas. Tempos bons.

Carmélia era fera. Enquanto eu lavava uma bacia, ela já vinha com o angu. Nada de Confort, nada de cheiros, de clareadores. Tudo no muque. Uma tábua na frente, dois nacos de sabão Zebu, e lá estava tudo lavadinho, enxaguado com a erva catinga de mulata, pronto para secar e passar, fazer a trouxa, embrulhar com jeito numa toalha felpuda, prender com dois alfinetes de segurança e entregar para a patroa. Cacete de agilidade!

Aí, no meio dessa algazarra, resolvi fazer a horta comunitária. Precisava fazer com que aquelas meninas aprendessem o valor da berinjela, da rúcula, do agrião de terra molhada, do espinafre, da azedinha, do manjão gomes. Precisava dizer da riqueza dos talos, das vitaminas do sopão de ossos, do caldo engrossado com aveia Quaker. Coisas que a gente aprende com quem entende e ensina para quem ama.

Carmélia era atenta. Atenta até que as disfunções da menopausa a tornassem quase uma demente. Na falta de condições para a reposição de hormônios, seus filhos preferiram interná-la no antigo hospital dos doidos. Ali era o lugar certo para quem enfiava a cabeça na geladeira e tomava banho de água gelada em plena noite de junho, inclusive nas em plenilúnio.

Depois dos achaques, Carmélia, todos os dias, antes das seis da matina, me procurava e dizia:

– Posso entrar?

– Claro!

– Posso plantar?

– Pode.

– Aqui, nesse canteiro?

– Sim, Carmélia, pode plantar.

Em silêncio, Carmélia plantava pés de macarrão espaguete, enquanto eu regava os canteiros de manjericão, hortelãs e os das alfavacas que teimavam ser maiores que os nanicos da região.

No dia em que Carmélia Gardner morreu, servi (por acaso?), no almoço, um espaguete à putanesca. Coisa fina, aprendida com os italianos, preparado num panelão que me foi dado pelas minhas comadres lavadeiras da Rua General Severiano. Coisas que a gente aprende com quem entende e convida a quem ama.
 
 
* Crônica também publicada no site Lima Coelho.

sábado, 8 de setembro de 2012

SOL PERMANENTE

Mário Chamie


Amor é
a força
viva da dor.
Mas a dor
de amar
é a força viva
do amor,
sombra que morre
sem passar,
sol que nasce
sem se por.



CHAMIE, Mário. Caravana contrária. São Paulo: Geração Editoria, 1998. p. 74

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

TIÃO NATUREZA

Aproveitando as festividades do dia da Amazônia, caso haja motivo para festa, faço memória do saudoso compositor e poeta acreano Tião Natureza, na belíssima canção "Chico rei"*, uma homenagem ao ícone da luta pela preservação da floresta e de seus habitantes nativos, Chico Mendes. A canção ainda dá o que pensar.
   * não tenho certeza quanto ao nome da música.

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

KANT NA MATURIDADE

PROFª. INÊS LACERDA ARAÚJO
 
 
Aos 40 anos adquirimos nosso caráter, segundo Kant. Essa aquisição é como que um renascimento, uma palingênese, uma promessa feita a si mesmo. "A fundação de um caráter é de fato a absoluta unidade do princípio interno de como viver em geral", afirma ele. É dever de cada um formar seu caráter no sentido moral, ser sincero, honesto e confiável. A maturidade favorece uma melhor compreensão das coisas, a ação diária segue máximas ou princípios que são um guia a ser seguido com firmeza e constância.
 
As máximas morais estão ligadas ao nosso modo de pensar e não ao de sentir, por meio delas se distingue o bom do mau caráter. Somos nossos próprios legisladores, não há necessidade de tutela, de seguir um líder, nem uma ideologia, nem ficar cego por doutrinas ou por ditames divinos.

Nessa época Kant começa a levar menos uma vida social e mais uma vida metódica e previsível, segue suas máximas como rigor nos estudos, na preparação das aulas, nas leituras e na sua produção intelectual.

Faz amizade com Green, que tem um estilo de vida que Kant admirava: a construção do caráter depende de seguir um estilo de vida regrado; visitava-o à tarde e saia pontualmente às 7:00 da noite. Green lia e comentava os escritos de Kant, tinha acesso às obras de Hume e Rousseau que estava entre os escritores favoritos de ambos.

A obra de Kant começa a repercutir, inclusive em Berlim, para cuja universidade foi convidado, mas declinou da cadeira de poesia, pois seu interesse era a metafísica e a moral.

Em 1765 passou a trabalhar na biblioteca de Königsberg, 4as e sábados à tarde, o que lhe dava proventos e a oportunidade de ler. Morou em quarto alugado na casa de seu editor. Comprou sua casa apenas aos 59 anos.

Acordava cedo, 5 horas da manhã, fumava seu cachimbo, depois do café preparava aulas e conferências. Lecionou a vida toda, pelo menos 20 horas semanais. Nas aulas de Antropologia e de Geografia, favorecia a compreensão dos alunos com exemplos. Mais tarde, a dificuldade dos temas metafísicos e morais prevaleceu.

Há um lado irônico pouco conhecido. Publicou anonimamente reflexões sobre visões e espíritos em resposta a um famoso vidente, Swedenborg. Espíritos não são de outro mundo como afirmam os visionários. Estes deveriam ser despachados para um hospital para investigação. Não seria caso de doença nas entranhas? Em seus momentos de humor, Kant se saiu com esta tirada: "visões são caso de entranhas, se para baixo, um pum (!), se para cima se confundem com uma aparição ou inspiração divina". Esse humor fazia parte das reuniões da sociedade literária, a qual Kant frequentou durante algum tempo.

Esse Kant pré-crítico, buscava um conceito de natureza, de tempo, sob influência da física e também de Rousseau. Natureza e razão humana se complementam.

Mas já há indícios do Kant crítico, as pessoas não se devem levar por conhecimentos ilusórios. O mundo dos espíritos é incognoscível, adota certo ceticismo propedêutico e catártico, ao estilo de Hume que viria a ser o filósofo responsável em grande parte por sua virada crítica. Crítica da razão, da metafísica tradicional, da moral dos sentimentos.

Kant das críticas e da metafísica dos costumes fica para a próxima postagem.



* INÊS LACERDA ARAÚJO - filósofa, escritora e professora aposentada da UFPR e PUCPR.

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

O SOL NASCE NO ACRE

José Alcides Pinto


Da densa
geografia
de teu corpo
:
onde nascem
os sonhos
a esperança
a flor
:
onde a(s)cende
vésper
o caule
de fogo
:
que há
de queimar
déspostas
tiranos
:
destruir
hipopótamos
do medo
:
estaremos
contigo
companheiro
:
abraçados
unidos
ao teu flanco
:
para que
nos fortaleça
com tua luz
de granito
e o sal
de tuas narinas
:
Desse mapa-
múndi que
carregas
(na
pele)
:
há-
de brotar
a vermelha
rosa
da esperança
:
cujo fulgor
ilumina
aldeias
proletárias
:
onde
crianças
têm pesadelos
que as sufocam
com hienas
– bruxas do poder
:
Tua mão poderosa
companheiro
como a pata
de pegasus
esmaga
a miséria
que enlameia
a pátria
:
corrói
o pórtico
da história
como a ferrugem
:
(porque
como Bayron
hey de ensinar
se puder
até as pedras
a se levantarem
contra os
tiranos
da terra)
:
Nesta
ou naquela
região
(de norte
a sul)
:
por toda
parte
que se volte
:
teu nome
está inscrito
no vento
:
no pórtico
das catedrais
nos templos
:
está inscrito
nas comunidades
indígenas
:
nas reservas
extrativistas
:
em todo o
território
brasileiro
:
está escrito
no pacto
na aliança
dos povos
da floresta
:
no Sindicato
de Brasiléia
Xapuri
:
no “empate”
no coração
do seringueiro
:
está escrito
nas centrais
operárias
:
praças
ruas
aglomerações
populares
:
porque
és líder
desta nação
e representas
a liberdade
:
Tu sabes
que a esperança
está em ti
como nas
profecias
:
guerrilheiro
do sonho
tu sabes
muito bem
:
não és o
anunciado
mas o que
anuncio
:
neste poema
sem assédio
nesta escritura
sem rascunho
:
para este tempo
de “homens partidos”
prover de vergonha
Chico:
homem do
povo
autêntico
revolucionário
:
flor da
esperança
:
pulmão do
mundo
nas mãos
de Deus
símbolo
da luta
pela democracia
:
– chama
da justiça social –
:
a canção
do vento
que te embalou
a infância
:
é a mesma
que te agita
a cabeleira
de dóceias anéis
rutilantes
:
onde os
rouxinóis do amor
fazem o ninho
:
e os caracóis
da volúpia
descem sobre
tua fronte
premonitória
:
conheces
a palavra
e a estratégia
que combatem
o inimigo
:
teu nome, Chico
está em toda parte
do país
:
como a mancha
de sangue
na praça
– sinal de luta
:
como o arranhão
o grafite
no muro
que o tempo
não apaga
:
está nos “retirantes”
das telas de
Portinari
:
está em
“guernica”
da Espanha
de Picasso
:
Teu nome
está no
sambódromo
:
na praça
da apoteose
:
no grito
do samba
na música
do frevo
:
no pé
na capoeira
:
no zumbido
do apito
no estandarte
da porta-
bandeira
:
no ritmo
da passista
no voo
do mestre-sala
:
na alegria
e na explosão
dos fogos
de artifício
:
está no
sangue
de tuas três
raças
:
na tua
miscigenação
:
no feitiço
na magia
negra
das ancas
das mulatas
:
na mise-en-scéne
na coreografia
no futebol
:
está inscrito
no Brasil
como na dança
exótica
de um palmípede



PINTO, José Alcides. O sol nasce no Acre. Fortaleza: 1991.

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José Alcides Pinto (1923-2008), o poeta maldito como ficou conhecido, foi um dos grandes nomes das letras cearenses e da Literatura Brasileira nesses últimos tempos. Romancista, crítico literário, teatrólogo e poeta, Alcides Pinto construiu um legado literário original e independente, sem se filiar a nenhuma corrente literária.