sábado, 12 de dezembro de 2020

ARAKEN, O SHOWMAN

 Leila Jalul

 Para o Mestre JORGE ARAKEN FARIA DA SILVA, com amor

 

O Acre era tão feio, tão feio, tão longe, tão longe, que um acreano metido a carioca falou: “Se cu tivesse cu, o Acre era o cu do cu do cu”. Expressão chula, nojenta, descabida e honesta, do seu ponto de vista, pelo menos. Não gostei de repeti-la, mas, se não repeti-la, como expressá-la? Assim foi dito, assim foi escrito. E pronto! Não há em mim qualquer vocação para o escatológico. Para a verdade, isso sim.

Um detalhe é preciso dizer: até hoje, tudo que possui o autor da límpida tradução da terra em que nasceu, tudo o que sua família parasita possui, saiu daqui, ou do cu, como preferir o leitor. E o metido continua aqui, mamando, enganando, se locupletando e todos os “andos” que se possa imaginar. Ingratidão? Não. Oportunismo, carreirismo? Sim.

Mas quero falar mesmo é de um carioca. Recém-formado bacharel, que não pensou nem uma, nem duas, nem três vezes e veio. Veio para ficar. Para estudar, para se firmar na vida, deixando para trás Ipanema, Leblon, Copacabana, princesinha do mar. Nem precisou tomar água barrenta de rio nenhum para ficar, apenas vislumbrou um futuro profissional que almejava.

Uns o julgavam maluco. Não diziam por medo ou respeito, mas o julgavam. Sua inteligência privilegiada, sua capacidade de escrever brincando com as letras, entretextando Castro Alves com Clóvis Bevilácqua, Chico Buarque com Salomão, o Rei David com Amaury Mascaro do Nascimento. Era um escrever fluindo, sem decoreba, na base da citação acertada e encaixada para cada crime, cada caso de amor, cada relatório oficial, maçantes para uns, peças literárias para outros.

Desejoso de aproveitar cada minuto da sua vida operante, cada minuto das suas férias, nunca se recusou a estar em cursos e plateias, com o intuito de aprender. E, nessa busca, foi parar num encontro sobre turismo no Brasil, num tempo que já vai longe, mas não tão longe que não se possa enxergá-lo.

O auditório queria saber sobre Amazônia. Lugar de índios, analfabetos, pobreza, malária e todo um elenco de desgraças. O povo do sul sabia pouco ou quase nada de Brasil. Sabia pouco, ou quase nada até dos lugares onde nasceram. Paulista era paulista. Mineiro comia pão de queijo. Catarinense era alemão. E fim.

No tal encontro sobre turismo, frequentado por futuros agentes de viagens, dispostos a investir numa reluzente fatia de mercado não explorado, e conhecer potenciais, lá estava Jorge Araken.

Pelas intervenções, e que não foram poucas, imagino, pelas variáveis apresentadas de conhecedor de algo fora do eixo sul-sudeste, eis que se encontra numa situação dramática. Falta um expositor e a platéia pede que ele faça as vezes de. Araken não era, nem é, homem de fugir da raia. Sem roteiro, sem slides, sem projetores, pede, em alta voz, a cada um dos presentes o uso da imaginação.

– Fechem os olhos. Abram apenas no final, e se pensem dentro de um navio. Saímos de São Luis e, em breve, aportaremos em Belém. Chegamos ao porto. Desçamos. Estamos no mercado Ver-O-Peso. Sintamos o aroma das ervas, dos banhos, das morenas. Ouçam a música. É Fafá cantando “Pauapixuna”.

E mais:

– Seguimos para Manaus. Apertem mais os olhos. Estamos na Zona Franca. Apertem mais também as bolsas e as carteiras. Tem muita porcaria para vender. Sedas chinesas, aparelhos eletro-eletrônicos. Não se entusiasmem. De noite iremos ao Teatro Amazonas. Assistiremos a uma opereta desconhecida. Todos gostarão. Depois encontraremos Márcio Souza, Leandro Tocantins e o Arthur Cezar Ferreira Reis. Eles têm o que contar, com fidelidade, sobre a Amazônia de ontem e de hoje. Agora se faz noite. No mais tardar, pela manhã, estaremos em Porto Velho. Logo depois, Rio Branco, no Acre.

O povo, de olhos fechados, acompanhava tudo. Se estivesse lá, inquieta como sou, diria:

– Moço, pelo amor de Deus, acabe logo com essa aflição.

Tudo bem. De olhos fechados, já fora do navio, de ônibus, a viagem entre Porto Velho e Rio Branco durou mais de nove horas. Evidentemente, tudo no imaginário da platéia embevecida. Araken, o showman, não sabendo mais o que fazer para hipnotizar os seus escutas, chegando ao Acre, apenas ressalta o bucolismo local e faz a seguinte proposta:

– Gente, estou e estamos todos cansados. Vamos dormir? Amanhã a gente segue caminho.

E se foram acomodar no Hotel Inácio, filho único do George Pinheiro, até então.

Agora, quem fala sou eu. Eu, Leila, seu querer de sempre.

– Araken, me perdoo por te trair. Me alegraria ter te tirado do vexame. Porém, como? Aqui não tinha Gameleira, nem Canal da Maternidade, nem Mercado Velho revitalizado. Aqui só tinha imaginação e amor pela terra dos meus pais e pela terra que elegeste para viver. Você é um carioca, maneiro! Você é o cara!

Como finalização apoteótica, a platéia do encontro de turismo, aplaudindo de pé, olhos abertos, seguiu viagem de volta cantando:

“Peguei um Ita no norte

E vim pro Rio morar

Adeus, meu pai, minha mãe. 

Adeus Belém do Pará”.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2020

IDENTIDADE INDÍGENA

Foto: Agência Ophelia
 Eliane Potiguara

 

Nosso ancestral dizia: Temos vida longa!

Mas caio da vida e da morte

E range o armamento contra nós.

Mas enquanto eu tiver o coração aceso

Não morre a indígena em mim

E nem tampouco o compromisso que assumi

Perante os mortos

De caminhar com minha gente passo a passo

E firme, em direção ao sol.

Sou uma agulha que ferve no meio do palheiro

Carrego o peso da família espoliada

Desacreditada, humilhada

Sem forma, sem brilho, sem fama.

 

Mas não sou eu só

Não somos dez, cem ou mil

Que brilharemos no palco da História.

Seremos milhões, unidos como cardume

E não precisaremos mais sair pelo mundo

Embebedados pelo sufoco do massacre

A chorar e derramar preciosas lágrimas

Por quem não nos tem respeito.

A migração nos bate à porta

As contradições nos envolvem

As carências nos encaram

Como se batessem na nossa cara a toda hora.

Mas a consciência se levanta a cada murro

E nos tornamos seco como o agreste

Mas não perdemos o amor.

Porque temos o coração pulsando

Jorrando sangue pelos quatro cantos do universo.

Eu viverei 200, 500 ou 700 anos

E contarei minhas dores pra ti

Oh! Identidade

E entre um fato e outro

Morderei tua cabeça

Como quem procura a fonte da tua força

Da tua juventude

O poder da tua gente

O poder do tempo que já passou

Mas que vamos recuperar.

E tomaremos de assalto moral

As casas, os templos, os palácios

E os transformaremos em aldeias do amor

Em olhares de ternura

Como são os teus, brilhantes, acalentante identidade

E transformaremos os sexos indígenas

Em órgãos produtores de lindos bebês

guerreiros do futuro

E não passaremos mais fome

Fome de alma, fome de terra, fome de mata

Fome de História

E não nos suicidaremos

A cada século, a cada era, a cada minuto

E nós, indígenas de todo o planeta,

Só sentiremos a fome natural

E o sumo de nossa ancestralidade

Nos alimentará para sempre

E não existirão mais úlceras, anemias, tuberculoses

Desnutrição

Que irão nos arrebatar

Porque seremos mais fortes que todas as células cancerígenas

Juntas

 

De toda a existência humana.

E os nossos corações?

Nós não precisaremos catá-los

aos pedaços mais do chão!

E pisaremos a cada cerimônia nossa

Mais firmes

 

E os nossos neurônios serão todos poderosos

Quanto nossas lendas indígenas

Que nunca mais tremeremos diante das armas

E das palavras e olhares dos que “chegaram e não foram”.

Seremos nós, doces, puros, amantes, gente e normal!

E te direi identidade: Eu te amo!

E nos recusaremos a morrer,

A sofrer cada gesto, a cada dor física, morar e espiritual.

Nós somos o primeiro mundo!

 

Aí queremos viver pra lutar

E encontro força em ti, amada identidade!

Encontro sangue novo pra suportar esse fardo

Nojento, arrogante, cruel...

E enquanto somos dóceis, meigos

Somos petulantes e prepotentes

Diante do poder mundial

Diante do aparato bélico

Diante das bombas nucleares.

 

Nós, povos indígenas,

Queremos brilhar no cenário da História

Resgatar nossa memória

E ver o fruto de nosso país, sendo divididos

Radicalmente

Entre milhares de aldeados e “desplazados”

Como nós.

 

POTIGUARA, Eliane. In: Poesia Indígena Hoje. Número 1. Agosto de 2020. p. 110-113

 

Leia outros textos e poemas no projeto P-o-e-s-i-a aqui:

http://www.p-o-e-s-i-a.org/

sábado, 5 de dezembro de 2020

O INSTANTE SUBLIME NOS ESTILHAÇOS DE DANILO DE S’ACRE

 Isaac Melo

 

Em “Estilhaços” (Nepan, 2020), Danilo de S’Acre apresenta-nos uma cartografia do instante. O instante é um estilhaço arrancado dos olhos do tempo, que tudo sabe, mas nada vê. O tempo é uma categoria medida em instantes. O instante de uma noite, o instante de um abraço, o instante de uma vida. Sem o instante, como experenciar ou apreender o nosso lugar dentro da existência?

Como escreve o poeta, “tem um instante sublime na suspensão / das nuvens apressadas”. E não seriam as “nuvens apressadas” uma metáfora perfeita para dizer da nossa própria condição humana? Diante da eternidade não somos mais que nuvens que passam sub-repticiamente sem deixar qualquer vestígio; apenas um vazio sonoro que ecoa pela noite surda da eternidade: “Dentro da noite estrelada o vazio sonoro preenche a eternidade”.

O que restou do ser humano, da realidade, da poesia, senão estilhaços, frágeis fragmentos encerrados na ilusão de um instante. Sim, “o instante d’água em estilhaços / d’agonia”.

Nesta humana “fantasia silenciosa intermitente”, “as coisas dos outros é tão parecida / com a da gente”. Porque, no fundo, o poeta sabe que não há “nada além da invisível beleza”, que se perde na fala impronunciável, nas “palavras dissonantes” de nossos “lábios labirínticos”.

Nesta cartografia, “ao sul do silêncio”, o poeta, em seu itinerário, caminha por sobre as “areias siderais” até alcançar “a solidão dentro do pensamento”.  E, por entre “sombras ausentes” e “orvalho de estrelas”, depara-se com “a solidão dentro da folha imóvel”. Que instante sublime é o do poeta diante da folha imóvel e vazia.

A cartografia do poeta é, também, uma cartografia amazônica. E seu “mapinguari sapecado” pode ser, ainda, entendido como a Amazônia que queima, neste atual “incensário amazônico”. Neste sentido, o poeta, apreensivo e reticente, diz que “a espera é longa o sono é pesadelo...”. E indaga: “haverá amanhã ainda?”.

Em Danilo de S’Acre, a meu ver, há uma escrita caótica. Cartática. Mimética. Minimalista, até. Uma poesia de estilhaços, diante do “tempo inexistente”, em que a palavra se reverbera na beira do abismo, antes de lançar-se, caótica, no instante sublime de um olhar.

 ____

 

1

 

Na água

Folha peixe ave

Brilha estrela

No reflexo elétrico

Da imensa solidão

Da noite inteira

Lúcida p. 7

 

16

 

Nunca mais

Amanhã também

Não sei

Nu

Cru e seco

Amanhecer só

Semente e flor p. 22

 

41

 

E a fruta e a lua

Coisa mais ainda

Ela debruçada líquida

Na paisagem da janela p. 47

 

 

45

 

Do poema que fiz

Quase nada restou:

Tirei as tripas secas e crocantes

A pele engelhada pelo tempo dispendido

As veias abertas e outras entupidas

Quanta coisa desnecessária possui um poema...

Quão grande é o corpo inerte e desejável

Nunca aprendi a dissecá-lo,

talvez seja incapaz ou apenas covardia

 

Não sei que tinta, azul, vermelha ou preta...

Um poema é um laboratório labiríntico

Caminho me perco me procuro e indago:

Para atravessar o sentimento caio em armadilhas e

feitiço...

Nada restará no final do poema

 

Tiro e acrescento, parece em vão

Ainda não consegui o encanto:

Tirei tudo do poema e não encontrei o coração, ele

pulsa engasga regurgita

E eu bobo desfalecido desapareço

Às escuras na infância infinda. p. 51

 

70

 

Silenciosos os ossos

Dormem juntos

E sonham um invólucro

Mais

Eficiente p. 76

 

106

 

Pelo abraço

O mesmo momento

Tão tarde novamente

Nunca terá o dia

Mormaço dormente

Tudo amanhã simplesmente

Pelo abraço

O mesmo instante p. 111

 

107

 

Em silêncio o sonho transparece

Acréscimo um pesadelo

Escrito em dissoluções...

Finjo acordar no pulsar d’instante

Suporto a dor no sono

Em silêncio explícito

Um sono distante p. 113

 

S’Acre, Danilo de. Estilhaços. Rio Branco: Nepan, 2020.