segunda-feira, 19 de março de 2012

A HISTÓRIA NOS TEMPOS DO BREVE*

(Um calendário aos pedaços)

Marcos Vinícius Neves


Mesmo nestes tempos de informação rápida e superficial, não podemos deixar de parar um pouco e olhar melhor pr'aquilo que passou. Quando não fosse por outro motivo, porque continua passando.


Várias pessoas ultimamente andam me cobrando textos mais curtos, sob pena de ser pouco lido. Não consigo deixar de achar que isso é sintoma dos Twiteres, Faces, Gtalks, etc. que nos assolam atualmente. Entretanto, vou fingir que não é nada disso e tentar seguir as lições de Eduardo Galeano (do qual falamos nessa coluna bem recentemente) mestre em contar histórias breves, mas com sentido.

Era uma vez um seringal (que não chegou a ser)

Há 130 anos surgia à beira do rio Acre um seringal com destino de cidade. Na verdade o que deveria ser mais um seringal, como tantos outros que surgiam do dia pra noite naquele distante ano de 1882, logo se tornou um porto pra vender, aviar, comprar, trocar, negociar um pouco de tudo, inclusive amores fugidios com que escapar da solidão das florestas, colocações e seringais.

E foram tantas as casas comerciais, os hotéis, os restaurantes, os cassinos e todos os demais tipos de serviços que se possa imaginar, que não teve alternativa. O porto cresceu, criou ruas, ganhou casas, esquinas, moradores, praças, gentes e jeitos de cidade, até se tornar a maior de todo esse lugar. Mas nunca deixou de ser meio seringal, meio porto, meio floresta, meio cidade, meio rua, meio rio... E é por isso que, em certas ocasiões, tudo se mistura de novo, como neste ano de 2012.


Os ossos do Barão

Há 100 anos morria o Barão do Rio Branco, em cuja homenagem se nomeou essa cidade - que não tem nenhum rio "branco", mas sim um rio "acre" - porque não foi por questão de cor, mas de gosto que as pessoas fizeram questão de aqui permanecer, mesmo contra todas as evidencias e consequencias.

O que me lembra aquela musica: "Quem parte, quem fica! O que significa". Porque neste mesmo ano de 1912 em que partiu o Barão, chegava às terras acreanas outro homem que haveria de também mudar boa parte de nossa história: Mestre Raimundo Irineu Serra.

Cidadãos, enfim!

Há 50 anos os cidadãos acreanos deixavam de ser apenas aqueles que moravam nas cidades e seringais para se tornarem seres políticos de fato, como deveriam ter sido por direito desde sempre. Assim, em 15 de junho de 1962 terminava a maldição do Território Federal do Acre.

Uma praga bem rogada que, desde 1904, não permitiu que os acreanos comandassem seu próprio destino, forçando-os a engolir governantes desconhecidos, autoritariamente impostos pelo governo federal. E o pior é que nem o fato da maioria destes governantes não demonstrar nenhum outro compromisso com o Acre a não ser o de enricar o máximo possível no menor tempo possível, fez com que o governo brasileiro reconhecesse o absurdo da situação.

Foi necessária uma longa batalha no Congresso Nacional - que se arrastou por cinco anos, entre 1957-1962 - e uma intensa mobilização (através dos comitês Pró-autonomia) para que os acreanos pudessem enfim desfrutar de uma cidadania plena. Nada demais, enfim, apenas os mesmos direitos básicos de todos os outros brasileiros.


O que alguns não querem lembrar

Há 35 anos, em 1977, tinham início as primeiras pesquisas arqueologicas a serem feitas no Acre. Um trabalho extraordinário realizado pela equipe do Instituto de Arqueologia Brasileira (IAB) que - mesmo sem as facilidades tecnológicas com que contamos atualmente, tipo: gps, google earth, etc. - conseguiu revelar dezenas de sítios arqueológicos. De barco, de jipe, de pés, a partir das informações generosamente dadas pelo moradores destas terras e florestas, começava a se descortinar nosso passado profundo nas margens do Purus, do Iaco, do Iquiri, do Acre, do Juruá, do Tarauacá, do Muru.

Não podemos esquecer que, até então, a história do Acre começava em meados do século XIX e que, desde então, passou a ser contada em milhares de anos. Um grande salto para o conhecimento da trajetória humana nos altos rios desta Amazônia ainda incompreendida.

O que alguns querem que se esqueça

Há 20 anos, tão generosamente quanto havia recebido quinze anos antes, o Instituto de Arqueologia Brasileira (IAB) deu à Célinha, uma acreana do pé rachado, a oportunidade de realizar a primeira escavação arqueológica sistemática no Acre.

Financiado pelo Smithsonian Institution, graças aos esforços de Ondemar Dias e Betty Meggers, o trabalho realizado no extraordinário Sítio Los Angeles, que atualmente seria genérica e pobremente reduzido à condição de "geoglífo", foi um marco na pesquisa arqueológica no Acre porque nos forneceu inéditas e fundamentais informações deste sítio que é um dos principais e mais ricos já descobertos na Amazônia Ocidental.

Pena que aqueles que praticam uma propaganda sensacionalista de sí próprios, mal disfarçando seus evidentes interesses financeiros, insistam em querer apagar esse pioneiro e importante trabalho. Só mais um exemplo daquela velha história já cantada por Caetano: "Narciso acha feio o que não é espelho". Mas não adianta, porque há verdades que nunca poderão ser apagadas, quando não fosse por mais nada, apenas porque são simples e incorruptíveis verdades e assim, quando menos se espera, sempre haverão de voltar à tona.

Geografia de nós

Há apenas três dias nos deixou esse grande brasileiro chamado Aziz Ab'Saber. Um homem que fez da ciência e do Brasil as causas de sua vida. Este geógrafo que amava sua profissão, como poucos atualmente, nos fez ver e pensar a Floresta Amazônica, a Caatinga, a Mata Atlântica, o Cerrado, como nenhum outro antes. O Brasil perde assim um intransigente defensor e uma referencia, não só científica, mas principalmente ética. Enfim, deixamos de contar com a presença deste homem íntegro que carregava o "saber" em seu próprio nome, mas não com seu exemplo. E este haverá de permanecer como motivação para todos os que não aceitam as iniquidades cometidas em nome da vaidade ou de uma falsa ideia de "ciência" em nosso país.


Obs: Como muitos devem ter percebido, este artigo é, na verdade, introdução e roteiro de alguns dos temas que iremos tratar na coluna "Miolo de Pote" deste ano. Além do que, sob a desculpa de escrever pouco, acabei, como sempre, escrevendo demais. Tenho jeito mesmo não!

* O título deste artigo é vagamente inspirado no titulo do celebre romance de Gabriel Garcia Marques: "O amor nos tempos do cólera."

quinta-feira, 15 de março de 2012

TEORIA DO CONHECIMENTO E EPISTEMOLOGIA

Profª. Inês Lacerda Araújo


O que é conhecimento, quais são suas fontes, como é possível assegurar se o conhecimento é confiável, verdadeiro, falível ou não, é disso que se ocupa uma área da Filosofia chamada de "Teoria do Conhecimento".

Para os céticos nada se pode saber com certeza. Platão discorda, pensamos por meio das ideias, ao mesmo tempo elas são o que há para ser conhecido após uma difícil empreitada, que começa com os objetos físicos apreendidos pelos sentidos, que nos enganam, até o mundo superior, inteligível.


Aristóteles considera que o acesso ao real, aos seres individuais é direto; a fonte do conhecimento é a capacidade de perceber e de pensar, e isso não se deve às ideias, que são apenas abstrações. Para conhecer a causa geral de todos os seres é preciso partir da experiência e ir abstraindo até formular juízos sobre a essência e as características das coisas.

Empiristas pensam que a experiência é fundamental, racionalistas como Descartes rejeitam a experiência como fonte: ela pode nos enganar e todo saber só é digno do nome for indubitável, evidente e claro.O homem é uma coisa pensante dotado de um corpo, pura matéria.

Kant dá um passo definitivo e imprescindível: o conhecimento se estrutura por meio de formas puras, transcendentais sem as quais o mundo sensível permaneceria caótico e inacessível.

A fenomenologia eleva os fenômenos kantianos à condição de essência. Enquanto Kant se detinha na faculdade humana de apreensão ou intuição, dizia que o mundo das coisas em sua própria essência é inacessível, a fenomenologia de Husserl afirma que o conhecimento é das coisas mesmas. O fluxo da consciência que se tem dos fenômenos, das coisas (seja qual for a natureza delas) é próprio da consciência, é imanente a ela e, ao mesmo tempo, há a consciência tem papel transcendental, o "eu penso" é evidente, tal como para Descartes.

Chama-se "Epistemologia", a indagação sobre o tipo de conhecimento da ciência. Já não é mais um sujeito que conhece realidade a questão central, e sim quais são os meios para construir o edifício da ciência: experiência, testes, observações, instrumental técnico, sínteses sob a forma de leis e grandes teorias.

Entre os epistemólogos se destacam: Wittgenstein (de cuja expressão "edifício da ciência" me apropriei; os filósofos analíticos (como Carnap, para quem o conhecimento científico é o único verificável, portanto, o único confiável); Popper (o critério para o conhecimento científico é a refutação, em contraste com o que é irrefutável como ideologias e credos) e T. Kuhn com a noção de paradigma (apenas a ciência progride e isso se deve aos paradigmas que funcionam como modelos capazes de levantar todo um campo prático e teórico utilizável pelos cientistas em dada época).





Pois bem, em linhas muito gerais é disso que trato em meu último livro "Curso de Teoria do Conhecimento e Epistemologia", resultado de aulas na UFPR e das aulas na PUCPR sobre essas disciplinas. Agradeço aos meus ex-alunos e alunas. 
Lançamento do livro da Professora Inês Lacerda Araújo.

terça-feira, 13 de março de 2012

UMA BANDA COMPLETA DE MÚSICA


José Augusto de Castro e Costa*

O que impede a vida de se perder é ainda o pulsar no coração do ser humano o sentido da bondade, a crença na possibilidade da construção do bem-estar generalizado, a visão de um mundo melhor, onde da atmosfera respire-se o ar da generosidade, do bom-humor, da receptividade, da justiça e da beleza. Uma luz viva, através da audição, cintila na consciência com irresistível poder de atração. É uma das principais artes – a música!
Executada em coletividade ou de maneira solo a música abriga-se em todas as culturas, possuindo a capacidade de ilustrar, por sonoplastia, as reações dos seres vivos em seus respectivos ambientes.
Há os conjuntos musicais dançantes (foto), as orquestras de câmara, orquestras sinfônicas, orquestras filarmônicas, orquestras de pau-e-corda e diversas outras organizações musicais. A foto acima é de um dos primeiros conjuntos musicais do Acre, exatamente o grupo que fez uma serenata por algumas ruas de Rio Branco, que ficou conhecida como “seresta de piano”, que contou, inclusive, com a participação do clarinetista Sandoval, com toda sua erudição, sisudez e circunspecção.
A propósito, julga-se oportuno lembrar a diferença entre orquestra sinfônica e orquestra filarmônica, de vez que é normal que muita gente não recorde. A orquestra que é subsidiada por empresas públicas e/ou privadas é denominada de sinfônica, enquanto que a filarmônica subsiste da filantropia, como sugere sua raiz etimológica.
A música é a manifestação artística produzida pelo ser humano e guarda grande afinidade com a profissão militar, surgindo daí, a Banda de Música. São as Bandas de Música que, indubitavelmente, elevam o moral e o ânimo das pessoas e, por que não dizer, dos seres vivos.
Desde os primórdios de nossa existência experimenta-se a empolgação advinda das Bandas de Música, as quais estendem-se, mais tarde, nas atividades escolares, nas paradas cívicas, no cotidiano da cidade, presente na maioria dos eventos – retretas, competições esportivas, procissões religiosas, quermesses, cortejos fúnebres...
A Banda de Música da antiga Guarda Territorial já foi considerada, proporcionalmente, uma das melhores do Brasil, no gênero. Era formada por componentes possuidores do dom musical, a exemplo do que ocorreu no início da década de 50, com a inclusão de remanescentes do conjunto musical do exímio e respeitável Maestro Neves, vindo de Belém e desfeito em Rio Branco, tais como Vitor e Sandoval, mestres dos metais de palhetas, entre outros que vieram juntar-se aos então sargentos Horácio, Roldão, Xolada, Souza, Zuza, Deca, Zé Paulo, Edmundo, Cleomenes, etc.etc.
Eram artistas que, além de dominarem as partituras, improvisavam variações musicais que enlevavam o espírito, sobretudo quando regidos pelos não menos excelentes Tenentes Zeca Torres e Belarmino.
Mas estas características que destacavam-se como maravilhas da Banda de Música de Rio Branco, só poderiam ter sido garimpadas (como joias) e agrupadas, por alguém de soberba sensibilidade musical e elevado espírito de dedicação ao trabalho.
Trata-se do Capitão Pedro Vasconcelos Filho, carinhosamente conhecido como Capitão Pedroca. Ressalte-se que além da música, o Capitão Pedroca foi um exemplar profissional, destacando-se honrosamente em várias frentes de trabalho, literalmente. Isto porque, sob seu encargo foram construídos e concluídos “campos de aviação” nos principais municípios, além de Comandante da Força Pública em Cruzeiro do Sul, Xapurí e Brasiléia. Com efeito, lê-se o texto de um telegrama, datado de 20.10.40, redigido de próprio punho pelo Governador do Território do Acre de então, Epaminondas Martins, recomendando ao Capitão Pedroca que “avião estah partindo para ahi ignorando se pista em condições permitam aterrizar PT Esteja no campo momento chegada para qualquer advertência seja necessária PT Sauds PT Epaminondas Martins – Governador”. Quando responsável pela Segurança Pública de Brasiléia recebeu, entre outros, telegramas aflitos, como o textualmente a seguir: “...elementos partido trabalhista queixam este juízo de que em Brasileia bandos criminosos prestigiados policia infestam cidade espalhando terror et ameaçando eleitorado vésperas pleito com propósito embaraçar exercício do voto. Convicto verdade eleitoral et preocupação governo solicito urgentes providencias contra semelhante atentado liberdades democráticas. CDS SDS (a) Rafael Gondim Juiz Eleitoral 2ª Zona Xapuri PT JUSACRE”.
Não obstante seus mais variados afazeres, Capitão Pedroca sempre encontrava tempo para levar a efeito o exercício da música. Consta que já nos idos de 1916, quando o Acre ainda vivia o período das Prefeituras Departamentais, o nosso bravo comandante, à frente da Companhia Regional da Força de Defesa das Fronteiras, no Departamento do Alto Acre, criava a benfazeja Banda de Música.
Muitos de seus pupilos e mesmo os laicos, o público em geral há alguns anos, tinham a atenção voltada ao noticiário oficial da Rádio Difusora Acreana, atraídos por um dobrado que antecedia a voz marcante do não menos saudoso locutor Índio do Brasil. O dobrado, intitulado Canção do Soldado Acreano era uma contagiante e bonita composição do Capitão Pedro Vasconcelos Filho, o nosso querido Capitão Pedroca.
Potiguar de Ceará-Mirim, esse bravo brasileiro, órfão de pai e mãe, chegou ao Acre no vigor de seus 19 anos de idade, já possuidor dos conhecimentos musicais e domínio dos instrumentos, tanto os de bocais quanto os de palhetas. Crises existenciais levaram-no, não propriamente ao Acre, mas para distante de Ceará-Mirim. O perfume característico exalado das seringueiras (árvores) e a magia inebriante das águas do então rio Acre, alicerçaram-no, ao lado de d. Luciola, em rincões acreanos, propiciando-nos desfrutar da simpatia de sua prole, nas pessoas de Zé Pedroca, Maria José, Dalva, Pedrito e as irresistíveis gêmeas Maria Augusta e Maria Dirce. À ausência de Zé Pedroca, todos ainda nos brindam, pessoalmente, a memória por seus destaques indeléveis, quando ainda residiam no Acre, ressaltando-se Dalva, então Primeira Dama do Território e promotora de eventos culturais e Pedrito, excelente e seguro arqueiro da meta do Rio Branco Futebol Clube e da Seleção Acreana, que certamente faria inveja a qualquer Diego Cavagllieri. Maria Augusta e Maria Dirce, irreverentes, por serem gêmeas continuam a esbanjar simpatias e prestimosidades em dose dupla.
Teria o valor diminuído a referência à Banda de Música do Acre, sem fazer-se citação à eficiência, dedicação e esforço envidados pelo eminente Capitão Pedro Vasconcelos Filho, em fazer da nossa Banda de Música, um dos orgulhos do povo acreano.
Sabe-se que alguns seres humanos consagram suas existências ao bem, à luta a favor da nobreza e do sonho de um tempo menos infeliz para a civilização. Capitão Pedroca, ou respeitosamente, Capitão Pedro Vasconcelos Filho, em meio a uma vida de provações – de derrotas e vitórias, faz parte dessa linhagem de homens que dedicam o melhor de si à vida. Seu itinerário existencial e seu trabalho são um testemunho vívido desse compromisso.

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*JOSÉ AUGUSTO DE CASTRO E COSTA é poeta e cronista acreano.

quinta-feira, 8 de março de 2012

VIDE SOBRE ÁGUAS DE MARÇO

Clodomir Monteiro
em 07.03.2012


seu tronco sustenta filhos de amores
acasos sabores outras auroras
torcidos perfeitos tecidos vivos

galhos memórias balançam histórias
invernos verões varoas visões
equilibram saltos medos de chão

folhas e chás em recheios de ontem
beijos e caldos rialma espalhados
bebem segredos botões flores andores

frutos desfrutes correm curam ser veias
veio seio vida pai mãe família
bicos paz mares fé guias de luz

raízes troncos sãos folhas madrinhas
corda acorda reforma memória
mulher quer mundo dormindo de amor

uma bola em cima outra em baixo
dia alimenta de noite amamenta
oito internacional da natureza



*CLODOMIR MONTEIRO é presidente da Academia Acreana de Letras.

sexta-feira, 2 de março de 2012

O RIO ACRE E OS RATOS - Leila Jalul

Dia 25 último, entre amigos, taças de cerveja e caviar, completei meus exatos 64 anos de vida. Vida plena de baixos e altos, depressões e loucuras. Vida. Muita vida.
Olhando o tempo que passou, o tanto que vivi, que sorri e que chorei, voltei-me para “apreciar” o fenômeno da cheia que acontece no Rio Acre, de vez em sempre. Não fico chocada com as coisas que o rio faz. Fico chocada, sim, com o que fizeram com ele.
E fui lembrando, lembrando, era pequena, e era lindo este mesmo rio que ainda insiste cortar minha cidade. Quem viveu antes de mim, por certo há de lembrar, era mais lindo ainda. Deslizando por seu leito, médias e pequenas embarcações traziam gente e coisas de comer. Gente de longe, de muito longe, até...
Era pequena, sim, mas na minha retina ainda persiste a velha imagem da cidade iluminada sobre suas águas. Velhos e novos batelões, chatas e navios mostravam a vida em seu curso. Era festa na cidade a chegada dos navios. Na singeleza das nossas ambições, tudo era festa.
Na avidez da minha gulodice, cada navio aportado significava comida e fartura. Azeitonas pretas, biscoitos confeitados, manteiga, trigo e outros produtos que abasteciam a loja do meu avô e de outros tantos comerciantes da minha cidade. O rio era o condutor do futuro.
Lembro, apesar de tão menina à época, o quanto de terra firme existia diante da casa onde nasci. Havia um complexo hospitalar mantido por uma entidade religiosa. Havia mais terra atrás e muito distante, até que se avistasse o rio. Dos seus barrancos retirei gesso para o fabrico dos meus artesanatos.
Havia o Bita. Um Dr. Davi Friale sem diploma. E ele dizia do fim do rio com mais exatidão que as previsões atuais. Havia mata onde surgiu o bairro Cidade Nova. Havia praias, diversão, festas, tartarugas e tracajás poedeiras. Havia vida.
Um dia, após o primeiro desbarrancamento na Floriano Peixoto, escutei numa reunião de família, que a cidade iria para o brejo. Uma equipe de geólogos contratada pelo governo do antigo Território do Acre, deu o veredito: o leito do Rio Acre iria mudar ao longo dos anos. Não disseram quantos. E fiquei assombrada. Segundo o tal laudo, fosse como fosse, desapareceriam a catedral, o Palácio Rio Branco, sede do governo, e tudo o mais que encontrasse pela frente.
Uma “castrátofe”, como dizia minha avó. E de noite, ao colocar a cabeça no travesseiro, qualquer barulho que viesse da rua aterrada por mais de metro e meio de barro, ficava cagada de medo. É agora, José?
O tempo foi passando, passando e o desbarrancamento continuou. Foi-se o “Papouco”, o Preventório, a Minas Gerais e a Rio Grande do Sul.
Voltando ao laudo técnico, o da desgraceira, o governo deveria criar políticas de subir “pra cima”. Em outras palavras: transferir o centro administrativo lá para o lado do bairro das Placas, Apolônio Sales, Juarez Távora e mais e mais, sempre no rumo de cima, evidentemente.
É tradição, nas cidades não planejadas, a aglomeração em torno das repartições públicas e dos mercados. Não é segredo que o Acre é teúdo e manteúdo do governo central, desde que o diabo se chamava Lúcifer. Ora, pois.
Apesar dos laudos e do transcorrer dos meus tempos, o tinhoso RIO ACRE (maiúsculo, por respeito), encheu, vazou, vazou e encheu muitas vezes.
Agora, em meio à tragédia deste ano, relembro.
O ano, salvo engano, foi 1987. O mês foi fevereiro. No torrencial inverno, e ponham torrencial nisso, a capital Rio Branco e outras cidades do Acre foram invadidas pelas águas. Tanto quanto agora, em 2012, o clamor dos alagados ecoou.
O governo estadual pediu dinheiro e foi ouvido. De Brasília, nesta alagação de agora, uma pequena merreca foi autorizada (e ainda não liberada). O dinheiro é tanto que não cobre o que foi engolido pelas águas em dois ou três bairros. É muita lama e sofrimento para pouco dinheiro. Isso tudo, atente-se, sem contar as misérias pessoais. Uma criança que morre, um voluntário de 19 anos eletrocutado e as doenças que as águas trarão a curto e médio prazos.
Em 1987, do governo brasileiro chegou um montante que, de longe, também não cobriu um terço do prejuízo. Sempre foi assim. Outros governos, entretanto, ficaram comovidos com a tragédia traduzida em imagens. E veio de Cuba, um país que sabe de tragédias – políticas e naturais -, uma importante e possível contribuição: medicamentos e equipamentos hospitalares. De outros países vieram alimentos enlatados: queijos holandeses, atum sueco, leite em pó da Inglaterra, colchões, roupas de cama e muitas, muitas outras doações, incluindo geradores a diesel. Do exterior e de outros estados brasileiros. Além da conta aberta para recebimento de doações em dinheiro, claro!
As águas foram baixando. Antes que isso acontecesse, entretanto, o filé das doações já estava nas mãos dos ratos políticos que gerenciavam a calamidade. Geradores de energia a diesel, colchões e outros donativos foram armazenados nas fazendas de vereadores e deputados estaduais. Eles não perderam tempo. 1988 seria ano de eleições.
Eu mesma, na minha casa, recebi de uma parenta de um deputado de Tarauacá, umas latas de queijos vindas da Europa. Devolvi. Não tinha porque aceitá-las. Dei a maior escrachada na doadora e devolvi. Minha mãe, através de uma pessoa ligada à família de um genro, ganhou de presente um jogo de pinças, bisturis e tesouras cirúrgicas doadas por Cuba. Fiz mamãe devolver. Quis armar um escândalo e denunciar. Denunciar para quem? Os ratos estavam no poder. Denunciar? Como?
Em 1988, no ardor da campanha, colchões, roupas, queijos e outros alimentos vencidos foram distribuídos a rodo. Os alagados, bem antes das eleições, reergueram suas casas e trataram de recomeçar suas vidas à custa de suas coragens. Não se sabe, até hoje, notícias de inquéritos e punições. Os ratos são fortes. São frios. Dos limões das tragédias humanas eles fazem suas próprias e doces limonadas. E vivem rindo, à espera de outras enchentes que, felizmente, não são anuais. No período de poucas águas eles se confortam com qualquer coisa, principalmente nos anos eleitorais, onde se fazem presentes em enterros e lutos dos que sempre enganaram. São verdadeiros Farofinos na arte de encantar incautos.
Ratos são ratos. Ladrões de vidas e roedores da decência. Não creio que hoje eles existam como em 1987. Ratos amorais, talvez. Há quem se aproveite das circunstâncias, mesmo sem ser convidado.
O povo acreano é forte e sempre conviveu com adversidades políticas e climáticas. O rio, por sua vez, quer ter vida própria. Às vezes míngua e vira filete e poças d’água. Às vezes se vinga e transborda. O rio não sabe dos ratos. E corre livre, apesar deles. Infelizmente, inocentes úteis vão da carona na sua ira. Talvez para que fiquem na espreita e se alertem, antes das próximas eleições.
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* Texto publicado originalmente no Blog do Altino.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

MENTE, CÉREBRO E LINGUAGEM

Profª. Inês Lacerda Araújo


Mente e cérebro diferem radicalmente, cada qual pertence a um nicho do ser, haveria uma diferença ontológica entre o mental e o cerebral? 

Vejamos quando se diz que um fenômeno é mental. Pensar, desejar, falar, sonhar, perceber, imaginar, parece que há um acordo quanto a serem resultado de uma atividade mental, irredutível ao físico, ao neuronal, ao cerebral.

 E o que é considerado cerebral? Um déficit de inteligência, um lapso de linguagem, depressão, transtorno de personalidade, impulso suicida, esquizofrenia, são alguns dos fenômenos listados como cerebrais, suscetíveis de modificação com a interferência de medicamentos. Estes incidiriam sobre certa região e modificariam a química cerebral. Claro, com divergências nesse terreno.

 Alguns vão mais longe: o mental pode ser reduzido aos circuitos neuronais, às sinapses. O mental seria, então, físico?!

 Esses impasses e paradoxos só existem para filósofos, psicólogos, psiquiatras para os quais há diferença de natureza, ontológica, seriam duas realidades distintas, uma imaterial, a outra material.

 O que impressiona os defensores da mente é haver o mental distinto do físico, o pensamento distinto do corpo, a consciência distinta do desvario, a capacidade de deliberar distinta dos impulsos cegos, voltar-se para si (introspecção) distinto de comportar-se e reagir ao meio.

 A tese oposta se demonstra pelo óbvio: todo o nosso comportamento e as mais variadas atividades dependem do comando cerebral. Isso pode inclusive ser detectado por aparelhos. Eles mostram que tal ou tal emoção afeta tal região, falar afeta outra, sonhar outra, e assim por diante.

Mas, se considerarmos que para falar e perceber, para pensar e imaginar, para compreender e agir, enfim, para o diversificado tipo de vida dos seres humanos, foi necessário tanto que o cérebro se desenvolvesse e se adaptasse para comandar nossas atividades, como essas atividades constituiram pessoas vivendo em sociedades e dependentes de regras e instituições, que são culturais. Na medida em que a criança entra no circuito social da linguagem, portanto, das significações e signos, dos ruídos que passam a formar signos com sentido, é impossível separar o físico/cerebral da vida humana inteligente.

É por meio de signos, da linguagem humana articulada que nos tornamos pessoas, formas de vida que empregam vários jogos de linguagem sempre mergulhados em regras que validam ou invalidam nossas atividades.

Respondemos ao meio, o enfrentamos e o modificamos desde há muito tempo. Assim, separar em duas regiões ontológicas o mental e o cerebral se deve a particularidades da cultura humana. Por exemplo, perguntar a um amigo se sua tristeza é "curável", seria classificá-la como cerebral e apostar no prozac. O mais incrível, é que isso é cultural, há poucos anos se medicaliza emoções e sentimentos "excessivos".

Enquanto que, procurar compreender as reações e sentimentos desse amigo, é algo que se faz desde que relações humanas, entre elas a amizade, passaram a constituir nossa humanidade, o ser que somos. Há milênios.

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* INÊS LACERDA ARAÚJO - filósofa, escritora e doutora em Estudos Linguísticos. É professora aposentada da UFPR e PUCPR.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

ESSA TÃO SONHADA FELICIDADE

Luísa Galvão Lessa
colunaletras@yahoo.com.br
Um dos temas mais importantes de toda a história da humanidade é a Felicidade. Ninguém ousou dizer ser o dono da verdade sobre uma definição precisa, pois mesmo os grandes gênios da Filosofia sabiam da dificuldade em definir essa tão procurada felicidade. Por isso é bom caminhar na trilha de alguns sábios para que se possa revelar seus pensamentos e certezas acerca de tal compreensão e definição.

Desde os primórdios da Filosofia, a natureza foi o referencial para as explicações da humanidade. E, de certa forma, a única verdade para aqueles que viveram esse tempo é a esperança de encontrar nos preceitos filosóficos um caminho para se buscar a felicidade. E, embora esses sábios não dominassem os mistérios da natureza buscavam, nos fenômenos naturais, uma resposta para suas inquietações interiores.

A Filosofia, enquanto ciência, é a técnica da vida. E técnica é fazer algo que a pessoa já fazia com menos esforço e mais qualidade. A Filosofia existe para que as pessoas possam viver melhor, sofrer menos e lidar mais serenamente com as adversidades. A missão essencial da Filosofia é tornar viável a busca da felicidade.

Dessa forma, todos os grandes pensadores sublinharam esse ponto. A Filosofia que não é útil na vida prática pode ser jogada no lixo. Alguém definiu os filósofos como os amigos eternos da humanidade. Nas noites frias e escuras que enfrentamos, no correr dos longos dias, eles podem iluminar e aquecer. A Filosofia apóia e consola. "O ofício da filosofia é serenar as tempestades da alma", escreveu o sábio francês Montaigne (1533-1592). Numa outra definição magistral, Montaigne definiu a Filosofia como a "ciência de viver bem".

Segundo leituras empreendidas, para Sócrates o "conhece-te a ti mesmo" é a chave para a conquista da felicidade. Para Platão a noção de felicidade é relativa à situação do ser humano no mundo, e aos deveres que aqui lhe cabem. Para Aristóteles a felicidade é mais acessível ao sábio que mais facilmente basta a si mesmo, mas é aquilo que, na realidade, devem tender todos os seres humanos das cidades, vilas, povoados.

Avista-se, então, independente do pensamento socrático, platônico ou aristotélico, a felicidade, embora possível e fonte de busca incansável, não pode ser encarada como realização final da existência, ou seja, a última azeitona da empada, pois, se for assim, não encontrá-la significa ficar com fome. E fome é algo muito ruim.

Para Aristóteles, a felicidade é relatada como sendo um bem supremo tanto para os vulgos quanto para os homens de cultura superior, considerando-a como o bem viver e o bem agir. Outros identificam a felicidade com o bem e com o prazer e, por isso, amam a vida agradável.

Para a modernidade, felicidade seria um estado afetivo ou emocional de sentir-se bem ou sentir prazer. Para Aristóteles, ter felicidade ou ser feliz é usar a razão como propriedade e fazer de tal modo que isso se torne uma virtude. Segundo o filósofo, a felicidade é o bem mais nobre e mais desejável entre os homens, chegando a identificá-la como "uma atividade da alma em consonância com a virtude."

De outro lado, para alguns, a felicidade é pautada na existência de outra pessoa em sua vida. Aí, então, a felicidade fica muito complexa e difícil para alcançar. Colocar os sonhos/realizações/desejos nos ombros de outro ser, não só castiga quem recebe essa incumbência, como escraviza quem faz isso. A busca pela felicidade, embora possa ser feita em conjunto, trás uma realização pessoal. Se é para ser feliz, é preciso ser por conta própria. Do contrário, não se é feliz nunca.

Então, compreender realmente o que seja felicidade para um indivíduo é, de certa forma, ver nas atitudes humanas, ora na sua cultura, ora em seus pensamentos, a sua necessidade, ou seja, aquilo que realmente se precisa para ser feliz. Muitas são as respostas de como se chegar à felicidade. Albert Einstein, por exemplo, disse certa vez: "se quer viver uma vida feliz, amarre-se a uma meta, não às pessoas nem as coisas", pois sabia que as paixões destroem a liberdade do ser e o apego as coisas desvirtualiza uma pessoa.

Também, já foi dito que a felicidade é algo bastante relativo, pois depende, incondicionalmente, da visão de necessidade de cada indivíduo, ou seja, a felicidade, para um capitalista, é acumular riquezas; já para um socialista-comunista, reparti-la; para um estudante, a felicidade seria construir conhecimento; para um analfabeto, saber ler e escrever; para um colecionador, completar a sua coleção; já para um amador iniciante, ter a primeira peça e assim por diante. Nessa linha de raciocínio, infere-se que o ser humano entendia e entende a Felicidade como a satisfação do "Eu-querer".

À luz dos dicionários a Felicidade “é qualidade ou estado de feliz; ventura, contentamento. Feliz é o ser ditoso, afortunado, venturoso. Contente, alegre, satisfeito. “Que denota ou em que há alegria, satisfação, contentamento”.

Existem diferentes abordagens ao estudo da felicidade - pela Filosofia, pelas religiões ou pela Psicologia. E a resposta mais concreta a essa pergunta “ O quê é a felicidade?”, pode ser assim dada: A felicidade é um estado durável de plenitude, satisfação e equilíbrio físico e psíquico, em que o sofrimento e a inquietude estão ausentes. Abrange uma gama de emoções ou sentimentos que vai desde o contentamento até a alegria intensa ou júbilo. A felicidade tem, ainda, o significado de bem-estar espiritual ou paz interior.

Contudo, toda essa definição do que seja felicidade não está completa.  Isso porque a felicidade plena e absoluta não existe. Também não existe receita, manual que possa dar garantia plena de se viver 100% feliz.  A busca é por mais momentos e sensação de felicidade. Descobrindo suas necessidades, suas metas, como e quando alcançá-las, saber reconhecer limite, respeitando e se fazendo respeitar, sabendo diferenciar você do outro, é um começo. E nessa busca, cabe a cada pessoa criar a sua receita e escrever o seu manual do que é a SUA sensação de felicidade.

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* Luísa Galvão Lessa é membro da Academia Brasileira de Filologia e da Academia Acreana de Letras. Colunista do Jornal A Gazeta do Acre e do site Gosto de Ler. Artigo publicado em LINGUAGEM E CULTURA.

domingo, 19 de fevereiro de 2012

ALMA ACREANA do virtual para o papel

Acaba de sair o pequeno livro “Alma Acreana: textos esparsos”, uma reunião de alguns de meus principais textos publicados tanto no Blog Alma Acreana como em outros sites. O livro reúne treze artigos e dois poemas, todos ilustrados, revisados e aumentados. No momento é uma edição limitada, mas estamos preparando a edição para a internet. Disponibilizo abaixo o prefácio.


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O tempo foge.
O homem passa.
A palavra Fica.
Vão transcritas, aqui, minhas palavras ditas por aí. Não minhas. Maior parte colhida em jardins alheios. O arranjo, porém, é meu. Será? Versava H. Kolody que palavras são pássaros. Voaram. Não nos pertencem mais. Bendita palavra que encontra um chão onde brotar. O chão da palavra é o coração. Sem coração a palavra é como uma fonte sem água, um jardim sem flores...
Sou concreto. Sou abstrato.
Sou real. Sou virtual.
Recolhi textos esparsos do Alma Acreana. Verdadeiros, sim, porém virtuais. Não quero que morram quando um dia desaparecer o mundo, encerrado num HD de computador. O livro. Ninguém ainda inventou nada melhor. Sou moderno à moda antiga. O estalar do papel no toque dos dedos é poesia.
É uma edição limitada. Uma gratidão aos amigos. Nele encerro um naco de minha alma. Alma acreana.

Isaac Melo

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Aos amigos do Alma Acreana queremos ofertar um exemplar.
Participe por via comentários.

O QUARTO DOS PAPIROS E DAS ESTRELAS DO CÉU DE AZUL REAL – Leila Jalul

Ali no Tremembé, quase no Alto da Cantareira, eles eram apenas Joky e Mile. Sabia-se dele ser religioso ortodoxo, até pela aparência do trajar. Dela, de Mile, apenas que morava na mansão. Uma senhora mansão que tinha nos fundos um penhasco e, no penhasco, um plantio de pinheiros canadenses. Dela, da moça Mile, sabia-se nada. Sabia-se quase nada! E já era muito o nada saber...

Joki aparentava uns setenta e cinco anos; Mile, se muito, vinte e cinco. Tinha uma trança que lhe caía até a cintura. Um belo trançado de fartos pretos cabelos. Sua pele era alva. Chapéus de abas curtas, sempre de palha e descidos à frente, cobriam-lhe os pequenos olhos azuis.

Religiosamente, ainda muito cedo, descia a rua. Olhava para o chão. Sorria quando cumprimentada por um ou outro vizinho. Apenas sorria. Do chão não desgrudava os olhos. Da padaria, subindo a rua, voltava com uma bisnaga de meio metro de pão e dois litros de leite em embalagens de vidro. O trajeto era repetido no cair da tarde. A mesma compra: uma bisnaga de meio metro de pão e dois litros de leite em embalagens de vidro.

Era Mile, sempre, quem atendia às batidas no largo portão de madeira. Demorava a abrir. Parecia querer certificar-se se, quem bateu, poderia e deveria ser atendido. Medo? Raramente, também desconfiado, Joky vinha em seu auxílio. Também medo? O medo deveria rondar aquelas duas criaturas da mansão do penhasco com uma floresta de pinheiros canadenses. Por anos seguidos, invariavelmente às terças e sextas, em torno das seis da tarde, um senhor de óculos austeros, longa barba e roupas escuras visitava os moradores. Batia a aldrava de cobre do portão como se usando um código. Um motorista ficava do lado de fora à sua espera. Por longas horas esperava o senhor de óculos austeros.

A vizinha viu e contou tudo o que aconteceu na tarde de um outono já frio. Sempre era frio no Alto da Cantareira. Fosse verão, até. Dois homens estranhos, jamais vistos na redondeza, esperaram por bastante tempo, meia hora, ou mais, até que adentraram. Estavam numa caminhonete com grandes pacotes que pareciam pesados. O portão só foi aberto com a chegada de Joky e os homens foram recepcionados com reservas. Entraram. Do seu sobrado, a curiosa, esgueirada na janela, com olhos e ouvidos atentos pôde ver fagulhas de solda e ouvir sons de furadeira.

A vizinha do sobrado entendeu. Os homens só saíram da casa quando deixaram ser avistada uma torre mais alta que os pinheiros canadenses. Serviria para uma rádio PY? Para a comunicação com o mundo? Talvez! Queria ser uma mosca, a vizinha, nem que fosse por momentos breves, apenas para espiar como era a vida de Joky e Mile.

Anos depois, muitos, a mansão foi exposta à venda. Os vizinhos Joky e Mile voltariam para Gdańsk, na Polônia. A vizinha do sobrado fez o possível e o mais que possível para arranjar dinheiro. Vendeu o que era seu e, com o que tinha acumulado, comprou a mansão que, por décadas, causara-lhe estado de instigação permanente. Nas negociações preliminares viu que era procedente a atração irresistível. Era uma bela casa. De grandes cômodos, construída em dois níveis, transparecia guardar segredos e mistérios não de uma vida, mas de duas.

Na parte superior, em luz atenuada e indireta, uma grande sala que não servia aos visitantes. Uma sala-biblioteca, com duas imensas poltronas e dois abajures tipo sombrinha. Uma sala de leitura. Sala com livros esteticamente perfilados numa estante de mogno. Organizados sistematicamente, manuseados e guardados com disciplina e amor. Assim lhe pareceu. Na parede principal, num nicho feito sob medida, um quadro da Senhora de Chestochowa de Jasna Gora (Monte Claro), a padroeira da Polônia, feito à bico de pena e colorido com guache. Uma arte! A vizinha não deixou escapar detalhes.

Duas portas, ao serem abertas, revelavam o quarto de dormir de Joky e o de Mile. Móveis de jacarandá no quarto masculino diziam do poder aquisitivo do proprietário. Os criados mudos, de um e do outro, além de um reservatório para água e uma luminária de mesa, deixavam à mostra alguns livros marcados em meio à ultima página lida e a próxima, o que indicava a avidez pela leitura dos clássicos. No quarto de Mile, uma cama de ferro, tamanho solteirão, era pintada de branco e tinha adornos de bolas de metal prateado.

A vizinha do sobrado viu e contou que os proprietários da mansão que logo seria sua, liam Tolstói, Maximo Górki, Dostoiévski, Sócrates e Platão, ao mesmo tempo, nos ambientes onde dormiam. Dormiam acompanhados de bons autores. Talvez, quase com certeza, dessa leitura viesse a educação que mostravam possuir como maior riqueza.

Ainda durante a vistoria do imóvel, um momento foi especial e determinante para a quase garantida futura aquisição. O quarto de Mile possuía uma parede revestida com similares de papiros de tons amarelados, envelhecidos tecnicamente. As outras paredes tinham tonalidade azul marinho. No teto rebaixado, em azul real, estrelas em material fluorescente cintilavam. Uma lâmpada rotativa de parede jogava fachos direcionados que faziam bailar as constelações ali afixadas. Magia pura! Completando a decoração, parecendo retirada de um rescaldo de incêndio, a fotografia de um homem, uma mulher e uma criança menina. Fotografia antiga, em preto e branco foscos. Bem poderia ser dos avós de Mile e de sua mãe, quando menina.

Um pequeno corredor levava à cozinha. Tudo ali era branco. Um pequeno fogão, poucas panelas e louças de porcelana pintadas por Mile expressavam a pouca gula dos moradores. Um pequeno armário de condimentos e, ao lado dele, um de medicamentos que Joky tomava em horários marcados, anotados com detalhes numa lista afixada no painel da geladeira. Muitas frutas expostas em fruteiras rústicas diziam dos modos e costumes saudáveis.

Saindo da cozinha, com batentes de madeira e corrimão de barras de metal, uma escada deveria ser descida para alcançar o andar de baixo. Um canteiro de ervas para chás estava erguido em prateleiras sobre cantoneiras presas ao muro. Um jardim suspenso de camomila, hortelã, malva e outros tantos de carmelitanas, senes e macelas.

Ao centro do pequeno jardim, rigidamente limpa, uma fonte que jogava jatos iluminados por pequenas lâmpadas azuis, atraía pássaros em busca do refresco do banho e da bebericação de água. Dois pés de rosa menina, em cachos apinhados, adornavam o pedestal losango da fonte.

Um grande salão com portal e janelas de vitrais também azuis, destacava o ambiente que deveria ser chamado de porão. Uma visão divinal da floresta de pinheiros canadenses se descortinava. Uma paz de mosteiro reinava. Era o oráculo de Joki. Ali estavam a aparelhagem de rádio e um grande quadro de mensagens e lembretes vindos de todas as partes do mundo.

Esse oráculo, por anos, pela voz da vizinha compradora, serviu de quartel general para a tentativa de achar os pais de Mile. Se não os pais, algum parente. Avós, primos ou tios que lhe pudessem devolver a alegria perdida. Era no recanto sagrado, também, que, por todo o tempo de residência no Brasil, Joky fazia ligação com os familiares de outros compatriotas que, também no Brasil, cumpriram o forçado exílio. O senhor de óculos austeros servia de mensageiro. Vinham por ele os clamores da comunidade polonesa para a localização dos seus na terra deixada arrasada; através dele saíam os resultados dos contatos. Alvissareiros, ou não.

Pela voz e relato da vizinha, agora moradora da mansão, foi dito ao mundo que Mile, cujo nome verdadeiro não se sabia, fora apanhada por Joky, em estado famélico, numa praça de Gdańsk no período da invasão alemã e da caça aos judeus poloneses. Ela tinha apenas dois anos quando foi recolhida e, por sorte, não habitou os campos de concentração.

Na semana antecedente à viagem, fardos e mais fardos de bagagem foram encaixotados. Na data do embarque, surge Mile com o chapéu de sempre, vestida com a mesma tristeza de antes e sem desgrudar do chão os pequenos olhos azuis. O senhor de óculos austeros os levaria ao aeroporto. Seria ele, por poderes plenos passados por Joki, o encarregado de ultimar a venda da mansão, no que se referisse à transmissão definitiva do imóvel. Não houve festa de despedida. Saíram tão ou mais silenciosamente como enquanto ali viveram.

Pela voz da vizinha do sobrado, agora proprietária da mansão que tinha nos fundos um penhasco e, no penhasco, um plantio de pinheiros canadenses, foi dito que, no apressado do tempo, Mile esqueceu no quarto dos papiros e das estrelas do céu de azul real, talvez, quase de certo, a sua maior fortuna: a fotografia que parecia ter saído do rescaldo, onde estavam retratados um homem, uma mulher e uma criança que bem poderiam ser seus avós e sua mãe, quando criança.

A vizinha da casa do sobrado não hesitou. No próximo encontro com o soturno homem de óculos austeros devolveria o quadro embrulhado em uma página de presente, cópia similar de papiros, e escreveria num cartão com estrelas prateadas: “Para Mile, com carinho”.

Na sua primeira noite na casa, cansada pela mudança, uma dúvida pairou em seu pensar: teria sido um mero esquecimento?

No Tremembé, quase no Alto da Cantareira, está firme a mansão. Lá não mais mora a vizinha do sobrado, que se esgueirava para saber dos mistérios e segredos que pairavam sobre Joky e Mile. Os pinheiros canadenses do penhasco ainda estão lá. Parecem velhos e curvados em direção ao precipício. Para além do limite... Para onde tudo vai...

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*Publicado originalmente no site Lima Coelho.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

A ERA DOS SERINGAIS

O Acre sempre fora muito ligado aos seringais. O seringal é parte constitutiva e essencial de sua história. A riqueza dos seringais, o látex, é que arregimentou para cá centenas de nordestinos, sírio-libaneses, portugueses... Praticamente todas as nossas cidades nasceram a partir de um núcleo de seringal. Somos, de nascença, todos filhos de seringal.

Quando, muito antanho, era moda a publicação dos álbuns iconográficos, um dentista de nome Emílio Falcão publicou o seu, o qual chamou “Álbum do Rio Acre: 1906-1907”. Trata-se do maior acervo iconográfico relativo à Revolução Acreana e da vida socioeconômica dos Seringais do Rio Acre. Um dos poucos documentos de relevância cultural que se conservaram daquele período de grande prosperidade econômica.

O álbum focaliza o vale do rio Acre logo após a incorporação do território ao Brasil pelo Tratado de Petrópolis (1903). Aí estão, numa impressionante sequência, os barracões dos seringais, com nomes brasileiríssimos, todos à beira do rio. Veem-se ainda damas em seus alongados vestidos, com chapéus, sombrinhas, leques, lenços. Bem como os cavalheiros de fraque, cartola... tudo como exigia a moda da época.

O professor Jacó Cesar Piccoli comenta que, ao registrar através de fotografias os seringais do baixo Purus, do baixo e alto Acre, da sua foz até Xapuri, Emílio Falcão não apenas documentou a paisagem do novo território conquistado aos bolivianos, mas os tipos humanos, os habitantes, os costumes da época, os tipos de embarcações (gaiolas, vaticanos, batelões, etc), enfim, aspectos de uma cultura que surgia com vigor em plena Amazônia.

Falch, sobrenome real de Emílio Falcão, elaborou o seu Álbum com informações históricas dadas pelo Capitão Libânio Macedo. Pena, conforme registrou Océlio de Medeiros, que ambos silenciaram sobre vultos históricos, como represália por não haverem contribuído financeiramente para a edição.

De qualquer forma, o que Emílio Falcão registrou é uma amostragem significativa do que foi a era dos seringais. O que faltou foram outros álbuns. O Álbum do Rio Tarauacá, o Álbum do Rio Juruá... Regiões tão belas quanto ricas.
ALTO ALEGRE - seringal central, propriedade do sr. Manoel Pereira Vianna, produz cerca de 15.000 quilos de borracha. Está situado entre Catuaba e a vila Rio Branco.

MACAPÁ - seringal na margem direita do rio, propriedade dos srs. Marques Nogueira & Ca. Este seringal e outros centrais pertencentes à mesma firma, podem produzir cerca de 180.000 a 200.000 quilos de borracha.

MACAPÁ - um pic-nic no centro deste seringal.
CAQUETÁ - seringal na margem direita, com produção de 25.000 a 30.000 quilos de borracha. É propriedade do sr. Coronel Joaquim Victor e o seu arrendatário é o sr. J. Lindozo. Neste seringal tem o Governo do Amazonas um posto fiscal e mesa de rendas.
BOM DESTINO - grande armazém para mercadorias no mesmo seringal, propriedade do sr. Coronel Joaquim Victor.

BAGÉ - seringal situado na margem esquerda, propriedade do Coronel Pergentino Eucrasio Ferreira. Pode produzir 100.000 quilos de borracha. Tem um belo campo, bonito laranjal e outras àrvores frutíferas.
SERINGAL SÃO FRANCISCO DE IRACEMA - bela propriedade do sr. Francisco Antonio de Brito. Situado à margem esquerda, pode este seringal produzir cerca de 90.000 a 100.000 quilos de borracha. Com belo campo, bastante criação, vacas de leite, etc., é um lugar aprazível.
PANORAMA - propriedade da firma Alves Braga & Cia., do Pará, sob a gerência do sr. Adolpho Brabosa Leite. Situado à margem esquerda com área de 98.106.800 m2 e 49.760.000 m2 de perímetro, produz 25.000 a 30.000 quilos de borracha. É uma bela vivenda, com boa água e muitas árvores frutíferas em seu terreno.

REMANSO - seringal que ocupa ambas as margens do rio. Seu barracão está situado na margem esquerda. É propriedade do sr. Annitiliano Ferreira de Mesquita, tem uma área de 395 milhões de metros quadrados e um perímetro de 150 km. Limita-se na margem esquerda com o seringal “Santa Severina”, pertencente ao mesmo senhor, com uma área de 150 milhões de metros quadrados e 90 milhões de metros lineares de perímetro. Completamente ocupado pode produzir cerca de 120.000 a 130.000 quilos.
NOVA FLORESTA - situado na margem direita. É seu proprietário o sr. Soares Hermanos, pode produzir 15.000 a 20.000 quilos de borracha, e é seu arrendatário presentemente o sr. Capitão José Rufino de Oliveira.

SERINGAL SÃO FRANCISCO DE IRACEMA - residência do sr. Francisco Antonio de Brito.

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*Fotografias e informações se encontram no "Álbum do Rio Acre: 1906-1907" de Emílio Falcão.