sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

SOCIEDADES DE SEGURANÇA E SUA RELAÇÃO COM O TEMPO FUTURO

Profª. Inês Lacerda Araújo 
FILOSOFIA DE TODO DIA


As sociedades modernas não se limitam à vigiar e punir, a usar aparelhos e instituições de encarceramento, de aprendizagem, de moldagem do comportamento. As sociedades modernas dependem de sistemas de segurança. Não apenas exércitos e armamentos, estes são milenares. Exército, informação, a necessidade de proteção e de prevenção, seja de um ataque terrorista, de um bando de assaltantes, de um acidente com meio de transporte de massa, ao deixar seu filho na escola, ao transitar de carro, ônibus ou mesmo a pé – em todas essas situações e em inúmeras outras, há a preocupação com segurança. 

Não importa quantos recursos para prover e prevenir perigo, de onde ele vier, um vírus ou um tsunami, um acidente de carro ou uma invasão de hackers, tais perigos permanecem e mesmo aumentam. 

Em nenhuma época histórica houve tanta disponibilidade tecnológica para dominar o futuro e garantir segurança. Mas em nenhuma outra época os meios para destruir, matar, prejudicar estiveram ao alcance de tantas organizações e grupos. Uma criança é treinada para matar, um adolescente encontra armas em sua própria casa e mata crianças, um motorista desatento fere ou mata, o contrabando de drogas e armas é incontrolável e alimentado por consumidores que se safam e viciados cuja vida se animaliza. 

Paradoxalmente, as sociedades modernas são sociedades de segurança. Para governar e manter populações inteiras sob controle, portanto, pressupondo o domínio futuro dessas vidas individual e coletivamente, governos investem necessariamente em saúde, em sistemas que assegurem o comércio e transporte de pessoas e mercadorias. Investimentos precisam ser seguros, há seguro para tudo, pago, é claro; e tudo precisa ser seguro: o automóvel, o elevador, o prédio, o remédio, o brinquedo infantil, o computador livre de vírus, a comida e a bebida, e a lista é longa. Casas com cerca elétrica, câmeras, corpos e pertences revistados em aeroportos, em estádios de futebol; detectores de metal em certos países, para entrar em teatros, em museus e em atrações turísticas. 

Nunca o futuro foi objeto de tantos instrumentos e recursos para funcionar exatamente como previsto.

Mas, evidentemente o futuro nos escapa. O futuro será, ainda não é... 

Por mais que satélites e projeções estatísticas prevejam que tal ou tal acontecimento se dará desse ou daquele modo, o imprevisível acontece, como é mais do que sabido. E justamente por isso, se reforçam todos os meios para evitar o imprevisível.   

Esquecemos como é viver abandonando-se ao presente, ao correr e fluir das coisas. O futuro não é mais considerado o incerto, o futuro precisa ser dominado, a qualquer custo. O que leva à dependência da ação humana de confiar, de contar que tudo se dê como planejado. E o círculo se fecha. 

Ousadia, coragem e fatalismo são atributos que ficaram no passado. 


* INÊS LACERDA ARAÚJO - filósofa, escritora e professora aposentada da UFPR e PUCPR.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

ITU ACREANA

Para quem não conhece o Acre, Tarauacá, cidade onde nasci, um pouco mais de 400 km da capital, é conhecida como “terra da mulher bonita e do abacaxi grande”. Verdade é que mulher bonita em todo lugar há (graças a Deus!), só depende do olhar de quem vê. Agora abacaxi grande, nem a hiperbólica Itu compete com o nosso. Quando falo isso a alguns amigos por onde passo, eles perguntam qual tamanho, respondo: bem, o último só a foto pesou 4 kg. Na dúvida, tenho uma fotografia, ‘captada’ pelo Nylson Oliveira no blog do amigo Kbym, que confirma o que digo. Um carro transportando um pequeno abacaxi no centro de Tarauacá. Se continuar cético, é só ir lá, e comprovar. E ainda nem falei das couraças de tatu que serviam como oca de indígenas algumas centenas de anos atrás. Bem, isso fica para outra ocasião.

Aproveitando o ensejo, me lembrei de uma outra anedota contada pelo inesquecível jornalista José Chalub Leite sobre um ‘causo’ acontecido com o memorável ex-senador e governador Jorge Kalume. Acerca de A MINHOCA DO KALUME, diz Zé Leite:

"Governador do Acre, Jorge Kalume decidiu marcar presença acreana com produtos da terra na Feira dos Estados em Brasília. Providenciou a importação de abacaxis gigantes de 22 quilos de Tarauacá, macaxeiras de porte avantajado, “pélas” de borracha de 150 a 200 quilos, cajus sumarentos e grandões, ouriços de castanha-do-pará, enfim, produtos da terra de fazer queixo de brasileiros e brasileiras caírem. A expo de Kalume foi sucesso. 

Um grupo de militares admirava o tamanho dos abacaxis e outros itens, JK empolgado descrevia a fertilidade do solo acreano. Na andança, param diante de uma pele de jibóia e antes que o governador falasse alguma coisa, um coronel interpelou-o: 

– Governador Kalume, pelo amor de Deus não me vá dizer que isso aí é o couro de minhoca do Acre! 


Anedota retirada de: LEITE, José Chalub. Tão Acre: Humor acreano de todos os tempos. Rio Branco: BOGRAF Editora Preview Ltda, 2000.

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

ENQUANTO A MISANTROPIA NÃO ME TOMA POR COMPLETO...

Jairo Nolasco
Jurubeba Juruaensis


Por que me visto tão mal? 

Decerto que não sou um maltrapilho sem opção. A esta altura da vida poderia usar roupas mais caras e de grifes. Poderia até me desfazer do carro popular e investir as economias em algo mais prazeroso sobre quatro rodas. 

Mas não. Por enquanto ainda não e talvez nunca. 

Não julgo quem se prende ao bom gosto das roupas caras e combinadas. Que sejam felizes como são. Meu cisma aqui é outro. 

Faço de mim uma figura pobre e mal trajada  de forma proposital. Quero afastar de mim os infames, falsos, destiladores de peçonha. Estes não resistem ao toque simples, cru.

Não é ódio e nem desgosto, é pura diversão. Liberdade de ser assim, eu. 

Gosto de ver e comprovar até onde  vai a covardia e a podridão desses humanos, que julgam as pessoas pelo o que veste, o que calça, o que dirige, quantos 's' se gasta no palavrear... 

A essência e o caráter jazem por completos. Pobre hipócrita, este povo ocidental, suposto "cristão", que adora gabar-se de ter como Deus Aquele que se fez carne, habitou entre nós e veio a este mundo em uma humilde manjedoura, em um estábulo qualquer, tendo como pais, pobres de riqueza material. 

Certamente a mensagem do Messias não foi para que fossemos pobres e maltrapilhos para sermos dignos. Não me venham com esta, pois! A dignidade humana, entretanto, no dobro da distância, não está na boa aparência que pode ser comprada, facilmente fabricada ou  na simples origem do individuo. 

Me divirto observando este povo hipócrita, que se parasse para olhar mais atentamente veria um discreto sorriso de ironia. Eles não te olham na cara, dentro dos olhos. Te julgam de longe. 

Me julgam pela pintura, eu os julgo pela alma. 

São como moscas morféticas por não diferenciar o veneno fatal incluso na sujeira da qual alimentam-se diariamente! 

Não sou e nem quero ser, por certo, melhor que eles. Só diferente e distante, um indivíduo estranho.

Assim a vida é justa e quase divertida...



P.S. sempre que leio Jairo Nolasco vejo um quê machadiano, talvez o tom (ou dom) sarcástico, irônico que atinge o ponto nevrálgico da questão. Os melhores textos advindos das barrancas do Juruá que tenho lido ultimamente são dele, que, com Franciney e o Altheman, forma a trindade literário-jornalística juruaensis da blogosfera.

domingo, 20 de janeiro de 2013

MINNIE, A HEROÍNA DE CONDE DE JACUTINGA

Leila Jalul
site Lima Coelho


CONVITE


O prefeito do município de Conde de Jacutinga convida Vossa Senhoria e digníssima família a participarem das festividades comemorativas ao aniversário de 10 anos de emancipação da cidade e inauguração da Praça Conde de Jacutinga, no próximo dia 02 de agosto, com a programação abaixo descrita:

06 horas – Alvorada com a Banda de Música da Guarda Municipal de Conde de Jacutinga com a execução de dobrados marciais, valsas e outras músicas do cancioneiro popular. 

08 horas – Apresentação de canto coral com os alunos da Escola Gildete Luiza Macedo Alvarenga Médicis, benemérita primeira dama da sociedade jacutinguense, educadora por sacerdócio e minha venerável esposa.

09 horas – Distribuição de doces, pipocas e sacolés às crianças presentes. 

10 horas – Execução do Hino Nacional com a Banda da Guarda Municipal e hasteamento da Bandeira do Brasil pelo Dr. Vereador Alceu de Jacutinga, honrado primogênito do imorredouro Conde de Jacutinga e Presidente da Câmara Municipal.

11 horas – Corte da fita inaugural do portal da praça e arriamento do pano que cobre a placa de bronze afixada no pedestal onde se apoia o busto do fundador da cidade, o eminente Conde de Jacutinga. 

11.15 horas – Bênção do logradouro pelo padre Malvino Splendore, pároco da Igreja de Nossa Senhora das Graças.

11.30 horas – Desfile de crianças e adolescentes no carro da alegria, animado por personagens do mundo encantado de Walt Disney e outros amigos e heróis das histórias em quadrinhos. 

É importante lembrar que o carro da alegria percorrerá toda a Avenida Conde de Jacutinga após as 14 horas, prolongando-se até às 19 horas. No decorrer da semana de festejos jacutinguenses, por decisão minha, igualmente, a cada hora, o carro  partirá do átrio da igreja matriz até a sede da Prefeitura. Após o retorno as crianças serão deixadas no mesmo local do embarque, quer seja, no átrio da igreja matriz.

Pedimos aos pais ou responsáveis que vigiem seus filhos e evitem tumulto na hora do embarque e do desembarque. 

As crianças farão o trajeto ao som de músicas infantis e outras de sucesso de cantores regionais, tais como: Zé Calango e Peixe Boi, Kalu e Kalunga, Adonis e Sérvulo, Paulinho e Pinduca, dentre outros.

23 horas – Salva de fogos com duração de 10 minutos. 
Local: Lagoa dos Pioneiros. 


24 horas – Baile no Clube do Conde.
Traje: passeio completo ou distinto. 

Agradeço a presença de todos.

Marcos das Neves Vianna Alvarenga Médicis
Prefeito Municipal

No raiar do dia 02 de agosto, como programado, a alvorada começou. Os munícipes madrugadores estavam lá. Queriam aproveitar o dia na sua totalidade. Não era sempre, afinal, que acontecia uma festa com tantas atividades. Uns cantavam, outros batiam palmas e outros mais, como bons pés de valsa, não deixaram de dançar.  Nas redondezas de Conde de Jacutinga a banda era conhecida pela beleza da farda de gala, afinação dos instrumentos e execução primorosa das peças.

A programação não fugia muito à de outras tantas do mesmo gênero nas cidades do interior.

Com um ou outro pequeno atraso, tudo aconteceu de acordo com o previsto. 

Fora do script, como costuma ser, apenas um pequeno incidente de última hora ocorrido no carro da alegria. A empresa de recreação foi surpreendida com a ausência dos dois garotos que vestiriam as roupas do Mickey e da Minnie. Uma virose qualquer os impediu de estar na grande festa.  Tiveram, então, que contar com dois outros garotos da cidade de Conde de Jacutinga.

Sodré Siqueira Filho e Celena dos Santos Marabak, proprietários do carro, logo encontram uma solução. Um menino e uma menina que nasceram com Síndrome de Down, por terem estatura pequena, foram os escolhidos.  E não foi somente para tapar os buracos das ausências dos titulares.  Não!  Sodré e Celena Marabak, sensíveis, perceberam a timidez e um certo ar de tristeza nos semblantes dos garotos  e,  com um pouco de conversa, convenceram-nos a brincar com as fantasias dos mais simpáticos figurantes do elenco. Umas explicações básicas e logo, os dois entraram no clima. 

Matheus e Marcela, os dois meninos, dentro da comunidade, eram um tanto vítimas da crueldade das outras crianças. Tinham pouquíssimos amigos. Na escola, via de regra, eram excluídos dos grupos, ou pela deficiência da fala, ou pela aparência física, ou, tão somente, por conta da crueldade pela crueldade. As crianças sabem ser cruéis, muito cruéis, quando assim querem.

Foi na antepenúltima viagem do carro da alegria que aconteceu o pior.  As luzes dos piscas-piscas, um tanto fraquinhas, deixavam o interior do carro quase em penumbra. O som que brotava das caixas com as formosuras de músicas da Mara Maravilha e da Xuxa era ensurdecedor. 

Quem conhece os trens da alegria pelo mundo afora, deve e tem obrigação de saber que as roupas de pelúcia são uma afronta para quem vive no brasileiro calor dos trópicos dos diabos.  E deve saber, também, que os fantasiados têm várias funções durante o trajeto, quais sejam: alegrar as crianças, cuidar da proteção delas e tirar fotos para a posteridade.

Num determinado momento, Pateta, um grandalhão desengonçado de quase dois metros, dá uma esbarrada no homem aranha e este se esborracha no corredor do veículo.  As crianças começaram a gritar pilhérias por conta dos contorcionismos que este fazia para levantar com o carro em movimento. 

Nesse mesmo instante, no fundão do corredor, Mickey teve um mal estar, sentou-se na grade da carroceria e caiu fora do carro. Ficou imóvel, estatelado no preto e esburacado asfalto.  Apenas Minnie pulou e saiu em seu auxílio, gritando:

- Socorro, o Mickey morreu! O Mickey morreu! Socorro!  Ajudem o meu amigo! 

Vendo que não era ouvida, a passos curtos, ligeirinhos e muito corajosamente correu até a frente do carro e fez sinal para que o condutor parasse.  Falou com ele e, juntos, foram prestar atendimento ao pequeno rato da Disneylândia jacutinguense caído no chão. O susto foi maior por conta de um pequeno filete de sangue que escorria do braço do Mickey de aluguel.

Felizmente, ao retirarem a cabeça da fantasia, Mickey estava já retornando do leve desmaio causado pelo calor.  Minnie, felicíssima, também arrancou sua cabeça orelhuda e, carinhosamente, enxugou o suor do rosto do amigo e retirou-lhe a roupa de pelúcia.  Ficou apreensiva quando viu os garotos em volta deles. Todos com ares de desolação.  Muitos dispostos a ajudar a conduzir o amigo até a sua casa, não muito longe do local do acidente. Naquele momento, ao invés da habitual crueldade, demostraram, isso sim, a beleza da solidariedade.  Tal gesto deveu-se, talvez, à quantidade de abraços e beijinhos distribuídos nas viagens para lá e para cá da Av. Conde de Jacutinga. 

Minnie foi abraçada e acariciada por todos e conduzida nos braços como heroína do reino infantil.

Novamente, sem lembranças ruins, o arremedo de trem da alegria retornou às suas funções com todas as atrações,  à exceção do Mickey que,  em casa,  foi hidratado com soro caseiro,  para  bem  se recuperar  do susto pelo qual passou. 

Em Conde de Jacutinga, ao raiar do dia 3 de agosto, o baile das autoridades deu por encerrada a festa.

O carro da alegria, a mando do prefeito Marcos das Neves Vianna Alvarenga Médicis, enquanto na cidade, passaria a funcionar somente após as 17 horas, quando amainasse o sol. 

Na volta às aulas, para alegria dos pais de Marcela e Matheus, o pobre Mickey, vivíssimo da Silva e a sua salvadora Mínnie, graças a Deus (e ao desmaio), não mais foram vítimas da crueldade dos amigos.  E ainda, das mãos do prefeito Marcos das Neves Vianna Alvarenga  Médicis,  com direito a discurso,  receberam um diploma de agradecimento pela participação nas solenidades comemorativas aos 10 anos de emancipação do município de Conde de Jacutinga. 

Uma história com final desejado, pois. 

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Nota da autora:
O mote deste conto, no que diz respeito ao tombo do personagem Mickey,  fato verdadeiro,  me foi passado pelo Prof. Juarez Nogueira,  autor dos livros O MENINO ALQUIMISTA  e NINAUÁ, recentemente publicados pela Editora Gulliver. 
No mais, deixei rolar os meus delírios.

sábado, 19 de janeiro de 2013