quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

A ORIGEM DA PUPUNHA DOMESTICADA

Evandro Ferreira

Dentre as mais de 550 espécies de palmeiras nativas das Américas do Sul, Central e do Norte, apenas a pupunha (Bactris gasipaes) é considerada como espécie completamente domesticada. O açaí-de-touceira, atualmente amplamente cultivado na Amazônia, ainda está em estágio inicial de domesticação.

Conceitualmente, a domesticação de uma planta consiste em um longo processo de seleção conduzido pelo homem com o objetivo de adaptar a planta para suprir suas necessidades de alimentos, materiais de construção, medicamentos e outros produtos. Por essa razão, geralmente as plantas domesticadas são geneticamente distintas de seus progenitores selvagens e, na maioria das vezes, totalmente dependentes do homem para sua sobrevivência, não conseguindo se reproduzir na natureza sem a intervenção humana. Isso explica o fato de roçados cultivados com culturas perenes, como café, abacate e mamão, geralmente não prosperarem quando deixados sem os cuidados básicos de podas e limpezas do terreno onde são cultivados.

O processo de domesticação e disseminação do cultivo da pupunha foi realizado por indígenas sul-americanos muito antes da chegada dos primeiros europeus. Quando isto aconteceu, a espécie já se encontrava distribuída por toda a Amazônia, norte da América do Sul e parte da América Central. Os frutos, que podem ser usados na alimentação humana e de animais domésticos, foram a principal razão para a domesticação da espécie. Somente nos últimos 30 anos é que seu cultivo foi expandido para a costa atlântica brasileira, especialmente para a produção de palmito, que rivaliza em qualidade com o palmito extraído de algumas espécies de açaí na Amazônia e da palmeira Jussara, na Mata Atlântica. Esse interesse comercial fez com que a espécie tenha atingido um status de cultivo industrial.

Apesar da sua importância econômica, até recentemente existiam discordâncias quanto à classificação botânica da pupunha. Ocorre que muitas plantas cultivadas de pupunha, com variações no tamanho e na cor dos frutos, foram descritas como espécies ou variedades distintas. Da mesma forma, algumas plantas morfologicamente similares à pupunha cultivada, mas que cresciam espontaneamente na floresta também foram descritas como espécies distintas. Até o famoso botânico alemão Martius contribui para a confusão ao criar o gênero Guilielma para batizar plantas de pupunha cultivada que ele havia encontrado no Maranhão nos idos de 1824.

A confusão quanto ao correto nome científico da pupunha foi resolvida em duas etapas. A primeira, em 1991, quando o pesquisador americano Roger Sanders fez um estudo filogenético e comprovou que o gênero Guilielma proposto por Martius não diferia do gênero Bactris, que havia sido proposto em 1777. Posteriormente, em 2000, o pesquisador inglês Andrew Henderson fez uma revisão taxonômica do gênero Bactris e propôs que o nome científico mais apropriado para as plantas cultivadas de pupunha seria Bactris gasipaes variedade gasipaes. O nome das plantas selvagens morfologicamente similares às cultivadas passou a ser Bactris gasipaes variedade chichagui.

Entretanto, ainda pairam algumas dúvidas sobre  como ocorreu a domesticação da pupunha e algumas perguntas ainda não estão completamente respondidas. Qual ou quais os ancestrais selvagens foram usados pelos indígenas para desenvolver a pupunha domesticada? Isso foi feito de forma isolada em uma única região ou ocorreu de forma simultânea em diferentes localidades na América do Sul e Central?
Para alguns pesquisadores, a domesticação ocorreu uma única vez em algum lugar do sudoeste da Amazônia, em uma região que compreende parte do Acre, e regiões adjacentes da Amazônia boliviana e peruana. Para outros esse evento único ocorreu no noroeste da Amazônia colombiana. Finalmente, uma hipótese completamente diferente advoga que a domesticação ocorreu mais ou menos simultaneamente em diversas localidades na América do Sul e na América Central.

Estudos filogenéticos que realizamos em meados da década de 90 indicam que sob o ponto de vista anatômico e morfológico pelo menos uma espécie de pupunha selvagem, Bactris dahlgreniana, amplamente distribuída no sudoeste da Amazônia, norte de Mato Grosso e sul do Pará, é estreitamente relacionada com as plantas cultivadas, sugerindo que estas últimas podem ter sido selecionadas a partir da primeira.

Dados históricos apóiam o sudoeste da Amazônia como o centro de domesticação da pupunha. O botânico suíço Jacques Huber, então funcionário do Museu Goeldi e amplo conhecedor da Amazônia, já havia encontrado a pupunha cultivada e seus parentes selvagens quando visitou o alto rio Solimões, no Brasil e regiões adjacentes no Peru. Quando, por volta de 1904, ele encontrou as mesmas plantas ao longo do rio Purus, se convenceu de que a pupunha selvagem, que ele batizou de Guilielma microcarpa, conhecida pelos nativos como ‘pupunha brava’, era a mais provável ancestral da pupunha cultivada.

O botânico brasileiro Barbosa Rodrigues, ao visitar a região da Chapada dos Guimarães por volta de 1900, encontrou uma espécie de pupunha selvagem em matas de galeria locais, mas não observou a pupunha cultivada, que conhecia de sua viagem ao Pará, realizada por volta de 1870. Como não havia observado pupunha selvagem no Pará, ele propôs que os indígenas que habitavam as cabeceiras dos rios Xingu e Tapajós provavelmente domesticaram a pupunha e levaram sementes da mesma para o baixo Amazonas. Análises genéticas realizadas nos últimos anos apóiam a hipótese de dois eventos de domesticação ocorridos no sudoeste da Amazônia, coincidindo com as proposições de Jacques Huber e Barbosa Rodrigues.

Por hora, existe quase um consenso no meio acadêmico de que a pupunha brava, cujo nome científico mudou de Guilielma microcarpa para Bactris dahlgreniana, é a espécie com maiores chances de ter dado origem à pupunha cultivada. Inclusive seu nome popular deriva do fato da mesma ser em quase tudo idêntica à pupunha cultivada, com exceção dos frutos, que são muito menores e não tem valor comercial. Se a pupunha brava for, no futuro, confirmada como a ancestral da pupunha cultivada, os indígenas responsáveis por esse processo merecem nossa admiração. Afinal, eles partiram de uma espécie cujos frutos mediam menos de 2 cm de diâmetro e desenvolveram variedades cultivadas com frutos medindo até 8 cm de diâmetro. Uma façanha e tanto considerando que o processo foi feito de forma intuitiva. 


* Evandro Ferreira - acreano, nascido em Rio Branco, pesquisador do INPA-AC e do Parque Zoobotânico da UFAC. Mestrado em Botânica no Lehman College, New York, USA, e Ph.D. em Botânica Sistemática pela City University of New York (CUNY) & The New York Botanical Garden (NYBG).

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

A FESTA E A FARSA

Clodomir Monteiro



em festa o povo
            na praça
            é luta
            de massa é presa

            do bolo no paço
            no sonho
            bolado
a cidade traçado

o homem consome
            o sono
            comprime
            o corpo existência

            compasso o homem
            no passo
            sumindo
na fome da praça

estremece no frêmito
            frequente
            enfrenta
frenética miséria

o povo em festa
a festa
na farsa
entorpece de novo


MONTEIRO, Clodomir. Derroteiro de Rotinas. São Paulo: Quíron/Práxis, 1976.
 * Clodomir Monteiro é presidente da Academia Acreana de Letras.

sábado, 16 de fevereiro de 2013

UMA VOZ ENTRE AS NUVENS

José Augusto de Castro e Costa 


A aeronave já iniciava o taxiamento em preparação para proceder a decolagem quando sentou-se ao lado do velho Alberto  um homem de meia idade e, depois de cumprimentá-lo vaticinou, com certa naturalidade que “Deus é a força do mundo, que dá luz e brilho às estrelas e tem o poder mais profundo de dar forma às coisas mais belas”. E prosseguiu falando que há também, no mundo, quem tenha bastante força e grande poder, porém, de dar forma às coisas mais assustadoras, mais dolorosas, mais absurdas, mais horripilantes. 

Quem? Provavelmente aquele da Força Negativa! 

Enquanto o homem falava, velho Alberto imaginava o fato de encontrar-se dentro de um avião, em voo diurno ou noturno, cercado de CBs, em terrível e tenebrosa tempestade, experimentando o tresloucado efeito de descontroladas e alucinadas turbulências indomáveis, constituir-se numa situação que, indubitavelmente, leva qualquer ser animado às mais desesperadas atitudes, próprias de sua insignificante pequenez, em busca encolerizada de livrar-se do que, em verdade, não é bom. Em tal circunstância, o apelo por socorro é desesperadamente gritante. Muitos vão ao nível do falecimento, passando antes pela sudoração. 

A humanidade tem assistido muitas situações desesperadoras, por completo. Para muitos protagonistas dessas situações não foi concedido condição para contar a história sofrida. Suas almas não resistiram e retiraram-se. 

Já estando a aeronave posicionada em situação de voo cruzeiro, aquele companheiro de viagem passa a transmitir ao velho Alberto curiosa apologia cristã, com referência à natureza humana, tomando por base a numerologia, esclarecendo-lhe o profundo simbolismo que o número três exerce na história da humanidade. 

É interessante saber-se que o ser humano, diferentemente dos demais animais, é composto de três substâncias, a saber: corpo, alma e espírito. Quem dá vida ao corpo é a alma, sendo esta a promotora dos nossos estímulos, dos nossos anseios, dos nossos ânimos e desânimos e até dos nossos sentidos. 

Ao retirar-se, o corpo morre. 

A natureza espiritual do ser humano é formada pela alma e pelo espírito, os quais, enquanto estiverem no corpo humano são entrosados e inseparáveis, proporcionando-lhe a vida. Portanto, o ser humano é corpo, é alma e é espírito. Neste aspecto, o diferencial do ser humano é o espírito, o qual não é encontrado nos irracionais. 

Velho Alberto sentia-se como que se abastecendo com o que absorvia daquele companheiro de viagem, o qual lhe dizia que, sendo o ser humano “espírito”, tem capacidade de conhecer Deus e ter comunhão com Ele, enquanto sendo “alma” tem conhecimento de si próprio e sendo “corpo”, é capaz de conhecer o mundo, através dos sentidos. 

Dizia-lhe o desconhecido que o espírito pode conhecer o que a alma não conhece. Entretanto esta, através da razão, pode conhecer coisas, ao passo que o espírito pode discerni-las por intermédio da intuição.

Dando prosseguimento ao argumento da tripartição, dizia aquele passageiro que cada parte do ser humano ainda divide-se em outras três, a saber:

1º- Ao espírito pertencem: a consciência, a comunhão e a intuição.

2º- A alma é constituída de: mente emoção e vontade. 

3º- O corpo é formado pelo que vemos: cabeça, tronco e membros. 

Simplesmente “todo ouvidos”, velho Alberto, quase em modorra, porém entregue às surpreendentes sugestões, nem se dava conta de questionar qualquer ponto do colóquio, muito menos conhecer informações daquele palestrante. 

Apesar do envolvimento, percebe que a viagem está chegando ao seu destino, dado o início dos procedimentos característicos de diminuição de altitude que a aeronave passa a apresentar. 

Velho Alberto ainda capta os últimos esclarecimentos acerca da influência do número três na natureza humana e seus respectivos significados.

Quando reconhecidas paisagens começam a ser visualizadas, velho Alberto, instintivamente, é levado a identificar possíveis pontos de seu torrão, mesmo diante do visível desmatamento. Observa um vasto campo aqui, uma pequena porção de floresta ali, raras lagoas tipo açudes adiante, até distinguir, quase no horizonte, a sinuosidade do estreito rio de água barrenta.

Quando vê surgir a silhueta da cidade, velho Alberto volta-se para comentar com seu companheiro de viagem, o qual estava a erguer-se, juntando ao peito um espesso volume de um livro. Pode ainda perceber a boa aparência física do desconhecido, num traje de simples “blazer” em tom azul, esboçando um modesto e singelo sorriso, para em seguida, sumir por completo, apesar de incessantes buscas empreendidas dali por diante. 

Voltou a vista para a paisagem que se descortinava através da janelinha da aeronave e não reconheceu praticamente nada. Apenas identificava-se com as recordações vindas da infância, ao banhar-se nas águas barrentas daquele rio, frequentadas desde a praia da Base até ao Igarapé da Judia, pontos visitados no bojo de uma catraia alugada ao seu Eládio, ou ao Hugo, ou Caboré. 

Ao preparar-se para o pouso, velho Alberto prende-se, subitamente, ao teor das palavras ouvidas por quase três horas de voo. 

Lembrou-se, então, da natureza tripartite do ser humano e supôs que em alguma das três partes poderia encontrar-se a fé e definiu-a como sendo o fundamento das coisas que se espera e a prova das coisas que não se vê. 

E questionou, consigo: por que só os seres e as coisas têm o privilégio de existir, e logo a Deus isto é negado?!


* José Augusto de Castro e Costa é cronista e poeta acreano. Reside em Brasília, e escreve o Blog FELICIDACRE. 

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

A CORAGEM MORAL

Profª. Inês Lacerda Araújo 


A coragem física é muito mais enaltecida em nossa cultura atual do que a coragem moral. Por todo lado e em toda parte há alguém "enfrentando desafios", subir montanhas, maratonas, atravessar desertos, até mesmo cruzar a Antártica no inverno. É o que fará a equipe chefiada por Sir Ranulph Fiennes, 68 anos, durante seis meses, no escuro, com temperatura de até 90 graus abaixo de zero ao custo de 6 milhões de libras. 

Claro que este senhor precisará de muita força de vontade. Mas pode-se dizer que essa empreitada inédita é movida também por coragem moral? 

Creio que não. A coragem moral requer outro tipo de sacrifício. 

A decisão de Bento XVI de renunciar ao papado, é um exemplo único e grandioso de coragem moral. Saber que outro papa renunciou há 600 anos não conta, não quer dizer nada. Outros tempos e outros costumes. 

A Igreja Católica não via nada parecido e tampouco contava ou esperaria que um papa renunciasse ao encargo máximo, e mesmo divino (para os católicos o papa é o representante de Deus na terra). O que impressionava nas aulas de religião era nos ensinarem que ele era mesmo infalível (o dogma da infalibilidade papal se refere às questões de fé). 

O peso enorme de ser representante divino infalível bastava para que ninguém supusesse que um papa deixaria o comando do Vaticano e dos católicos. Bento XVI surpreendeu. 

Reconhecer que lhe faltavam forças deve ter sido difícil. Dar o passo seguinte, o da renúncia, era muito mais grave, até mesmo arriscado. 

A virtude da coragem moral é aquela que conduz pessoas excepcionais a abrirem um caminho, a serem exemplo, a tomarem atitudes e decisões extremas. Justamente por isso a pessoa imbuída desse tipo de coragem faz de seu ato algo humilde e interior. Não é preciso e nem é compatível bater no peito e contar vantagem, sair bradando aos quatro cantos sua suposta bravura.

Voltar a ser Joseph Ratzinger
Dificilmente pessoas no poder a ele renunciam livremente devido à impossibilidade física, sabedores de que não conseguem mais cumprir com rigor as exigências de seu cargo, de continuarem a ser confiáveis no desempenho de suas funções. 

Pelo contrário, o poder e a fama funcionam como drogas, viciam. Chefes amam ser adulados, aclamados, enaltecidos. Há políticos que mesmo sem mandato perseguem a notoriedade, não conseguem abandonar seu cargo, se consideram de uma importância ímpar, iluminados por seus egos inflados. 

O valor moral da renúncia ao poder é tão grande quanto recolher-se e se tornar novamente Joseph Ratzinger, tendo por companhia seus livros, descansando e meditando. Um ex-papa... 



* INÊS LACERDA ARAÚJO - filósofa, escritora e professora aposentada da UFPR e PUCPR.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

SAMBA, ORAÇÃO E RECONHECIMENTO PATERNAL

Leila Jalul

Aos sábados, no casarão do Bairro da Imaculada Conceição, as portas são abertas após as 20h. A batucada e a cantoria, porém, só têm início após a chegada de Frei Beto, pároco da Igreja de Sant’Ana. É que o frei, além de bom pastor,dedilha um teclado como ninguém. Filho de mãe solteira e criado num seminário de orientação Franciscana, Frei Beto fez daquela família, a família que sempre quis ter.

A casa principal é ocupada por Silas Cordeiro e Dona Tereza, pais dos seis meninos e das cinco meninas que habitam em pequenas vivendas nos fundos do grande quintal, com seus respectivos filhos, esposos e esposas.

Ao centro, de bom tamanho e separando a casa principal das moradas dos filhos, um grande e confortável barracão coberto de telha colonial é dividido entre todos e usado como cozinha comunitária, salão de encontro nas noites de pagode, festas do Divino e aniversários, além de funcionar como cassino do jogo de truco e capela para a realização de missas e novenas. O bom aproveitamento do espaço é de fazer inveja. Nunca está ocioso, a bem da verdade. 

O velho Silas, até o ano de 2006, teve saúde pra dar e vender. Em 2007, numa pescaria de rio, foi ferrado por uma arraia e, por infelicidade, nunca mais teve a mesma saúde. O bom humor e o gosto pelas festas religiosas e profanas não foi abalado. Não mais aguenta varar sempre as madrugadas, mas ... Não foge da raia e da boa prosa. Uma cadeira de junco de enorme espaldar e fofas almofadas lhe serve de trono. Sentado ali, tocando seu cavaquinho ou desfiando o seu terço de grandes contas, mais parece um rei negro. E ele é um rei. O rei do pedaço! 

O dia do aniversário de 15 anos da primeira neta, agora neste janeiro, aconteceu um imprevisto. Um quase imprevisto, para melhor dizer. O dia foi por demais movimentado no barracão. Os fogões não foram desligados um só minuto e, deles, saíram bolos e salgados de todos os tipos e qualidades. A turma da decoração, por sua vez, entupiu o teto e as colunas com grandes balões rosa e verdes, as cores da escola preferida de toda a família - a Mangueira, que também foi de Dona Zica, de Cartola e de dona Neuma.

Dona Tereza, ou Terezona, como é chamada, cuidou do altar e da arrumação dos instrumentos do pagode. Terezinha, a mãe da aniversariante, ficou livre para a sessão de embelezamento dela e da menina Maria Lúcia. Tudo quase que cronometrado e sem falhas. Silas, por conta da perna inchada, somente pôde ajudar com palpites e reclamações. No que foi atendido. Quem ousaria contrariar o grande chefe da tribo?
Às seis da tarde, com pontualidade inglesa, chegou Frei Beto que, logo, deu início à Santa Missa. No lugar do sermão, pois que não era dia, fez um belo discurso sobre a beleza do ser jovem e pertencer a uma família de valores morais irrepreensíveis.

Durante a comunhão, puxada por Dona Terezona, a turma ajoelhou-se em volta do trono do patriarca para receber o corpo de Cristo em forma de pão. Um momento inesquecível para os que presenciaram a partilha, concebida na acepção maior da palavra.

Entre as sete e oito da noite, circulando em volta da grande mesa, passou-se à degustação dos petiscos, finalizando, assim, a primeira parte da festa. O canto do parabéns já foi em compasso de pagode. E daí emendou, começando com a música preferida do vô Silas, que é de autoria do Martinho da Vila. “Madalena, Madalena / você é meu bem querer / eu vou contar pra todo mundo / vou contar pra todo mundo / que eu só quero você”. Segundo Silas, pelo seu gosto, o nome deste samba deveriaser Terezona.

Um dos convidados, o outro avô da aniversariante, ao despedir-se da festa foi, antes, abraçar o velho amigo. E, durante o abraço, notou que ele estava muito gelado e com as mãos bastante trêmulas, motivo suficiente para chamar Joel num cantinho e avisar o percebido. Talvez fosse apenas emoção, mas, pensou, com a idade não se brinca.

De imediato, já com o estetoscópio e o esfigmo nas mãos, o filho médico tratou de ver a pressão arterial e os batimentos cardíacos do pai. Aferida e conferida, o ponteiro marcava 8 x 4. Baixíssima! Tanto quanto os batimentos cardíacos, também em pancadas lerdas. Sua obrigação de médico era conduzir o pai até ao Hospital Pio XII e acionar o cardiologista.

Terezona, em vista disso, quis encerrar a reunião. Perguntou aSilas se desejava que o acompanhasse até o hospital. A negativa veio de pronto e em tom de firmeza.

Preferiu ser acompanhado por Joel e por Frei Beto.

Saíram, então, deixando Terezona com a obrigação de tocar a festa como se nada estivesse acontecendo. Joel concordou com Silas. A ida ao hospital seria apenas uma medida preventiva, porém necessária.

- Fica tranquila, mãe! Já voltamos. Será um pé lá e outro cá.

Frei Beto, cheio de orgulho por ter sido escolhido acompanhante, também acalmou a matrona.

- Ei, Dona Tereza, quem anda com Deus não tem medo de assombração. Não deixe a peteca cair! Deus não abandona os seus filhos. Nunca!

A festa não parou. João Negreiros assumiu o teclado e Terezinha o pandeiro. Nada que se comparasse a Frei Beto e a Joel, mas... Quebraram o galho, ora pois!

Em menos de uma hora, com a pressão equilibrada e os batimentos cardíacos saltitantes no peito, chegaram Silas e seus dois anjos. A festa aumentou de volume quando Marien, esposa de Joel, puxou outro samba da preferência do sogro, que é de autoria de Paulinho da Viola.

Foi Um Rio Que Passou em Minha Vida 

Se um dia
Meu coração for consultado
Para saber se andou errado
Será difícil negar 
Meu coração
Tem mania de amor
Amor não é fácil de achar
A marca dos meus desenganos
Ficou, ficou
Só um amor pode apagar
A marca dos meus desenganos
Ficou, ficou
Só um amor pode apagar... 
Porém! Ai porém!
Há um caso diferente
Que marcou num breve tempo
Meu coração para sempre
Era dia de Carnaval
Carregava uma tristeza
Não pensava em novo amor
Quando alguém
Que não me lembro anunciou
Portela, Portela
O samba trazendo alvorada
Meu coração conquistou... 
Ah! Minha Portela!
Quando vi você passar
Senti meu coração apressado
Todo o meu corpo tomado
Minha alegria voltar
Não posso definir
Aquele azul
Não era do céu
Nem era do mar
Foi um rio
Que passou em minha vida
E meu coração se deixou levar
Foi um rio
Que passou em minha vida
E meu coração se deixou levar
Foi um rio
Que passou em minha vida
E meu coração se deixou levar! 
Silas voltou alegre. Ensaiou uns passinhos e, após sentar-se em seu trono de rei negro, chamou Terezona e pediu que parassem os instrumentos. Precisava fazer uma confissão do interesse de todos. Seria rápido, avisou. E então, ladeado pela esposa, filhos, genros, noras, netos e por Frei Beto, fez a tal confissão. Quase lacônica, por sinal. 

- Tereza, minha esposa; amada família: Frei Beto é meu filho com uma moça que conheci antes de casar. Frei Beto é irmão de vocês e, embora já faça parte da nossa vida, vou reconhecê-lo como manda a lei. Espero a compreensão de todos. Tragam meu cavaquinhoe vamos cantar!

Ao amanhecer do dia, em abraço coletivo, rezaram um Pai Nosso. Quem puxou a oração foi Joel. Frei Beto estava caindo de bêbado e rindo que nem pinto na bosta.

Hoje, entre as crianças, o religioso filho de Silas Cordeiro não é mais Frei Beto. É tio Frei Bebeto. Nas cantorias, entre os irmãos, é conhecido e tratado como Mano Beto do teclado. 

A cadeira de junco com grandes e fofas almofadas, até agora e pelo tempo que Deus permitir, serve e servirá de trono para o rei negro Silas Cordeiro, que não perde a pose de patriarca e ilustre chefe de uma família que reza e canta samba com singular alegria.

sábado, 9 de fevereiro de 2013

NO QUARTO ANO DE GUERRA

Hermann Hesse


Embora a tarde fria e triste esteja,
e a chuva rumoreje,
sem saber quem me escuta, o meu cantar
em tempo entoo ainda.

Embora o mundo se asfixie em guerra e medo,
nalgum lugar,
em segredo, sem que ninguém o veja,
o amor flameja ainda. 


HESSE, Hermann. Andares: antologia poética (trad. Geir Campos). Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1976.