sábado, 16 de fevereiro de 2013

UMA VOZ ENTRE AS NUVENS

José Augusto de Castro e Costa 


A aeronave já iniciava o taxiamento em preparação para proceder a decolagem quando sentou-se ao lado do velho Alberto  um homem de meia idade e, depois de cumprimentá-lo vaticinou, com certa naturalidade que “Deus é a força do mundo, que dá luz e brilho às estrelas e tem o poder mais profundo de dar forma às coisas mais belas”. E prosseguiu falando que há também, no mundo, quem tenha bastante força e grande poder, porém, de dar forma às coisas mais assustadoras, mais dolorosas, mais absurdas, mais horripilantes. 

Quem? Provavelmente aquele da Força Negativa! 

Enquanto o homem falava, velho Alberto imaginava o fato de encontrar-se dentro de um avião, em voo diurno ou noturno, cercado de CBs, em terrível e tenebrosa tempestade, experimentando o tresloucado efeito de descontroladas e alucinadas turbulências indomáveis, constituir-se numa situação que, indubitavelmente, leva qualquer ser animado às mais desesperadas atitudes, próprias de sua insignificante pequenez, em busca encolerizada de livrar-se do que, em verdade, não é bom. Em tal circunstância, o apelo por socorro é desesperadamente gritante. Muitos vão ao nível do falecimento, passando antes pela sudoração. 

A humanidade tem assistido muitas situações desesperadoras, por completo. Para muitos protagonistas dessas situações não foi concedido condição para contar a história sofrida. Suas almas não resistiram e retiraram-se. 

Já estando a aeronave posicionada em situação de voo cruzeiro, aquele companheiro de viagem passa a transmitir ao velho Alberto curiosa apologia cristã, com referência à natureza humana, tomando por base a numerologia, esclarecendo-lhe o profundo simbolismo que o número três exerce na história da humanidade. 

É interessante saber-se que o ser humano, diferentemente dos demais animais, é composto de três substâncias, a saber: corpo, alma e espírito. Quem dá vida ao corpo é a alma, sendo esta a promotora dos nossos estímulos, dos nossos anseios, dos nossos ânimos e desânimos e até dos nossos sentidos. 

Ao retirar-se, o corpo morre. 

A natureza espiritual do ser humano é formada pela alma e pelo espírito, os quais, enquanto estiverem no corpo humano são entrosados e inseparáveis, proporcionando-lhe a vida. Portanto, o ser humano é corpo, é alma e é espírito. Neste aspecto, o diferencial do ser humano é o espírito, o qual não é encontrado nos irracionais. 

Velho Alberto sentia-se como que se abastecendo com o que absorvia daquele companheiro de viagem, o qual lhe dizia que, sendo o ser humano “espírito”, tem capacidade de conhecer Deus e ter comunhão com Ele, enquanto sendo “alma” tem conhecimento de si próprio e sendo “corpo”, é capaz de conhecer o mundo, através dos sentidos. 

Dizia-lhe o desconhecido que o espírito pode conhecer o que a alma não conhece. Entretanto esta, através da razão, pode conhecer coisas, ao passo que o espírito pode discerni-las por intermédio da intuição.

Dando prosseguimento ao argumento da tripartição, dizia aquele passageiro que cada parte do ser humano ainda divide-se em outras três, a saber:

1º- Ao espírito pertencem: a consciência, a comunhão e a intuição.

2º- A alma é constituída de: mente emoção e vontade. 

3º- O corpo é formado pelo que vemos: cabeça, tronco e membros. 

Simplesmente “todo ouvidos”, velho Alberto, quase em modorra, porém entregue às surpreendentes sugestões, nem se dava conta de questionar qualquer ponto do colóquio, muito menos conhecer informações daquele palestrante. 

Apesar do envolvimento, percebe que a viagem está chegando ao seu destino, dado o início dos procedimentos característicos de diminuição de altitude que a aeronave passa a apresentar. 

Velho Alberto ainda capta os últimos esclarecimentos acerca da influência do número três na natureza humana e seus respectivos significados.

Quando reconhecidas paisagens começam a ser visualizadas, velho Alberto, instintivamente, é levado a identificar possíveis pontos de seu torrão, mesmo diante do visível desmatamento. Observa um vasto campo aqui, uma pequena porção de floresta ali, raras lagoas tipo açudes adiante, até distinguir, quase no horizonte, a sinuosidade do estreito rio de água barrenta.

Quando vê surgir a silhueta da cidade, velho Alberto volta-se para comentar com seu companheiro de viagem, o qual estava a erguer-se, juntando ao peito um espesso volume de um livro. Pode ainda perceber a boa aparência física do desconhecido, num traje de simples “blazer” em tom azul, esboçando um modesto e singelo sorriso, para em seguida, sumir por completo, apesar de incessantes buscas empreendidas dali por diante. 

Voltou a vista para a paisagem que se descortinava através da janelinha da aeronave e não reconheceu praticamente nada. Apenas identificava-se com as recordações vindas da infância, ao banhar-se nas águas barrentas daquele rio, frequentadas desde a praia da Base até ao Igarapé da Judia, pontos visitados no bojo de uma catraia alugada ao seu Eládio, ou ao Hugo, ou Caboré. 

Ao preparar-se para o pouso, velho Alberto prende-se, subitamente, ao teor das palavras ouvidas por quase três horas de voo. 

Lembrou-se, então, da natureza tripartite do ser humano e supôs que em alguma das três partes poderia encontrar-se a fé e definiu-a como sendo o fundamento das coisas que se espera e a prova das coisas que não se vê. 

E questionou, consigo: por que só os seres e as coisas têm o privilégio de existir, e logo a Deus isto é negado?!


* José Augusto de Castro e Costa é cronista e poeta acreano. Reside em Brasília, e escreve o Blog FELICIDACRE. 
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