quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

TRÊS SONETOS DE JORGE TUFIC

“Jorge Tufic é um dos grandes escritores brasileiros, autor de uma obra rara, dotada de linguagem lírica e de alta metáfora, sonora e imagística, flutuante e bem elaborada.”
Clodomir Monteiro


O VINHO DO MÍSTICO 
Jorge Tufic

Ao Yogue Paramahansa Yogananda

Testemunhas de mim são as garrafas. 
Louvo, ao secá-las, ao meu bom Khayyam. 
Ao néctar místico lançam-se tarrafas, 
e a pesca é boa quando a vida é sã. 
Embriago-me de Deus toda manhã, 
verticalizo a dor como as girafas. 
Alcanço a plenitude. Adoro Pã,
danço longe do tédio e das estafas. 
Meu turbante rebrilha. Posto em lótus, 
ultrapasso o Nirvana e tiro fotos 
da solidão mais cósmica do além. 
Bebo com Deus a chuva que ele ama. 
É sempre bom beber. O vinho é chama
 que se transmuda como lhe convém.


SONETO ÀS BORBOLETAS 
Jorge Tufic

Sempre dou baixa aos dias na folhinha. 
Porém, quanto mais risco, mais florescem, 
quer nos blocos seguintes, quer na minha  
janela aberta aos outros que amanhecem. 
Não sei das vezes que a esse gesto eu vinha 
dando o meu tempo que as aranhas tecem; 
tantos dias iguais, seja à tardinha, 
seja às estrelas quando resplandecem. 
Montões de calendários tomam conta 
de algumas prateleiras que derramam 
velhos papéis inúteis, dessa monta. 
Números, datas, portas e janelas, 
foram, decerto, árvores que inflamam
para os céus borboletas amarelas.


O CRISTO DE SARAMAGO 
 Jorge Tufic

A rede, sim, transluz-se e colhe o peixe. 
A terra é sangue, inútil proteção 
ao cordeiro aflitivo – que se o deixe 
manumisso da horrível sagração. 
A tempestade, o mar, o rubro feixe 
se azula em mim nos touros de um clarão... 
Ventos, parai! Que o mundo não se queixe 
dessa fúria de Deus em minha mão. 
Que são curas, milagres como o vinho, 
meus pássaros de areia, o gesto santo 
no adiar-se a vida para mais caminho 
Uma simples mulher curou-me, um dia, 
das chagas com suas lágrimas; e o quanto
 dera-me alívio à cruz donde eu pendia.


O poeta Jorge Tufic é acreano de Sena Madureira. Tufic é consagrado como um dos melhores poetas de sua geração, tendo exercido um papel imprescindível na literatura amazonense, cearense e acreana. Em 2012, recebeu o Prêmio Raul Bopp da União Brasileira de Escritos – RJ, pela obra QUANDO AS NOITES VOAVAM.

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