segunda-feira, 21 de abril de 2014

TARAUACÁ 101 ANOS: FONTE LUMINOSA

Este é um vídeo com imagens raras da antiga fonte luminosa de Tarauacá. Até hoje o privilégio de se ter uma fonte é apenas da capital, Rio Branco. Recordo-me que, em criancice, ainda brinquei, em dia de chuva, tanto nessa fonte da Praça Tarauacá quanto na da Praça da Municipal.


O círculo indica o local da antiga fonte luminosa de Tarauacá.














Com o passar do tempo e o descaso dos governos municipais, as fontes foram sendo esquecidas, até o ponto de serem abandonadas e mesmo destruídas, as duas. A da Praça da Municipal recebeu um poste no meio e bancos ao redor. A do Centro, pior ainda, recebeu uma pequena construção para se vender, entre outras coisas, crepes. Em ambos os casos, descaso total com o patrimônio cultural e material da cidade. Espero ainda um governo sensível e competente que nos devolva aquilo que ao longo dos anos tem sido abandonado, destruído ou jogado às traças.
Fonte da Municipal, já em estado de decadência.
O círculo indica o local da fonte da Praça da Municipal
A cidade que já teve jornal, cinema e fontes, hoje desfaz-se em buracos e lama. É o progresso!


Nota: Essas imagens foram cedidas a Reginaldo Palazzo, que disponibilizo-as no youtube. O Palazzo tem demonstrado uma dedicação à história cultural de Tarauacá como nenhum natural até hoje fez. Obrigado, meu amigo!
Obs. duas últimas imagens do blog Tarauacá Notícias.

domingo, 20 de abril de 2014

FELIZ PÁSCOA

PÁSCOA DO SENHOR JESUS
Clodomir Monteiro
Rio Branco


VIVA  FESTA COMUNHÃO
NO JARDIM LIBERTAÇÃO
PÓS EXILIO POVO AQUECE
TRÁS DAVI E SALOMÃO
ASMO PÃO RECORDA FUGA
VAI LEVANDO A DOR DO MUNDO
DESCE O CORPO REDENTOR
SAGRA TERRA  SOB A CRUZ

CÁLICE  DA NOITE  CHEIA
FLORES SÃO DA LUZ PRIMEIRA
PAZ CALVARIO LUA  MESSE
VERÃO VINHO EUCARISTIA
DOCE ADORNO  ANDAR TRANSMUDA
SOL INVERNO MARTIRIA
DIA PLENO DO AMOR
MESA FARTA DA FAMILIA

FELIZ PASCAL SOBE O MONTE
PASCOAL DAS OLIVEIRAS
SANTUARIO UNE A PRECE
FINO AZEITE DA UNÇÃO
SINO ANDOR ANDAR AJUDA
SOLO OUTONO PARUSIA
ASCENSÃO CELEBRAÇÃO
PÁSCOA DO SENHOR JESUS

sábado, 19 de abril de 2014

POVOS INDÍGENAS: A RAÇA ESMAGADA

Foto: © Survival
Índios torturados no período
da Ditadura de 1964.
Augusto dos Anjos (1884-1914)
(trecho IV do poema Os doentes)


Começara a chover. Pelas algentes 
Ruas, a água, em cachoeiras desobstruídas, 
Encharcava os buracos das feridas, 
Alagava a medula dos Doentes! 

Do fundo do meu trágico destino, 
Onde a Resignação os braços cruza, 
Saía, com o vexame de uma fusa, 
A mágoa gaguejada de um cretino. 

Aquele ruído obscuro de gagueira 
Que à noite, em sonhos mórbidos, me acorda. 
Vinha da vibração bruta da corda 
Mais recôndita da alma brasileira! 

Aturdia-me a tétrica miragem 
De que, naquele instante, no Amazonas, 
Fedia, entregue a vísceras glutonas, 
A carcaça esquecida de um selvagem. 

A civilização entrou na taba 
Em que ele estava. O gênio de Colombo 
Manchou de opróbrios a alma do mazombo, 
Cuspiu na cova do morubixaba!

E o índio, por fim, adstrito à étnica escória, 
Recebeu, tendo o horror no rosto impresso, 
Esse achincalhamento do progresso 
Que o anulava na crítica da História!

Como quem analisa um apostema, 
De repente, acordando na desgraça, 
Viu toda a podridão de sua raça... 
Na tumba de Iracema!...

Ah! Tudo, como um lúgubre ciclone, 
Exercia sobre ele ação funesta 
Desde o desbravamento da floresta 
À ultrajante invenção do telefone.

E sentia-se pior que um vagabundo 
Microcéfalo vil que a espécie encerra 
Desterrado na sua própria terra, 
Diminuído na crônica do mundo! 

A hereditariedade dessa pecha
Seguiria seus filhos. Dora em diante 
Seu povo tombaria agonizante 
Na luta da espingarda com a flecha! 

Veio-lhe então como à fêmea vêm antojos.
Uma desesperada ânsia improfícua 
De estrangular aquela gente iníqua 
Que progredia sobre os seus despojos! 

Mas, diante a xantocroide raça loura, 
Jazem, caladas, todas as inúbias, 
E agora, sem difíceis nuanças dúbias, 
Com uma clarividência aterradora,

Em vez da prisca tribo e indiana tropa 
A gente deste século, espantada,
Vê somente a caveira abandonada
De uma raça esmagada pela Europa!


ANJOS, Augusto dos. Toda a poesia de Augusto dos Anjos. Rio de Janeiro: José Olympio, 2011. p.134-136

ISTO É BRASIL! 500 ANOS DE EXTERMÍNIO DOS POVOS INDÍGENAS! Parabéns aos governos brasileiros por esta conquista. Vocês estão conseguindo! O mais, deixem por conta da bancada ruralista!


Pistoleiros atacam índios Guaranis, em MS.

sexta-feira, 18 de abril de 2014

EMILY E A ANGÚSTIA

Emily Dickinson (1830-1886)


Reflito, a Terra é pequena
A angústia – absoluta –
Muitos os males,
Mas o que importa?

Penso, podemos morrer.
A melhor vitalidade
Acaba por perecer.
Mas o que importa?

Cogito que lá no céu
– Não sei como – deve haver
Alguma nova equação.
Mas, e então?

*

Eu saberei porque, quando findar o tempo
E quando dos porquês eu não mais cogitar.
Na escola do céu toda sorte de angústias,
Cada uma por si, Cristo irá explicar.

Ele me falará das promessas de Pedro.
Perplexa, ao recordar todo o horror dessa hora,
Por certo esquecerei esta gota de angústia
Que me escalda agora, que me escalda agora.

*

Minha vida duas vezes
Encerrou-se antes do fim;
Outro evento para mim
Incrível, sem esperança,

Imenso como os primeiros
Talvez se oculte no Eterno.
O que sabemos do céu
– O adeus –
É o que nos basta do inferno.


DICKINSON, Emily. Poemas. Tradução Idelma Ribeiro de Faria. São Paulo: Hucitec, 1986. 73, 83, p.89

quinta-feira, 17 de abril de 2014

SACRILÉGIO

Leila Jalul

Agnus Dei, qui tolis peccata mundi, miserere nobis.
Cordero de Dios, que quitas los pecados del mundo, ten compasión de nosostros.
Cordeiro de Deus, que tiras os pecados do mundo, tende piedade de nós.


Assim aprendi a pedir clemência pelos meus erros e pelos erros da humanidade. Nas missas, era um momento de contrição e demonstração de arrependimentos. Aquele sininho que o sacristão sacudia freneticamente, das duas, uma: ou o cristão debandava, por conta do barulho, ou entrava em sintonia. O medo dos castigos de Deus, afinal, foi sempre o motor de arranque da doutrina e o freio dos desregrados fiéis. Se isso é bom, se é ruim, não é o foco principal da conversa. Esse assunto do medo imposto pelas religiões, por certo, não cabe em duas laudas, muito menos num arremedo de crônica.

Aos fatos: era quaresma. Os santos estavam todos encapados de roxo. As imagens grandes dos altares secundários, confesso, causavam medo. Havia passado toda a semana percorrendo a via sacra na catedral, puxando as músicas pertinentes a cada estação. “Stabat Mater Dolorosa, juxta crucem lacrimosa, dum pendebat fillius...”. Momentos de fé e de dor. Tenho sentimentos bons, apesar de tudo, apesar de muitos...

Saí dali e fui direto para o profano. Um jantar, um violão e muitas vozes me esperavam na chácara do Flávio Mariano. Uma seresta modesta para espantar o sono das músicas sacras que as emissoras de rádio tocavam. Os velhos, que nem eu, sabem do quanto de mistério e respeito se devia guardar naquele período. As casas não eram varridas, nossos pais e avós jejuavam de forma radical. Nada de carne, nada de festa, nada de música. A exceção da comida era para com os doentes e menores de idade da primeira infância. Estes podiam mastigar um ossinho de galinha, uma farofa de ovos. Aos marmanjos, por cortesia, apenas pão, batata doce, mungunzá e água.

Flávio Mariano não aceitava estas injunções religiosas. Mandou preparar uns quibes (crus e fritos), um tabule, umas berinjelas assadas na brasa e temperadas com molho de gergelim, uns bifes de coxão mole e outras iguarias fora da dieta e do jejum. Muita gente estava ali para tomar cerveja, cantar e comer. Jamil, a voz de ouro, cantava coisas de Orlando Silva, Vicente Celestino, Francisco Alves e Cauby Peixoto.

A festa corria solta. Marileide, mulher do prefeito Almir, era outra que impressionava com a voz e com a vastidão do repertório. A criatura só sabia músicas de efeito sado-masoquista, tipo: “Se queres compreender o que é saudade, precisas conhecer um grande amor...”, “Chegou com aquele olhar de quem sente saudades...”, “Eu vi lá no cinzeiro do seu quarto as pontas de cigarro com batom...”, “Entra, meu amor, fica à vontade...” e mais outras, e outras mais.

Perto das vinte e duas horas, tresloucadamente, bem alterado pelos graus do álcool e de cumplicidade com o anfitrião, Evaristo Mathias pede ao dono da casa que mande executar um carneiro que estava amarrado no pé de laranja-lima. Já bêbado, teve desejos de comer os bagos do animal à moda árabe, quer seja, escalopes de escrotos ao alho, sal, azeite e pimenta bahar. A execução deveria ser no sábado de aleluia já rompido, mas, a insistência foi tanta que Flávio Mariano não teve outra escolha. A única alternativa era acordar o caseiro. Aos gritos, como costumavam agir os coronéis de barranco.

– Tavinho, acorda a Olindina e anda cá! Tavinhoooooo, acorda, homem! Sai do gancho que hoje é pecado!

– Já vou, Doutor Mariano, já vou.

– Tavinho, corta os ovos deste carneiro. Pra já, homem!

– Mas Doutor, hoje não é dia... Isto é uma heresia.  Não era pra amanhã?

– Não, é pra já! Peraí, não é pra matar. Heresia é aguentar esta tua cara de tatu de cemitério. Capa o bicho. Amarra um cordão na parte de cima, outro nó na parte de baixo e zás! Só quero os bagos, cuida!

Escutei a ordem, olhei para a expressão sonada, espantada e apiedada do Tavinho. Olindina ficou muda.  Não deu um pio. Saiu, pegou um prato, uma faca amolada e dois pedaços de barbante de sisal. Ordem é ordem, patrão é patrão, quem pode manda, quem tem juízo obedece, deve ter pensado. Esta não era a lógica de Tavinho. Seu desejo era, creio eu, tirar os ovos do Evaristo e mandar o patrão ir para as profundezas do inferno.

O carneiro, resignado, parecia adivinhar o triste fim de Policarpo Quaresma. Olhei para o casal de empregados, para o patrão e para o carneiro. Não sei se consegui captar o sentimento de todos. Lembro, todavia, que o carneiro pareceu ter deixado escorrer uma lágrima. Pode ter sido apenas uma impressão, sei lá!

Queria dizer que na hora H veio um raio de luar sobre a cabeça de Evaristo, o levantou no ar e o jogou no chão chorando, olhos transtornados, pedindo perdão, já beatificado naquele momento. Mas não foi assim, é certo.

Deixo o procedimento cirúrgico para que façam suas próprias deduções. Apenas digo que, na hora do zás, foi horrível.  Tremi da cabeça aos pés. O animal, idem.

Fiz das tripas coração. Não tinha como arredar o pé dali sem o meu caroneiro. Fiquei assistindo o desenrolar da maldade que, ao final, rendeu um prato de sobremesa com escalopes de culhões temperados com alho, sal, azeite e pimenta bahar.

Nesta noite chorei. Não olhei o que sobrou no prato de sobremesa.  Um teatro com cenas fortes demais para quem tinha acabado de sair da décima quarta estação. Nos meus ouvidos ainda tilintavam as palavras finais:

No sepulcro Vos deixaram,
Enterrando-Vos choraram,
Magoado o coração.

Afe! Afe!


> Agradecemos gentilmente o envio da crônica lá das terras sagradas da Bahia pela nossa querida Leila Jalul. A crônica também integra o livro DAS COBRAS, MEU VENENO (2010), p.99-102.

quarta-feira, 16 de abril de 2014

A UM CARNEIRO MORTO

Augusto dos Anjos (1884-1914)


Misericordiosíssimo carneiro
Esquartejado, a maldição de Pio
Décimo caia em teu algoz sombrio
E em todo aquele que for seu herdeiro!

Maldito seja o mercador vadio
Que te vender as carnes por dinheiro,
Pois, tua lã aquece o mundo inteiro
E guarda as carnes dos que estão com frio!

Quando a faca rangeu no teu pescoço,
Ao monstro que espremeu teu sangue grosso
Teus olhos – fontes de perdão – perdoaram!

Oh! tu que no Perdão eu simbolizo,
Se fosses Deus, no Dia do Juízo,
Talvez perdoasse os que te mataram!


ANJOS, Augusto dos. Toda a poesia de Augusto dos Anjos. Rio de Janeiro: José Olympio, 2011. p.127

segunda-feira, 14 de abril de 2014

AS DIRETRIZES DO PLANO NACIONAL DE EDUCAÇÃO E A QUESTÃO DA IGUALDADE

Inês Lacerda Araújo


Em recente debate acerca das diretrizes do PNE sobre a promoção da igualdade via educação, Toni Reis (Gazeta do Povo) defende o plano original, o de que esse objetivo seria alcançado pela "promoção da igualdade racial, regional, de gênero e de orientação sexual".

Problema: como ser igual se é preciso respeitar as diferenças entre gêneros, se a própria orientação sexual deve ser vista como permitindo que sejam seguidas sem discriminação, se ser mulher é algo de que nos devemos orgulhar, como, repito, esse justo realce nas diferenças pode ser compatibilizado com igualdade?

A igualdade jurídica e política pertence à esfera legal, constitucional. Já está assegurada.

Mas não é possível haver igualdade nas expressões de si, de seus gostos, desejos, orientações. Nesta esfera, o que deve e precisa ser respeitado e compreendido, são os estilos de vida diversificados.

Na outra ponta, e contrário a esses propósitos na educação, Paulo Vasconcelos Jacobina acusa Foucault, Freud e Lacan, de serem os inspiradores dessa política que vê o lado da opressão e não o da educação para a ciência, para a cidadania, e que cultua aqueles pensadores os quais, segundo ele, se prestam apenas para denunciar toda sorte de opressão e investem em "educação de 'vanguarda' sexual".
Errado também.

Se pedagogos fazem uso inadequado e mesmo errôneo de noções e conceitos de Foucault, Freud e Lacan, é porque desconhecem suas ideias.

Tomemos o caso de Foucault. A desculpa para o desconhecimento e mau uso de seus escritos, aparece invariavelmente sob o manto acusatório de ser "pensador da moda".

Que moda duradoura é essa!

Em nenhuma obra, entrevista, curso Foucault defende a igualdade, nem que é dever educacional promover a igualdade de orientação sexual.

Entre outros objetivos, Foucault é um analista, um historiador do presente, isto é, de como práticas diversas instituídas e/ou inventadas em épocas históricas determinadas, constituíram esse homem, esse sujeito, esse indivíduo moderno. Ele inventariou as mudanças históricas que resultaram, por exemplo, no indivíduo político, produtor, que precisa ser vigiado e punido para que governos usufruam do trabalho, produção, produtividade como se exige tanto hoje em dia; desse modo, é possível governar com menos aparatos, policiais inclusive. População governável, depois do século 18, saudável, mantida em mínimas condições vitais de saúde; ditaduras de direita como de esquerda precisam dela, tanto quanto democracias.

Foucault investigou como resultamos em indivíduos encaixáveis, submissos, mas não tem um discurso político pronto para que nos libertemos da opressão, seja ela qual for.

Até mesmo a sexualidade moderna resulta de práticas, discursos, aparatos médicos, psicológicos, psiquiátricos que moldaram a relação com o sexo e deram novo sentido às práticas sexuais. Não mais o foco nos prazeres, na fruição e sim na relação de si com o desejo, com o desejo posto sob exame, confessar sua intimidade, colocá-la voluntariamente sob o escrutínio de algum ouvido sábio...

E esse indivíduo moderno está aí, policiado, tutelado, examinado, investigado por questionários e enquetes, que cada vez mais confessa seus desejos sob o crivo da ciência especializada.

Voluntariamente se orna com aparelhos que medem tudo o que ele faz. Se corre, quer saber das batidas do coração, não para prevenir alguma doença cardíaca (que também está sob vigilância) e sim para aumentar sua performance. Sofisticados rastreadores de atividade esportiva acoplados ao corpo operam uma "verdade" utilizável.

Como diz Foucault, esse domínio cada vez mais fechado sobre o corpo, sobre a sexualidade, permite ao Estado funcionar otimamente, com menos rebeliões.

Então Foucault não tem nenhuma mensagem aos jovens educandos?
Abram os olhos!

PS: desconheço lições de rebeldia contra a "opressão" por parte de Freud e Lacan...


INÊS LACERDA ARAÚJO - filósofa, escritora e professora aposentada da UFPR e PUCPR.

domingo, 13 de abril de 2014

ANA DO BOTÃO

Leila Jalul


Toda noite a mesma coisa.

– Madrinha Otília, estou com uma dor de cabeça de lascar. Dói até o caroço do olho!

– Deite, minha filha, feche os olhos, reze e peça para Nossa Senhora do Perpétuo Socorro que afaste essa dor e será atendida.

Meia hora depois, nada!

– Madrinha, a dor tá piorando.

– Ô, minha filha, o que eu faço? Sua regra já veio?

– Não.

– Ainda não? Então é isso!

– Leila, Lígia, quem tá acordada? Vão ali e ponham 40 gotas de elixir paregórico para a Anita.

E essa cantilena enfadonha e verdadeira se repetia noite após noite. A dor da Anita não deixava ninguém dormir. Era deitar e esperar.

– Madrinha?

Falava logo pra minha irmã:

– Levanta, porra! Hoje é tua vez. Pinga 50 gotas que passa logo.

– Vó, não tem mais elixir. Quê que eu dou?

– Minha filha, dentro da gaveta do meio, do criado da esquerda, bem no cantinho, tem uma caixa de Cibalena. Pegue uma, meio copo d’água e dê pra Anita.

Deixa eu lembrar: na gaveta esquerda do criado do meio, bem na frente, tem umas cibalenas. Dê que passa!

Passei a mão, peguei aquela bolotinha.

– Toma, Anita. Toma essa merda e vê se dorme!

Ela ainda gemeu uns 10 minutos e parou.

– Ana, passou?

– Tá quase.

E dormiu.

É preciso dizer que não tinha luz, o candeeiro ficava bem baixinho, quase apagado e trepado no alto. Tudo para não gastar querosene e menino não alcançar.

Já com sol claro, minha irmã descobriu que a Cibalena não passava de um pequeno botão. Pronto!

A partir desse dia, nossa paciente nunca mais reclamou. Ao primeiro sinal (minha irmã colocou a caixinha de botão debaixo da cama), um comprimido de madrepérola de Cibalena com meio copo d’água.

– Já? Vamos dormir?

A "piula" era tão boa que de manhã cedo só se ouvia a voz da  nega  cantando enquanto lavava a louça no jirau:

"Será que tu recordas como eu
Aquele tempo tão feliz
Quando o destino bom então
Meu deu tudo o que quis
………………………………
A cerejeira em flor que tu gostavas de olhar
É companheira da dor do meu amor".

JALUL, Leila. Suindara. Fortaleza: Expressão Gráfica e Editora Ltda, 2007. p.26-27
> Leia aqui outros textos de Leila Jalul.

sábado, 12 de abril de 2014

O AMOR

Manoel de Barros


Fazer pessoas no frasco não é fácil
Mas seu eu estudar ciência eu faço.
Sendo que não é melhor do que fazer
pessoas na cama
Nem na rede
Nem mesmo no jirau como os índios fazem.
(No jirau é coisa primitiva, eu sei,
mas é bastante proveitosa)
Para fazer pessoas ninguém ainda não
inventou nada melhor que o amor.
Deus ajeitou isso para nós de presente.
De forma que não é aconselhável trocar
o amor por vidro.


BARROS, Manoel de. Poesia Completa. São Paulo: Leya, 2010. p.473

sexta-feira, 11 de abril de 2014

SANHAÇU POÉTICO



DIA DE FOLGA

Jacques Prévert (1900-1977)


Pus o meu quepe na gaiola
e saí com o pássaro na cabeça
Como é que é
não se bate mais continência?
Perguntou o comandante
Não
não se bate mais continência
respondeu o pássaro
Ah bom
queria me desculpar eu pensei que se batesse continência
disse o comandante
Está desculpado qualquer um pode se enganar
disse o pássaro. 

QUARTIER LIBRE

J'ai mis mon képi dans la cage
et je suis sorti avec l'oiseau sur la tête
Alors
on ne salue plus
a demandé le commandant
Non
on ne salue plus
a répondu l'oiseau
Ah bon
excusez moi je croyais qu'on saluait
a dit le commandant
Vous êtes tout excusé tout le monde peut se tromper
a dit l'oiseau.


PRÉVERT, Jacques. Dia de folga. Sã Paulo: Cosac Naify, 2004. p.13
> Desenho de Elodie

HORA DA POESIA

Jefferson Bessa


a Hora da poesia
segue a festa de rua.
cada verso cai
entre cabeças e pernas
de quem vem dançar.
do céu o verso cai
desenrola e se embola
em fitas de escrita
desce feito serpentina.

a poesia da rua anda
o poema segue e desce
na Hora de ser festa:
é rua e todo mundo
alegria de durar muito.
para além da semana
para quem assim quiser
a festa que acorda
pode agora sempre


> Visite aqui o espaço do poeta Jefferson Bessa.

quarta-feira, 9 de abril de 2014

A CATRAIA chega à II BIENAL BRASIL DO LIVRO E DA LEITURA

O livro SE A CATRAIA NÃO VIRAR, da autora acreana Olivia Maria Maia, é um dos selecionados para lançamento público na II Bienal Brasil do Livro e da Leitura, que ocorrerá em Brasília, entre os dias 11 a 21 de abril.
O lançamento da CATRAIA, com manhã de autógrafos, se dará no dia 12 de abril (sábado) das 11 às 13 horas no Espaço Café Literário Jorge Ferreira – Pavilhão da Bienal.

















> Leia aqui alguns textos de Olivia Maria Maia.
> Leia aqui uma crítica a SE A CATRAIA NÃO VIRAR.

TECNOGONIA

Clodomir Monteiro


o pombo
    no lombo
         do lobo
              é assombro

agora
    aflora
         a hora
              da glória

demora
    memória
         lendária
              vigora

o lobo
    no lombo
         do pombo
              escombro

do globo
    no tombo
         engoda
              em lobo

engloba
    na gleba
         em roda
              já faz

estória
    ou lenda
         da senda
              da paz

do rombo
    no roubo
         na venda
              do robô

agoniza
    a glória
         no olho
              em rodós

agora
    degola
         na gula
              decola

demora
    no mora
         do mar
              nuclear


MONTEIRO, Clodomir. Derroteiro de rotinas. São Paulo: Quíron, 1976. p.47-48
> CLODOMIR MONTEIRO preside atualmente a Academia Acreana de Letras.
> Acesse aqui a página do poeta.