segunda-feira, 25 de setembro de 2017

O BERRO DE QUILRIO FARIAS

Isaac Melo


Busco com a força que move os tempos por novas manhãs
Busco com a força das minhas vísceras

Quando a gente encontra um bom poeta não é só a poesia que se renova. É o mundo que renasce. O poeta morre (na palavra) para que seu corpo seja o alimento que faz crescer o verso. Verso que nasce da morte (as mortes cotidianas) para potencializar a vida. Poesia é combustível, combustão. O combustível da humanidade. Altamente infl’amável. É resistência contra a inautencidade. O útil é anestésico. O inútil, poético. Lobo de rebanhos morais, digitais, superficiais. A poesia rasga a existência. Põe-nos a nu, a salvo de nós mesmos. Desmascara-nos. Expõe-nos, quando passamos a vida inteira perdendo-nos, para a salvação e satisfação de patrões e padrões, que nunca se satisfazem, que nunca nos satisfazem. Anarquias do verso demiúrgico de universos.  Plasmador de novas manhãs, que nasce do berro do tempo, escondido nas dobras do pensamento.

Quilrio Farias
Quilrio é um poeta novo fazendo nova a poesia. Para a nossa alegria. Renova-se. Renovando-a, renovamo-nos. Conhecia-o de nome. Depois, casualmente o encontrei no ensaio-espetáculo Kanarô, peça do amigo João Veras, que, por sinal, foi quem me apresentou ao livro e ao poeta. Livro parido com esforço do poeta, numa terra de minguados recursos e fartos discursos.

E o lançamento? Lança-se a cada encontro, com cada um que se dispõe a comprar a obra. Nada de meus senhores e meus confrades. A relação é mais próxima, de cumplicidade, de velhos amigos (ainda que sejam novos) que se encontram para prosear, sorrir, cantar, quem sabe, até chorar.

O berro. O berro é memória. História. No seringal, lembro-me, o gado, ao final da tarde, reunia-se em torno da barraca. Berrava pedindo sal. A vaca berrava chamando o bezerro. O bezerro berrava procurando a mãe. Muitos berros. Berro animal. Natural. Necessário. Berros de vida. Berros de morte.

O berro de Quilrio é visceral. Como visceral é a vida arrancada das entranhas frias do cotidiano. É preciso berrar, quando todos os nossos instintos (po’éticos) foram domesticados, adestrados, servidos a tira gosto nos altares ensanguentados dos moralismos assépticos. O berro vem de dentro. Diz da cartografia do ser. O berro é o bicho que em nós habita. O bicho que silenciamos com nossas etiquetas civilizadas, servilizadas. O berro é a vida retomando o seu lugar. O berro é o que somos. E o que somos não tem nome.

Por isso Quilrio berra. Berra poeticamente. Berra para inaugurar o amanhecer. Amanhecer sufocado pela falta de horizonte, pelo peito vazio, pelas verdades contaminadas, a mastigar ressentimentos, e vomitar nadas num estômago de culpas. Berra contra a mediocridade, num tempo de futilidades, onde se come linhaça e se faz pose pr’o nada.

Berro de ação. Contestação. Berro dos perdedores, da escória, dos párias que a espada dos vencedores esmagou. A vida extrapola as cartilhas, os títulos, os sucessos. Afinal, a vida não cabe dentro da história dos vencedores. Talvez seja melhor buscar na injúria das ruas a solidão que ficou em pé. Deixar-se cair na arapuca do silêncio. E assim, mergulhados, banhar-se inteiro por palavras. Deixar o verso fermentar para preparar o pão que alimenta a fome (de amor e de beleza) da humanidade. Habitar o silêncio quando todos se dissolvem nas vozes alheias. Deixar que a tarde procrie os pássaros. Que a vida se reencontre. Floresça. Seja.

O berro arrancado das entranhas, arrancando as máscaras, as máquinas de fazer iguais, no tempo, por excelência, dos homens de cabelo penteado a procura de empregos que alimente uma vida morta de sentidos, vazia, que, sem alegria, paga para sorrir, com o peito estufado de certezas e verdades, todas compradas no supermercado da fé e do sucesso. Não ousa tatear a dúvida. Vive de certezas, as certezas do rebanho, o qual segue, cego, servo, até dissolver-se num único berro disforme, sem voz, sem identidade, sem esperanças. Cheio de ranços, remoendo ódios, cavoucando feridas abertas.

O berro ecoa ante o embrutecimento dos seres. Da vida. Dos sonhos. Por isso, todos os dias, o poeta alimenta a fome do rebanho que berra embrutecido. Não alimentar o rebanho com o farto pasto da mediocridade, dos ódios fabricados, dos moralismos forjados. Deixá-lo fenecer para a vida voltar a florescer. Ser. Acreditar na vida, inspirar-se, inspirá-la, pois ela sempre tem algumas páginas em branco sobrando. Escrever uma nova história, não com palavras, mas com a vida, em tintas de amor. Ousar. Explorar novos ares. Novos mares. Ir além do nosso navegar já esperado

Quilrio fez o berro subir barrancos, nadar nas águas barrentas, navegar em batelão de motor de rabeta, exposto. Como exposta deve ser a felicidade das pequenas coisas que nunca nos pertencerão, por mais que a retivermos. O berro dos embates, dos empates. Se antes, a pata e o berro (do boi), hoje o berro do agronegócio, das monoculturas, da soja. Berro que sufoca todos os outros berros. Berro que nunca calou. Berro contínuo. Por isso o berro da luta, não do luto. Da insistência. Dos velhos tempos que ainda virão.

Por fim, o berro é a tentativa de ser o que somos, com a soma do outro, mas sem a violência das fôrmas e das formas padronizantes. A vida faz festa. Pede orgias para não morrer sufocada pelo concreto puritano. Por isso o nosso bicho, o nosso troço interior berra. Berra para que a gente não perca a festa, que escorre veloz como um repiquete. Que esvai-se, saudoso, como um bom livro de poesia. Mas que nos deixa o gosto na boca, na alma, de quero mais. Mais festa. Mais vida.

Bendito o berro. Bendito o poeta. Bendita a vida.


***


PERSPECTIVA
Quilrio Farias

Eu sou um daqueles que vaguei calmamente
Numa estrada improvisada
Buscando um rio silencioso
Detrás de cada manhã
E quando tudo findar
Talvez meu canto continue no vento
Ou em boca desconhecida
Almejo somente que tenha força para mover
A poeira vaga da luz
Dos velhos tempos que ainda virão


EMBATE
Quilrio Farias

Desce pro embate
Serve a tua carne
Carente
Bêbada
e só
No prato o berro
Que deixou no meio do pasto
O verso que já voou pássaro
O verso que sonhou sombra de árvore
O verso humano que deixou de ser
Agora é máquina que faz ruído
Som que propaga entre histórias de “empates”
E treme a terra pra acordar a soja


MEMÓRIA
Quilrio Farias

Meu tio tinha um batelão colorido fazedor de banzeiro
Batizou com o nome de minha Avó

Dulcirene

Eu menino estranhava aquele motor exposto
Diferente dos carros guiados pelos homens
Minha Avó cedo foi morar nas margens de um rio de vento


O BERRO
Quilrio Farias

A noite e sua vertigem
Um sol de mentira
Brilha para a maioria
O rebanho segue

Um verso sem destino
Canta várias promessas
O poeta morre calado
O rebanho segue

O rebanho cego


ARAÚJO, Quilrio Farias de. O Berro. Rio Branco: EaC editor, 2017. p.27, 35, 45, 63

sábado, 23 de setembro de 2017

OS SAPOS [14/12/94]

Ivanilde Gomes Pereira


Minha tia conta que quando os sapos estão cantando eles dizem assim:

“Quando eu morrer quem é que quer minhas galinhas?”
Os outros respondem:
“eu não quero, eu não quero”.

“Quando eu morrer quem é que quer as minhas coisas?”
Os outros respondem:
“eu não quero, eu não quero”.

“Quando eu morrer quem é que quer criar meus filhos?”
“Eu não quero, eu não quero”.

“Quando eu morrer quem é que quer minha mulher?”
Todos sapos respondem:
“eu quero, eu quero”.

E o sapo diz:
“mas eu não morro, mas eu não morro”.

E os sapos ficam tristes.


*Texto retirado da Antologia de escritores da Floresta I / Adelmar Rodrigues de Souza [et al.]; organização Augusto de Arruda Postigo... [et al.]. Campinas, SP: UNICAMP/IFCH/CERES, 2004. p.47

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

MiniOrquestra do Absurdo (Acre)

Bateria: Jorge Anzol; Contrabaixo: Caio Lima; Guitarra: Naná Mesquita; e Saxofone: Sandoval França. Apresentação na VII Aldeia Caiçuma das Artes (20/09/2017). SESC-Centro. Rio Branco-AC.

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

UMA PEQUENA HISTÓRIA ÀS MARGENS DO RIO TARAUACÁ…

Jairo Lima
Crônicas Indigenistas


O sol estava a pino. Já passava do meio dia quando ele finalmente conseguiu acertar tudo direitinho com o barqueiro que aceitou levá-lo, na subida do rio Tarauacá. Fazia muito calor naquela tarde de setembro, e conseguir um barco foi o menor dos problemas naquele dia.

– Pra onde você quer ir mesmo? - Era a pergunta mais frequente que ouvia pela cidade, onde quer que parasse para resolver alguma coisa antes de sua viagem. Talvez a estranheza se desse pelo fato de aparentar ser muito jovem. Talvez por ser extremamente branco e aparentar fragilidade. Talvez por parecer uma pessoa estranha mesmo, com cabelos longos e brincos: “Mais um maluco atrás do que fazer…” - Foi o comentário venenoso ouvido de uma mesa ao lado, quando certo dia almoçava com um indígena que o acompanharia, sem se dar conta que estava falando um pouco alto, e, certamente, com um ‘estilo’ de fala (o tal ‘sotaque’ conhecido no interior como ‘sotato’). 

Leia na íntegra em Crônicas Indigenistas

COURO DE GATO E PERDA DA COLOCAÇÃO

Antônio Gomes do Nascimento
Tonho do Milton

Essa é a história de um seringueiro por nome Luiz Castelo que morava na comunidade Restauração com sua esposa e seis filhos. Luiz Castelo não era considerado pelos patrões um bom seringueiro, mas fazia quinhentos quilos de borracha. Era um bom vizinho. Sim, esta história foi em 1966 quando eu tinha oito anos, mas ainda lembro muito bem.

O senhor Luiz Castelo matou um gato-açu, na época a pele dava muito dinheiro. Aí, o seu Luiz vendeu a pele para um marreteiro por nome Raimundo. Quando o patrão soube, expulsou o mesmo da colocação. O seu Luiz não tinha canoa, pediu uma passagem ao patrão, mas ele não arranjou, pois estava com muita raiva do seringueiro. O patrão disse que Luiz não tinha transporte em suas embarcações. A coisa ficou ruim para o Luiz, pois teve que arriscar a vida dele com a mulher e os filhos. Fez uma balsa de caule de malva, pôs seus cacarecos em cima com a família e desceu no rio cheio, sob sol e chuva.


Texto e foto in  
Antologia de escritores da Floresta I / Adelmar Rodrigues de Souza [et al.]; organização Augusto de Arruda Postigo... [et al.]. Campinas, SP: UNICAMP/IFCH/CERES, 2004. p.11