quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

CENTRO CEARENSE DO TARAUACÁ - fragmentos de nossa história

Isaac Melo*


Para expressar o quão grande era a presença do cearense nestas plagas, o grande homem de letras, historiador e sociólogo Abguar Bastos (1902-1995) chegou a dizer certa vez que o Acre era uma extensão do Ceará. E num belíssimo prefácio à primeira edição de A Conquista do Deserto Ocidental (1924) de Craveiro Costa, dizia: “O cearense e o Acre eram dois destinos ainda sem comunicação com a vida: o primeiro à procura de uma terra que o recebesse, o segundo em busca de um povo que o tomasse. Ambos soturnos, ásperos, trágicos. Ambos libertando das costas um deserto agressivo. Um carregado de filhos. Outro carregado de rios”. Não há como negar, e nunca negamos, a importância, entre outros, dos nordestinos, sobretudo, cearenses, para a história acreana e para a nossa própria identidade e formação.

Os pais de meu pai eram cearenses. E, assim, no Acre, boa parte da população descende de um parente nordestino. Enquanto os sulistas se orgulham pela ascendência germânica, italiana, polonesa, ucraniana, etc. o acreano estufa o peito, satisfeito, ao dizer que seu pai ou avô era paraibano, maranhense, potiguar...

Um caso interessante, em torno da presença cearense no Acre, se deu em Tarauacá. É que ali, no dia 25 de Março de 1914, fora instalado, numa casa em que um dia funcionara o Conselho Municipal, o Centro Cearense do Tarauacá, por iniciativa de Júlio Pereira Rocque, João Frota Menezes e Francisco de Assis Bezerra Filho, cearenses, é claro!

O Centro Cearense do Tarauacá abrangia todo o departamento de mesmo nome. Funcionou de fato e com plena organização. Em seu estatuto regimental, o auxílio e proteção ao Ceará precediam a do departamento. Eis o primeiro artigo, ipsis litteris:

Art.1. O C.C. com sede em Vila Seabra é uma associação que tem por fim auxiliar e proteger o Ceará, o departamento do Tarauacá, os cearenses e os seus associados quando e como se fizer preciso e na medida de suas forças.

O segundo artigo, entre outras coisas, apregoava que admitia-se para sócios do Centro exclusivamente os filhos do Ceará. É importante lembrar que poucas pessoas, à época, eram naturais da região. Sendo assim, não há nada de anormal a ideia de um centro onde os patrícios pudessem se encontrar, manter suas tradições, etc. como ocorreu no Sul do país e em muitos outros lugares ao redor do mundo.

Entre outras funções, o Centro Cearense tinha como objetivo promover a criação de um Jornal, “O Cearense”; fundar uma sala de leitura e biblioteca organizada, o que de fato aconteceu; criar um curso noturno (aliás, aí deu aulas de português o Dr. Hugo Carneiro, que mais tarde se tornaria governador, à época exercia a advocacia em Tarauacá); um horto botânico e campos de aclimação de plantas; fazer plantios ordenados de seringueiras; organizar orçamentos e fazer plantas, etc. Sem dúvida, um trabalho pioneiro e ousado, para época e região, e que, na verdade, se tornou uma das primeiras experiências de organização da sociedade tarauacaense.

Conforme constava no artigo segundo do estatuto, o Centro funcionaria até 24 de Fevereiro de 1915. Sabe-se, no entanto, que o Centro Cearense do Tarauacá prolongou-se por mais algum tempo e tornou-se uma referência para a sociedade local da época.

Destarte, a afirmação de Bastos, no início do texto, não é de toda irreal, banal. No fundo, exprime que o acreano é um povo multifacetado, em que as diferenças não segregaram, ao contrário, ajudaram a formar o rosto do Acre. Para nós, portanto, ficou o exemplo de coragem e ousadia, e a certeza, como um dia dissera Bastos, de que “o Acre não seria cearense. Mas o cearense seria acreano”.

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BASTOS, Abguar. A Conquista Acreana. Rio de Janeiro: SPVEA, 1960
Jornal “O Estado” (Orgão dos Interesses do Departamento) – 29 de Março de 1914, No.9.
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