quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

COMO A TRAIÇÃO CHEGOU À RÚSSIA

Rainer Maria Rilke é um dos poetas mais importantes de língua alemã do século XX. Quando contava 22 anos Rilke fez duas viagens que marcaram a sua juventude e a sua obra: a primeira, à Itália e a outra, à Rússia. Nessas duas viagens, em suas leituras, estudos e conversas o poeta colecionou histórias, que depois reuniu num livro belíssimo, “Histórias do Bom Deus”, em que deixa transparecer um sentido poético e livre de Deus e da religiosidade. Do livro, seleciono um excerto do conto “Como a traição chegou à Rússia”, uma das mais belas histórias do livro, a revelar a genialidade de Rilke.

*

(...) Enconstei na janela, e o paralítico fechou os olhos, como lhe agradava fazer quando uma história começava.

“O czar Ivan, o terrível, queria impor um tributo aos príncipes vizinhos, ameaçando uma grande guerra caso não mandassem ouro para Moscou, para a cidade branca. Os príncipes, depois que se aconselharam, responderam como uma única pessoa: ‘Nós lhe propomos três enigmas. Venha ao Oriente no dia em que tivermos determinado, até a Pedra Branca onde estaremos reunidos, e nos diga as três soluções. Se estiverem certas, entregaremos os doze tonéis de ouro que exige de nós’. A princípio, o czar Ivan Vassiljevitch parou para refletir, mas era pertubado pelos muitos sinos de Moscou, sua cidade branca. Então convocou os seus doutores e conselheiros, ordenando que levassem para a Praça Vermelha (exatamente o lugar onde construíram a igreja para Vassilij, o Nu) cada um que não fosse capaz de responder as perguntas, e que os decapitassem. Nesta atividade o tepo passou tão depressa que, de repente, ele se achou em viagem para o Oriente, até a Pedra Branca, onde os príncipes aguardavam. Não sabia a resposta para nenhuma das três perguntas, mas a cavalgada era longa, havendo sempre a possibilidade de encontrar um sábio; pois naquela época muitos sábios estavam e fuga, na estrada, já que todos os reis tinham o hábito de mandar cortar-lhes a cabeça quando não pareciam suficientemente sábios. De todo modo, nenhum desses homens mostrou o rosto, mas numa manhã o czar viu um velho camponês barbudo trabalhando na construção de uma igreja. Já conseguira chegar ao telhado, onde encaixava as pequenas ripas de madeira. Porém, causava estranhamento o fato de o velho camponês descer toda vez do alto da igreja para apanhar uma única pequena ripa, entre as que se encontravam lá embaixo cortadas, em vez de carregar várias juntas em seu longo cafetã. Assim, precisava subir e descer a escada o tempo todo, sendo impossível sequer imaginar que um dia chegasse a levar desta maneira todas as centenas de ripas para seus lugares. Por isso o czar ficou impaciente: ‘Cabeça dura’, gritou (muitas vezes chamam assim os camponeses na Rússia), você deveria carregar logo um monte da sua madeira e então ir agachado até a igreja, isso seria muito mais simples’. O camponês, que naquele momento se encontrva no chão, permaneceu parado, pôs a mão sobre os olhos e respondeu: ‘Deixe comigo, czar Ivan Vassiljevitch, cada um entende melhor do seu ofício; contudo, como você já está passando por aqui, queria dizer-lhe a solução dos três enigmas que vai precisar saber na Pedra Branca, no Oriente, não muito longe’. E inculcou-lhe as três respostas em sequência. O czar quase não pôde se restabelecer da surpresa para agradecer. ‘O que devo dar como recompensa?’, perguntou afinal. ‘Nada’, fez o camponês, pegando uma ripa e querendo subir a escada. ‘Pare’, ordenou o czar, ‘não pode ser assim, tem que desejar algo’. ‘Então, paizinho, já que você ordena, dê um dos doze tonéis de ouro que vai receber dos príncipes no Oriente’. ‘Bem’, concordou o czar. ‘Dou um tonel de ouro’. Então cavalgou com pressa dali, para não esquecer as soluções.

Mais tarde, quando o czar tinha chegado do Oriente com os doze tonéis, fechou-se em Moscou, no seu palácio, no meio do Hremlin de cinco portões, e despejou um tonel após o outro sobre o pavimento brilhante do salão, de modo que se formou uma verdadeira montanha de ouro, projetando uma grande sombra negra sobre o chão. Por esquecimento, o czar esvaziou também o décimo segundo tonel. Quis enchê-lo novamente, mas dava-lhe pena precisa retirar tanto ouro do magnífico monte. De noite ele desceu para o pátio, preencheu três quartos do tonel com areia fina, retornou silenciosamente para o palácio, pôs ouro sobre a areia e, na manhã seguinte, enviou o tonel por um mensageiro para a região da vasta Rússia onde o velho camponês construía sua igreja. Quando este viu o mensageiro chegar, desceu do telhado, que ainda estava longe de ficar pronto, e exclamou: ‘Você não precisa se aproximar mais, meu amigo, viaje de volta com o seu tonel que contém três quarto de areia e uma escassa quarta parte de ouro; não tenho necessidade dele. Diga ao seu senhor que até agora não tinha havido nenhuma traição na Rússia. Porém, ele próprio será o culpado quando notar que não pode confiar em ninguém; pois agora mostrou como se trai, e de século em século o seu exemplo encontrará muitos imitadores na Rússia. Não preciso o ouro, posso viver sem ouro. Não esperava ouro, mas verdade e justiça. Contudo ele me enganou. Diga isso ao seu senhor, ao terrível czar Ivan Vassiljevitch, que se senta na sua cidade branca de moscou com sua má consciência e uma vestimenta dourada’.

Após um momento de cavalgada, o mensageiro voltou-se novamente: camponês e sua igreja tinham desaparecidos. E as ripas empilhadas também já não estavam lá, era tudo campo vazio e plano. Então o homem precipitou-se, assustado, para Moscou, pôs-se diante do czar, sem fôlego, e contou-lhe, de maneira bastante incompreensível, o que ocorrera, e que o pretenso camponês não era ninguém menos do que o próprio Deus.”

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RILKE, Rainer Maria. Histórias do Bom Deus. Rio de Janeiro: Sette Letras, 1998. (p.27-30)
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