segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Série A POESIA ACREANA > MÁRIO MAIA

Entre as obras do médico, político e poeta acreano Mário Maia (1925-2000) destacam-se “Rios e Barrancos do Acre” (1968) e “Sombras siderais e outras sombras” (1990). Este em versos, aquele em prosa. A poesia de Maia não se limita a temática local, talvez por ter passado boa parte de sua vida fora do Acre. É o poeta do social e da dimensão cósmica do ser humano.

Para Romeu Jobim, o sonho e a poesia de Mário Maia nunca o tiraram da realidade, do firme chão em que sempre pisou, antes ao contrário, mais servindo para que melhor os apreendesse e dominasse, em todos os aspectos.

Acerca de Sombras Siderais, seu único livro de poesias, Maia afirma que esse foi criado num momento de grande angústia e sofrimento, os versos são flechas e lanças envenenadas penetrando no fundo d’alma do ser. Sobre o livro a importante jornalista e escritora Fátima Almeida comenta que nele assistimos o homem que parte desta esfera espaço-temporal para um encontro com o cosmo, sua dimensão superior, do qual ele próprio é um atributo.

Embora não seja extensa a obra poética de Maia, as páginas que deixou revelam um homem imbuído de grande sensibilidade, com uma visão universalizante do ser humano e do mundo. Passará o médico, o político, porém, permanecerá o poeta, pois este “deixou de ser pó e transformou-se em vida”.

***

O PRANTO DO SERINGUEIRO
Mário Maia

Não me derrube, seu moço, a seringueira...
O seu leite me serve de sustento.
Já estou velho; mas desde o nascimento
Que esta árvore é minha companheira...

Olhe, é irmã daquela castanheira
Cuja copa procura o firmamento...
Ela também me dá alimento
Que mata a fome da família inteira...

Ao dizer isto, emudeceu num canto
Com a tristeza que uma saudade encerra.
Foi tanto a dor e o sentimento tanto,

Quando feriu o tronco, a moto-serra,
Que o seringueiro sucumbiu num pranto
Tão orvalhado, que inundou a terra...

GÊNESE
Mário Maia

Como pode assim brotar do nada
o Plasmódio das Mixomicetas?
Quantas voltas nebulares foram dadas
nas espirais das Siderais Roletas
para que do feio das crisálidas
pudessem nascer as borboletas?
Nos primórdios dos tempos ignotos,
da metamorfose da geleia escura
sob a Sintética Vibração dos fotos,
emergisou da Hidrogenia pura
e com o Carbono, transformou-se em lótus
por entre as gretas duma Rocha dura.
Como um fantasma que sai do Cemitério
fugindo da Carcaça apodrecida,
de repente, transcendental Mistério:
da Crosta da Terra, a lama endurecida
qual uma imensa casca de ferida,
deixou de ser pó e transformou-se em vida.

Brasília, abril de 1984

ALMA AFLITA
Mário Maia

Caminhava eu na noite escura
pelo chão glacial da madrugada
no corpo, a poeira da estrada
no peito, o coração em pedra dura
por fora, a anatomia da estrutura
por dentro, uma alma destroçada.

Brasília, 01.06.1984

ETERNIDADE
Mário Maia

Voltar a ser nitrito e ser nitrato
transformar-se em inorgânico novamente
para que as plantas cresçam
e hajam flores...
Para que as aves cantem
e hajam ninhos...
E eu serei a planta, a flor
a ave, o ninho....

São Gonçalo – 29.08.1973

ECCE HOMO
Mário Maia

O céu engatava a estrela.
O orvalho molhava a flor.
Entre ambos o espaço,
a amplidão sem fim...
Contemplei a flor e a estrela:
semelhantes eram e de igual tamanho.
Uma irradiava luz.
A outra exalava perfume.
A que estava no céu, pulsava
a que vinha do chão, tremia.
O firmamento, de lá, cantava;
O jardim daqui, sorria.
Toquei a corola de pétalas
e a auréola de luz
com as mãos nervosas
de uma cruz
ao abraçar o infinito.
As plantas da terra se acordaram
as luzes do céu se incendiaram
ao ouvir meu grito.
Fez-se trevas.
Agora, sigo esses caminhos
causticados pelo fogo dos astros
pisando sobre cardos e espinhos.

São Gonçalo – 09.03.1970

***

MAIA, Mário. Sombras siderais e outras sombras. Sem editora, 1990.
Postar um comentário