quarta-feira, 5 de outubro de 2016

OUTRAS BUSCAS NO MESMO SENTIDO

Eliana Ferreira de Castela


“Fico velando – os olhos nas estrelas
            Pontos de luz dispersos na amplidão
            A mesma força que há em nós – há nelas
            É tudo uma questão de vibração
            Somos uma mudança permanente
            Cada célula – Universo em ascensão
            E nós – matéria e espírito irmanamente
            A cabeça no céu – os pés no chão”.
(Lourdes Ramalho)


Na viagem do Norte ao Nordeste estabelecemos sair do Acre e chegar ao Ceará. Por quais cidades passaríamos foi se definindo ao longo do caminho, como não havia previsão de tempo para encerrar, fomos além, sem um roteiro preestabelecido, nem uma sequência ordenada, mas a parada em determinadas cidades já estava definida, dentre elas, Campina Grande, na Paraíba.

Em Campina Grande não tenho antepassados, mas para mim a cidade tem um valor não apenas simbólico, mas também, materialista e histórico, pelo fato de que, na década de 1980, a Universidade Federal da Paraíba, naquela cidade, formava mestres para a vida. Eu não estudei lá, mas bebo na fonte de quem pôde aprender naquele importante centro marxista, teorias que têm orientado algumas pessoas. Indiretamente aquela instituição me influencia a estabelecer parâmetros políticos e sociais, na ciência, na arte e na vida.

A nossa ida à Campina Grande foi motivada pela arte cênica, o teatro, a peça Frei Molambo, que traz na abertura deste capítulo, pequeno trecho de uma das músicas da peça, de autoria da escritora e dramaturga, Lourdes Ramalho e mais especificamente, o trabalho do meu companheiro Jorge Carlos, que já atravessou o Atlântico, daqui para lá e de lá para cá, algumas vezes, apresentando o Frei Molambo por várias cidades da Europa e do Brasil. Quando Jorge falou para a escritora, da exibição da peça em diferentes lugares do mundo, arrancou expressiva e emocionada frase de Lourdes Ramalho, mais ou menos assim - … é tão bonito, saber que o meu trabalho saiu pelo mundo, isso faz pensar que valeu à pena!

Decorrido mais de trinta anos que o Jorge tinha estado na casa de Lourdes Ramalho, já não se recordava do endereço, mas ele não esqueceu o banquete que foi servido no café da manhã, na casa da escritora. Segundo ele, na mesa estava tudo que tem num bom café nordestino, melhor nem descrever… Além da fartura, chamava a atenção, a diversidade dos frequentadores, que incluía convidados, mendigos, penetras e até os que por acaso acabavam indo, a convite de alguém do teatro. O Jorge conheceu o famoso café da Dona Lourdes, quando participou de um Festival de Teatro, com um grupo do Acre. 

         Embora tudo se encontre na internet, não encontramos o endereço da Lourdes Ramalho, então o melhor local para iniciar a busca, foi no Teatro Municipal Severino Cabral, que fica no centro de Campina Grande. Lá encontramos um grupo de atores que estavam reunidos, para tratar da montagem da peça “As Velhas”, também de autoria de Lourdes Ramalho. Mesmo o grupo de atores demonstrando interesse em nos ajudar e embora soubessem onde ela mora, não nos forneceram o endereço, mas informaram telefones de pessoas que nos ajudariam.
Teatro Severino Cabral, Campina Grande, Paraíba.
Foto: Oliveira de Castela, 2015


Como não usamos telefones celulares, teríamos que buscar um telefone público, o que está em pleno desuso ou em fase de extinção, lamentavelmente, então não tivemos a paciência de esperar, confiamos no fato de que a escritora era uma mulher extremamente conhecida e morava no centro da cidade, certamente algum comerciante saberia informar, dito e feito, nada como andar com o GPS (Golpe de Pura Sorte) ligado.

Na casa de Lourdes Ramalho fomos atendidos por uma de suas assistentes. Ficamos no escritório olhando as obras dela, vendo reportagens e outros documentos que tratavam do trabalho da escritora, mulher que aos 95 anos de idade, após acordar da sesta, prepara-se para receber visitas, dar entrevistas e outras conversas, mas não gosta de tirar fotografias, assim nos foi recomendado.

Com imensa simpatia ela nos recebeu. Ouviu com atenção o Jorge contar a “peregrinação” com o Frei Molambo, citando o nome das cidades nas quais ele se apresentou. Eu contei a ela, que minha irmã Izabel de Castela, já trabalhou na peça “As Velhas”, numa montagem com seu grupo de teatro, no Acre. Cheia de orgulho, a escritora Lourdes Ramalho disse que a Universidade Estadual da Paraíba estará lançando em breve, uma publicação com a coletânea, de cem obras suas.

Dona Lourdes nos contou passagens de sua vida, a coragem que ela precisou ter para enfrentar a situação, de ser esposa de um desembargador, numa época em que a mulher deveria estar cuidando da casa, do marido e dos filhos, enfrentar os preconceitos de uma sociedade machista para poder realizar seu trabalho. Ela acreditava nos frutos daquele esforço.

Para nós, eu e o Jorge, atriz e ator, podermos ser recebidos da forma como fomos, por uma mulher, com a experiência profissional da dramaturga que acumula mais de cem peças escritas, aos 95 anos de idade e ouvir diretamente dela, a sua história de vida, é realmente uma oportunidade muito valorosa.

O tempo decorreu numa conversa amistosa, que não teria hora para acabar, se não fosse a nossa sensibilidade, com um grupo de estudantes que aguardava, para fazer uma pesquisa com a escritora. Ela, por sua vez, insistia para que ficássemos, sem se importar com as outras pessoas que estavam à espera. Este gesto dela, era a sensibilidade de dedicar mais tempo para receber retorno de seu trabalho, levado por duas pessoas que vieram de longe, enquanto o grupo de alunos estava sempre ali na sua cidade. Ela gostou de nós, disse que estava recebendo pessoas muito bonitas.


Leiam aqui as crônicas anteriores:
- Nona: Nova Olinda e Santana do Cariri
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