
– Não está à venda. Comprei-o para a Sílvia, que me acompanha, ela fica o dia inteiro grudada nele ouvindo as novelas da Nacional e da Tupi. Vou levá-lo para o Acre.
Mas o gari sofreu um velho problema: dinheiro. Foi ao Rui Mendes e declinou a sua disposição de vender o aparelho, como não tencionava magoar os outros dois interessados nada lhes dissesse. Mendes pagou na hora, dinheiro vivo. Receberia o rádio na casa da sogra do gari, quando, daí a três dias, voltasse para Rio Branco. Fechou o mesmo negócio com o Valério Magalhães e o Custódio Freire, de forma que os compradores, mantendo segredo, ansiassem pelo glorioso momento de apossar-se da traquitana. Ficou incumbido de recolher o rádio na data aprazada, por expressa recomendação do Gari aos adquirentes, o funcionário da Representação, o Cesário Alencar, capaz de manjar logo marotagem.
Garibaldi e Sílvia viajam. Na representação do Acre os três aguardam em nervosa conversa a chegada do Cesarinho da sigilosa missão. Eis que ele aparece com risinho maroto. Valério, Freire e Rui deram jeito de falar-lhe reservadamente.
– Pegou o rádio do Gari e deixou lá em casa?
Quando o terno feito de patetas pelo Gari soube do golpe sofreu ataque de ódio explícito, jurou matar o sacana, dar-lhe porradas até dizer chega!, cobra na Justiça o dinheiro perdido naquela aquisição abstrata. Cesário contou que a sogra do doutor foi rude e franca.
– Rádio? Que rádio? O Gari na véspera da viagem vendeu para nosso vizinho, à vista, a Sílvia ficou furiosa com o marido porque queria levar para o Acre.
Assim, por causa de três interesses, o Gari lucrou com quatro.
LEITE, José Chalub. Tão Acre: o humor acreano de todos os tempos II. Rio Branco: Parque Gráfico do TJAC, 2009. p.73-74
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