segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Série A POESIA ACREANA > LUÍSA LESSA

Dado interessante a se perceber, nas letras acreanas dessas últimas décadas, é a presença da mulher. Não uma presença qualquer. Trata-se de uma presença marcante e que, de certa forma, a meu ver, ressignificou o fazer literário acreano. Ressignificou, sobretudo, no aspecto, de trazer uma ótica, de ver e compreender o mundo, que não mais se orienta apenas pelo prisma paradigmático do homem. Para se ter uma ideia, das quarenta cadeiras da Academia Acreana de Letras, treze são ocupadas por mulheres, mais que o dobro se comparada à Academia Brasileira de Letras, com apenas quatro. Porém, é bom que se diga: não foi a sociedade que abriu espaço para a mulher, mas a mulher que abriu, construiu e galgou seu espaço na sociedade.

Assim, tantas são as cronistas, contistas, romancistas, poetas, pesquisadoras... de grande qualidade no atual cenário das letras acreanas. Entre elas não poderia deixar de mencionar, por exemplo, nomes como Fátima Almeida, Florentina Esteves, Leila Jalul, Robélia Fernandes, Margarete Edul Prado, Francis Mary, Íris Célia Zanini, Olinda Assmar, Glória Perez, Luísa Lessa... e inúmeras outras não menos importantes. Divas da palavra. Inteligentes. Qualificadas. Profissionais. Sensíveis. Mulheres.

A escritora e professora Luísa Galvão Lessa ilustra bem a inteligência acreana. É dona de um currículo acadêmico notável (e invejável), com Pós-Doutorado em Lexicologia e Lexicografia pela Université de Montreal, Canadá; Doutorado em Língua Portuguesa pela Universidade Federal do Rio de Janeiro; Mestrado em Letras pela Universidade Federal Fluminense; etc. Além do mais, integra duas Academias, a Brasileira de Filologia e a Acreana de Letras. Uma profissional competente, “uma estudiosa da vida, amante da ciência e dos bons textos”, como costuma se autodefinir.

Em seus textos consegue, de modo extraordinário e instigante, traduzir o saber acadêmico/científico numa linguagem mais acessível e próxima da realidade cotidiana, sem, no entanto, torná-lo algo simplista e banal. Luísa Lessa é uma apaixonada pela vida, pela linguagem, pela cultura. E daí nasce suas reflexões, que tem se concretizado em inúmeros artigos espalhados pelos mais diversos meios de comunicação social, pelos mais variados cantos do país.

Por ser exigente com o que escreve e crítica de seus próprios textos, Luísa Lessa tem nos legado textos bem escritos e fundamentados, reflexões pertinentes à atual conjuntura política, linguística, cultural, etc. Também tem se enveredado pelos bosques da poesia (embora se considere uma poetisa amadora), a lançar suas sementes poéticas. O chão é a vida; as sementes, o amor. Thomas Merton certa vez comentou que a poesia antes de ser deleite humano, é a arte do coração. É assim que olho para os versos de Luísa Lessa, pois “o que o amor pode fazer, o amor ousa tentar”, nos valendo das palavras do Romeu shakespeariano. Seus poemas cantam e evocam o amor, com seus encontros e desencontros.

Finalmente, numa última palavra de admiração e respeito, Luísa Lessa representa uma das inteligências mais sutis de nossas letras, a meu ver. Sabe o que diz e como diz, na palavra, no tom e na metáfora certa. Embora insista na autocrítica, na busca por um constante aperfeiçoar-se. Porém, como dissera o australiano Morris West “quer um vaso esteja inteiro ou quebrado, ele denunciará sempre o talento do ceramista que o moldou”.

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QUANDO UM AMOR VAI EMBORA
Luísa Lessa

Quando o amor decide partir
Geralmente ele não consegue fingir
Ele segue sem olhar para o lado
Não deixa nenhum recado
E sai pelo mundo angustiado.
Quando ele descobre que chegou o momento
Não se apega a nenhum lamento
Esquece as memórias e histórias.
Não há nada que consiga prendê-lo
Nenhuma lembrança é capaz de detê-lo
Nada que o faça resistir e ficar.
Quando acontece de o amor acabar
Ele não avisa se um dia vai voltar
Tão pouco confidencia se vai renascer
Quando ele termina faz a gente sofrer.
Quando o amor escorrega por entre os dedos
Como mistério e com muitos medos
Ele não escuta os soluços, os apelos
Isso é sinal que ele se atropelou
Se rompeu, se partiu, se quebrou.
Então, quando o amor vai embora
Deixa uma ferida sangrando no peito
E uma esperança de ser um dia refeito.
Mas quando o amor foge para lugares distantes
Ele se perde em momentos intrigantes
Entre palavras e frases decepcionantes
Dando sinal que ele ficou fraco
Frágil, rasgado em farrapo.
Amor verdadeiro possui qualidade
Equilíbrio e quantidade
Tem muita sinceridade
É passivo nos estragos, mas com consertos
Pode esmorecer, mas sabe sobreviver.
Quando o amor vai embora
Ele parte com o peso dos ombros
É capaz de mover e remover os escombros
Sabe que chegou sua hora.
Quando o amor vai embora
Alguma cicatriz ele deixou
Algum arrependimento ficou
Sinal de tormenta restou
Assim como a dor
E soluços de lamento.
Mas aí vem o tempo
Grande amigo e companheiro
E faz parecer que nada foi verdadeiro
Cada segundo, cada hora e dia
O tempo segue e passa
Cada ano que se vai
Carrega consigo as lembranças
Leva na mala a tristeza, a desconfiança
Faz nascer nova esperança
Quando tropeça em outro amor
Esquece que viveu intensa dor.
Quando um amor vai embora
Significa que chegou a hora
De esquecer e apagar o passado
Olhar para o lado da vida que vai recomeçar
E um novo amor encontrar.


CAMINHANTE DA VIDA
Luísa Lessa

Caminhei pelo mundo,
Andei, naveguei, mergulhei,
Mais tarde aqui despertei
Não sei, não lembro aonde cheguei…
Só sei que caminhei à procura
De alguém, um lugar seguro,
Um coração valente, maduro…
Perambulei pelas incertezas da vida,
Vivi um dia a cada instante,
Um instante a cada dia...
No viver do passado que sorria,
Muitas noites perdi,
Em meio aos amores sofri,
Por paixões, encantos e ternuras…
Vi o rosto amado pelas ruas
Que ainda não esqueci...
Por muitos lugares naveguei,
Vivi outras paixões e pereci…
Mas nada adiantou
Deleitar em outros braços
As noites foram pueris,
Sonhei por onde passei...
Em lugar algum te achei,
Sempre tudo foi comum
Os dias quietos, sombrios,
As noites desertas, frias,
Não te encontrei em lugar algum...
Vou dormir sem a poesia dos cantos,
Encantos viris,
Sonhar no porvir,
Dias de outono que hão de vir,
O tempo que vivo sem ti...


SONHO CONTIGO
Luísa Lessa

É assim que sonho, amor,
Na brancura dos lençóis,
Nas noites sem faróis
No amanhã de esplendor,
Nas noites de lua-cheia,
Nas correntezas dos arrebóis.

Te quero de dia, de noite,
No claro, no escuro,
Na vida todinha,
No perfume das flores,
No alvorecer da aurora,
Na plenitude da vida.

Sonho em te abraçar,
Sonho em te acariciar,
Sonho em te beijar,
Dia e noite aconchegar,
Viver a vida a rolar.

É sonho de muitos amores,
Com beijos de flores,
Carinho de carmim,
Vem para perto de mim,
Vem meu coração,
Que a vida possui muitas cores.

Ao pão não peço que me ensine,
Mas antes que não me faltes,
Em cada dia que passe,
Em cada minuto eu sei,
Que os sonhos embalam a vida,
De sonhos viverei.


O AMOR MAIOR DO MUNDO
Luísa Lessa

Ah, eu tenho o maior amor do mundo!
E isso não é privilégio, é humano, direito de todos.
O maior amor do mundo faz o coração vibrar e até chorar de vez em quando!
É extraordinariamente único e maravilhoso,
Transforma qualquer dia chuvoso na mais linda noite enluarada.
Ah!... ele é como as estrelas mais brilhantes do universo!
O amor maior do mundo deixa a gente com alma de criança,
Um jeito de adolescente, inocente e puro,
Jeito de adulto que encontrou um caminho...
Ele abre as portas do coração para o mundo..
É tão grande que dói, tira o sono, a mansidão,
Mas tão alegre que devolve, sempre, o riso.
O amor maior do mundo é imenso, porém tangível,
Incomparável, único, individual.
É amor que dura a vida inteira,
É amor sereno, macio, brilhante,
É vibrante com as cordas de um violão,
Aquece e afina as cordas do coração,
E toca a melodia mais bela, a mais doce canção,
A serenata do coração feliz.


PÉTALAS DO AMOR
Luísa Lessa

Pétalas de amor
Tu és o doce amor,
O bem mais precisoso,
O doce mais saboroso,
O petisco mais gostoso.

Tu és o rouxinol,
O canto do arrebol,
Da luz tu és o farol,
Da flor o nectar puro,
O amor mais maduro.

Tu és pétalas radiantes,
Pétalas brilhantes,
Tu és um diamante,
A brisa do horizonte,
És como água da fonte.


TU ÉS SABOR, LUZ E VIDA
Luísa Lessa

És o orvalho que nutre uma rosa
És a rosa que enfeita o jardim
És o jardim que ornamenta a campina
És o campo radioso sem fim
És um raio de luz no espaço sombroso
És a sombra suave e fiel
És o manto da cor de mel
És o abraço ardoroso.

És o sonho ideal da poesia
Que radia na rima do verso
Na candura do dia a dia
No segredo total do universo
És o berço a ninar o universo
És a face alegre da melodia
És degrau da eterna subida
És a vida de noite e de dia
És a vida em poesia.

És a ponte que jaz sobre o abismo
És a fonte dos mananciais
És o doce marulho das águas
És o fruto dos ninhos
És a primavera dos florais
És o forte que sustenta a cruz
És o norte a orientar caminhos.


TU ÉS ESPELHO DE VIDRO
Luísa Lessa

Tu és o sonho sonhado
A roseira branca e rosa
A brisa da manhã ditosa
Tu és oração, devoção
Amor, poesia, um achado.

Tu és o amanhã pra chegar
Um sonho pra encontrar
Um amor por despertar
Uma espera para chegar
Tu és uma esperança a alcançar.

Tu és o choro, o pranto, o grito
Por vezes o acalanto do gemido
N’outros tempos desencanto
Dor, tormento, sofrimento
Tu és sempre um coração partido.

Tu és a estrela que deseja um guia
O manto que carece de poesia
O choro de cada dia
Tu és o canto, a melodia
Tu és o eco da maresia.

Tu és o engano
O sonho perdido
O coração iludido
O pranto dolorido
Tu és um espelho de vidro.


MEU PRANTO DOÍDO
Luísa Lessa

Meu pranto doído
Meu coração partido
Meu desengano
Meu destrono
Meu ente perdido...

Sou da Amazônia
Sou poetisa amadora
Uma mulher sofredora
Um alguém em agonia
Porém sem covardia...
No momento estou chorando...
E nessa hora indago
Qual parte do mundo esqueci
Em quais oráculos me perdi
Em qual mundo hora viajo...

Qual parte do mundo esqueci
Quando teus tímpanos escutam o som
Dos meus soluços tristes
Os oráculos da terra selvagem
Os anseios da eterna viagem...
Busquei olhar as estrelas e ver algum sinal
Do ser sonhado, esperado, aguardado
A noite se fez manto
Cobriu meu pranto como acalanto
De longe a brisa abismal...


POR TI
Luísa Lessa

Por ti que um dia sonhei,
Por ti que um dia evitei,
Por ti que um dia sorri,
Por ti que um dia parti,
Por ti que hoje encontrei.

Saudade do perfume das rosas
Das lembranças ditosas
Das flores na janela
Das nuvens na passarela,
De um olhar no poente,
Dois corações sorridentes.

Hoje tu habitas a esfera,
A casta atmosfera,
A brisa, o vento, o horizonte,
Num rumor luxuriante,
Ao abrigo de luz que te transforma em tela.

Toco-te na face vibrante e macia,
Vejo-a como uma imagem que sacia,
O teu coração acesso como uma vela,
Que toca a melodia da aquarela.

Sei que não sou nada, não sou ninguém,
Mas fiz de ti poesia,
Lançei-te o pó de fada da alegria,
Para em ti repousar a minha alma além,
Depois, contigo dormir na magia.


ÉS TU O SONHO
Luísa Lessa

És o orvalho que nutre uma rosa
És a rosa que enfeita o jardim
És o jardim que ornamenta a campina
És o campo radioso se fim
És um raio de luz dentre a sombra
És a sombra suave e fiel
És o manto azulado do espaço
És o braço que me uni aos céus.

És o sonho ideal da poesia
Que radia na rima do verso
Na cantura do meu dia a dia
O segredo total do universo
És o berço que embala a criança que nasce
És a face alegre da alma remida
És degrau da eterna subida
És a vida meu Deus
És a vida.

És a ponte que jaz sobre o abismo
És a fonte dos mananciais
És o doce marulho das águas
No deserto és descanso de paz
Tú que reinas acima da morte
És o forte que sustenta a cruz
És o norte que orienta o filho.

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Nota: agradecemos a gentileza da autora por nos ceder a publicação de seus versos.

Para leitura de textos de Luísa Lessa recomendamos:
coluna do Jornal A Gazeta
coluna do site Gosto de ler

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

ODES DE RICARDO REIS

<<Ricardo Reis é um dos três heterônimos mais conhecidos de Fernando Pessoa. Ricardo Reis é um erudito que insiste na defesa dos valores tradicionais, tanto na literatura quanto na política. E retoma o fascínio do mestre pela natureza pelo viés do neoclassicismo.>>

Sim, sei bem
Que nunca serei alguém.
Sei de sobra
Que nunca terei uma obra.
Sei, enfim,
Que nunca saberei de mim.
Sim, mas agora,
Enquanto dura esta hora,
Este luar, estes ramos,
Esta paz em que estamos,
Deixem-me crer
O que nunca poderei ser.

27-9-1931

...


Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.

14-3-1933

...


Domina ou cala. Não te percas, dando
Aquilo que não tens.
Que vale o César que serias? Goza
Bastar-te o pouco que és.
Melhor te acolhe a vil choupana dada
Que o palácio devido.

27-12-1931

...


Cada dia sem gozo não foi teu
Foi só durares nele. Quanto vivas
Sem que o gozes, não vives.

Não pesa que amas, bebes ou sorrias:
Basta o reflexo do sol ido na água
De um charco, se te é grato.

Feliz o a quem, por ter em coisas mínimas
Seu prazer posto, nenhum dia nega
A natural ventura!

16-3-1933

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PESSOA, Fernando. Obra Poética. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1992. p. 286, 289, 290.

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

REINVENÇÕES DE FOUCAULT

Profª. Inês Lacerda Araújo


Michel Foucault (1926-1984) deveria ter seguido a profissão de médico, era o desejo de seu pai, cirurgião. Seu irmão seguiu o apelo paterno, ao passo que Paul-Michel estudou filosofia e psicologia. Ganhamos nós com seus escritos contundentes, como que flechadas no coração do tempo presente, nas palavras de Habermas.

Ele reinventou noções que estavam desgastadas e bloqueavam uma visão mais acurada e crítica de nossa época. A história do tempo presente moveu seus interesses intelectuais e pessoais. Um a um conceitos foram derrubados e novamente constituídos à luz de novos intrumentos "metodológicos", a arqueologia do saber, a genealogia do poder e a análise das práticas de si. Renovou não só quanto à abordagem, também nos temas: loucura, medicina, práticas discursivas, o poder microfísico, a prisão, a sexualidade, a governamentalidade. Com enorme erudição, facilidade de assimilação, um arco de pensamento que percorre desde os clássicos gregos, latinos, escritos medievais e do renascimento, passa pelas as fontes documentais esquecidas, formas arquitetônicas, os mais importantes filósofos, cientistas notórios, mas também práticas menores e obscuras de médicos e psiquiatras que forjaram o moderno sujeito medicalizado e psiquiatrizado; e ainda, o nascimento de instituições como a prisão e seu papel na "sociedade disciplinar", as formas de governar, desde os gregos até a do neoliberalismo do século 20.

A reinvenção da história: considerar os acontecimentos como feixes de relações e não como ascenção dialética em direção a uma realização mais completa e final ao estilo de Hegel. Exemplo: a história dos saberes no ocidente é tecida em formações discursivas; nelas nascem conceitos como os de circulação das riquezas, vida, evolução, norma, sistema. As mutações na concepção de sujeito, o sujeito pensante (Descartes) que representa o mundo pela sua consciência, o sujeito transcendental de Kant que "formata" a realidade, o de Heidegger que é finito e morrerá - são mutações que mostram como o saber ocidental elege certos temas e constitui verdades. Não há a verdade, a filosofia faz e refaz perspectivas. A relação entre o que se diz, as palavras, e o que é dito, as coisas, produz mudanças no modo como se concebe o ser humano, como figura de saber.

A reinvenção do papel das instituições sociais: família, governo, Estado, direito, leis penais não formam um bloco sólido e permanente. Há profundas modificaçoes das instituições sociais que não se devem exclusivamente a estadistas, conquistas, guerras, grandes invenções, mas a necessidades estratégicas e ao surgimento de tecnologias, que servem para o controle das populações, e também para a circulação de bens e indivíduos. Podem assegurar, ainda, a saúde dos governados, o que inclui desde a separação e a exclusão de doenças contagiosas, até a vacinação e o controle de fronteiras. Outros exemplos: a invenção do fusil exigiu novo modo de formação dos exércitos; acomodar o comportamento humano para operar com máquinas, aprender em escolas, curar-se em hospitais, exigiu do corpo treino, saúde, disciplina; as intervenções do governo a partir de meados do século 18 na família visaram produzir uma população saudável, ou seja, mais produtiva e menos onerosa para o Estado. E isso até nossos dias.

A reinvenção da concepção de ser humano: houve profundas mudanças no modo como nos conduzimos criando e modificando comportamentos e concepções, as chamadas "práticas de si". Exemplo: estilos de vida antigos, como o dos gregos, eram pautados pela moderação, usufruindo de conselhos para um domínio ativo de seus desejos e prazeres, uma espécie de economia da vida que leva a satisfações e serve inclusive à educação de cidadãos e dos governantes. Em contraste, as práticas de si dos cristãos privilegiavam o ser governado por um tipo de poder pastoral, o que exigia submissão e, mais tarde, a confissão dos pecados. Já o homem moderno, é aquele que nasce de ciências "humanas", sempre que elas visam conhecer, dominar, interpretar, moldar, examinar o comportamento e a subjetividade, entregues ao saber de Outro. Este tem o poder de apaziguar, reconduzir os desejos, a sexualidade inclusive, para algo paradoxal: curar expondo que não há cura para o desejo.
Pinel libertou os insanos das correntes e os prendeu à objetividade do saber com pretensão à cura pela estrita disciplina asilar.
Ainda assim, há espaço para o exercício de atos de liberdade: recusar ser moldado, o que inclui estilos de vida alternativos, mais prazerosos e menos sujeitados à vontade de saber e ao biopoder. Um exemplo: recusar a instituição do casamento no caso dos gays, pois casar implica laços jurídicos, uma dependência do dispositivo de aliança.

Cuidar de si, reinventar-se é melhor do que prender-se à ditadura do "você deve ser e agir assim" e do que a obrigação de ser "normal".

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* INÊS LACERDA ARAÚJO - filósofa, escritora e doutora em Estudos Linguísticos. É professora aposentada da UFPR e PUCPR.

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Série A POESIA ACREANA > ANTÔNIO FRANCINEY

“Se é para sorrir de alegria e de emoção, se é para ficar lembrando a amada que nem tens, minhas histórias e poemas não se prestam à leitura, serão indigestos e intragáveis. Agora, se tens uma revolta, uma luta e uma saudade, mesmo no mais recôndito da alma, nos tornaremos confidentes.”
Antônio Franciney


Antônio Franciney é da nova geração de poetas acreanos, uma voz que nos chega do Juruá, Cruzeiro do Sul, com fortes raízes em Porto Walter. A partir do que li, é um poeta a quem nutro respeito. Sua poesia nasce simples, pois a vida é simples, apesar de grande. Fala de uma realidade particular, porém, numa perspectiva universalizante; do cotidiano, mas, ao mesmo tempo, o transcende. Há, em sua poesia, uma saudade que se nutre das reminiscências; um sonho que nasce da luta; uma luta que surge da revolta, revolta que poderíamos designar de “fúria generosa” como a que nos legou George Orwell.

Formado em Letras (1996) e História (2004) Franciney, além de poeta, é cronista. Em 2006 publicou o seu primeiro trabalho literário, “Quatro Colinas”, composto por poemas e crônicas, um livro, como assinala o próprio autor, que “tem muito de saudade, sonhos e insatisfação com a realidade do lugar em que viveu”. Franciney e Jairo Nolasco, a meu ver, têm sido bons representantes das letras no Juruá, por uma escrita irreverente, humorada e profundamente crítica.

Por fim, um verso de Alberto Caeiro talvez sintetize o poeta Antônio Franciney: “Ser poeta não é uma ambição minha / é a minha maneira de estar sozinho”.

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Antonímia
Antônio Franciney

Amar o Amor sobre todas as coisas
Sem esquecer que o ódio é inesquecível.
Amar a vida
Sem desprezar a morte.
Amar a paz
Armado de mísseis de médio e longo alcance.
Amar o sorriso
Sem esquecer um lenço.
Amar a Luz
E amar no escuro.
Amar o próximo mais próximo
Sem esquecer o próximo distante.
Amar o horizonte
Sem esquecer a chuva.
Amar um sonho
E acordar chorando.
Amar o amor entre todas as coisas
E amar, e amar, e amar.
Amar um sonho
E amar só uma realidade
Que é saber que tudo é belo
Mas tudo é oposto de nada.


Pater Noster
Antônio Franciney

À luz de toda ciência
Te busquei e em vão
Ornei minha Igreja
Comprei um galão
Também um terreno
Com vista pro Éden
Paguei o meu dízimo
Orei, fiz promessa
Tentei ser fiel
Seguir os teus passos
Teu amor e em vão.
Me pregaram que eras
Um homem de bem
Que eras meu pai
Meu irmão
Meu espírito.
Me catequizaram
Me evangelizaram
Me converteram, me perdi e em vão.
Eu te busquei na beleza das mulheres
Nos templos sagrados
Nas horas de dor
Nas horas de fado
E tu não estavas
Os que falam por ti não sabem de ti
E os que sabem não falam
Portanto, Senhor,
Tenho pena de mim
Que não decoro versos
Nem pago o dízimo regularmente.


Revolução
Antônio Franciney

Nem o corneteiro chora...
Envolto em sombras
O acampamento dorme.
Dormirá também o espírito da luta?
Diz, senhor dos pampas,
Adormece a fúria e o espírito acreano?
“Invencíveis e grandes na guerra”
As baionetas ainda estão alinhadas
O sangue dos andinos nem secou ainda
E os barracões estão velando corpos
Cada samaúma é uma trincheira
Cada seringueiro é um infante
Costureiras de mão façam bandeiras
Que os heróis precisam de mortalha
Diz, senhor dos pampas,
Pra que tanta luta?
E Plácido, olhar fito,
Rosto duro
É uma estátua
A única da Revolução.


Epílogo
Antônio Franciney

Não é preciso escrever mais nada
Todos os versos
Poemas todos,
Estão por aí,
Ruborizados e marginais.
Escrever o quê?
A quem ofertar-se?
Guardemos silêncio,
Escrevamos sobre improbabilidades,
Quem sabe assim,
A inspiração nos encontre
E seremos poetas
Como aos 15 anos.

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ROCHA, Antônio Franciney de Almeida. Quatro Colinas. Recife: Edições Bagaço, 2006.

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Antônio Franciney escreve no blog MINHAS COLINAS.

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

DOUTOR FAUSTO (trecho)

Thomas Mann (1875-1955)


Em Meersburg, perto de Constança, vivia em fins do século XV um rapaz decente, de nome Heinz Klöpfgeissel, tanoeiro de profissão. Era bem-apessoado e gozava de boa saúde. Tinha uma inclinação afetuosa, por sinal correspondida, por uma rapariga, Bärbel, filha única de um sineiro viúvo. Queria casar-se com ela, mas o casal de namorados esbarrou na oposição paterna, uma vez que Klöpfgeissel era um pobretão e o sineiro exigia dele que primeiramente se arranjasse, obtendo o grau de mestre em seu ofício. Antes não lhe daria a mão da filha. A afeição dos dois jovens mostrava-se, no entanto, mais forte do que sua paciência, e prematuramente ambos se tinham tornado homem e mulher. Pois, à noite, quando o sineiro saía de casa para repicar seus sinos, Klöpfgeissel entrava pela janela de Bärbel, e seus abraços faziam com que cada qual dos dois considerasse o outro a criatura mais maravilhosa do mundo.

Assim andavam as coisas, quando, um belo dia, o tanoeiro, em companhia de uns camaradas pândegos, fez uma excursão a Constança, onde se realizava uma quermesse. Passaram ali um dia alegre, de modo que de tardezinha se descomediram e resolveram visitar o mulherio de um lupanar. Como a ideia não agradasse a Klöpfgeissel, ele nem queria acompanhar os outros. Mas os companheiros, zombando dele, trataram-no de maricas. Em seguida, passaram para insultuosos escárnios, pondo em dúvida as qualidades de homem inteiro de Heinz e indagando se ele talvez não se sentia à altura do que dele se esperava. Como Klöpfgeissel não suportasse essas ironias e, assim como os demais, houvesse emborcado muito canecos de forte cerveja preta, deixou-se convencer. Bazofiando que se conhecia melhor do que eles, subiu com o resto da turma pela escada do conventilho.

Lá aconteceu que o moço sofresse uma humilhação tão pavorosa que nem sabia o que pensar de si mesmo. Pois, contra todas as expectativas, nada deu certo entre ele e a rameira, uma húngara. Klöpfgeissel absolutamente “não se sentiu à altura”, o que lhe causou imenso desgosto e também o sobressaltou enormemente, porquanto aquela marafona não apenas se ria dele, senão também meneava a cabeça com ar ominoso, afirmando que qualquer coisa estava cheirando mal. Insinuou que nessa história havia algo sinistro; pois, quando um rapaz da estrutura de Klöpfgeissel de um momento para outro ficava impotente, devia ser vítima do Diabo; certamente alguém lhe dera um filtro, e outras conjeturas desse gênero. Heinz a pagou generosamente, para que ela não dissesse nada aos companheiros, e muito acabrunhado voltou para casa.

O mais depressa possível, posto que com muitas preocupações, foi ter com Bärbel, e enquanto o sineiro repicava os sinos, passavam ambos uma hora muito bem-sucedida. Assim o jovem reencontrava sua honra viril e podia sentir-se totalmente satisfeito, já que, além dessa sua primeira e única amada, não se interessava por nenhuma outra, e por que deveria ele interessar-se muito por si próprio, a não ser na presença dela? Mas, desde aquele fracasso, cravara-se em sua alma alguma inquietude. Intrigava-o a ideia de submeter-se a outro teste, enganando a sua querida, pelo menos uma vez e nunca mais. Por isso, espiava clandestinamente uma oportunidade para pôr-se à prova, a si mesmo e também a ela, visto que não era capaz de desconfiar de si, sem provar, ao mesmo tempo, uma leve suspeita, carinhosa, sim, e todavia angustiada, com relação àquela à qual pertencia toda a sua alma.

Pois bem, ocorreu pouco depois que o chamassem, para que, na adega de um ventrudo e enfermiço estalajadeiro, fixasse os aros soltos de dois barris. A esposa do homem, uma fêmea ainda bem viçosa, descia junto com ele e o observava durante o trabalho. Subitamente lhe acariciou o braço e encostou o seu nele, como para comparar as medidas. Fê-lo com uma expressão tão súplice que o moço absolutamente não lhe podia recusar o que sua carne, em que pesasse a toda a prontidão do espírito, era totalmente incapaz de realizar, de modo que ele se viu forçado a dizer-lhe que não tinha vontade de bailar, que estava com pressa e que certamente o marido dela não ia demorar a descer. Com isso, deu nos calcanhares, enquanto a mulher amargurada ria sarcasticamente atrás do moço, que lhe ficara devendo o que nenhum rapaz robusto deixa de pagar.

Klöpfgeissel sentia-se profundamente ferido. Duvidava de si mesmo e não só de si. Pois a suspeita que já depois do primeiro malogro se infiltrara em sua mente, a essa altura se apossava dele por inteiro. Já não hesitava nenhum instante em crer-se vítima do Diabo. Por isso, e considerando que a salvação de uma pobre alma e ainda a honra de sua carne estivessem em jogo, encaminhou-se ao padre e, através da grade, sussurrou-lhe tudo na orelha: que fora enfeitiçado por alguém e desde então se tornara impotente e inibido, a não ser com uma única. Perguntou como era possível uma coisas dessas. Não dispunha a Religião de recursos maternais para livrá-lo de tal infortúnio?

Ora, naquele tempo e naquela região, estava terrivelmente difundida a peste da bruxaria, em combinação com muitos outros pecados, leviandades e vícios afins, por instigação do Inimigo desejoso de ofender a Majestade divina. Em face disso, impusera-se aos pastores do rebanho a mais severa vigilância. O padre, por demais familiarizado com essa categoria de malefícios, que, como por encanto, privavam certos homens do melhor de sua força, comunicou a confissão de Klöpfgeissel a seus superiores. A filha do sineiro foi presa. Interrogada, confessou veraz e sinceramente que, na angústia de seu coração preocupado com a fidelidade do rapaz, para evitar que outra moça lho surrupiasse, antes de ele pertencer-lhe perante Deus e os homens – confessou, pois, que de uma velha megera, curandeira de profissão, recebera um specificum, alguma pomada pretensamente feita de gordura de uma criança falecida sem batismo; para obter certeza da fidelidade de seu Heinz, esfregara-lhe secretamente as costas com esse unguento durante o amplexo, traçando nelas um desenho predeterminado. Em seguida, a curandeira foi submetida à inquirição. Ela negou tenazmente tudo. Tornou-se então preciso entregá-la às autoridades seculares, deixando-se ao critério delas o uso de meios de interrogação incompatíveis com a Igreja, e, depois de um pouco de pressão, verificou-se o que era de esperar, a saber, que a velha realmente fizera um pacto com o Diabo, o qual se lhe apresentara sob o disfarce de um monge de pés de bode e a persuadira a renegar com atrozes blasfêmias a Santíssima Trindade e a fé cristã, pelo que, em compensação, comunicara-lhe receitas não somente daquela pomada de amor, mas também de outras panaceias ignominiosas, entre as quais se achava uma banha que bastava passar num pedaço de madeira, para que este subisse aos ares, carregando consigo o adepto de tal magia. As circunstâncias sob as quais o Maligno selara seu acordo com a anciã saíram à luz somente aos poucos, sob repetida pressão. Eram, no entanto, de arrepiar cabelos.

Para a moça, que apenas indiretamente fora afastada do bom caminho, dependia então tudo da medida em que a aceitação e o uso dos maléficos ingredientes houvessem comprometido a salvação de sua alma. Para maior desgraça da filha do sineiro, a velha depôs que o Dragão a mandara fazer um número muito grande de prosélitos; pois o Demônio prometera-lhe que, por cada criatura humana que ela pusesse à disposição dele, induzindo-a a servir-se dos diabólicos produtos, torná-la-ia um pouco mais imune ao fogo perpétuo, de modo que, após um assíduo trabalho de angariamento, ficasse revestida de uma couraça de asbesto, protetora contra as chamas do Inferno. Essa declaração foi funesta apara Bärbel. Impunha-se a necessidade de preservar-lhe a alma da perdição eterna e arrancá-la das garras do Diabo, com sacrifício de seu corpo. E uma vez que, de qualquer jeito, em face da perversidade que imperava em toda a parte, carecia-se urgentemente de um exemplum, foram queimadas em praça pública, lado a lado, em fogueiras vizinhas, duas bruxas, a velha e a moça. Heinz Klöpfgeissel, o enfeitiçado, encontrava-se em meio à multidão de expectadores, murmurando orações, de cabeça descoberta. Os gritos de sua bem-amada, abafados pela fumaceira e roufenhamente transformados, pareciam-lhe a voz do Demônio, que renitentemente, coaxando, afastava-se do corpo dela. A partir de então, cessava a vergonhosa inibição que lhe haviam pespegado, pois bastava que aquele seu amor fosse reduzido a cinzas para que se restaurasse ao moço o uso livre de sua virilidade criminosamente surrupiada.


MANN, Thomas. Doutor Fausto. Tradução de Herbert Caro. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984. p.141-145

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

ENTRE VERSÍCULOS E INSULTOS - Leila Jalul

[Cidade do interior à noite (Eduardo Cambuí Junior)]
A cidade de Otaciano Pinté, pouco mais de 11.000 viventes, é um retrato riscado e sujo do que pode e deve ser uma cidade, tanta é a falta de estrutura básica. Antes um aglomerado de seringais e fazendolas, foi elevado à categoria de município por mais uma das catrepagens políticas que imperam no país. Como aumentar o dinheirinho que vem do Fundo de Participação dos Estados e Municípios senão criando, a toque de caixa, esqueletos urbanos que não deveriam ser nada mais além do que pequenas vilas?

Num arremedo de império romano, uma igreja sem padre, um fórum para os tribunos, uma escola caindo aos pedaços, duas ruelas de tijolos, nenhum posto de saúde, hospital inexistente, um armazém desfalcado, um filho ilustre bem relacionado com os morubixabas da capital e, pimba! Nasce um município! Nasce, não é bem o termo: aborta-se um ente público, fadado ao fracasso. Assim está, sempre esteve e será Otaciano Pinté por muitos anos: fracassada!

As poucas melhorias que surgiram desde o fenomenal rito de passagem foram por imposições legais. As maiores “obras” executadas até o presente momento, reconheça-se, foram as aberturas de fossas negras com vasos sanitários e caixas de descarga, em substituição aos antigos cagadores de madeira. Não fosse a continuidade de contaminação do lençol freático, seria uma boa e higiênica ideia. Como está, nada mais é que um arranjo para desarranjos. As instalações da delegacia, do cartório, do destacamento militar, e da escola de segundo grau, que não passa de quatro salas de alfabetização de adultos e crianças, são precárias. Merenda escolar ainda é coisa rara e, quando há, é na base do feijão podre, frango podre, carne de sol com bichos tapurus, biscoitos molhados e farinha das boas. A farinha de Otaciano Pinté é das melhores da região. Pelo menos isso!

Quando da elevação a município, em 1996, o patriarca e até hoje prefeito, Otaviano Pinté, herdeiro político de Otaciano Pinté, sonhava alto. Por um mandato e por exigência da legislação eleitoral, o cargo foi ocupado por sua esposa Madalena. Só para inglês ver. Quem mandava era ele mesmo.

Refestelado em sua cadeira de vime, com pose de entronado, vislumbrava uma comunidade rica e feliz que honrasse a figura de seu falecido pai, que deu nome à cidade. Ele e os irmãos José Otávio e José Olavo Pinté faziam arquiteturas na areia. Uma fonte luminosa, um palacete imponente, uma praça infantil e outra para adultos e mais outras e outras edificações vistosas para os poderes legislativo, executivo e judiciário. Quase nada saiu do devaneio. A Câmara de Vereadores ainda está num velho barracão que pertence a José Otávio, agora revitalizado com as cores da bandeira do município. Azul e vermelho, como nas cruzadas, são os matizes do lábaro que vive pendurado e ostentado num cano de PVC na Praça dos Três Poderes Pintecianos.

O fórum, um pouco melhor alojado, ainda está sem a escultura cimentosa da Deusa Minerva no pátio de entrada. A casa onde morou o velho Otaciano Pinté continua locada para o pleno exercício da justiça por uma mensalidade exorbitante e incompatível com os valores regionais. O tal palacete, sede do governo, é a própria casa de Otaviano, recuperada e ampliada com dinheiro público. Tudo em família, pois! A velha escola Sarneyziana invade territórios, por mais longínquos que sejam.

Os irmãos Pinté, antes católicos por conveniência, resolveram fundar a própria igreja. Como homens de visão, assistiram e comprovaram pela TV com possantes antenas parabólicas que as “igrejas de crentes” eram um bom negócio. Num zás, lás e trás, com toras de madeiras extraídas da mata próxima, ergueram o templo da Igreja Cristo é Rei. José Olavo, o mais desocupado dos irmãos, foi “nomeado” pastor.

O primeiro culto da mais nova denominação foi em ritmo pop. Os funcionários da prefeitura, evidentemente, foram todos convocados para a grande manifestação de fé da comunidade pinteciana. Ai, ai, dos que não comparecessem! Muitas músicas goospel de Jamile, Régis Danezzi, Robson Monteiro e companhia limitada foram entoadas antes da celebração inaugural. O povo em geral, na marra, cooptou e compareceu.

Às vinte horas, depois do corte da fita inaugural, sobe ao púlpito o pastor José Olavo. Para honra e glória dele mesmo, sua roupa de apóstolo mais parecia com a beca dos gaúchos dos pampas em dias de churrasco fincado no solo e danças com as prendas nas noitadas frias do Rio Grande do Sul. No lugar do terno preto e gravata sóbria, vestia bombachas e camisa branca com um lenço vermelho atado em seu pescoço. Várias meninas da comunidade, devidamente ungidas, saltitavam pelo palco, vestidas com gazes e tules, como se fadinhas tontas fossem. A palavra foi pregada e o público aplaudiu. Qualquer pessoa que dissesse que o culto não foi bonito, estaria faltando com a verdade. E a verdade, a bem da verdade, é bem de Deus!

À época da inauguração do templo, soberana no IBOPE, Glória Perez ditava o conhecimento da cultura da Índia. Juliana Paes, Tony Ramos, Marcelo Farias e o veterano Lima Duarte, interpretavam os maiores e melhores da trama. Pois bem, no templo Cristo é Rei, de olhos fechados e em transe, homens e mulheres dançavam ao som da música de convite ao coito, da trilha sonora dos namorados, amantes e calientes Maya e seu maridão Raj, o hoje protagonista de 0 ASTRO, da não menos conceituada Janete Clair. Aproveitando a deixa e o sucesso, um compositor ungido e desconhecido deu nova versão à letra da música. Sem as fantasias e joias, tic? Só com os are babas, correto?

José Otávio animou-se com a renda da igreja do irmão. Medindo numérica e qualitativamente a clientela, verificou ser perfeitamente possível e estratégica a existência de outra denominação “cristã”.

Munido de toda a documentação exigida, em tempo recorde, deu entrada nos papéis para a criação da Igreja Deus é Pai. Noutro barracão com toras de madeira das cercanias ergueu o toldo do novo templo. A costureira Francismar Milhomen criou o uniforme branco com cinco estrelas azuis bordadas no peito. Um brinco de uniforme, inspirado na constelação do Cruzeiro do Sul. Para a festa inaugural, viajando de barco, veio de Belém um cantor de rock goospel, com cachê de dois mil contos.

A partir desse evento, não poderia ser diferente, a notícia carece de exatidão. Uns dizem que a igreja Cristo é Rei ficou desfalcada em cerca de trinta por cento. Os mais exagerados falaram em quarenta e até cinquenta por cento. Motivo mais que suficiente para que ocorresse a cisão. José Otávio e José Olavo apartaram as farinhas depois da péssima divisão das almas-reses.

Inconformado, José Olavo foi à luta. Vereador, tanto quanto José Otávio, a contenda foi parar na plenária da Câmara. Não mais se falavam informalmente. E partiram para o debate. Os podres dos edis eram do conhecimento público, porém tratados na penumbra do fuxico e da maledicência. Melhor, então, escancarar. Na sessão única da semana, galeria lotada, aconteceu a primeira dentre muitas e seguidas lavações de roupa suja.

- Vossa Excelência, vereador José Olavo, não passa de um enganador de almas. Está no Livro o aparecimento dos falsos profetas. Vossa Excelência é o pior deles. Anotei uns poucos e veja o que encontrei sobre o que representa Vossa Excelência:

“Guardai-vos dos falsos profetas, que vêm a vós disfarçados em ovelhas, mas interiormente são lobos devoradores. Pelos seus frutos os conhecereis. Colhem-se, porventura, uvas dos espinheiros, ou figos dos abrolhos? Assim, toda árvore boa produz bons frutos; porém a árvore má produz frutos maus. Uma árvore boa não pode dar maus frutos; nem uma árvore má dar frutos bons. Toda árvore que não produz bom fruto é cortada e lançada no fogo. Portanto, pelos seus frutos os conhecereis.
Mateus 7:15-20

Rogo-vos, irmãos, que noteis os que promovem dissensões e escândalos contra a doutrina que aprendestes; desviai-vos deles. Porque os tais não servem a Cristo nosso Senhor, mas ao seu ventre; e com palavras suaves e lisonjas enganam os corações dos inocentes.
Romanos 16:17-18

E a besta foi presa, e com ela o falso profeta que fizera diante dela os sinais com que enganou os que receberam o sinal da besta e os que adoraram a sua imagem. Estes dois foram lançados vivos no lago de fogo que arde com enxofre.
Apocalipse 19:20”

- E o que direi de Vossa Excelência, Vereador José Otávio? Que é um ladrão da pior espécie? Que engana viúvas e órfãos? Também está na sagrada escritura, fique Vossa Excelência sabendo! Qual o destino das cestas básicas de sua igreja? Quem varre sua casa e cozinha para sua família? Quantos salários Vossa Excelência paga para os fiéis que cuidam de suas propriedades?

Indiferentes às brigas dos pais, os primos Grace e Ruslander Pinté engataram um namorico às escondidas. Largaram as igrejas dos pais e caíram na gandaia da juventude moderna. Na base do faça amor, não faça guerra, em lugar de louvores e discursos, passaram a ouvir os batidões do funk e a bebericar uns drinks de Tang de tangerina com Caninha 51.

E aconteceu que, numa certa noite, foram apanhados num flagra sobre a cama de José Otávio, pai da menina Gracezinha. O fato elevou a ira do Pastor-Vereador. Não esperava que sua bonequinha de luxo, sua princesa adolescente tivesse sido desvirginada justo por seu sobrinho e filho do seu principal desafeto no âmbito familiar, religioso e político. A cena da sua menina nua e bêbada nos braços do canalha Ruslander Pinté foi deveras chocante. Até ensaiou uma síncope cardíaca, com direito a dor no peito, falta de ar, formigamento nas mãos e vômito.

“Como evitar o escândalo? Como posso impedir o vazamento desta trepada infame entre primos? Minha reputação e a de minha filha vão parar na lata do lixo! Meu Deus, o que fazer?” - repetia desesperadamente o desatinado pai.

Medicado e aconselhado pela esposa e pelo irmão José Otaviano, prefeito, patriarca e pensador da família, José Otávio deitou e dormiu sedado. Ficou acertado que dali mesmo o prefeito iria à casa de José Olavo relatar o acontecido e preparar os irmãos para uma conversa franca. Assim procedeu. Ruslander, que a tudo ouviu, revelou ao pai que Gracezinha não era mais virgem e que isso não tinha a menor importância. Ele tinha intenção de casar-se com ela e só não revelaram o namoro antes, por medo dos pais.

No dia seguinte, ainda cedo, José Olavo e José Otávio, no Gabinete do Prefeito-irmão mais velho, iniciaram o “debate” de reconciliação. Pela preservação do nome e honra da família, sem maiores questionamentos, acertaram a data de casamento dos filhos. José Olavo não estava nem um pouco preocupado com as vergonhas de José Otávio. É voz corrente dos homens da comunidade pinteciana que: “quem tem suas éguas soltas, que prendam, pois meus cavalos continuarão soltos”. Também não é raro ouvir dizer que “xereca não tem lombada e piroca não tem freio”.

Outros acertos foram consolidados na base do fio do bigode: por uma semana os cultos seriam suspensos e, passado esse prazo, a igreja Deus é Pai seria definitivamente fechada, para honra e glória de José Olavo que assistiu, pesaroso, a debandada de seus fiéis para a igreja do irmão, como se fosse uma verdadeira revoada de jacus.

Na câmara, na igreja e na cidade inteira, a mudança de comportamento dos irmãos foi notada. Encerradas as atividades da Deus é Pai a normalidade voltou à igreja Cristo é Rei. Por decisão e a pedido de José Otávio as reses desgarradas voltaram a colocar lenços vermelhos em volta dos pescoços, apagando de uma vez a constelação do Cruzeiro do Sul de suas vidas.

Um novo templo foi erguido por voluntários capitaneados pelo irmão de José Olavo, seu ex-detrator e irmão José Otávio. Na região não há outra igreja tão grandiosa e moderna. Foi nele – no templo -, que aconteceu o casamento de Ruslander e Gracezinha e é ele – o templo -, a última grande obra da cidade de Otaciano Pinté. O mais continua a passos de lesma, inclusive a instalação de fossas negras com vasos de louça e descarga, em substituição aos antigos cagadores de madeira. Na merenda escolar continuam sendo servidos alimentos estragados.

Em pesquisa recente realizada pelo Ibope local, na próxima eleição a chefe do Executivo Municipal, na cabeça, com previsão de setenta e cinco por cento dos votos válidos, será eleito o Pastor-Vereador José Olavo Pinté. Ruslander e Grace disputarão vagas na vereança, ambos com sucesso garantido. Para a honra e glória de quem?

É promessa do futuro prefeito aos irmãos de fé e correligionários a contratação de Luan Santana para abrilhantar a festa.

A escola Sarneyziana é eficiente. Os irmãos Pinté sabem disso!




NOTA DA AUTORA:
Tenho convicção de que a fé em Deus independe de igrejas, padres e pastores. Demonstro profundo respeito por todos os credos, apesar de não professar nenhum. Minha fé é solitária e sou feliz assim. Sentir asco pelos que enganam pessoas incautas, como é prática atual no país, honestamente, é o mínimo que posso sentir. São de uma enorme canalhice as mesclagens de fé com política. No meu entender, abrem caminhos para crimes hediondos. Tão hediondos quanto o abandono de idosos, o trabalho escravo, a pedofilia, o preconceito racial e todos os atos que atingem de morte ou mancham a dignidade de seres humanos indefesos ou em minoria.
Aos meus leitores, peço: entendam assim!

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Obs.: Texto publicado originalmente em Lima Coelho.

sábado, 30 de julho de 2011

O HITLER DA NORUEGA

Profª. Inês Lacerda Araújo


Não há limite nítido nem um critério razoável para se avaliar as motivações que levaram Breivik à matança generalizada em Oslo e na ilha de Utoya.

Fanatismo fruto de uma ideologia de extrema direita, renascimento da direita nazi-fascista em uma Europa que rejeita imigrantes, em especial africanos e muçulmanos, diagnóstico de insanidade (monstro moral incapaz de empatia) - são alguns dos juízos de avaliação/dignóstico para tentar compreender, mas nunca justificar o ato brutal.

Como é possível que uma sociedade avançada e pacífica, democrática, em que o acesso à educação de qualidade é uma conquista de há muito tempo, tenha produzido esse filhote de Hitler?

Se fosse em país pobre, com baixo índice de desenvolvimento humano, social e econômico, provavelmente essas seriam as justificativas. Não é o caso da Noruega.

Foi por ideologia? Breivik escreveu livremente um compêndio de 1500 páginas, espécie de diário on line insuflando uma revolução da direita contra o marxismo, contra o islamismo, contra os imigrantes, contra os governantes do partido trabalhista, contra a democracia.

Ideologias são formações políticas baseadas em ideias e propostas às quais é preciso aderir e pelas quais é preciso lutar, de alguma maneira, e também propagar. Breivik seguiu todos os passos dessa cartilha. A ironia da situação é que diferentes ideologias podem e devem contrapor-se no cenário democrático. Quer dizer, se não houvesse uma esfera pública com liberdade e que assegura a representatividade, seriam todos prejudicados. Não se pode impedir o livre acesso aos meios para a mobilização política.

O autor dos massacres pode ser incluído no rol de cidadão com direitos? E quando cultivou e propagou uma ideologia predadora, e nenhuma voz se ouviu que o criticasse? Controle e censura, até que ponto são aceitáveis e/ou necessários?
Terrorista loiro em uniforme militar, sem véus ou turbantes...
Quanto ao renascimento do nazi-facismo na Europa e nos EUA por meio de partidos de direita extremista, sabe-se que Breivik foi filiado a um deles. Portanto, mais um vez, a própria sociedade democrática não tem meios legais de barrar a implantação e o crescimento desses partidos. Cabe informar o eleitor para que, pelo seu voto e opinião, exclua o extremismo, seja de direita ou de esquerda.

E que dizer das análises do advogado do sorridente Breivik? Em declaração para a imprensa, o advogado afirma que após horas de reflexão resolveu aceitar a defesa do criminoso que não demonstra nenhum arrependimento, e até mesmo não estava suficientemente satisfeito com o resultado. Queria mais, as mortes eram "necessárias". É difícil explicar esse tipo de comportamento, afirma o advogado, "ele se considera um combatente, e em guerra é isso mesmo que se faz, mata-se o inimigo". Ele acha que Breivik pode ser considerado louco, "mas ainda é cedo para saber"...

O inimigo no caso foram jovens escolhidos estrategicamente, ilhados e indefesos. A polícia fora mobilizada duas horas antes para atender a explosão no centro de Oslo, demorou para agir, tal o inusitado dos pedidos de socorro. Vestido com uniforme da polícia, o matador tinha farta e devastadora munição, seu objetivo era matar o máximo de jovens para ter a mesma fama de Hitler, disse ele.

Lição 1: fanáticos podem surgir em qualquer tipo de sociedade.

Lição 2: não há como prever seus ataques.

Lição 3: paradoxo da liberdade: se democracias barrarem a livre representação, deixam de ser democráticas. Se não punirem, vigiarem e aumentarem a segurança põem em risco a vida de inocentes, mas perdem enquanto sociedades abertas.

Lição 4: psiquiatrizar o criminoso, diagnosticá-lo como louco e incapaz de julgamento moral não deve servir como parâmetro para julgar, pois desse modo se anula a responsabilidade das "escolhas" cruéis do fanatismo que acabam neutralizadas pela psiquiatria forense.

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* INÊS LACERDA ARAÚJO - filósofa, escritora e doutora em Estudos Linguísticos. É professora aposentada da UFPR e PUCPR.