terça-feira, 9 de maio de 2017

EPIGRAMAS

Marco Valério Marcial (40 d.C-104 d.C.)



9

Homem belo e de valor
queres, Cota, parecer.
Mas um homem, sendo belo,
de valor não pode ser. p.231

16

Aqui lês dois versos bons,
três passáveis, mil ruins.
Não há outro modo, Avito:
um livro se faz assim. p.231

32

Não gosto de você, Sabídio, nem sei dizer por quê.
Só isto sei e digo: não gosto de você.p.233

33

Se Gélia está sozinha, ao pai não chora morto;
se está presente alguém, então, às ordens dela,
as lágrimas se vão saltando pelo rosto...
quem busca ser louvado, ó Gélia, esse não sofre
sofre em verdade quem sem testemunha sofre. p.233

38

Os versos que tu recitas
são, sim, Fidentino, meus:
mas como os recitas mal,
eles passam a ser teus. p.233

40

Você que franze os sobrolhos
e não me lê de bom grado,
que morra sempre de inveja
sem nunca ser invejado. p.235

64

Por certo, é bela e jovem, bem sabemos,
e rica. Quem negá-lo poderia?
Mas se demais tu te louvas, Fabula,
já não é rica, nem bela, nem jovem. p.235


Não mostras, Lélio, teus versos:
criticas, contudo os meus.
Ou para de criticar,
ou então publica os teus. p.237

segundo livro

7
Tu lindamente declamas e lindamente advogas;
histórias lindas tu fazes, Ático, lindos versos...
Mimos compões lindamente e lindamente, epigramas;
és um gramático lindo, um lindo astrólogo és.
Ó Ático, cantas lindo e lindamente tu danças;
na arte da lira és lindo, és lindo na arte da bola.
Embora não faças nunca nada bem, todavia
tu sempre todas as coisas fazes tão lindamente...
queres que eu diga o que és? Tu és um grande metido! p.237

58

Ris de minhas vestes velhas,
metido em toga novinha.
São, de fato, velhas vestes,
só que, Zoilo, elas são minhas. p.239

Sétimo livro

35

Sabes por que, Pontiliano,
não te mandos os livros meus?
É porque tu, Pontiliano,
poderás mandar-me os teus. p.245 


NOVAK, Maria da Glória; NERI, Maria Luiza (orgs.). Poesia lírica latina. São Paulo: Martins Fontes, 2003.

domingo, 7 de maio de 2017

AGORA EU QUERO CANTAR*

Mário de Andrade (1893-945) 


Agora eu quero cantar
Uma história muito triste
Que nunca ninguém cantou,
A triste história de Pedro,
Que acabou qual principiou.

Não houve acalanto. Apenas
Um guincho fraco no quarto
Alugado. O pai falou,
Enquanto a mãe se limpava:
– É Pedro. E Pedro ficou.
Ela tinha o que fazer,
Ele inda mais, e outro nome
Ali ninguém procurou,
Não pensaram em Alcebíades,
Floriscópio, Ciro, Adrasto,
Que-dê tempo pra inventar!
– É Pedro. E Pedro ficou.

Pedrinho engatinhou logo
Mas muito tarde falou;
Ninguém falava com ele,
Quando chorava era surra
E aprendeu a emudecer.
Falou tarde, brincou pouco,
Em breve a mãe ajudou.
Nesse trabalho insuspeito
Passou o dia, e nem bem
A noite escura chegou,
Como única resposta
Um sono bruto o prostrou.

Por trás do quarto alugado
Tinha uma serra muito alta
Que Pedro nunca notou,
Mas num dia desses, não
Se sabe porquê, Pedrinho
Para a serra se voltou:
– Havia de ter, decerto,
Uma vida bem mais linda
Por trás da serra, pensou.

Sineta que fere ouvido,
Vida nova anunciou;
Que medo ficar sozinho,
Sem pai, mesmo longínquo, sem
Mãe, mesmo ralhando, tanta
Piazada, ele sem ninguém…

Pedro foi para um cantinho,
Escondeu o olho e chorou.
Mas depois for divertido,
Aliás prazer misturado,
Feito de comparação.
O menino roupa-nova
Pegava tudo o que a mestra
Dizia, ele não pegou!
Porquê!… Mas depois de muito
Custo, a coisa melhorou.

Ele gostava era da
História Natural, os
Bichos, as plantas, os pássaros,
Tudo entrava fácil na
Cabecinha mal penteada,
Tudo Pedro decorou.
Havia de saber tudo!
Se dedicar! Descobrir!
Mas já estava bem grandinho
E o pai da escola o tirou.
Ah que dia desgraçado!
E quando a noite chegou,
Como única resposta
Um sono bruto o prostrou.

Por trás da escola de Pedro
Tinha uma serra bem alta
Que o menino nunca olhou;
Logo no dia seguinte
Quando a oficina parou,
Machucado, sujo, exausto,
Pedrinho a escola rondou.
E eis que de repente, não
Se sabe porque, Pedrinho
Para a serra se voltou:
– Havia de ter por certo
Outra vida bem mais linda
Por trás da serra! pensou.

Vida que foi de trabalho,
Vida que o dia espalhou,
Adeus bela natureza,
Adeus, bichos, adeus, flores,
Tudo o rapaz obrigado
Pela oficina, largou.
Perdeu alguns dentes e antes,
Pouco antes de fazer quinze
Anos, na boca da máquina
Um dedo Pedro deixou.
Mas depois de mês e pico
Ao trabalho ele voltou,
E quando em frente da máquina,
Pensam que teve ódio? Não!
Pedro sentiu alegria!
A máquina era ele! a máquina
Era o que a vida lhe dava!
E Pedro tudo perdoou.

Foi pensando, foi pensando,
E pensou, que mais pensou,
Teve uma ideia, veio outra,
Andou falando sozinho,
Não dormiu, fez experiência,
E um ano depois, num grito,
Louca alegria de amor,
A máquina aperfeiçoou.
O patrão veio amigável
E Pedro galardoou,
Pôs ele noutro trabalho,
Subiu um pouco o ordenado:
– Aperfeiçoe esta máquina,
Caro Pedro! e se afastou.

Era um cacareco de
Máquina! e lá, bem na frente,
Bela, puxa vida! Bela,
A primeira namorada
De Pedro, nas mãos dum outro,
Bela, mais bela que nunca,
Se mexendo trabalhou
O dia inteiro. Nem bem
A noite negra chegou,
O rapaz desiludido
Um sono bruto prostrou.

Por trás da fábrica havia
Uma serra bem mais baixa
Que Pedro nunca enxergou,
Porém no dia seguinte
Chegando pra trabalhar,
Não se sabe porque, Pedro
Para a serra se voltou:
– Havia de ter, decerto,
Uma vida bem mais linda
Por trás da serra, pensou.

Ôh, segunda namorada,
Flor de abril! cabelo crespo,
Mão de princesa, corpinho
De vaca nova… Era vaca.
Aquele riso que faz
Que ri, nunca me enganou…
Caiu nos braços de quem?
Caiu nos braços de todos,
Caiu na vida e acabou.

Com a terceira namorada,
Na primeira roupa preta,
Pedro de preto casou.
E logo vieram os filhos,
Vieram doenças… Veio a vida
Que tudo, tudo aplainou.
Nada de horrível, não pensem,
Nenhuma desgraça ilustre
Nem dores maravilhosas,
Dessas que orgulham a gente,
Fazendo cegos vaidosos,
Tísicos excepcionais,
Ou formando Aleijadinhos,
Beethovens e heróis assim:
Pedro apenas trabalhou.
Ganhou mais, foi subindinho,
Um pão de terra comprou.
Um pão apenas, três quartos
E cozinha, num subúrbio
Que tudo dificultou.
Menos tempo, mais despesa,
Terra fraca, alguma pera,
Emprego lá na cidade,
Escola pra filho, ofício
Pra filho, um num choque de
Trem, inválido ficou.

– Sono! único bem da vida!…

Foi essa frase sem força,
Sem História Natural,
Sem máquina, sem patente
De invenção, que por derradeiro
Pedro na vida inventou.
E quando remoendo a frase,
A noite preta chegou,
Pedro, Pedrinho, José,
Francisco, e nunca Alcebíades,
Um sono bruto anulou.

Por trás da morada nova
Não tinha serra nenhuma,
Nem morro tinha, era um plano
Devastado e sem valor,
Mas um dia desses, sempre
Igual ao que ontem passou,
Pedro, João, Manduca, não
Se sabe porque, Antônio,
Para o plano se voltou:
– Talvez houvesse, quem sabe,
Uma vida bem mais calma
Além do plano, pensou.

Havia, Pedro, era a morte,
Era a noite mais escura,
Era o grande sono imenso;
Havia, desgraçado, havia
Sim, burro, idiota, besta,
Havia sim, animal,
Bicho, escravo sem história,
Só da História Natural!…

Por trás do túmulo dele
Tinha outro túmulo… Igual.


ANDRADE, Mário de. Poesias Completas. Edição crítica de Diléa Zanotto Manfio. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: EDUSP, 1987. p.372-377
* O poema não tem título: “Agora eu quero cantar” é o primeiro verso do poema, publicado originalmente em “Lira Paulistana” (1945).

sábado, 6 de maio de 2017

O QUE É PENSAMENTO PÓS-METAFÍSICO?

Inês Lacerda Araújo
Filosofia de todo dia

Em posts anteriores mostramos o que é metafísica em contraste com a pós-metafísica, de acordo com o pensamento de Habermas.

Para este o momento atual da filosofia se caracteriza pelo pensamento pós-metafísico, mesmo que ainda seja uma época ainda moderna, e não pós-moderna.

Como se explica esse paradoxo?

Vamos por partes. A metafísica clássica, cujos representantes principais são Platão e Aristóteles, vê o todo como causado pelas ideias, Platão, e pelo motor primeiro, Aristóteles. As ideias são o modelo para todos os entes, tudo o que existe são cópias dos conceitos ideais e divinos. Já as causas para Aristóteles produzem os entes mesmos, em sua individualidade e especificidade.

Com a filosofia cristã, Deus é a causa absoluta de todos os entes, criados do nada. Interessante que os gregos entendem que o nada, nada pode produzir. Ao passo que o conceito de nada é fundador para filosofia cristã.

Note-se os termos e conceitos essenciais ao pensamento metafísico: causalidade, totalidade, unidade, essência, absoluto, nada e o conceito de ser ligado ao de pensamento abstrato. Dada a multiplicidade dos entes no mundo, para poder pensá-los há que abstrair, deduzir a unidade a partir da heterogeneidade.

Descartes, Spinoza, Leibniz e Kant representam a metafísica nos séculos 17 e 18, e Kant, mesmo criticando a metafísica baseada no ser em si mesmo, quer dizer, independente de pensá-lo por meio de conceitos, recupera conceitos metafísicos, o de Deus e de alma imortal como pilares da razão prática.

As exceções na história da filosofia até chegar ao pensamento de tipo pós-metafísico são os nominalistas (sem nomear, sem conceituar seria impossível conhecer as coisas), os materialistas e o empirismo (a experiência e não os conceitos abstratos são a base para atingir a realidade). Impera a noção de uno, de identidade e de que a teoria é necessária para chegar à verdade.

O pensamento pós-metafísico em contrapartida dispensa a busca de uma origem primeira de todas as coisas, nega que haja necessidade de um fundamento ou essência permanente a sustentar todos os seres, afirma que não há teoria sem prévia experimentação, como demonstram as ciências.

O primeiro passo para a pós-metafísica foi a substituição do modelo filosófico baseado no eu, no sujeito, em sua consciência, para o modelo baseado na linguagem. Somos sujeitos sim, mas devido a nossa capacidade de articular signos, de abstrair por meio da linguagem, de formalizar, de compreender devido à capacidade de formular frases significativas, atos de fala para afirmar, deduzir, mostrar, negar. Em suma, conceitos absolutos se tornam significados comunicáveis.

Habermas contesta a pretensão de Heidegger de ainda dar sentido à metafísica. Em Que é Metafísica? (1929), Heidegger parte da questão mais abrangente da metafísica, a questão da totalidade dos entes, para a questão do nada, do que absolutamente não são os entes. Há necessidade de postular o nada inclusive porque aquele que questiona se vê às voltas com o nada ao se angustiar, a totalidade dos entes parece escapar em momentos de nossa existência aí no mundo. 

Para Habermas, que é um anti-Nietzsche, esses abismos de ser e nada são pura abstração. De uma perspectiva pragmática, afirma Habermas, nós agimos, e, principalmente agimos pela linguagem. Nos comprometemos em atos comunicativos ou usamos a linguagem para o disfarce, para a subjugação (em atos estratégicos). A vida prática vale mais que a vida teórica.

A ERA DA TÉCNICA E O MINIMALISMO

Inês Lacerda Araújo 
Filosofia de todo dia

Chamamos nossa era de técnica. A palavra se refere a todo tipo de atividade pela qual se produz algo, portanto, desde tempos remotos há produção técnica. No grego, “techné” significa trabalho dos artesãos, inferior à sabedoria, à contemplação das ideias, e mesmo subordinada à missão dos guerreiros.

A era moderna consagrou o trabalho com máquinas, aperfeiçoou as técnicas, principalmente em função da indústria armamentista, e chegou ao que se tem hoje: o completo domínio dos aparelhos de alta tecnologia e de alta performance, como este computador em que escrevo. Acelerou a comunicação e revolucionou os meios de informação.

A pergunta é: esse domínio técnico significa submissão total do homem aos instrumentos e artefatos que ele mesmo criou?

Houve uma completa transformação do ser humano moderno, no modo como produz, transporta, se comunica, na automatização da indústria por meio da robotização, na exploração da natureza, no extenso e poderoso maquinário para cultivo em larga escala.

Dispomos da natureza, fazemos a natureza produzir em nosso favor, para nossa sobrevivência. A civilização técnica não tem volta atrás, e o problema é que dificilmente sucumbiremos ao lixo que resulta desse mesmo progresso e consumo extremos.

Há sempre compensações devidas à autorregulação, os dispositivos técnicos inventados por nós, acabam por nos superar, se tornam quase que impossíveis de controlar.

E como reagimos a isso tudo?

Procuramos despertar em nosso entorno o que vem de graça, tudo aquilo que podemos contemplar, usufruir, sem precisar de controle algum. Resta-nos certa autonomia, quer dizer, conduzirmos a nós mesmos como que levados por uma corrente libertadora. São espaços destinados à arte, à amizade, à contemplação, à meditação, ao prazer de simplesmente viver.

Claro que para isso são necessárias condições, como tempo de lazer, educação da sensibilidade, condição financeira suficiente para o mínimo de bem estar. Condições estas inexistentes em países em guerra, extrema pobreza, em luta pela sobrevivência, sem acesso à educação e a uma vida segura e saudável.

Ora, esses requisitos que nos abrem para viver de forma mais consciente, usufruir o que os meios tecnológicos proporcionam sem escravizar-se a eles, sem precisar abandonar a civilização, acabam por precisar da própria tecnologia.

Educar, criar, contemplar, desprender-se de excessos, evitar o consumismo, menos lixo, mais leveza de espírito, são hábitos de vida divulgados e muitos deles possibilitados pelos meios eletrônicos. 

A saída: saber usar vale mais do que acumular. A arte de viver com o essencial, o minimalismo.

sexta-feira, 5 de maio de 2017

LUNDU DO ESCRITOR DIFÍCIL

Mário de Andrade (1893-1945) 


Eu sou um escritor difícil
Que a muita gente enquisila,
Porém essa culpa é fácil
De se acabar duma vez:
É só tirar a cortina
Que entra luz nesta escurez.

Cortina de brim caipora,
Com teia caranguejeira
E enfeite ruim de caipira,
Fale fala brasileira
Que você enxerga bonito
Tanta luz nesta capoeira
Tal-e-qual numa gupiara.

Misturo tudo num saco,
Mas gaúcho maranhense
Que para no Mato Grosso,
Bate este angu de caroço
Ver sopa de caruru;
A vida é mesmo um buraco,
Bobo é quem não é tatu!

Eu sou um escritor difícil,
Porém culpa de quem é!...
Todo difícil é fácil,
Abasta a gente saber.
Bajé, pixé, chué, ôh “xavié”,
De tão fácil virou fóssil,
O difícil é aprender!

Virtude de urubutinga
De enxergar tudo de longe!
Não carece vestir tanga
Pra penetrar meu cassange!
Você sabe o francês “singe”
Mas não sabe o que é guariba?
– Pois é macaco, seu mano,
Que só sabe o que é da estranja.


ANDRADE, Mário de. Poesias Completas. Edição crítica de Diléa Zanotto Manfio. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: EDUSP, 1987. p.306-307