terça-feira, 23 de novembro de 2010

AS “CASAS DE FARINHA” DE TARAUACÁ

Para o resgate da memória do povo tarauacaense, transcrevo um dos trechos do livro “Rios e Barrancos do Acre” do médico acreano Mário Maia, editado em 1968, em Niterói (RJ). É uma transcrição acerca das casas de farinha de Tarauacá, barracões rústicos (feitos de madeiras sem beneficiamento “industrial” e cobertos de palhas), construídos em épocas de eleições para congregar e alegrar o eleitorado, cujos resquícios ainda presenciei nos anos 90.

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A casa de farinha [...] não era uma casa de farinha propriamente dita, isto é, o local onde se procede o fabrico de farinha de mandioca com caititu, roda bolandeira, prensa, forno, tacho de torrar, cocho para separar a goma do tucupi e demais apetrechos dessa faina de pequena e artesanal indústria de herança nativa, de transformação da macaxeira. A “casa de farinha” era um grande galpão cujas tesouras, linhas, caibros, longarinas e pernas-mancas, eram feitas de madeira roliça, sem descascar e coberto com palha de ouricuri. O assoalho era de tábuas grosseiras, sem aplainar, postas, ajustadas e pregadas lado a lado. Esse grande barracão assim descrito, construía-se periodicamente em Tarauacá, mais ou menos no mesmo lugar, nas épocas de eleições, daqueles tempos em que havia comícios e quando se ia falar, não se fazia boca-de-siri. Era edificada na beira do rio, bem em frente de onde o Muru conflui com o Tarauacá. Aliás, essa denominação de Casa de Farinha, foi oferecida pelos adversários que assim a denominavam, pejorativamente, a fim de causar raiva aos opositores, querendo significar que o local de suas festas políticas, pela aparência tosca da construção, assemelhava-se mais ao galpão da bolandeira e do caititu.

Aconteceu que os partidários do PTB que construíam o barracão, ao invés de se apoquentarem, glosaram o chiste, transformando-o em sigla de propaganda político-partidária, popularíssima, invertendo, desse modo, a provocação dos pessedistas.

Os trabalhistas de Tarauacá falavam com euforia e até com uma certa vaidade: – “Pois é; é nossa Casa de Farinha mesmo. Lá nós ralamos no caititu a macaxeira para fazer farinha, beiju e tapioca”. As palavras aqui vão além do seu simples significado: é uma alegoria para mangar do chefe principal do PSD no Acre que também era conhecido como deputado “macaxeira” devido a uma comparação pouco feliz que o mesmo, em uma das campanhas políticas, em um certo comício, fez com as raízes amidógenas dessa euforbiácea com os hábitos alimentares primitivos dos acreanos.

Assim, o povo do “peteba” queria dizer que ia triturar o político, na casa de farinha, transformando-o em farinha, goma e tucupi. Dessa forma, com o passar do tempo, Casa de Farinha no município de Tarauacá, na linguagem política local, deixou de ser um simples galpão improvisado, para o povo humilde se divertir, nas épocas de campanhas políticas. Casa de Farinha tornou-se uma instituição de forte significado político, com características próprias e interessantes. Dessa concepção farinosa, institucionalizada pelos habitantes dos vales daqueles rios, principalmente nos períodos de propaganda para os pleitos eleitorais, costumam criar-se várias expressões populares derivadas desse fato, no sentido figurativo de exaltação do Partido, em suas manifestações folclóricas, tais como: “vamos fazer farinha”, “vamos à farinhada”, “vamos torrar beiju” ou “fazer tapioca”, expressões que no período da campanha política, equivalem a: “vamos mandar brasa”; vamos pular, gritar, dançar e dar “vivas” aos nossos candidatos, “vivas” ao nosso partido e “morras” aos adversários. Casa de Farinha, portanto, em Tarauacá, significa povo humilde, simples, de mãos calosas; gente afeita ao trabalho da agricultura, do seringal, dos roçados, das praias, dos rios e dos barrancos do Muru e do Tarauacá.

Outro nome que venha a ter a agremiação representativa dessa gente e desses valores, vericar-se-á sem esforço que a expressão “Casa de Farinha” vai ficando, sedimentando-se, enraizando-se e enriquecendo de significado, já agora não mais simbolizando um galpão de palha, porém, sim, um estado de espírito social, político-partidário, cada vez mais consistentes em seu fim, influindo significativamente na sociedade local. De fato, extinguiram-se partidos, criaram-se novas siglas, mas a alma alegre das farinhadas não se extinguiu. Ela continuou e continua transformando a macaxeira em farinha, beijus e tapiocas. E não é mais só em Tarauacá. Todo o Acre está na farinhada, aderiu a farinhada e quanto mais macaxeira houver, mais caititus aparecerão para ralá-la. Assim, a expressão “Casa de Farinha” permanece viva, mesmo quando aquele galpão de madeira roliça e palha de ouricuri vai se acabando até se construir outro no mesmo lugar.

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MAIA, Mário. Rios e Barrancos do Acre. Niterói: Gráfica do Senado, 1978. (p. 121-123)

P.S. se alguém tiver uma foto de alguma casa de farinha me envie por favor, para ilustrar melhor este post.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

A TAREFA POLÍTICA E CULTURAL DA FILOSOFIA

Profª. Inês Lacerda Araújo


A produção intelectual faz parte das atividades humanas culturais, não é uma tarefa exclusiva das classes superiores, esclarecidas, nem da alma platônica sujeita à contemplação pura das ideias. Dewey (1859-1952), filósofo do pragmatismo norte-americano (ver o que é pragmatismo neste blog), mostrou que a filosofia não deve ser restrita às puras Formas, ao Ser, às Ideias como entidades em si mesmas, sublimes, alcançáveis apenas por uns poucos iluminados. Se fosse assim, a filosofia seria missão de experts, com uma linguagem hermética, inacessível como bem cultural, não poderia sequer ser transmitida nas escolas, nos ambientes culturais abertos para um público mais amplo.
 
O uso do vocabulário especializado tem seu lugar, mas muitas vezes ele é o refúgio da pseudofilosofia. A erudição e a superespecialização são desculpas de intelectuais afetados e comprometidos com certa ideologia, que impede a reflexão, admite apenas a inculcação de noções prontas, que não passam pela discussão pública e livre de ideias e propostas para a sociedade.

Para a filosofia dogmática (ver domagtismo neste blog), os conceitos se fixam como se fossem universais, devendo ser aceitos sem pensar, automaticamente, como palavras de ordem.

Ora, para Dewey, nem há o absolutamente ideal, o Ser em si, a Realidade Última, a Verdade Absoluta, nem o real como algo inerte, acabado que pode ser conhecido e percebido sem erro, sem dúvidas.

"A filosofia, diz ele, não pode resolver o problema da relação do ideal e do real. Este é um problema mesmo da vida. Mas a filosofia pode ao menos aliviar a carga da humanidade em lidar com o problema, emancipando a humanidade dos erros que a própria filosofia fomentou. Ela pode facilitar os passos certos que a humanidade pode tomar na ação, tornado claro que uma inteligência solidária e integral trazida para dentro da observação e da compreensão de eventos e forças sociais concretas, pode formar ideais que seriam suas propostas, as quais não devem ser nem ilusões e nem meras compensações emocionais".

O Pensador
O momento político atual deveria ser usado para isso, semear ideais que podem ser realizados, melhorar as relações sociais, e não usar o poder que foi concedido legitimamente ao Presidente da República para impor um projeto pessoal de permanência no mando de toda uma nação, fazendo pouco das instituições.
 
O Semeador
O "Pensador" de Rodin é solitário e ensimesmado, como ilustrado acima.

Neste momento, não é a melhor representação da filosofia. Talvez "O Semeador", de Zaco Paraná seja uma imagem mais forte e mais ativa. (Praça Eufrásio Correia - Curitiba)

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INÊS LACERDA ARAÚJO - doutora em Estudos Linguísticos, filósofa e escritora.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

A REALIDADE "EXISTE"?

Profª. Inês Lacerda Araújo


A pergunta acima pode parecer descabida. É claro que o real existe, as pessoas dirão.

Mas em filosofia, na área da teoria do conhecimento, a questão é pertinente. Para conhecer algo, é preciso um sujeito com certo grau de aprendizado e desenvolvimento de suas capacidades psíquicas, com um mínimo de recursos para se comunicar e para enfrentar situações às quais precisa responder. Será que conhecemos o real tal como ele é, ou tal como essas capacidades nos fazem pensar que ele é?

Se todos os homens subitamente morressem, o real permaneceria o mesmo? Aquela árvore naquela ilha do Pacífico permaneceria tal e qual?

Os filósofos assumem posições diferentes quando tentam compreender o conhecimento. A realidade é permanente, identificável e é possível se certificar disso afirmam os realistas. Pedra é pedra, árvore é árvore. Basta abrir os olhos e ver, constatar. Para eles, o mundo seria o mesmo sem a presença do homem.

Para os empiristas, são nossos sentidos e a nossa percepção que fazem a experiência e verificam os objetos e suas características.

Mas não é assim tão simples, argumentam os idealistas, se o sujeito não dispuser de um aparato para ir da imagem que ele vê, para a identificação do que há fora dele, não há conhecimento. Para os idealistas, o real depende do sujeito, mortos os homens, morre também nosso modo de conhecer o mundo. Se há ou não tal ilha com tal árvore, é uma pergunta que cai no vazio.

Para os céticos, ainda que batam sua cabeça na árvore e sintam dor, isso não elimina duvidar de tudo, nossas impressões são fugidias, tudo muda, nós inclusive, o tempo todo.

Como se vê, a pergunta filosófica feita no título acima não é tão estapafúrdia.

Cabe ainda refletir sobre o conceito de "existir", de "existência". Você diria que uma pedra é tal e tal, ou que uma pedra existe? Pedras não existem, apenas seres vivos, como cães e homens, têm uma existência. Logo, a realidade não existe!?

A argúcia filosófica nos conduziu a um beco sem saída?

Não para Wittgenstein (cf. Investigações Filosóficas - 1953).

Para ele há diferentes usos de expressões e de jogos de linguagem em situações de fala. Alguém quer dizer algo para outro e este, em geral, o compreende. Exemplos:

"Essa realidade, à qual você se apega, não existe". Esse jogo de linguagem pode ser dito para persuadir alguém a mudar seu ponto de vista.

Outro jogo de linguagem bem comum: "na realidade, acho que fulano não presta". Aqui o termo recebe outro significado, o de uma convicção.

Em outras palavras, a linguagem cotidiana, as circunstâncias vividas em nossa existência diária é que decidem quanto ao significado que se dá a "real", "realidade", "existência".

Wittgenstein deflaciona os conceitos filosóficos, faz terapia filosófica.

Duas pessoas discutem:

"Isso é uma árvore" diz um. "Não sei, diz o outro, tenho apenas impressões de algo duro, rugoso, marrom, etc.". Wittgenstein replicaria: "São dois filósofos discutindo"...


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* INÊS LACERDA ARAÚJO, filósofa e escritora.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

SIMONE BICHARA, O BELO E A EXISTÊNCIA

Isaac Melo


Alles Leben Leiden ist – toda vida é sofrimento – afirmava o filósofo alemão Schopenhauer, pensamento relevante para a composição de sua filosofia do belo. Mas, para o filósofo, há um momento privilegiado, iluminado e redentor, em que consideramos a essência das coisas, deixando de lado o sofrer. É o momento da contemplação estética da Idéia, do belo. Se a Vontade se afirma na natureza por motivações fenomênicas e ilusórias, eis subitamente a possibilidade de instalação, na consciência, de uma outra visão, outra perspectiva, isto é, de vivenciarmos outro estado diferente do cotidiano. O belo pode apresentar-se a qualquer instante, basta haver ocasião favorável, pois o que possibilita o estado estético é uma “ocasião externa” ou uma “disposição interna”. Quando menos esperamos, somos surpreendidos e eis a beleza!

As palavras anteriores organizei-as, a partir de um livro de um dos maiores conhecedores do pensamento schopenhaueriano, Jair Barboza, a quem tive a o privilégio de ser aluno. Palavras recolhidas para falar de uma acreana, artista plástica, criadora de belezas.

Simone Bichara surpreende com sua arte. Em suas pinturas e mosaicos somos acometidos por aquele torpor que toda verdadeira arte deve provocar naqueles que a contemplam: o deslumbramento, o transcender. A arte como exploradora da existência humana, ajuda-a também a desvelá-la. Para Schopenhauer, temos a beleza quando nos libertamos, por instantes, do estado existencial doloroso, e assim nos perdemos por inteiro na luminosidade da beleza. Difícil pensar diferente quando se observa as mandalas da artista riobranquense.

Nas mandalas encontram-se nacos da alma de Simone Bichara. Mandala (da palavra sânscrita मण्डल) dentre o seu universo simbólico pode ser compreendida como a representação geométrica da dinâmica relação entre o homem e o cosmo. Dito com as palavras da artista acreana: “as mandalas servem como um mapa da realidade interior que orienta e sustenta o desenvolvimento psicológico daqueles que desejam progredir na consciência espiritual. É um poderoso instrumento visual que provoca visões, concentração e meditação. São formas, portanto, que representam unidade, organização e harmonia”.

Conhecedora de sua arte não se satisfez apenas com a bagagem intelectual que adquiriu, História (UNB) e Holismo (Fundação Cidade da Paz/Bsb). Foi aos recônditos da alma acreana, à floresta, à convivência com indígenas, seringueiros e ribeirinhos, descobrindo dentro da floresta as cores e as formas mágicas e curadoras que emanam das matas. Fato que, se não agregou mais valor ao seu trabalho, com certeza, mais autencidade.

De Simone e sua arte não falo como entendedor, me falta competência para tal, mas antes como admirador intrépido de nossas belezas, sejam elas artísticas, culturais, naturais ou humanas, desde que nos ajudem a sair da caverna escura da ignorância de nossa própria existência.

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Minhas mandalas são janelas e portas para o meu interior
São os jardins que plantei
As flores que consegui colher
São os amores que não vivi
E os poucos que tive.
São meus momentos de solidão
A dor expressada em cores e formas,
Meu meio de sobreviver
É meu amor pelo mundo
Minha devoção a Deus
E a tudo que é sagrado,
Minhas mandalas, bênçãos da minha floresta,
Trazem a cura para minha alma viajante, buscadora.
Ilusões, sonhos e esperanças,
Minha criança alegre, minha velha sábia,
Mandalas amigas, confidentes, terapeutas e guardiães
Sabem tudo de mim, de mim, dizem tudo!
Meus segredos, meu passado, presente e futuro.
Falam da minha fé, do meu amor, do meu ser entregue à Maria
Masculino e feminino em mim,
Minhas galáxias internas, meus buracos mais profundos, sucessos e fracassos.
Presentes divinos, saudades, prazer!
Meu self,
Meu nada

Simone Bichara

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* Conheça melhor o trabalho da artista plástica acreana Simone Bichara em seu blog MANDALAS DA FLORESTA, onde estão informações mais detelhadas acerca de sua arte, biografia, exposições, crítica, etc.

** Poesia e imagens foram retiradas de MANDALAS DA FLORESTA.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

E AS CHUVAS CHEGARAM...

por Florentina Esteves - 14 de nov. 2010


Nuvens baixas tangidas pelo vento formam bizarras paisagens. No ar, uma tensão que os passarinhos traduzem em insistente chilrear. Como um casaco apertado, o calor sufoca, derrama-se em suor. As pessoas olham o céu, esperançosas: vai chover?

Assim aqui em nossos trópicos, ontem ou hoje. Só que hoje mais exasperado. A natureza não perdoa. O que lhe tiraram de mata, ela revida em descomedimento, desregramento, imprevisibilidade.

Não faz assim tanto tempo, os bairros Bosque e Floresta tinham, de fato, as características que lhe deram a denominação. Os bairros, amenos, arborizados, ofereciam sombra ao longo de suas ruas. Em cada quintal encontrávamos copadas mangueiras, o cajueiro, graviola, cupuaçu, laranja, para todo paladar e sombra. Mas Rio Branco crescia, os prédios de apartamentos disputam com o aprazível dos quintais o espaço da moradia, o asfalto compete com a rua de terra batida, o verde é empurrado para mais longe, mas distante, restando ao citadino o calor abrasador das urbes, ao sol inclemente de nosso clima. E onde as chuvas representam dádivas dos céus: abrandam o calor, varrem a poeira, regam as plantas: da horta ou do jardim, e ainda oferece à paisagem sempre monotonamente radiosa, o langor, um espaço para sonhar, para lembrar. Lembrar de quando as chuvas, anos atrás, eram esperadas como manancial de vida, ao dar água ao rio, que permitiria a navegação de maior calado. Com ela chegavam às embarcações que traziam provimento da mesa, o vestuário, remédios, e o supérfluo, tudo o que não era produzido na região e fazia o deleite de nossa gente. Sem falar nos filmes que seriam exibidos (a exausto) no cinema; os discos, livros, revistas – a cultura.

Começavam a chegar, com as chuvas, chatões, chatinhas, gaiolas, lanchas de maior calado. Anunciavam sua chegada com alegres apitos, logo avistavam a cidade. E eram recebidos festivamente, especialmente se traziam passageiros ilustres; o barranco se enchia de gente, e não faltasse a Banda da Polícia Militar, entoando vibrantes dobrados. A cidade ganhava ares de festa. Porto enfeitado, de dia o vai-e-vem do desembarque dos produtos trazidos, ou do embarque de castanha, borracha, couros e peles. À noite, iluminadas, as embarcações figuravam um presépio, a porfiar com o céu recamado de brilhantes estrelas, quem Luzia mais, quem instigava mais a imaginação dos que, em terra, sonhavam com a evasão, a aventura dos grandes centros. Belém e Manaus ganhavam a preferência da maioria. Mais próximos menos dias de viagem, oferecendo oportunidade de estudo, tratamento de saúde, ou lazer, era a grande Meca dos que por aqui viviam – e sonhavam.

Nosso intercâmbio comercial também se fazia com essas duas praças. Para lá mandávamos nossos produtos regionais. De lá recebíamos praticamente tudo. Sem estradas, São Paulo, Goiânia, Rio de Janeiro e os demais estados fora da região norte não eram acessíveis, a não ser por avião (isso muitos anos depois), com frete muito caro, que os inviabilizavam para o comércio. Desta forma, dependíamos da água do rio, e nossa economia girava em torno dos caprichos da natureza, em razão das águas que alimentavam o rio... E nosso espírito e nossa alma. As chuvas comandavam a vida.

Entre novembro e abril – quem sabe, maio – era o chegar e partir pelo rio. Depois, o resto do ano era o resto. Tempo de espera. Tempo de malhar Judas, da Festa das Flores, folguedos dos santos juninos, dos festejos do Seis de Agosto, Sete de Setembro, Quinze de Novembro, e eis que chegam novamente as águas; tempo de viver e de sonhar. Porque as chuvas chegaram..



* FLORENTINA ESTEVES é escritora acreana, autora, entre outros, de O Empate. Ocupa a cadeira 04 da Academia Acreana de Letras.

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** Crônica originalmente publicada no blog da artista plástica acreana Simome Bichara, em MANDALAS DA FLORESTA. Visite-o!

domingo, 14 de novembro de 2010

CARO JOHN - A nova cara do rock acreano

“Quero ser um grito de liberdade que brota das bocas amordaçadas pelos grilhões acorrentados da alma vazia. Grito vazio dos que já nem tem força para sussurrar. Quero ser o grito emanado dos corpos em fúria, o grito de todos os gritos propagados das gargantas enrouquecidas pela vontade irrefreada de gritar, pois só é justo cantar, se meu canto pude levar, o grito dos que não tem voz!”
                                                                                      Caro John



Fazer música na Amazônia ainda é um desafio! Mas quando surgem bandas como Caro John ficamos certos de que o talento é superior a qualquer dificuldade!

Caro John é uma das novas caras do rock alternativo no Acre. A banda é tarauacaense, terra que tem dado bons artistas ao Acre, e é integrada por Rogério Craveiro (guitarra e voz), Wellington Shula (baixo) e Giovanni Accioly (bateria e voz), músicos já conhecidos na história da música tarauacaense.

Apesar de pouco tempo de caminhada enquanto banda, já gozam de grande prestígio no cenário musical acreano, com repertório próprio e inteligente. Demonstram que fazer rock não é fazer barulho, mas dedicação, estudo e talento! Prova disso é o primeiro álbum da banda que sairá brevemente!

E reforçamos as palavras de agradecimento de outro acreano talentoso, Marcos Afonso, por termos essa banda, pois "CARO JOHN faz um som sério e necessário, com alegre rebeldia. Diretamente do 'rio das tronqueiras'".

Caro John tão jovem, e já tão prestigiada, porém a melhor parte de sua história ainda estar por vir... Para quem aprende a voar, o limite é o infinito!

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Mais sobre CARO JOHN em:
My Space Caro John

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

XILOGRAVURAS NORDESTINAS

Tenho grande admiração pela arte de xilogravuras, essa técnica de gravação em relevo que utiliza a madeira como matriz e assim possibilita a reprodução da imagem gravada sobre o papel. A xilogravura é um processo milenar que já era conhecida por egípcios, indianos e persas. No Brasil, tem início quando a Família Real Portuguesa transfere-se para o Rio de Janeiro. Mas foi, sobretudo, no nordeste brasileiro que a xilogravura mais se desenvolveu e alcançou sua excelência, de modo especial pela sua ligação com a Literatura de Cordel. Nomes como Abraão Batista, José Costa Leite, J. Borges, Amaro Francisco, José Lourenço e Gilvan Samico estão entre os mais importantes xilógrafos populares do Brasil.
Reforma Agrária - Abraão Batista
Retirante (1986) - José Lourenço Gonzaga
José Costa Leite

Os jogadores de baralho - J.Borges 

Chegada a Juazeiro  (1990) - José Lourenço
História de Mariquinha e José de Souza Leão - Antônio Batista Silva
Lampião e Maria Bonita - José Costa Leite


Casamento Matuto - S. Borges
Via Sacra - Mestre Noza
Os retirantes - J.Borges
O sol quente e o mandacaru - J. Miguel

A chave do ouro do reino do vai-não-volta (1969) - Gilvan Samico

Quinteto Armorial - Gilvan Samico

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

A ARTE DO ROMANCE

Isaac Melo


Milan Kundera
O autor do instigante A Insustentável Leveza do Ser (1983) tem um pequeno opúsculo intitulado A Arte do Romance (1986). Nesse ensaio, o tcheco Milan Kundera desenvolve noções de grande valia para a compreensão do romance, apresentando-o como fruto da Modernidade, de nascimento europeu. Discorre ainda sobre os romancistas que o levaram a sua máxima expressão, os que o depreciaram e a discussão da possibilidade de seu fim.

René Descartes inaugura o pensamento moderno em que, ao partir do ceticismo intelectual, apontava para a possibilidade de a razão fazer progressos em direção à Verdade una e objetiva. Como caminho alternativo ao pensamento cartesiano Kundera aponta o romance, pois o romance, desde Miguel de Cervantes, teria reconhecido a impossiblidade de encontrar-se um ponto arquimediano, um ponto para além de todas as perspectivas, capaz de nos garantir o contato com alguma realidade essencial sobre o que quer que seja. Não há mais uma verdade redontora.

Kundera narra que quando Deus deixava lentamente o lugar de onde tinha dirigido o universo e sua ordem de valores, separado o bem do mal e dado um sentido a cada coisa, Dom Quixote saiu de sua casa e não teve mais condições de reconhecer o mundo. Este, na ausência do Juiz Supremo, surgiu subitamente numa terrível ambiguidade; a única Verdade divina se decompôs em centenas de verdades relativas que os homens dividiram entre si. Assim, o mundo dos Tempos Modernos nasceu e, com ele, o romance, sua imagem e modelo.

Nesse sentido, o romance parece surgir do fato de que não há mais lugar ou garantia para qualquer sabedoria. Isso faz com que Kundera se volte para o herói de Cervantes, Dom Quixote, pois este, como ressalta Walter Benjamim, mostra como a grandeza de alma, a coragem e a generosidade de um dos mais nobres heróis da literatura são totalmente refratárias ao conselho e não contêm a menor centelha de sabedoria. A sabedoria do romance é a sabedoria da incerteza. Para Kundera, compreender com Cervantes o mundo de ambiguidade, ter que afrontar, ao invés de uma só verdade absoluta, um monte de verdades relativas que se contradizem (no caso, verdades incorporadas em egos imaginários chamados personagens), possuir portanto como única certeza a sabedoria da incerteza exige uma força não menos grande.

No romance, segundo Kundera, o autor não ocuparia o lugar do Juiz Supremo. O leitor seria convidado a aceitar o difícil convívio com este concerto múltiplo de possibilidades presentes no romance, pois qualquer tentativa de se enquadrar definitivamente a identidade de uma personagem ou de procurar dizer o que realmente ali se está a passar equivaleria a sucumbir ao impulso contrário para o qual o próprio romance trabalha. O espírito do romance é o espírito de complexidade. Cada romance diz ao leitor: “as coisas são mais complicadas do que você pensa”. E antes que a filosofia viesse a se ocupar de alguns temas, o romance já os discutia bem antes, pois para Kundera o romance conhece o inconsciente antes de Freud, a luta de classes antes de Marx, e pratica a Fenomenologia (a busca da essência das situações humanas) antes dos fenomenólogos.

O romance não pode reduzir-se apenas a um divertimento literário, sua função também é possibilitar o desvelamamento de nosso ser. Destarte, Kundera afirma que o romance que não descobre uma porção até então desconhecida da existência é imoral. Porém, ressalta que a única moral do romance é o conhecimento. Por isso, os romances que não estendem a conquista do ser, a nada se prestam, pois não descobrem nenhuma parcela nova da existência, apenas confirmam o que já se disse; e mais: na confirmação do que se diz (do que é preciso dizer) consistem sua razão de ser, sua glória, a utilidade na sociedade que é sua. Exemplos relevantes, nesse sentido, são os livros de autoajuda; a literatura comercial, feita sob encomenda, cuja única finalidade é vender; os Paulos Coelhos da vida... uma vez que, seguindo o raciocínio de Kundera, não participariam da história do romance, pois não descobrem nada, não participam mais da sucessão de descobertas. Para o tcheco, os romancistas que são mais inteligentes que suas obras deveriam mudar de profissão. E ressalta que o romancista não é nem historiador nem profeta, mas um explorador de existência, e o romance, o lugar onde a imaginação pode explodir com um sonho.

O romance está em crise, reconhece Kundera, pois incluido neste sistema, ele não é mais obra (coisa destinada a durar, a unir o passado ao futuro) mas acontecimento da atualidade como outros acontecimentos, um gesto sem amanhã. Todavia, se o romance tem que desaparecer realmente, não é pelo fato de que esteja no fim de suas forças, mas porque se encontra em um mundo que não é mais o seu. Ora, se a razão de ser do romance é manter o “mundo da vida” sob uma iluminação perpétua e nos proteger contra o “esquecimento do ser”, a existência do romance não é hoje, mais necessária do que nunca, inquire Kundera.

Por fim, o romance, como paraíso imaginário dos indivíduos, é o território em que ninguém é dono da verdade. O homem pensa, Deus ri, diz um provérbio judaico. O homem pensa e a verdade lhe escapa, diz Kundera. Assim ele diferencia a sabedoria do romance da sabedoria da filosofia, pois o romance não nasceu do espírito teórico, mas do espírito do humor. De modo que, o romancista desfaz durante a noite a tapeçaria da verdade una e universal que os teólogos, os filósofos, os sábios teceram na véspera.

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KUNDERA, Milan. A arte do romance (ensaio). (trad. Teresa Bulhões C. da Fonseca e Vera Mourão). Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1988.
ARAÚJO, Inês Lacerda. Castro, Susana de (orgs). Richard Rorty: filósofo da cultura. Curitiba: Champagnat, 2008.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

O ANJO BOM DE TARAUACÁ

Isaac Melo


A cada manhã, quando surgem os primeiros raios de sol, ela põe-se de pé. Reza, em comunidade, a oração das laudes. Às vezes toma um pouco de café. Pega sua bicicleta cargueira de três rodas, e sai. Ao longo das ruas vai recolhendo tudo o que possa ser útil ou reaproveitado: latinhas de cerveja, garrafas, pedaços de madeira, e mesmo excrementos de bois. E antes das sete ou por volta das sete e meia já está na sala da Pastoral da Criança. Agora, ultimamente, na Casa de Nazaré. Para daí sair somente ao anoitecer.

Essa rotina simples e ao mesmo tempo fora do comum pertence a uma mulher, uma singela senhora, uma religiosa de uma congregação dedicada à mãe de Jesus, as Irmãs de Nossa Senhora (Notre Dame). Trata-se de Ir. Nelda Luíza Möeleke com 81 anos de vida e mais de 60 de consagração religiosa dedicados ao serviço dos mais pobres e marginalizados, entre estes, as crianças, as mulheres e os idosos.

Irmã Nelda nasceu no Rio Grande do Sul, Passo Fundo, em 1929, a segunda dos onze filhos do casal Oscar e Erna. Aos quinze anos ingressou na Congregação das Irmãs de Nossa Senhora, fundada por duas mulheres, sob a inspiração de Santa Júlia Billiart, em 1850, em Coesfeld, Alemanha. Ir. Nelda já trabalhou em diversos lugares, como Bahia e Brasília. Desde 1971 está no Acre, quando chegou, a convite do então bispo Dom Henrique Rueth, com mais três irmãs, pioneiras na missão da Congregação em terras acreanas. Assumiram inicialmente trabalhos no hospital de Cruzeiro do Sul. Tempos depois Ir. Nelda é designada para Tarauacá.

Com impressionante dinamismo e profunda fé, Ir. Nelda se assemelha a uma daquelas grandes matriarcas descritas no Antigo Testamento, a fazer a ligação entre Deus e o seu povo. É na Casa de Nazaré, no Bairro da Praia, que exerce seu magistério do amor, junto às mulheres, as crianças e os idosos.

Às mulheres, sobretudo grávidas, dispensa atenção especial, com orientações de saúde e higiene, alimentação e preparação de enxoval. Além de noções de cozinha, costura, bordados e pequenos outros cursinhos de utilidade prática. Convida profissionais de variados ramos para dar palestras e orientações referentes à educação, saúde e cidadania.

Suas mãos enrugadas testemunham seu amor dedicado às crianças. Quando a desnutrição assombrava o maior bairro de Tarauacá, levando a óbitos muitas crianças, ela, juntamente com a Pastoral da Criança, surgiu como um anjo. Na multimistura preparada ali, no Centro de Pastoral, sob sua orientação, uma nova história começou a ser escrita para aquelas crianças. O acompanhamento se dava ainda na gravidez. No nascimento, cada criança era acompanhada por um líder da Pastoral que orientava as mães, realizava a pesagem e acompanhava o crescimento da criança. No cumprimento dessas tarefas Ir. Nelda sempre foi firme e fazia questão de ver tudo pessoalmente. Outra grande ajuda era o xapore feito à base de plantas e cascas medicinais da própria região, fatal no combate a gripe. Além do mais, há a brinquedoteca que acolhe inúmeras crianças, pela manhã e pela tarde, de famílias do bairro.

Incansável na luta pelos direitos da Pessoa Idosa. Rezavam, cantavam, dançavam, voltavam a ser crianças e a ter alegria a cada encontro. Os velhos ali eram mais vivazes que boa parte da juventude. Seu grande sonho, ainda por se concretizar, é a construção de uma casa para os idosos, em que possam se encontrar para desenvolver atividades culturais, esportivas e de cidadania. Já conseguiu o terreno, porém os recursos financeiros para a construção ainda faltam.

Quantas vezes encontrei Ir. Nelda debruçada em sua mesa a escrever cartas a diversas autoridades: governador, senador, deputados, juiz, etc. Em uma agradecia, fazia pedidos, informava situações, em outras, cobrava, lembrava acordos firmados, denunciava. Profeta de seu tempo, zeladora da fé e servidora dos pequenos. Por tanto empenho e dedicação, o Governo do Estado do Acre, a pedido da Assembleia Legislativa, em 29 de Dezembro de 2004, pelas mãos do então governador Jorge Viana é assinada a Lei 1.617 que concede o título de Cidadã Acreana a Ir. Nelda. Um gesto louvável do povo acreano por uma de suas grandes benfeitoras. Exemplo que ainda espero ver repetido pela Câmara Municipal de Vereadores de Tarauacá.

Ir. Nelda é daquelas pessoas, como dizia o grande profeta Dom Hélder Câmara, que, como cana, mesmo postas na moenda e reduzidas a bagaços só sabem dar doçura. Uma mulher de fé, com o coração em Deus e os olhos voltados para o povo. Uma mulher em santidade, em meio as suas fragilidades e limitações.

Conheço-a, e sei de sua humildade. Talvez por isso relegue aceitar todas essas palavras por considerá-las demasiadas para sua pessoa, que fez e faz tudo isso no oculto, sem alardes, sem paga e por amor. Mas tenho que concordar com o escritor francês Marcel Proust que dizia que devemos ser gratos para com as pessoas que nos propiciam felicidade, pois são elas os encantadores jardineiros que nos fazem florir a alma.

Escrevi este texto com o coração apertado e os olhos úmidos de lágrimas. Pois os anos em que convivi com Ir. Nelda estão entre os mais frutíferos de minha vida. Uma mulher, uma mãe, uma mestra, uma amiga. Simplicidade, fé, serviço, amor, dedicação são palavras centrais na vida dessa religiosa que há seis décadas dedica-se ao serviço do próximo, no cumprimento do Evangelho, na construção do Reino de Deus. Encerro essas imperfeitas palavras, porém sinceras, com os versos do grande poeta latino Virgílio: “onde quer que eu viva viverá com louvor teu nome e tua fama”.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

SUINDARA: A BELEZA E O OLHAR HUMANO DAS CRÔNICAS DE LEILA JALUL

Isaac Melo


Na crônica, uma coisa é o acontecer, outra coisa é escrever aquilo que aconteceu. A narrativa vai ganhando cores próprias, conforme o olhar e a perspicácia com que cada um narra o que viu ou ouviu. Fato ou fantasia. Cronistas como Cony e Rubem Braga estão entre aqueles que considero geniais nesse gênero.

Ao voltar meu faro literário para o Acre, como alguém que mais ama nossas letras do que a compreende, meus pensamentos se voltam incontestes para Florentina Esteves, o vulto literário feminino, a meu ver, mais expressivo do Acre. O Empate é um primor literário. Suas crônicas (Enredos da Memória) são um capítulo a parte nas letras acreanas. Outra figura imponente é Jorge Kalume. Não é a quantidade que denota a qualidade demonstra seu Crônicas do Acre Antigo. E nessa história há que figurar Leila Jalul, em Suindara, com suas “doces lembranças que ninguém pode esquecer de lembrar”.

Suindara é bem acreano como a autora. Não é rebuscado de eruditismo. O texto flui como as águas de igarapé que buscam o rio, ora calmas, ora agitadas. Mas, no fundo, o que vemos é uma linguagem que segue a vida, coloquial, vital. E o texto sai como uma conversa entre amigos. E o que poderia parecer prosaico, revela-se como uma notável capacidade literária.

Difícil ficar impassível às suas crônicas. Assim em Barrancas e Lembranças vemos a história do jovem Pelé, que amava sua mãe e sua irmã e era apaixonado por folhas. A morte da mãe e as circunstâncias da vida o levaram a Manaus. Em Manaus, fez-se assassino. Todavia, há o olhar humano da cronista, sem fazer juízo de valor: “A lembrança e o carinho por ele não afundaram no mergulho do rio, nem diante da foto que vi na folha do jornal. Tirante os olhos, era a de um homicida cruel, que bem poderia ter sido um botânico”.

Em Chiquinha Coralina Moreira a autora, com muita competência e propriedade, traça um paralelo entre a poetisa goiana Cora Coralina e Dona Chiquinha Moreira, uma benzendeira acreana. A primeira, “de versos puros, em feitio de oração; a segunda, de orações puras, em feitio de poesia”. E arrematava: “Cora nos legou a riqueza de seus poemas; Chiquinha, um rastro de luz. Juntas, a beleza do ser simples e a importância de um lenitivo”. Nessa crônica, percebe-se a argúcia do pensamento de Jalul, que extrapola os limites do regionalismo e se abre numa perspectiva universal.

A crítica sutil, embora mordaz, aparece em diversos momentos como em Menino Bonito, que deixa entrever como o Estado (Ditadura) se utiliza de certos recursos para exercer seu poder e subjugar os “fracos”. Assim, o menino que era “bonito, forte e burro, ingredientes necessários para obedecer” alistou-se na Base Aérea de Belém. Lá foi ensinado a matar: “ora, se era possível matar a si próprio, por que não a outro? E a outro matou”. E o jovem dócil e amoroso metamorfoseia-se num ser estúpido e brutalizado. Desse modo, registra a pena da cronista: “Menino gordo, burro e adestrado, saiu do tempo e dos templos da redentora outro menino: mais obeso, mais burro, mais alienado”. Embora no fundo daquele ser embrutescido ainda subsistisse um filete de ternura.

Algumas crônicas tratam de questõe sérias, com toda a seriedade que pode assumir o riso. Sim, pois em muitos dos textos o humor é mais para corroborar seu pensamento do que para deleite literário. Embora o contrário também seja válido. Entre os inúmeros exemplos, as crônicas: Minhas Férias e A Francesinha.

Suindara, a nossa rasga-mortalha, ave tão temida pelos acreanos, por se acreditar que seu canto prenuncia agouros. Mas desde há muito a coruja é tida como o símbolo da filosofia, da sabedoria, pela sua notável capacidade de ter uma visão de 360 graus. Aí está porque Leila Jalul a escolheu para título de sua obra. Suas crônicas são um canto, a encantar aqueles que a ouvem, numa notável capacidade de ver e ir além daquilo a que estamos comumente fadados a enxergar e a ir.

Nas páginas de Suindara estão excertos da memória acreana, de um passado não muito distante, e que, de todo, ainda não passou. São passagens particulares da autora e “passagens de outros entes que sequer souberam que passaram”. Vivi vivendo e escrevo o que vivi, é a singularidade da cronista. Um Estado que têm escritores de excepcionais qualidades, pode regozijar-se com uma cronista e poetisa que está à sua altura, como Leila Jalul, a engrandecer nossas letras.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

O QUE INFLUENCIA O AMANHÃ - José Saramago

A pergunta que todos deveríamos fazer-nos é: Que fiz eu se nada mudou? Deveríamos viver mais no dessassossego. Não haverá amanhã se não mudarmos o hoje. Como se conta em A Caverna, tudo o que levamos às costas é passado e todo esse passado, incluindo a desesperança e a desilusão, é o que influencia o amanhã. Há que fazer o trabalho todos os dias com as mãos, a cabeça, a sensibilidade, com tudo.


“Antes el burócrata típico era un pobre diablo, hoy registra todo”, La Nación, Buenos Aires, 13 de Dezembro de 2000

terça-feira, 2 de novembro de 2010

FOUCAULT REVOLUCIONA A NOÇÃO DE SUJEITO, DE HISTÓRIA E DE GOVERNO

Profª. Inês Lacerda Araújo


A noção de sujeito para Descartes é a de pessoa com uma mente autoconsciente e a de um corpo como uma máquina; a de Kant é a de pessoa dotada de liberdade de decidir, absoluta, incondicional, e também de capacidade racional para pensar o real por meio de formas invariáveis, que possibilitam conhecer tudo o que está no tempo e no espaço, que tem uma causa e pode ser determinado.

Pois bem, Foucault tem outra noção de sujeito. Ele pensa um pouco como Nietzsche, nada além de atos e práticas que pertencem à história pode nos constituir, seja para pensar, seja para agir, seja para valorar. Sujeito e história se constituem um ao outro. Como?

Foucault, sem negar que é possível entender a história humana pelas guerras, nações que nascem e morrem, grandes líderes, grandes descobertas -, inaugura outro modo de olhar a história. Ele analisa acontecimentos que passam batido, como a história da loucura, história do surgimento da clínica médica, do nascimento das ciências humanas, da sexualidade, dos modos de constituição do sujeito, da violência nas prisões, do hospital psiquiátrico, das modificações no governo de si mesmo e no governo dos outros.

O modo de abordar tudo isso também é inédito:

- Pelas práticas discursivas, por exemplo: a produção de verdade de tipo classificatória, que põe os seres em um quadro geral como a história natural de Lineu, século 17; isso sofreu uma mutação com Darwin: não mais um quadro estático, mas evolução natural. No século 18, novas práticas discursivas fazem surgir novos objetos de saber: a vida que evolui, as gramáticas e suas regras para que haja línguas, e os modos de produção pelo trabalho.

- Pelas práticas não discursivas, exemplos: o hospital psiquiátrico que encerra o louco e permite um saber sobre a loucura que se torna objeto médico; a forma prisão de punir, que reúne saber sobre o delinquente e um tipo ágil e rápido de poder, que requer o exame, a vigilância, o isolamente celular. Não mais o corpo orgânico, mas dobrar, corrigir, modificar o comportamento individual (fins do século 18);

- Pelas práticas de governo dos outros: o antigo soberano governa súditos e tem o poder sobre território; o Estado moderno surgiu de práticas de governo sobre populações, é necessário atuar sobre a saúde, o meio, a produção, o mercado. Deixar o mercado agir livremente numa ponta e na outra manter a população governável, cuidando de cada um e de todos como o pastor cuida de suas ovelhas. Poder governar na modernidade exige mecanismos de segurança da vida (biopoder).

- Pelas práticas de governo de si: desde o conhece-te a ti mesmo de Sócrates, até o divã freudiano, passando pela confissão dos pecados cristã. Essas práticas nos levam ao domínio de si, ao prazer de escarafunchar o inconsciente, à invenção de uma alma a ser salva.

Enfim, somos pensados, punidos, governados, objeto de saberes, alvo de poderes. Ainda assim, mais livres do que sonhamos, pois somos capazes de enfrentar, denunciar e às vezes até de modificar aquelas práticas!

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* INÊS LACERDA ARAÚJO - doutora em Estudos Linguísticos, filósofa, escritora e professora aposentada da UFPR e PUCPR.

domingo, 31 de outubro de 2010

O QUE A FILOSOFIA PERMITE REALIZAR?

Profª.  Inês Lacerda Araújo
FILOSOFIA DE TODO DIA


Quando se fala em filosofia, logo vem à mente algo complexo, abstrato e inútil. Coisa da cabeça, dizem. Nada prática.

Na última postagem publiquei a estátua do Semeador para ilustrar a filosofia como ação, como atividade, semear ideias, conceitos, novas visões, modos de nos compreendermos, de avaliar situações e lidar com elas de forma mais investigadora e instigadora.

A filosofia se volta para ela mesma, para a sua história, e repensa seu papel, leva-nos a aprender com a realidade e a apreendê-la, isto é, pensar o real e transformar algo nas pessoas, a semente da pergunta, da indagação.

Ela proporciona conceitos para uma melhor compreensão de três áreas:

1. A ética e a política. O filósofo emblemático é Aristóteles para entender porque ética e política estão relacionadas. A sociedade política é um bem de e para todos, o homem como animal social, tem o senso do bem e do mal, do justo e do injusto. A sociedade política é uma reunião de pessoas para promover o bem viver; é preciso que o Estado proporcione uma vida feliz e virtuosa, que seja conduzido por um piloto que entenda de navegação. Diz Aristóteles em A Política:

Quando o monarca, a minoria ou a maioria, não buscam senão a felicidade geral, o governo é justo. Mas se visa ao interesse particular do príncipe ou dos outros chefes, há um desvio (p. 93). É impossível um Estado feliz se dele a honestidade for banida (p. 49).

2. A cultura. Vejamos o que diz Nietzsche: é preciso coragem para romper com valores gastos e estabelecidos. Reinventar valores cabe ao poeta solitário, capaz de dispensar a moeda gasta, de associar conceitos às necessidades e atribulações. A cultura sofre, foi banalizada, tudo está a serviço da barbárie, até mesmo a arte e a ciência (cf Considerações Contemporâneas, p. 74). Há que fugir do conformismo, do é assim mesmo, e penetrar nos difíceis caminhos do "eu assim o quis" (moral do forte).

3. As práticas humanas. Nasceram na história, e têm uma história, muita vezes cruel. Foucault mostra que o modo como o sujeito humano moderno se constitui, depende de práticas como as da prisão, hospitais, invenção da psiquiatria, das ciências humanas, que servem para conhecer o homem, e, ao mesmo tempo domesticá-lo. Em Vigiar e Punir Foucault analisa como o saber produz poder instalado em práticas como o castigo para o escolar, a prisão como forma generalizada para punir, o surgimento de instituições que dependem de vigilância. Esse é tema para próxima postagem.

Pensar não é pouca coisa...
 
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* INÊS LACERDA ARAÚJO - doutora em Estudos Linguísticos, filósofa, escritora e professora aposentada da UFPR e PUCPR.

sábado, 30 de outubro de 2010

MINEIROS DOS BONS!


O Skank nasceu em 1991, em Belo Horizonte, capital das Minas Gerais, que deu orgulho ao Brasil de ter alçado ao mundo nomes como Milton Nascimento, Sepultura e tantos outros. Samuel Rosa (guitarra e voz), Henrique Portugal (teclados), Lelo Zaneti (baixo) e Haroldo Ferreti (bateria) reuniram-se em torno do mesmo interesse: transportar o clima do dancehall jamaicano para a tradição pop brasileira. O primeiro álbum , “Skank”, foi lançado de forma independente, em 1993, mas rapidamente o sucesso da banda na cena underground despertou o interesse da poderosa Sony Music. Junto ao Skank, a multinacional inaugurou no Brasil o selo Chaos.
Site oficial do Skank.

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

HISTÓRIA UNIVERSAL DA INFÂMIA

O argentino Jorge Luis Borges (1899-1986), poeta, contista e ensaísta escreveu algumas das mais importantes obras literárias do século XX, entre as quais: Ficções, O Aleph, O informe de Brodie e O livro dos seres imaginários. A publicação de História Universal da Infâmia, em 1935, seu primeiro texto de narrativas de ficção, o consagrou como um dos maiores nomes da literatura na América Latina. O livro, por um lado, revela a preocupação social de Borges, voltado à denúncia de uma sociedade para ele incorregível; por outro, a descoberta de um novo caminho aliado à concepção que ele tem de seu fazer literário. O conto abaixo integra o referido livro.

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HISTÓRIA DOS DOIS QUE SONHARAM
- Jorge Luis Borges -

O historiador árabe El Ixaqui conta este fato:

“Dizem os homens dignos de fé (mas só Alá é o onisciente, poderoso, misericordioso e não dorme) que houve no Cairo um homem muito rico, mas tão magnânimo e liberal que perdeu todas as riquezas, menos a casa de seu pai, e se viu forçado a trabalhar para ter o que comer. Trabalhou tanto que o sono, certa noite, o venceu debaixo duma figueira de seu jardim, e no sonho viu um homem gordo que tirou da boca uma moeda de ouro e lhe disse: ‘Tua fortuna está na Pérsia, em Isfajan; vai buscá-la’. Na madrugada seguinte ele acordou e empreendeu uma longa viagem e enfrentou os perigos do deserto, dos navios, dos piratas, dos idólatras, dos rios, das feras e dos homens. Chegou por fim a Isfajan, mas no centro dessa cidade foi surpreendido pela noite e se estendeu para dormir no pátio duma mesquita. Junto da mesquita, havia uma casa e, por vontade de Deus Onipotente, um bando de ladrões atravessou a mesquita e se meteu na casa, e as pessoas que dormiam despertaram com o barulho dos ladrões pediram socorro. Os vizinhos também gritaram, até que o capitão da guarda-noturna daquele distrito acudiu com seus homens e os bandoleiros fugiram pelo terraço. O capitão mandou investigar a mesquita e nela deram com o homem do Cairo e lhe aplicaram tantos golpes com varas de bambu que ele andou perto da morte. Dois dias depois recobrou os sentidos na prisão. O capitão mandou buscá-lo e lhe disse: ‘Quem és e qual é a tua pátria?’ O outro declarou: ‘Sou da famosa cidade do Cairo e meu nome é Mohamed El Magrebi’. O capitão perguntou: ‘Que te trouxe à Pérsia?’ O outro decidiu-se pela verdade e falou: ‘Um homem me ordenou, num sonho, que eu viesse a Isfajan, porque aqui estava a minha fortuna. Já estou em Isfan e vejo que essa fortuna que me prometeu deve ser os açoites que tão generosamente me deste.

“Diante de tais palavras, o capitão riu até mostrar os dentes do siso e acabou por dizer-lhe: ‘Homem desatinado e ingênuo, três vezes sonhei com uma casa na cidade do Cairo em cujo fundo existe um jardim, e no jardim um relógio de sol e depois do relógio uma figueira e depois da figueira uma fonte, e debaixo da fonte um tesouro. Não dei o menor crédito a essa mentira. Tu, entretanto, filho duma mula com um demônio, erraste de cidade em cidade, guiado apenas pela fé do teu sonho. Que eu não te volte a ver em Isfajan. Toma estas moedas e vai-te!’

“O homem tomou as moedas e regressou à pátria. Debaixo da fonte de seu jardim (que era o sonho do capitão) desenterrou o tesouro. Assim Deus o abençou e o recompensou e exaltou. Deus é o generoso, o Oculto”.

(Do Livro das 1001 noitesm noite 351.)

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BORGES, Jorge Luis. História Universal da Infâmia. São Paulo: Globo, 1989.