quinta-feira, 25 de abril de 2013

SARTRE LITERATO

Jean-Paul Sartre sempre me impressionou muito. Penso que a sua literatura alcançou uma excelência ainda mais forte que a sua filosofia. É claro que suas obras levam à filosofia, bem como à reflexão filosófica. Mas, o que mais me fascina no literato Sartre é o modo como ele opera a passagem do verbo enunciativo ao verbo poético. Seus textos são ricos em imagens e metáforas, e se aproximam mais do verso que da prosa; por exemplo, em “A Idade da Razão”, escreve ele: “uma grande flor roxa subia para o céu, era a noite”. Como fez saber Julio Cortázar: “há um estado de intuição para o qual a realidade, seja ela qual for, só pode ser formulada poeticamente”.

Mas, dessas imagens, uma que mais gosto está em “Com a morte na alma”, em que ele descreve a cena de um simples ato de amor de maneira tão formosa e tão pujante que parece transcender a própria realidade do ato em si e a própria angústia da existência. Eis o trecho:

<< Pinette deixara a mulher embaixo dele, esmagava-a de encontro à terra, fundia-a à terra, à relva hesitante. Ele mantinha a campina inteira sob o seu ventre; ela o chamava; ia deitar raízes nela pelo ventre, ela era água, mulher, espelho; refletia em toda a superfície o herói virgem das futuras batalhas, o macho, o soldado glorioso e vencedor; a Natureza ofegante, de costas, absolvia-o de todas as derrotas; murmurava: querido, venha, venha. Mas ele queria ser homem até o fim, apoiava-se ao solo com as palmas das mãos e seus braços encurtados pareciam asas, ele erguia a cabeça sobre aquela docilidade densa, queria ser admirado, refletido, desejado por baixo, na sombra, à revelia, negligenciar aquela glória que passava da terra ao corpo como um calor animal, emergir no vazio, na angústia, para pensar: “E depois?” A moça passou o braço no seu pescoço e puxou-o pela nuca. A cabeça mergulhou na glória e no amor, a campina encolheu-se. >> SARTRE, Jean-Paul. Com a morte na Alma [trad. Sérgio Milliet]. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2005. p.174

Além do mais, ler Sartre é travar uma batalha consigo mesmo.

quarta-feira, 24 de abril de 2013

LENDA

Jorge Luis Borges


Abel e Caim se encontraram depois da morte de Abel. Caminhavam pelo deserto e se reconheciam de longe, porque os dois eram muito altos. Os irmãos sentaram-se na terra, fizeram um fogo e comeram. Guardavam silêncio, à maneira das pessoas cansadas quando o dia declina. No céu despontava alguma estrela, que ainda não recebera seu nome. À luz das chamas, Caim notou na testa de Abel a marca da pedra e deixou cair o pão que estava para levar à boca e pediu que seu crime lhe fosse perdoado.

Abel respondeu:

– Tu me mataste ou eu te matei? Já não me lembro; aqui estamos juntos como antes.

– Agora sei que você me perdoou de verdade – disse Caim –, porque esquecer é perdoar. Eu também tentarei esquecer.

Abel disse devagar:

– Assim é. Enquanto dura o remorso, dura a culpa.


BORGES, Jorge Luis. Poesia. [trad. Josely Vianna Baptista]. São Paulo: Companhia das Letras, 2009. p.70

domingo, 21 de abril de 2013

ACRE DOCE

Da parceria entre Nazaré Pereira e Luiz Gonzaga, que sobre a música disse: “Gostei, como tu nasceste no Acre e Acre é amargo e você gosta do teu Estado, chame ‘Acre Doce’.” A música é do LP ‘Caixa de Sol’ (1981).

sábado, 20 de abril de 2013

SADKO, O GUSLAR

Luiz Felipe Jardim


Olá, Vássia, você se lembra da história do guslar?

...

Em meados da Idade Média, ali onde nascia a Rússia, assim como em grande parte da Europa, também renasciam e nasciam países e cidades. Talvez por isso, aquela passou a chamar-se Novgorot, ou, em nossa língua, Cidade Nova.

Situada entre as atuais São Petersburgo e Moscou, Novgorot concentrou grande atividade comercial e, entre os anos 1000 e 1300 , quando ali se miscigenavam diversos povos, principalmente eslavos com vikings, toda a região vivia intenso processo de cristianização e foi cenário de exuberante, vigorosa e rica vida cultural.

Aproximadamente a dez quilômetros da cidade vive um imenso lago, o Lago Ilmen. Recebendo as águas de 52 rios, vertentes e de inúmeros olhos de água, o lago Ilmen - que deságua no rio Vóljov que o leva ao mar, foi uma das vias por onde fluiu o comércio medieval, conduzido principalmente pelos vikings. Era com a palavra Rus, da qual se originou a palavra Rússia, que alguns povos vikings denominavam a si mesmos quando distantes de suas terras de origem. O Principado ‘Rus de Kiev’ antecedeu à Novgorot em importância política, econômica e cultural, e Kiev chegou a ser a cidade de maior fluxo de riquezas na Europa durante longo período da média Idade Média.

Sadko, era um jovem músico tocador de um tipo de harpa chamada guslli que foi
muito comum em toda a Europa Medieval. Sadko era, portanto, um guslar e, com seu guslli, tocava, cantava e animava festas na cidade de Novgorod onde nascera e onde vivia naqueles anos do séc. XII. 

Certo dia, triste por não haver sido contratado para qualquer festa havia já bastante tempo, Sadko tomou o caminho do lago Ilmen para onde sempre ia quando queria meditar, compor músicas ou fazer-se um pouco mais alegre. No lago, acolheu-se em uma enorme e deserta praia. Em torno de si havia o que precisava para sentir-se bem acolhido. Ali estavam aves, árvores, bons ventos, montanhas... e o lago que a tudo atraía.

Sob a poderosa envolvência daquela paisagem, o músico sentiu enorme vontade de tocar, porém conteve-se para só fazê-lo à noite quando a lua cheia brilharia no céu, na areia e no lago. Sorveu o encantamento da paisagem e, em silêncio e meditação, compôs a música que tocaria ao anoitecer.

Quando a lua principiou a surgir no céu, Sadko purificou suas mãos. Em silêncio evocou a música que há pouco em seu espírito encontrara. Mirou a lua. Voltou seu olhar e o deitou macio na noite  que se fazia profunda. Dedilhou o gusli. Se pôs a tocar.

Sua música surgiu do seu coração e soou na paisagem. Soou como encantamento, já que parecia nascer não de onde nascia, parecia nascer de todos os que a paisagem envolvia.

Lua, pássaros, ventos, noite, todos se fizeram mais vívidos e houve mais luar, mais brisas... mais silêncio que realçavam a música que a todos atraía.

Talvez por isso, por envolver a todos, a música de Sadko atravessou as águas e foi
ouvida pelo Rei dos Mares em seu palácio nas profundezas do mar. Profundamente tocado pelo que ouviu e sentiu, o Rei dos Mares apresentou-se a Sadko dizendo-lhe que, poderia fazê-lo um homem muito rico e poderoso. Em troca, queria que o guslar voltasse às margens do lago algumas vezes, em noites de lua cheia, que tocasse seu gusli e suas músicas para que todos os do seu Reino pudessem novamente sentir o prazer e a magia que todos sentiram naquela noite de magias e de luar.

Sadko aceitou a oferta do deus. O Rei dos Mares disse, então, que o jovem músico deveria propor uma aposta aos mais ricos comerciantes de Novgorod. Deveria afirmar que, à vista de todos, pescaria três peixes de ouro no lago Ilmem.  Se não pescasse os peixes, teria sua cabeça decapitada, mas se os pescasse os comerciantes deveriam dar-lhe rica soma em dinheiro, jóias e lojas. Feito o acordo, o Rei voltou para as suas águas e o jovem guslar para a sua Novgorod.
 ....

Não só os comerciantes bradaram enormes gargalhadas, mas quase todos os que na praça estavam quando, em praça pública, Sadko lançou o desafio aos mais ricos comerciantes da cidade.

Troça daqui, troça de lá, troça também de acolá, (e como eram ruidosos aqueles vikings e eslavos!) por fim, alguns comerciantes aceitaram o desafio. Combinaram aquele dia e hora em que quase toda a população da cidade estava às margens do Ilmen com quase toda a certeza de que, em pouco, assistiria a uma divertida, comovente, espetacular e deliciosamente inesquecível decapitação.

Sozinho, em um pequeno barco, Sadko lançava sua rede nas águas do lago. Uma, duas, três... quatro vezes e... nada. Cinco, seis, sete... O povo ria nas margens, divertia-se, fazia algazarra (e como eram ruidosos aqueles rus e eslavos!) enquanto os peixes de ouro não apareciam na rede do guslar.

Mas, palavra de deus que é deus de verdade não volta atrás. Pelo menos a daquele, o dos Mares. Por isso os peixes de ouro surgiram na rede. Um a um. Reluzentes... Faiscantes... Coruscantes... Hipnotizantes.

A população calou-se incrédula. Mais ainda os comerciantes. Até constatarem que aqueles olhos, bocas, guelras e escamas eram ouro de verdade, e tão puro como jamais haviam imaginado ver. Tudo se calou. Pávido. Mudo.

De súbito, calou-se o silêncio também, e a algazarra recomeçou. Com redobro. (E como eram ruidosos aqueles vikings eslavizados!)

Todos queriam ver Sadko, falar com ele, tocá-lo, ser seu amigo ou mesmo servo. Afinal, uma pessoa de tão boa estrela, tão íntima da Fortuna, deveria atrair boa sorte para os mais próximos e glórias para a cidade.

E Sadko era generoso. Enormemente rico que era agora, promoveu longas festas para a gente da cidade. Fez grandes obras de caridade. Protegeu a desprotegidos, foi piedoso com injustiçados. Fez construir barcos, casas, e muito mais. E quanto mais repartia o que lhe trouxera a Fortuna, mais oportunidades lhe apareciam para aumentar o que a Fortuna lhe trouxera.

Foi então que no seu peito uma ambiçãozinha fez morada. Surgiu pequenina, mas, aninhada em ninho fértil, foi crescendo, crescendo... Cresceu. Sadko tinha agora uma grande ambição: queria ser o homem mais rico de Novgorod. Teve fascínio por essa idéia e a perseguiu. Obstinado.

Passaram-se alguns anos e Sadko cumpria a última etapa do seu plano para ser o mais rico habitante da cidade. Mandou construir 30 grandes navios. Comprou a produção de quase todos os artesãos da cidade, povoou os navios com todo o artesanato e, com centenas dos melhores marinheiros (e como eram bons marinheiros aquela gente!) pôs-se no mundo, a velejar.

Sadko havia envolvido parcela considerável da população da cidade nos seus
projetos. Soubera se identificar com a alma do povo das ruas como ele. Soubera ser justo nas avaliações de questões de justiça que se lhe apresentaram. Soubera ser generoso na partilha de lucros que seus negócios lhe traziam. Por isso, havia mais pessoas nas margens do Ilmen naquela manhã, do que houvera naquela outra em que Sadko surpreendera a todos com os três peixes de ouro. Todos sonhavam com o sucesso da expedição.

Nos 30 barcos do guslar que partiam, partiam juntos pedacinhos da alma de todos os de Novgorod. Ali estavam cada um dos rostos de moças e rapazes que inspiraram as pinturas dos belos vasos de cerâmica. Ali estavam o calor ardente dos que destilaram as bebidas mais finas e quentes que os mais frios invernos exigiam. Ali estavam segredos muito íntimos das mulheres que imaginavam as tramas de bordado mais ricas que existiam, assim como pedacinhos de quem as teceu...  E assim, todos rumavam para o mundo. Haveriam de navegar e se espalhar por lugares não conhecidos; haveriam de ver e conhecer gente dantes nunca encontrada; haveriam de enfrentar seres descomunais; ver belezas inimagináveis, riquezas incalculáveis...

Por fim, todos voltariam. Nos mesmos 30 barcos que agora partiam.  E quando todos voltassem, a cidade acolheria as novidades que os barcos trariam. Haveriam de serem muito alegres os dias em que se vestiriam com as belas roupas dos povos que não conheciam; se fariam mais atraentes com os perfumes mágicos daquela outra gente muito misteriosa e fugidia; se encantariam com as histórias fascinantes que ouviriam; se divertiriam com seres horripilantes e engraçados, trazidos lá de não sei onde, lá do fim do mundo... lá, ou de bem perto, de onde nascem os dias...

Por isso todos acenavam das margens com ruidosos acenos para a expedição que partia. Acenavam para os que iam. Acenavam para o que anteviam. Acenavam para o que criam e para o que queriam. Acenavam para si mesmos, que iam e vinham. (E como eram ruidosos os acenos daquela gente eslava e rus da nova Novgorod!)...

E tudo aconteceu como anteviam: trocas com povos que conheciam e que não conheciam; amizade com gente muito misteriosa e fugidia; encontros e aventuras com seres descomunais. Foram ao mundo e ao fim do mundo de onde já voltavam com todos os barcos cheios da mais pura seda, das mais belas roupas, dos mais inebriantes perfumes, das mais ricas e belas jóias.

Foi quando o mar agitou-se, e fez-se impossível o navegar. Todos os barcos ficaram à mercê das intempéries. E as águas fizeram-se muito severas. Longos dias de fortes ventos e chuvas; longas noites de densas tempestades; longos dias e noites de ondas colossais. Os marinheiros desesperavam-se e lançaram barris de ouro e pérolas às águas para apaziguar o Rei dos Mares. Mas este não se conteve.

Os marinheiros, apavorados, entenderam que o Tzar dos Mares exigia um sacrifício humano e decidiram na sorte - com igualdade a todos - o humano a ser sacrificado. O guslar foi o apontado pelo destino.

Por isso Sadko, em meio ao clarão dos raios daquela noite de temporais, foi lançado ao mar. Consigo levava seu gusli. Juntos morreriam no fundo dos oceanos.

E foi no fundo do mar que Sadko se acordou. Estava no salão real do palácio do Rei dos Mares.

Palavra de deus que é deus de verdade não volta atrás. Pelo menos a daquele, o dos Mares, isso já sabemos. Mas Sadko não era deus e, assim como nos esquecemos de que ele deveria cumprir a sua promessa para com o Tzar, Sadko esquecera-se de cumpri-la. Não cumprira sua parte no acordo que com o deus fizera. Não voltara com seu gusli ao Ilmen, em noites de lua cheia, para tocar e animar àquele povo amante da música, o Rei dos Mares e sua corte abissal.

Agora, o Tzar cobrava não só o seu tributo, mas, por haver nele perdido toda a confiança, exigia que o guslar vivesse definitivamente em seu reino, em seu palácio, a mais linda morada que existia na Terra, e que humano algum jamais havia visitado. Uma jóia da arquitetura das águas que flutuava em mar profundo.

O deus ordenou, e Sadko tocou. Sua música era verdadeiramente mágica para o povo do mundo líquido. Ao ouvi-la, todos se encantavam e se punham a dançar... a dançar... a dançar. Enfeitiçado pelo Tzar, Sadko tocava quase sem parar.

O Rei dos Mares e sua corte dançaram dias e dias. Suas danças balançavam as águas dos oceanos. O balanço das águas agitava as ondas que afundavam navios, inundavam ilhas. A dança dos mares levava transtornos aos humanos e a muitos seres viventes.

Em uma noite em que, sozinho, descansava flutuando ‘sobre as ondas’ do mar, Sadko foi acordado pelo toque macio da mão de “um senhor de feições muito serenas e mãos firmes” que dele se aproximou. O ancião lhe contou como as festas no mundo das águas estavam afetando o da superfície. Contou das tempestades que aconteciam; contou dos navios que afundavam; das ilhas que desapareciam e dos que por ele oravam. E ele, que devia proteger os que por sobre as águas viajavam, os que pelo mundo comerciavam e, principalmente, às crianças que por ele clamavam, pedia ao guslar que parasse de tocar. Sadko respondeu que isso dependia da vontade do Tzar. O ancião disse ao guslar como deveria proceder... Depois, sumiu da vastidão das águas.

E tudo aconteceu como, Nicolau, o ancião, dissera que deveria acontecer. Quando
todos dançavam no palácio sob as ondas de sua música, Sadko, discretamente, quebrou uma das cordas do seu gusli. Música e dança tiveram que parar. O Rei dos Mares ficou muito contrariado, mas, dando continuidade à festa, determinou que Sadko escolhesse, entre 900 moças marinhas, aquela que seria sua esposa. Como lhe orientara o ancião, o músico escolheu Tchernava, a menos bela de todas. Com esta deveria se casar.

Durante o banquete em que se comemorava suas núpcias, Sadko sentiu vertigens e desfaleceu.  Acordou-se nas margens do rio Tchernava, bem perto de Novgorot. No mesmo instante, viu, no horizonte, seus navios que se aproximavam. Todos intactos, como estavam antes do início das tempestades. Tudo o que de mal acontecera se desfizera. Por isso todos achavam que haviam sonhado sonhos agitados. Pesadelos. Sadko era o único que sabia o que acontecera. E, sobre isso, calou-se. Para sempre.

Novgorot , continuou sendo uma das cidades mais prósperas da Europa e, em diversas fases e com várias feições, assumiu papéis preponderantes na vida européia ao longo  da História... O Lago Ilmen continua vivo. É um sobrevivente, claro, com barragens e hidroelétricas e tudo o mais, mas, ainda assim, está lá onde sempre esteve... Aquela ‘gente viking do leste’ foi assimilada pelos eslavos. Os vikings e seus descendentes ocuparam grande parte da Europa, e se tornaram reis, nobres, gente da alta burguesia dos grandes e pequenos Estados, como Inglaterra, França, Rus de Kiev, e Rússia. Hoje, seus descendentes detêm mais de 25 por cento das ações dos maiores bancos dos EUA; dos bancos da Europa Ocidental... e da Rússia então!...  Do Rei dos Mares não mais se ouviu falar, a não ser em histórias como esta onde é importante personagem ou protagonista em muitas outras que navegam pelo mundo inteiro, quase sem parar... De Sadko, bem...

Sadko continuou generoso como sempre fora. O povo de Novgorot o adorava e ele retribuia a esse amor abrindo ainda mais seu coração, uma jóia da arquitetura do mundo sanguíneo onde a Fortuna fez morada. Entre tantas outras obras, mandou construir, em Novgorot, a Igreja de São Nicolau. Sadko é hoje, 900 anos depois, o mito mais popular do povo russo, e São Nicolau o santo padroeiro da Rússia. Ah, e também nosso querido Papai Noel. Ro, ro, ro

E por falar nisso, Vássia, você acredita em Papai Noel? Abraços

Felipe

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* Luiz Felipe Jardim leciona História. 

** Leia aqui outros textos de Luiz Felipe Jardim.

quinta-feira, 18 de abril de 2013

SAUDADE, SEMPRE SAUDADE!

Profa. Luísa Lessa
LINGUAGEM E CULTURA


Todo mundo, um dia, já sentiu saudade. Saudade de um amigo, dias felizes, de momentos especiais, alegres, engraçados, de uma música, uma palavra ou até um sorriso. Se perguntar: o que é a saudade, friamente falando, fica difícil definir. Saudade é uma sensação tão complexa que nenhuma definição recobriria sua extensão. Tenho em mim que saudade não se define, apenas, com adjetivos ou palavras bonitas. É uma palavra cujo sentido vai além de descrições feitas pelos grandes mestres da literatura e da poesia. Pode ser: emoção, felicidade, tristeza, êxtase, alegria, boas lembranças. Somente sente saudades aquela pessoa que vive; saudades de amigos que se mudaram para outras cidades, vilas, países; saudades da infância que não volta mais; saudades de bons momentos que a gente viveu; saudades de pessoas que a gente ama; saudades de um sorriso, de um olhar, de um sussurro no ouvido; saudades de sentir saudades; saudade, sem motivo, somente saudade.

Por isso tudo eu acredito que sentir saudades é sinal de sorte. Isso porque SAUDADE é um indicativo de coisa que faz bem, de vida que deixa marcas, de gente que vai e gente que fica. Saudade é o passado presente. É o que foi e ainda está tão em nós, latejando, queimando, doendo.

Eu, por exemplo, sinto saudade das pegadas que vejo no caminho atrás de mim. Do caminho, da caminhada, dos caminhantes. Saudade da exceção e do comum. De momentos cotidianos, dos “bom dia”, do ‘até breve”, de conversas banais com pessoas que não foram simplesmente pessoas. Saudades de dias que pareciam não ter fim, de noites que pareciam não amanhecer, de tempos vestidos de eternidade. E que passaram, não voltam jamais.

Também sinto saudade do presente. De pessoas que ainda vejo, de cheiros que ainda sinto, de vozes que ainda falam em meus ouvidos. Saudade antecipada daquilo que me fará falta, deixará lacuna. Sinto saudade de momentos quando percebo que eles irão passar, assim como a vida que nasce e renasce a cada instante dentro do coração. Saudade da brisa, do luar, do som da chuva, do canto dos pássaros, das pegadas na rua, das vibrações do coração contente, feliz.

Sinto saudade do horizonte futuro. De tudo que, por mais que eu viva e me entregue, jamais será vivido o suficiente para me satisfazer e não me deixar com gosto de quero mais. Sinto saudade de tempos que virão e, como todos os tempos que vieram (e um dia também foram conjugados no futuro), também passarão.

Sim, sentir saudades é sinal de sorte, mas também deve ser, certamente, sinal de que algo corre pelas veias (algo que não é apenas sangue). Deve ser indicativo de que a vida não está passando alheia, desavisada, sem por que. Saudades é sinal de que vida está com razão de ser, de que o outro está valendo a pena, de que a gente está vivo, lembrando, sangrando e esperando o próximo encontro, o próximo abraço apertado, o próximo momento para sentir saudade.

Se pudesse escolher, eu gostaria, sim, de sentir saudade, sempre. Desejo que cada dia vivido me deixe marcas inesquecíveis, doa-me no futuro, faça-me sofrer. Às vezes, a dor não é dor, a dor é amor – e por isso dói tanto. Quero ter a sorte de encontrar gente que me cative a ponto de deixar marcas, de viver uma vida que me deixe com vontade de viver mais, de passar por tempos intensos, que acabem no exato momento em que tiverem que acabar, mas que permanecerão comigo, no correr da vida, como uma eterna saudade. Quero as saudades, porque são elas que me fazem crer que viver vale a pena.


* Luísa Lessa pertence às Academias Brasileira de Filologia e Acreana de Letras.

MEU PÉ DE LARANJA LIMA

MEU PÉ DE LARANJA LIMA é um clássico juvenil (até 90 anos) escrito por José Mauro de Vasconcelos (1920-1984). Quanto ao enredo do livro recomendo ir direto à fonte. A primeira adaptação cinematográfica do livro ocorreu em 1970, por Aurélio Teixeira. Agora ganha uma segunda adaptação, dirigida por Marcos Bernstein, prevista para estrear no próximo dia 19 de abril. Daquilo que não vi, devo me calar. Mas em relação ao de 70, ri e me comovi com o peralto e arguto Zezé. Uma película sensível, cheia daquela pureza com que todos nascemos, e a idade e o tempo vão aos poucos nos despindo. E aqui me valho do que Julio Cortázar havia dito acerca do romance (gênero), que este “parece ter nascido para manifestar em suas formas mais diversas o sentimento humano”. E é essa a impressão que tenho tanto das páginas quanto da tela. Vejo com bons olhos essa aproximação do cinema com a literatura; quase sempre se mostrou proveitosa. É só observar que os bons filmes brasileiros são em sua maioria adaptações literárias. O resto é nota de rodapé do besterol hollywoodiano.

quarta-feira, 17 de abril de 2013

EMPRESÁRIOS

Clodomir Monteiro


máquinas cortando atalhos
rasgando tubos
troncos caindo ao som dos galhos
cobrindo áreas
barracos com pernas mansas
pelos ares

balseiros carregando planos
virando areia
represa fácil de água muita
comendo terras
em presa moto no tronco grosso
vencendo serras

empresários tomam mares de whisky
bem frios calados estouram lares
para o gado engordar
empresam rios
na cidade a carne humana
pele e osso


Ø  O poema “Empresários” foi publicado na edição número 2 da revista “Raizes”, publicada em Abril de 1977, na Cidade da Praia, pela Imprensa Nacional de Cabo Verde, África. (Mais informações sobre essa histórica revista no blog DEBAIXO DO BULCÃO)

Ø  CLODOMIR MONTEIRO preside a Academia Acreana de Letras. Acesse aqui o blog do poeta.