quinta-feira, 18 de abril de 2013

SAUDADE, SEMPRE SAUDADE!

Profa. Luísa Lessa
LINGUAGEM E CULTURA


Todo mundo, um dia, já sentiu saudade. Saudade de um amigo, dias felizes, de momentos especiais, alegres, engraçados, de uma música, uma palavra ou até um sorriso. Se perguntar: o que é a saudade, friamente falando, fica difícil definir. Saudade é uma sensação tão complexa que nenhuma definição recobriria sua extensão. Tenho em mim que saudade não se define, apenas, com adjetivos ou palavras bonitas. É uma palavra cujo sentido vai além de descrições feitas pelos grandes mestres da literatura e da poesia. Pode ser: emoção, felicidade, tristeza, êxtase, alegria, boas lembranças. Somente sente saudades aquela pessoa que vive; saudades de amigos que se mudaram para outras cidades, vilas, países; saudades da infância que não volta mais; saudades de bons momentos que a gente viveu; saudades de pessoas que a gente ama; saudades de um sorriso, de um olhar, de um sussurro no ouvido; saudades de sentir saudades; saudade, sem motivo, somente saudade.

Por isso tudo eu acredito que sentir saudades é sinal de sorte. Isso porque SAUDADE é um indicativo de coisa que faz bem, de vida que deixa marcas, de gente que vai e gente que fica. Saudade é o passado presente. É o que foi e ainda está tão em nós, latejando, queimando, doendo.

Eu, por exemplo, sinto saudade das pegadas que vejo no caminho atrás de mim. Do caminho, da caminhada, dos caminhantes. Saudade da exceção e do comum. De momentos cotidianos, dos “bom dia”, do ‘até breve”, de conversas banais com pessoas que não foram simplesmente pessoas. Saudades de dias que pareciam não ter fim, de noites que pareciam não amanhecer, de tempos vestidos de eternidade. E que passaram, não voltam jamais.

Também sinto saudade do presente. De pessoas que ainda vejo, de cheiros que ainda sinto, de vozes que ainda falam em meus ouvidos. Saudade antecipada daquilo que me fará falta, deixará lacuna. Sinto saudade de momentos quando percebo que eles irão passar, assim como a vida que nasce e renasce a cada instante dentro do coração. Saudade da brisa, do luar, do som da chuva, do canto dos pássaros, das pegadas na rua, das vibrações do coração contente, feliz.

Sinto saudade do horizonte futuro. De tudo que, por mais que eu viva e me entregue, jamais será vivido o suficiente para me satisfazer e não me deixar com gosto de quero mais. Sinto saudade de tempos que virão e, como todos os tempos que vieram (e um dia também foram conjugados no futuro), também passarão.

Sim, sentir saudades é sinal de sorte, mas também deve ser, certamente, sinal de que algo corre pelas veias (algo que não é apenas sangue). Deve ser indicativo de que a vida não está passando alheia, desavisada, sem por que. Saudades é sinal de que vida está com razão de ser, de que o outro está valendo a pena, de que a gente está vivo, lembrando, sangrando e esperando o próximo encontro, o próximo abraço apertado, o próximo momento para sentir saudade.

Se pudesse escolher, eu gostaria, sim, de sentir saudade, sempre. Desejo que cada dia vivido me deixe marcas inesquecíveis, doa-me no futuro, faça-me sofrer. Às vezes, a dor não é dor, a dor é amor – e por isso dói tanto. Quero ter a sorte de encontrar gente que me cative a ponto de deixar marcas, de viver uma vida que me deixe com vontade de viver mais, de passar por tempos intensos, que acabem no exato momento em que tiverem que acabar, mas que permanecerão comigo, no correr da vida, como uma eterna saudade. Quero as saudades, porque são elas que me fazem crer que viver vale a pena.


* Luísa Lessa pertence às Academias Brasileira de Filologia e Acreana de Letras.
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