segunda-feira, 15 de abril de 2013

O RIO AMAZONAS

Francisco Mangabeira (1879-1904) 


De onde vem esta voz frenética e atroante
Que parece escapar do peito de um gigante,

E, rasgando do espaço o ilimitado véu,
Espalha-se a gritar por todo o vasto céu,

Após ter abalado a mata, a costa, a serra,
Como se acaso fosse o desabar da terra?

De onde vem ela? Agora é branda, a recordar
Um segredo de amor, nos campos, ao luar;

O gorjeio sutil de um pássaro encatado
Que, contemplando o azul, fica maravilhado,

Entre-abre o bico de ouro e, quase sem querer,
Solta um canto que faz a gente estremecer.

Por acaso será de algum gênio escondido
Cujo palácio escuro, amplo e desconhecido,

Inda o não viu ninguém – esta esquisita voz,
Tão rude e tão sutil, tão meiga e tão feroz?

Por que anseia, curvado e trêmulo, o arvoredo,
A maneira de leões a tiritar de medo?

Assim pergunta a brisa, ouvindo com terror
Um grito que se muda em cântico de amor.

Não achando resposta o vento em ânsia estranha,
Cresce, incha, rodopia, as árvores assanha,

Ergue nuvens de pó, torna-se furacão,
E é um doido a sacudir os ferros da prisão.

O espaço é um antro azul, imenso, esplendoroso,
E por ele o tufão agita-se furioso,

Raiva, fugindo à voz que entre explosões e ais
O acompanha, e é maior, e o aterroriza mais.

É o rio que, a rolar, canta e ruge, violento,
Respondendo talvez às perguntas do vento,

Que se amedronta, ouvindo-o...

            O rio é como um rei
Que nas árvores tem uma formosa grei

De pajens triunfais e olímpicas escravas,
A que o sol dá broqueis, capacetes e aljavas.

Inda há pouco rolava, estourando em cachões,
Na queda... A luz do dia arrancava clarões,

Incêndios imortais, estrelas, pedrarias
Do tesouro real de suas águas frias...

A cachoeira gloriosa era o espelho do sol,
Refletindo-se nela, às horas do arrebol...

Das águas a cair uns trêmulos salpicos
Ficam a rutilar como adereços ricos

Nas folhas de esmeralda, apresentando assim
Pérolas e corais em cofres de cetim,

A modo de brilhante e esplêndido debuxo
O mato a revestir de um espantoso luxo.

Depois – era uma encosta – e ele, tonto, desceu,
Desviando um filete incendiado, que deu

Um gemido tão vago, um suspiro tão doce
Que uma ave se ocultou humilhada... e calou-se.

É que o gigante, sempre indômito e revel,
Mandava um fio de água a trêmulo docel

De flores, e ela então, louca, ficou pingando,
Como um pranto a rolar das flores soluçando...

Porém, esta doçura em breve se acabou,
Porque ele, impetuoso, o docel desmanchou,

E avolumando o curso audaz, de lado a lado,
Deu um pulo, entesou o tronco revoltado,

Empolando-se todo em desesperos mil,
Sinuoso e coleante a modo de um réptil,

Cuja cauda sem fim, retorce de tal modo
Que parece arrochar, gemendo, o mundo todo.

As onças a rugir chegam de muito além
Para espiar o duelo e, não vendo ninguém,

Rolam os olhos maus nas órbitas redondas,
Esgueiram-se, e, curvando as patas hediondas,

Vão se agachar atrás das árvores senis,
A cujo tronco adusto, assombradas e vis,

Se colam... À feição de colossais espectros,
Ou desgraçados reis sem tronos de ouro e cetros,

As árvores, tremendo, afilam-se, de pé,
E ante o rio voraz, dizem juntas: – Quem é?

Mas o altivo gigante, escachoando, avança,
Aos barrancos iguais, colérico, se lança,

A separar com fúria as pedras, a torcer
As plantas, a arrancar os troncos com prazer...

E os troncos vão boiando aos tropicais fulgores,
Rebentando-se ainda em preciosas flores

Como ninhos ideais que aos pássaros seduz,
E às falenas gentis, bordadas a ouro e luz,

Que, vendo-os a descer entre olores e roncos,
Adejam de vagar e pousam nesses troncos...

E bifurca-se o rio, ilhas formando aqui,
Um estreito adiante, um lago puro ali...

Mais além se desdobra em monstruosas curvas,
Encrespa ferozmente as grandes águas turvas,

Arranca uma canoa, e a vai levando já,
Por sobre a correnteza, enganadora e má,

Até que ela se afunda, e, como o adeus extremo,
Vê-se após, à flor da água, abandonado – um remo...

Assim o rio, em sua heróica estupidez,
Deixa em tudo um sinal de glória ou de revés...

É o Deus onipotente e eterno destas zonas
Este gênio monstruoso e angélico: – O AMAZONAS,

De que as árvores são esplêndidas galés,
E tem por cortesãs onças e jacarés,

Que empinam a cabeça em meio ao sorvedouro,
Para que o sol os possa aureolar de ouro...

E a terra ama o titã que a fecunda e a destrói,
Como se fora um Deus! Um mártir! Um herói!

Assim, entre o respeito e as orações da mata,
O rio que, ao luar, é uma cobra de prata

E o sol, grande réptil de fogo, ouro e rubins,
Imenso como o céu, reflete-lhe os confins,

E ao chegar no oceano os seus furores dobra...
Ninguém pode domar a enraivecida cobra

Que pula, curveteia, um tal barulho faz,
Que parece trazer consigo satanás.

Mas o Atlântico enorme as fauces escancara
E a cobra, mais furiosa, ao inimigo encara,

Põe-se quase de pé, tomba arrancando uns sons,
Que da angústia e do horror têm os terríveis tons.

Cai soberanamente em cima do oceano,
E esboroa-se após num desespero insano,

Estrondando um rugir que vai de norte a sul...
O mar no inquieto seio ilimitado, azul,

Todo o peso do rio indômito recebe,
E o engole. É um mostro mau que a outro monstro bebe,

Tal um sonho que ainda há pouco era o melhor,
Realizado, desfaz-se ante um sonho maior...


MANGABEIRA, Francisco. Poesias: Hostiário, Tragédia Épica, Últimas Poesias. Rio de Janeiro: Anuário do Brasil, s/d. p.338-345


*
Francisco Mangabeira esteve pela primeira vez no Amazonas em 1901, a convite do governo do Estado do Amazonas, para servir em importantes comissões de saúde nas regiões do rio Juruá, Javary, Madeira, Negro, Purus, etc. Permaneceu na região por mais de um ano, regressando à Bahia em dezembro de 1902, onde ficou pouco tempo, pois retornou ao Amazonas, com destino ao Acre, em abril de 1903, onde irá servir como médico na Revolução Acreana. A Amazônia o impressionou muito. O Rio Amazonas o fascinou sobremaneira, embora tivesse lhe causado certa desilusão quando, pela primeira vez, esteve, por oito dias, viajando pelo rio mar. Esse alumbramento diante da ‘pátria das águas’ fez nascer o poema “O Rio Amazonas”, considerado uma das obras-primas do poeta, e um dos que melhores expressam a sua filiação simbolista. No poema, o Rio Amazonas é praticamente personificado como um indômito titã, lutando incólume com seu percurso, até a grande batalha com o mar, onde dasfaz-se no sonho maior. Grandeza, no entanto, que advém de sua beleza, onde seu “gemido tão vago, (e) um suspiro tão doce” faz até as aves emudecerem. O poema é certamente um dos mais belos que já se escreveu sobre o Rio Amazonas, e está à sua altura, em grandeza e beleza.

* Francisco Mangabeira como médico da revolução acreana, fotografia in Francisco Mangabeira: sonho e aventura, de Paulo Mangabeira-Albernaz.

Postar um comentário