
Mas, dessas imagens, uma que mais gosto está
em “Com a morte na alma”, em que ele descreve a cena de um simples ato de amor de
maneira tão formosa e tão pujante que parece transcender a própria realidade do
ato em si e a própria angústia da existência. Eis o trecho:
<< Pinette deixara a mulher embaixo dele, esmagava-a de encontro à terra, fundia-a à terra, à relva hesitante. Ele mantinha a campina inteira sob o seu ventre; ela o chamava; ia deitar raízes nela pelo ventre, ela era água, mulher, espelho; refletia em toda a superfície o herói virgem das futuras batalhas, o macho, o soldado glorioso e vencedor; a Natureza ofegante, de costas, absolvia-o de todas as derrotas; murmurava: querido, venha, venha. Mas ele queria ser homem até o fim, apoiava-se ao solo com as palmas das mãos e seus braços encurtados pareciam asas, ele erguia a cabeça sobre aquela docilidade densa, queria ser admirado, refletido, desejado por baixo, na sombra, à revelia, negligenciar aquela glória que passava da terra ao corpo como um calor animal, emergir no vazio, na angústia, para pensar: “E depois?” A moça passou o braço no seu pescoço e puxou-o pela nuca. A cabeça mergulhou na glória e no amor, a campina encolheu-se. >> SARTRE, Jean-Paul. Com a morte na Alma [trad. Sérgio Milliet]. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2005. p.174
Além do mais, ler Sartre é travar uma batalha consigo mesmo.
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