sábado, 24 de maio de 2014

O GATO E O PÁSSARO

Jacques Prévert (1900-1977)


Uma cidade escuta desolada
O canto de um pássaro ferido
É o único gato da cidade
E foi o único gato da cidade
Que o devorou pela metade
E o pássaro deixa de cantar
O gato deixa de ronronar
E de lamber o focinho
E a cidade prepara para o pássaro
Funerais maravilhosos
E o gato que foi convidado
Segue o caixãozinho de palha
Em que deitado está o pássaro morto
Levado por uma menina
Que não para de chorar
Se soubesse que você iria sofrer tanto
Lhe diz o gato
Teria comido ele todinho
E depois teria te dito
Que tinha visto ele voar
Voar até o fim do mundo
Lá onde o longe é tão longe
Que de lá não se volta mais
Você teria sofrido menos
Só tristeza e saudades

É preciso nunca fazer as coisas pela metade.


LE CHAT EL L’OISEAU

Un village écoute désolé
Le chant d’un oiseau blessé
C’est le seul oiseau du village
Et c’est le seul chat du village
Qui l’a à moitié dévoré
Et l’oiseau cesse de chanter
Le chat cesse de ronronner
Et de se lécher le museau
Et le village fait à l’oiseau
De merveilleuses funérailles
Et le chat qui est invité
Marche derrière le petit cercueil de paille
Où l’oiseau mort est allongé
Porté par une petite fille
Qui n’arrête pas de pleurer
Si j’avais su que cela te fasse tant de peine
Lui dit le chat
Je l’aurais mangé tout entier
Et puis je t’aurais raconté
Que je l’avais vu s’envoler
S’envoler jusqu’au bout du monde
Là-bas où c’est tellement loin
Que jamais on n’en revient
Tu aurais eu moins de chagrin
Simplement de la tristesse et des regrets

Il ne faut jamais faire les choses à moitié.


PRÉVERT, Jacques. Poemas. Introdução, seleção e tradução de Silviano Santiago. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985. p.24-25

Série FOTO-POEMA












sexta-feira, 23 de maio de 2014

RELIGIÃO E CIÊNCIA

Inês Lacerda Araújo


Uma das mais fundamentais e remotas necessidades da humanidade foi o culto aos deuses, às forças naturais, às manifestações misteriosas. Aos poucos os sacrifícios prestados a tais elementos a fim de restaurar o equilíbrio e apaziguar inimigos, foi sendo alçado a um nível superior, o de um só ser, absoluto, transcendente, todo-poderoso, numa palavra, Deus.

O monoteísmo prevalece na maioria das religiões, e, por sua vez, as religiões se mantêm firmes e influentes, mesmo nas atuais culturas e sociedades. Podem levar a barbarismos como certo "islamismo" radical, caso do grupo terrorista que sequestrou meninas na Nigéria, o Boko Haram, sob o pretexto absurdo de que meninas não podem ir à escola!!!, a guerras, espalhar morte e ódio.

São exceções, pois religiões podem e devem cumprir outras funções, levar à paz, espalhar solidariedade, ajuda humanitária, conforto interior. E esse é o papel esperado das diversas crenças religiosas, fiéis seguem seus preceitos, oram, encontram nos textos sagrados a verdade revelada e por isso mesmo, incontestável.

A fé é uma das dimensões da vida humana, outros produtos culturais não a substituem pois apenas religiões levam ao encontro com o sagrado e o divino, além do humano. Não é preciso provar nada, e sim vivenciar a crença.

Por isso mesmo, não faz sentido algum obrigar alguém a crer e nem impor uma religião. Infelizmente, há muita manipulação e forte indução em certas seitas, mas sempre cabe à pessoa aceitar ou não esse tipo de pressão.

Por todas essas razões, a ciência não pode ser posta no lugar da crença em entes superiores e divinos, muito menos o inverso, crer em vez de conhecer.

Revelação e prova científica são antípodas, inteiramente diversas, uma não pode substituir a outra.

A ciência requer um tipo de conhecimento que, inclusive, não é uniforme, há tipos de ciência, a biológica (Biologia, Medicina), a natural (Física, Química), as ciências humanas e sociais (História, Sociologia), as da comunicação, as da informação, as matemáticas, a Economia. É preciso haver pesquisa, resultados, métodos, verificação, publicidade nos resultados, uma linguagem tradutível por meio de cálculos, símbolos, estatísticas, provas laboratoriais. As ciências progridem e estão em constante mudança. Podem também produzir guerra, morticínio, devastações, como a bomba nuclear, experimentos com vacinas e medicamentos (nazistas com os judeus e laboratórios nos EUA com negros).

A teoria da evolução de Darwin, a teoria da relatividade de Einstein, as concepções de que somos feitos de células, organismos que evoluíram, que somos dotados de um psiquismo, neurônios, sinapses, enfim, que há um universo em expansão e que nosso organismo e nosso cérebro são objeto de pesquisa e que há muito, muito mesmo ainda desconhecido - tudo isso é matéria de ensino, ciência, pesquisa.

Não há impedimento algum e nem incompatibilidade com religião alguma, ensinar princípios, métodos e resultados das ciências, em níveis que acompanham os graus de compreensão dos alunos.

É possível e condizente com a educação, os alunos ficarem cientes de que há tipos de questionamento. Um questionamento sobre nossa origem pode ser respondido por meio de verdade revelada (o professor expõe para a criança ou para o jovem certo tipo de fé ou de religião), e por meio de ciência em constante mudança com novas teorias, com novos instrumentos e novas necessidades sociais e econômicas.

Educar é alargar horizontes, esclarecer, instruir, informar e, principalmente, formar pessoas responsáveis, abertas, livres para pensar e decidir.

Nietzsche em Humano, demasiado humano escreve:
Aforismo 128: Promessas da ciência

“A ciência moderna pretende diminuir a dor tanto quanto possível, uma vida tão longa quanto possível, isto é, um tipo de felicidade eterna, muito modesta, é fato, em comparação com as promessas da religião”.

Essa reflexão, extremamente crítica, infelizmente não é feita nem na escola, nem pelas religiões.


INÊS LACERDA ARAÚJO - filósofa, escritora e professora aposentada da UFPR e PUCPR.

ATO SOLENE MARCARÁ A HOMENAGEM PELO CENTENÁRIO DE J. G. DE ARAÚJO JORGE EM TARAUACÁ

Por requerimento do Deputado Moisés Diniz, membro da Academia Acreana de Letras, acontecerá hoje no Teatro Municipal José Potyguara, às 19:00 h, um Ato Solene em homenagem a um dos mais ilustres tarauacaenses, o escritor J. G. de Araújo Jorge.

A solenidade integrará também o quadro de eventos das comemorações dos 75 anos da Academia Acreana de Letras, que, na ocasião, proclamará 2014 como o ano do poeta Araújo Jorge.



> Com informações de 
R. Palazzo (Tarauaca Notícias)

quinta-feira, 22 de maio de 2014

ACORDA TARAUACÁ

Isaac Melo


Os blogueiros de Tarauacá estão muito ocupados em divulgar notícias importantes, tais como futebol, baladas, proezas do governo, etc. ou quando não, reproduzir um besteirol de inutilidades.

Sobre o centenário do poeta J.G. de Araújo Jorge, com exceção honrosa do Tarauacá Notícias, nenhuma outra mídia local achou relevante o acontecimento. Até o mais acessado blog da região, o blog do Accioly, se dignou a reproduzir apenas uma pequena notícia. E foi tudo.

Espanta-me esse indiferentismo. Certamente ninguém é obrigado a dedicar uma semana à esse tema como fez este blog, nem a admirar o poeta em questão.

Há alguns anos escrevi um texto, “J.G. de Araújo Jorge, o poeta que o Acre esqueceu”, e, hoje, vejo o quanto me equivoquei, porque para esquecer é preciso ter conhecido. O Acre, de modo geral, e Tarauacá, em particular, nunca conheceu a obra do poeta. Modéstia à parte, os únicos exemplares de livros de JG na Biblioteca Pública de Tarauacá existem porque levei alguns. Como a cidade do poeta mais lido do Brasil, sequer contava com um livro do poeta em seu acervo?

O pecado da ignorância não é o ignorar em si, porque, no fundo, somos todos ignorantes, porque não podemos conhecer tudo. O pecado da ignorância é, tendo a possibilidade de conhecer, recusar ou negligenciar o próprio conhecimento.

Reclamamos que a grande mídia manipula, ignora e distorce os fatos e acontecimentos. Mas as pequenas mídias, que poderiam ser um diferencial, se tornam apenas uma cópia do modelo predominante, inclusive, reproduzindo os mesmos tipos de notícias.

Espero que outra história possa começar a ser escrita a partir de agora.

Já é hora de acordar, Tarauacá!

quarta-feira, 21 de maio de 2014

Série HISTÓRIA QUE O ACRE ESCREVEU

PENTA UNIÃO CONJUGAL
José Augusto de Castro e Costa


No princípio do século XX, muitos brasileiros, entre profissionais liberais e outros sem capacitação, decidiram realizar o seu desejo de conhecer a amazônia,  que tanto seduzia seus espíritos aventurosos, a maioria em busca de fugir da seca e de   enriquecimento.

Chegando ao Acre, os solteiros, dentro do possível, procuravam constituir família, de qualquer maneira.

O romantismo literário  já houvera cedido lugar ao realismo e parnasianismo, porém, parecia emanar-se da floresta, como a fragrância, personificando  o xodó na alma dos seringueiros.

Entretanto, logo após a virada do século, a chamada boa sociedade mandava que, para efetuar bom casamento, fosse precedido um pedido verbal ou por delicada cartinha de quem fosse alfabetizado.

Nas cidades de Manaus, Belém, Fortaleza e outras, evidentemente, havia nas livrarias diversos livretos apropriados ao assunto, contendo uma infinidade de modelos, para diferentes gostos.

Bazílio Gomes de Lyra, descendente de um dos acompanhantes da segunda viagem do colonizador acreano João Gabriel de Carvalho e Melo, nascera no seringal Remanso, do coronel Quintiliano Ferreira de Mesquita.

Muito dedicado às atividades do barracão, e caindo na milagrosa simpatia do patrão, crescera e, por iniciativa própria, buscara aprender as primeiras letras e as quatro operações aritméticas, daí vindo a galgar algumas posições de relativo destaque no seringal, como capataz, apontador e auxiliar de guarda-livros.

Acompanhara com absoluto interesse e relativas participações as tentativas brasileiras de recuperação do território acreano, desde a investida, conduzida pelo espanhol Dom Luiz Galvez Rodrigues de Ária até a vitoriosa, comandada por Plácido de Castro.

Talvez cansado do celibato, é possível que Bazílio Gomes de Lyra, evidentemente, andara percebendo a necessidade de uma romântica companhia feminina, já que a mocidade passara a dar-lhe sinais de fechar o ciclo, porém as candidatas em quem seus olhos pousavam, não despertavam-lhe  interesse.

Finalmente, Bazílio sentiu e demonstrou que começara a simpatizar seriamente com a viúva Filomena e, depois de algum tempo do que se chama hoje de paquera, sem rodeios, de maneira mais simples possível, escrevera -lhe umas  maus traçadas linhas:

“......Se acreditais que um ser humano, na situação de solteiro, é igualzinho à metade de uma tesoura que nada pode fazer sem a outra metade, permita-me que eu vos ofereça as minhas simpatias e a minha boa vontade para que possamos “ cortar” do melhor modo possível, o tecido da vida “.

A graciosa Filomena que guardara luto, já havia dezoito meses, de Francisco Alves, com quem estivera casada por apenas 48 dias, por conta de um forte surto epidêmico de beribéri, agravado por uma fatídica picada de serpente surucucu-pico-de-jaca, também andara a procura de um parceiro. Daí dedicar-se inteiramente aos termos daquela carta, lendo-a, relendo-a, matutando, pensando, repensando, para, enfim,  enviar, como resposta, uma linda tesoura dentro de um pequeno, mas muito elegante, estojo.

Imediatamente, Bazílio, entusiasmado, decidira encarar aquela que lhe fixara possível ventura, para agradecer-lhe o simpático efeito de seus galanteios.

Luiz Galvez
Em seguida, Bazílio Gomes de Lyra procurara o então presidente do Acre, Dom Luiz Galvez, que de fato fizera seu casamento com dona Filomena, viúva de Francisco Alves.

Pouco depois, fora Dom Galvez deposto e tendo sido organizado o consulado brasileiro no então território boliviano de Porto Acre, o representante do Cônsul, Joaquim Domingues Carneiro, sob pretexto de inventário, legalizara e casara novamente Filomena e Bazílio.

Quase em seguida, andando em desobriga, o monsenhor Francisco Leite Barbosa fez os dois, Bazílio e Filomena, já casados, casarem outra vez, desta vez sob as bênçãos  do religioso-católico.

Ainda não ficando nisso, estabelecido o domínio boliviano, o respectivo representante, querendo organizar estatística ou estabelecer o regimem de que era delegado, exigiu e conseguiu que Bazílio e sua mulher três vezes, em audiência por si conduzida, fizessem novo contrato.

Já teria sido muito, porém não fora tudo: pela quinta vez, um cônsul brasileiro, Carneiro de Mendonça, buscando um pretexto para atacar o ato quatro vezes repetido, em que figuram Bazílio e Filomena, declarou sem competência o agente consular, Domingues Carneiro, e os fez casar de novo.

Dizendo a igreja que tudo quanto é ligado na terra será ligado no céu, um laço dessa ordem, apertado com cinco nós cegos, parece ter sido ligado até no purgatório.
E quanto Bazílio não deve ter desembolsado pelas cinco vezes em que foi obrigado a casar-se, hein!

O fato é que o casal  acabou saturado, e... cansado, batido, vivido e sofrido nos dias seus, retirou-se  definitivamente  para Lábrea, onde, devidamente documentado, deu divulgação à  mais essa originalidade acreana.

terça-feira, 20 de maio de 2014

PRIMAVERA



PRIMAVERA
J.G. de Araújo Jorge


O teu amor, querida,
fez um dia de primavera
neste começo de outono
que é a minha vida.
E do ramo, de onde as primeiras folhas se soltavam
pálidas, sem cor,
surgiu uma flor imprevista:
o teu amor...
Teu amor chegou assim, como uma coisa que no fundo
se deseja
mas não se espera,
emocionando o coração, neste começo de outono
como um dia de primavera!


POETA JOSÉ GUILHERME DE ARAÚJO JORGE 100 ANOS DE NASCIMENTO (20/05/1914 - 20/05/2014)

segunda-feira, 19 de maio de 2014

DISCURSO DO AMAZONAS

J.G. de Araújo Jorge


Há sempre voluntários, por isso creio no Brasil.
Há sempre boa fé, em todo caso fé, por isso creio no Brasil.
Creio no meu povo.
Largaram o sol, viraram “brabos”, furaram a solidão,
no gaiola, no regatão, na montaria.
Ordenhassem a floresta, e seria o outro branco!
como o leite a escorrer do seio misterioso.

Ouviram o discurso. Seria a fortuna.

E a floresta avançando, como um tanque fantástico,
e a invisível metralha da malária,
– garça na praia, araras no céu, cadê tempo?

Peito aberto, sem armas, sem defesas,
– terçado e tigelinha, nada mais, –
nem havia comandantes, nem havia trincheiras,
só a imensa solidão irremediável
se retirada.

Não era discurso. Era traição.
Nem houve batalha, nem houve conquista
apenas massacre.

J.G. DE ARAÚJO JORGE: A OBRA

01 – 1934 Meu Céu Interior
02 – 1935 Bazar De Ritmos
03 – 1938 Amo!
04 – 1934 Cântico Do Homem Prisioneiro!
05 – 1943 Eterno Motivo
06 – 1945 O Canto Da Terra
07 – 1947 Estrela Da Terra
08 – 1948 Festa de Imagens
09 – 1949 A Outra Face
10 – 1952 Harpa Submersa
11 – 1959 Concerto A 4 Mãos
12 – 1958 A Sós...
13 – 1960 Espera...
14 – 1961 De Mãos Dadas
15 – 1961 Canto A Friburgo
16 – 1964 Cantiga Do Só
17 – 1965 Quatro Damas
18 – 1966 Mensagem 1960 (Coleção Trovadores Brasileiros)
20 – 1964 Cantigas De Menino Grande: 100 Trovas
21 – 1964 Trevos De Quatro Versos (Trovas)
22 – 1969 O Poder Da Flor
23 – 1942 Um Besouro Contra A Vidraça (Romance)
24 – 1961 Brasil, Com Letra Minúscula (ensaio)
25 – 1939 Poesias (Coletâneas)
26 – 1947 Poemas De Amor (Coletâneas)
27 – 1948 Antologia Da Nova Poesia Brasileira
28 – 1961 Meus Sonetos De Amor (Coletâneas)
29 – 1961 Poemas Do Amor Ardente (Coletâneas)
30 – 1963 Os Mais Belos Sonetos Que O Amor Inspirou
31 – 1964 Amor Vário: Antologia Lírica
32 – 1966 Os Mais Belos Sonetos Que O Amor Inspirou
33 – 1969 No Mundo Da Poesia (Crônicas)
34 – 1970 Mais Belos Sonetos Que O Amor Inspirou
35 – 1981 O Poeta Na Praça (Coletâneas)
36 – 1986 Tempo Será (Coletânea)

domingo, 18 de maio de 2014

NOTURNO Nº 2



NOTURNO Nº 2
J.G. de Araújo Jorge


Estás no pensamento,
fixa, presa,
como a estrela no céu
como a nudez da beleza
sob um véu...

Estás no pensamento,
como a espuma na vaga...
Em vão o vai e vem do mar:
ela nunca apaga...

Estás no pensamento
como, na estória, o tema;
como a palavra, no poema;
como o sopro, no vento;
como a música no instrumento;

como o marulho no rio;
como a chama no pavio;
ou o pêndulo, no movimento...

Estás no meu pensamento
como a tatuagem na epiderme;
como a forma na escultura;
como o ritmo no “ballet”...
Como no espírito inerme
a amargura
ou a fé...

Estás no meu pensamento
como o som
na corda distendida;
como, na bússola, o Norte;
como a esperança, na vida;
como na Vida
a Morte!


~ www.jgaraujo.com.br ~

sábado, 17 de maio de 2014

O RESTO É SILÊNCIO



O RESTO É SILÊNCIO
J.G. de Araújo Jorge


E então ficamos os dois em silêncio, tão quietos
como dois pássaros na sombra, recolhidos
ao mesmo ninho,
como dois caminhos na noite, dois caminhos
que se juntam
num mesmo caminho...

Já não ouso... já não coras...
E o silêncio é tão nosso, e a quietude tamanha
que qualquer palavra bateria estranha
como um viajante, altas horas...

Nada há mais a dizer, depois que as próprias mãos
silenciaram seus carinhos...
Estamos um no outro
como se estivéssemos sozinhos...


quinta-feira, 15 de maio de 2014

ACADEMIA ACREANA DE LETRAS ORGANIZA CENTENÁRIO DE J.G. DE ARAÚJO JORGE


Dia 20 de maio de 1914, na então Vila Seabra, às 23:30 h, nascia José Guilherme de Araújo Jorge, o filho primogênito do então juiz municipal Salvador Augusto de Araújo Jorge e Zilda Tinoco, aquele natural de Alagoas, esta do Rio de Janeiro. Em comemoração ao centenário de nascimento do poeta, a Academia Acreana de Letras prepara uma série de atividades que envolverão a cidade em que JG nasceu, Tarauacá, e a cidade onde fez os primeiros estudos, a capital, Rio Branco.

Na Academia Acreana de Letras JG é fundador da Cadeira Nº 24, onde ingressou em Assembleia realizada no Rio de Janeiro, e registrada oficialmente em Ata da Assembleia de reorganização do Sodalício realizada em Rio Branco no dia 26 de dezembro de 1943, tendo Olinda Batista Assmar como sucessora atual, e como patrono, o poeta baiano, autor da letra do hino acreano, Francisco Mangabeira.

As homenagens a JG envolverão declamações de poema nos mais variados meios de comunicação, divulgação da obra do poeta ao público acreano, visita às escolas, entre outras atividades, que estão sendo definidas por ambas as comissões (Tarauacá e Rio Branco) organizadoras do evento, conforme nos informou o poeta Clodomir Monteiro, presidente da AAL.

Esta página dedicar-se-á a divulgar fatos da obra e da vida do poeta durante esses dias. E informará sobre a programação que desenvolver-se-á em Tarauacá e Rio Branco.

OS VERSOS QUE TE DOU

J.G. de Araújo Jorge (1914-1987)


Ouve estes versos que te dou, eu
os fiz hoje que sinto o coração contente
enquanto teu amor for meu somente,
– eu farei versos... e serei feliz...

E hei de fazê-los pela vida afora,
versos de sonho e de amor, e hei depois
relembrar o passado de nós dois...
– esse passado que começa agora...

Estes versos repletos de ternura são
versos meus, mas que são teus, também...
Sozinha, hás de escutá-los – sem ninguém
que possa perturbar vossa ventura...
............................................................................................

Quando o tempo branquear os teus cabelos
hás de um dia mais tarde, revivê-los nas
lembranças que a vida não desfez...

E ao lê-los – com saudade, em tua dor...
– hás de rever, chorando, o nosso amor...
– hás de lembrar, também, de quem os fez.

Se nesse tempo eu já tiver partido,
e outros versos quiseres, – teu pedido
deixa ao lado da cruz para onde eu vou...

Quando lá, novamente, então, tu fores,
pode colher do chão todas as flores, pois
são os versos de amor que ainda te dou!...


JORGE, J.G. de Araújo. Os mais belos poemas que o amor inspirou (1). São Paulo: Theor, 1970. p.60-61

terça-feira, 13 de maio de 2014

QUEM TEM MEDO DE LEILA JALUL? (final)

Vássia Silveira
Exercício no 3 (Leila Jalul)
(Para ler a primeira parte da entrevista clique aqui.)

E a literatura enquanto escrita, como e quando ela entrou na sua vida?

No livro Coisas de Mulher eu contei sobre viver enlatada na burocracia e entalada ao lado do Marmo. Por toda uma vida escrevi despachos, pareceres, ofícios e memorandos. Quando separei do Marmo e quebrei a perna em oito lugares, fiquei de cama e aproveitei para chamar a vida à tona.

Foi quando comecei a ensaiar as primeiras letras queridas. Tudo muito simples e eivado de contradições.  Decidi dar uma voltinha na infância e foi ai que começou a minha vida de artista. Um dia, Elson (Martins), Toinho Alves e Altino Machado foram comer meu rabo no tucupi e foi quando falei que tinha uns textos guardados. Altino já tinha o blog. Eu nada sabia de computador. De Olivette e Remington, sabia tudo.

Para mandar o primeiro texto foi uma novela. Fui xingada e execrada. Altino me chamava de burra! Depois o Elson também gostou. Outros gostaram. E foi assim. Foi assim que nasceu Suindara.

Isso foi em que ano, Leila?

A realidade dos fatos é uma: Marmo sofreu até conseguir separar de mim. Hoje entendo isso. Não foi nada fácil. O ano de ensaio da separação foi 1993. O da separação propriamente dita foi 1995, começo de 95. Neste mesmo ano lancei Coisas de Mulher. Eu já sentia necessidade de escrever. Morri muitas vezes para dar vida ao Marmo. Ele era pesadão. E negro! É difícil ser negro, é difícil ser pobre. Ser pobre e negro!

Ouvi coisas aí no Acre que não me permito lembrar. Muitos amigos meus não entendiam o meu vigor casado com o peso do Antonio. Mas se quiser ser honesta, decente e falar de amor de forma clara e limpa, digo: Marmo foi o único amor que tive na vida. Pena que ele não sabia disso. Senão... (teria corrido atrás de outro rabo de saia bem antes!)

Voltamos pra estaca zero? Ao início?

Não, acho que voltamos aos amores... Até que ponto você acredita que o amor (e mais ainda sua ausência) é alimento para a literatura?

Você conhece algum poeta alegre e saltitante? Se a dor ensina a gemer...

Sou chegada aos parnasianos. Aos românticos. Aos viscerais. Gosto de Augusto dos Anjos. Agora mesmo vou te mostrar a cobra e o pau de um dos meus poemas baseados nos simbolistas. Aguarde. É cheio de aliterações e de dor.

Masocação
ah! como eu adoro uma calamidade pública…
como eu escolho emergir pro fundo
e brincar na lama
e amamentar a dor
ah! como eu adoro!
banhar-me nas minhas próprias lavas,
chicotear-me, atar-me com minhas próprias tripas…
ah! como eu adoro!
invocar espíritos cancerosos para chorar
e é tão fácil!
vou nas gavetas e reavivo o tempo da tuberculose
arranco o Cruz e Souza das cavernas
é como se vivesse nas ruelas de N. Sra. do Desterro, hoje Florianópolis.
ah! como eu adoro!
fazer aliteração com os sons da minha hemoptise
de vermelho cardeal,
de emitir vagidos,
ah! como eu adoro!
fazer bandeiras com tiras da minha pele
que eu mesma retiro e seco ao sol,
com o sal por mim retido
esfrangalhar a alma, fritá-la em alho e óleo
ah! como eu adoro!
me enterrar torrando na quentura do fogo
que acendi
que me cozinha viva
ah! como eu adoro!
deixar cair uma mosca em minha sopa!
e ser a mosca no meu quarto
azumbizar!

Você tinha falado antes que morreu muitas vezes para dar vida ao Marmo. Como era esse "morrer"?

Depois de nossa ida para São Paulo ele foi trabalhar na Globo. Deixei de ser a Leila para ser uma brega do Acre casada com o Marmo globeleza. Para arrumar a vida a dois perdi muito da espontaneidade. E da vergonha, também! A Globo, o ambiente da Globo, numa cidade do interior paulista,  mudou a personalidade do rapaz. Eu vi e senti as coisas assim. Ele deve ter a versão dele.

Como vocês se conheceram?

Conheci o Marmo em 69. Ele foi para o Acre junto com o Sílvio Martinello, cumprir um expurgo. Ambos eram seminaristas (frades) e escreveram um artigo com uma imagem de Jesus atrás das grades. O título do artigo era O Procurado. Essa é a história que sei. A que gravei na mente.

No Acre, continuaram freis e faziam o programa da Ave Maria na Rádio Difusora, acho. Eu, na época, fazia parte de um grupo de jovens sob o comando do Clodovis Boff, primo do Leonardo (Boff). As reuniões dos jovens aconteciam na residência dos padres, no segundo piso do Colégio Meta e numa saleta de uma igrejinha que derrubaram. Havia muito mais que isso e muitas outras pessoas conhecidas, mas preciso resumir.

Foi através desse grupo de jovens que conheci o meu primeiro marido, um alemão de boa índole. Com ele namorei e casei. Ele trabalhava como monitor do Senai e também morava na casa dos padres.

De 69 até 77, 78, convivi com o Marmo como “maninhos”! Ele ficava no Acre, ficava em São Paulo... Nos correspondíamos, enfim.

Em 77, 78, não lembro ao certo, já separada, Marmo foi à minha casa e... rolou! Ele já não era mais frei. Era homem. Só homem!

Ah, então você teve um casamento anterior?

Sim, casei com o alemão que dava aulas de marcenaria na oficina dos padres. Um homem bom. Casei de papel passado. Vivi apenas quatro anos com ele. Viramos amigos. Também sou "amiguinha" do Marmo. Com reservas, mas sou.

E como era o nome desse pastor alemão?

Altir Bretz. É o pai do Eulen. Até pouco tempo atrás eu o via. Ele sempre visitava o filho na Bahia.

Como é ser amiga, com reservas, do grande amor?

Por ter perdoado a falta de lealdade. O fato do seu homem arranjar e desejar uma nova parceira, é bastante comum. E não é caso de vida ou morte. Mas que avise a idiota que lhe queria bem. Foi esse o grande pecado do Marmo: deslealdade. Ele viveu vida dupla por cinco anos.

Não posso falar de fidelidade. Isso é outro departamento! Bastava que tivesse sido leal. Como na música da Nora Ney, eu sairia pela porta por onde entrei. Mas uma coisa é certa: se Marmo me fez mal, também devo ter feito muito mal a ele.

O importante é ser passado. É ter passado. É estar aliviada.

Leila, quando eu voltei para o Acre, em 1999, você parecia estar vivendo um autoexílio. Era isso mesmo?

Sim. E nele continuo. As decepções me fizeram arredia. Ganhei de presente uma síndrome do pânico e minha vida desandou.

Agora sei que ainda tenho o pânico, mas decidi que ele não me tem. Desmamei do Rivotril e dispensei os psicólogos e psiquiatras. De l993 a 2012... Chega, não é?

Minha terapia é escrever. Como disse alguém aí do Acre, escrever é distribuir abraços. No meu caso, escrever é tirar espinhos do peito. Tiro do meu e enfio no dos outros.

A palavra, então, ocupa papel importante na sua vida...

A palavra, a latinha e o cigarro. Ainda não tive vergonha para abandonar o vício. Apenas reduzi. Também reduzi as latinhas. As palavras podem correr frouxas! Não têm efeitos colaterais.

Como é seu processo de criação?

Não tenho processo. Tenho estalidos. Às vezes lembro de uma música, ou de uma pessoa, ou de um caso e anoto.

Sou uma pessoa descuidada com a escrita. Preciso cuidar das vírgulas. Preciso não cansar o leitor. Sei que meus livros (já estou preparando o sétimo) jamais despertarão o interesse dos “grandes” editores. Nem penso em venda. Estou sob exame de uma editora que tem nome de gigante. E que vai ser gigante. Vamos ver o que acontecerá.

Quando decidi sistematizar o que escrevo e colocar em livros, acredite, foi por puro deleite. Talvez queira que meus netos saibam quem foi a avó deles.

Acho que é isso.  Estou pensando em dar uma parada em publicar nos sites e blogs. Tenho algumas ideias para me aventurar num romance. Já tenho até o título: A Cornuda do São Francisco. Bem sugestivo, não? É que eu morava no Bairro São Francisco.

O que é um bom conto para você?
Leila em sua primeira comunhão,
na Igreja São Sebastião,
em 20/04/1956 (arquivo pessoal)

É o que os outros escrevem!

Gosto dos contos que deixam coisas em suspenso. Mas tenho pecado com a obviedade. Gosto de contar coisas que aconteceram. Daí o pecado: as coisas ficam com começo, meio e fim... Se eu soubesse, escreveria contos sem final. O leitor que decidisse. Tem um autor que não lembro agora que não finaliza nada. É como um “cointo" interrompido.

Como você vê a literatura produzida no Acre?

Não tenho lido nada daí. Li o primeiro livro do (Sílvio) Martinello e gostei muito. Não li os outros dois por falta de uma visão decente. Gosto do Marcos Vinicius. É um historiador, eu sei. Não li o Moisés Diniz. Gostaria mesmo de ler um livro escrito pelo Toinho Alves e outro pelo Elson. Talvez fosse bem genuína. Bem acreana.
(Recebo outro e-mail de Leila: Não respondi bem essa pergunta. Acho que feri o Miguel Ferrante, o José Potiguara, a Florentina e outros. Outro dia, lendo o Terras Caídas, vi em alguns textos meus o embalo dos dele - do Potiguara. Posso dizer uma coisa? Prefiro ler coisas mais universais.)

O que faz um bom escritor?

Em primeiro lugar ler, ler muito! Depois, não se achar um bom escritor. Sempre querer melhorar. E essa melhora só acontece se ler muito, escrever muito e sempre achar que não é gênio. Que para ser ruim ainda tem que melhorar muito.

Há autores que dizem escrever para si mesmo. E você, para quem escreve?

Bem, eu continuo achando que escrevo para que meus netos saibam quem foi a avó deles. Escrever para o site do Lima, no entanto, traz um bom retorno para os meus ouvidos. As pessoas dizem gostar. E eu acredito.  Em primeiro lugar, penso que quero deixar algo para os meus netos. Isso que dizer que faço testamento e não literatura. É certo?

Não sei, mas isso me faz pensar: você acredita que a literatura pode ser espelho do que chamamos de “realidade”? Quer dizer, é realmente a Leila Jalul quem fala em seus textos?

É, sou eu mesma. Às vezes pareço estar recebendo procuração de alguém que já se foi... Isso é brincadeira. O que sai no papel sai de mim. Dizendo melhor, o que sai na tela, é fruto da minha realidade.

Alguns textos seus, como o Rosa dos Ventos e o Oleiro Galanteador, ambos de Minhas Vidas Alheias, parecem endossar a ideia de Sartre de que o inferno são os outros...

Parece sim, só que a gente presencia e até vive o inferno dos outros. Eu adoraria ser uma Maristela (personagem de Rosa dos Ventos), acredita nisso? Maristela reagiu. Adoro mulheres que reagem. O caso é verídico e tive que me contorcer inteira para contá-lo. Os personagens são vivos, ainda. Acho que são...

O Oleiro, idem, ele reagiu às imposições da professora louca. O inferno do João José também foi presenciado por mim. O inferno dele foi o meu. Senti na pele o que foi um garoto simples ser execrado publicamente por uma pessoa que não conhecia a realidade em que ele nasceu e viveu. Assumo as dores alheias, ao que parece.

Nesses casos, os personagens tomaram conhecimento dos textos?

Não. Camuflei o suficiente para despistar os acontecidos. Enfeitei o maracá. Deixei morto quem estava vivo e dei vida a quem estava morto. Costumo agir assim. Como também costumo inserir fatos que nunca aconteceram. Ou casar acontecimentos. Tenho um conto que envolve três acontecidos. É a famosa “casadinha” ou o econômico “três em um”. (risos)

Esse camuflar cabe na Luzinete ou não? Fale um pouco dessa personagem...

Não. A Luzinete é tudo verdade. Só que a Luzinete são muitas. E todas elas sabem o que escrevo. Exceto uma: a verdadeira. Mas há poucos fatos sobre ela. A maioria é de Lúcia, Luziene, Lucila e Patrícia. Mas acho bom não revelar o que é de quem.

Tenho uma admiração enorme pelas meninas. A baianada é muito boa de prosa e faz coisas muito engraçadas. São meninas espirituosas até no sofrer.

Outro dia fiquei embaralhada e comecei a confundir as peruas. Contei para a Patrícia sobre um texto que escrevi contando que Luzinete caiu dentro de uma sepultura e até pisou na alça do caixão. Não havia sido a Luzinete e sim, a própria Patrícia! Ainda hoje, lendo a boneca que o André está preparando, percebi que faço confusão entre as protagonistas.

Estive com muita vontade de acabar com a Luzinete. Criar um acidente fatal e fazê-la desaparecer da minha vida. Mas desisti de matá-la. Como crônica, para quando falta assunto, ela é perfeita.

Em que situação você chegou a pensar em matá-la?

Quando começou a minha confusão mental, pensei num acidente de carro. Vi que seria mórbido demais. Pensei numa despedida por mudança de cidade, bem mais tranquilo. Mas acontece que as Luzinetes principais que são a Patrícia e a Luziene estão todos os dias aqui em casa e desde que aqui cheguei.  Já lá se vão quase cinco anos. É na minha cozinha que acontecem as aulas de culinária e onde se joga conversa fora. Patrícia toma conta de mim como se eu fosse a mãe dela. Nos meus dias de desespero ela chora junto, quando fiquei hospitalizada ela esteve junta.

O livro de Luzinete, a bem da verdade, ficou como o nascer e o crescer de uma amizade que começou de forma torta.

Patrícia não sabia ler uma letra. Eu ficava com medo de tomar qualquer medicamento que ela me entregava. De conversa em conversa, incentivei-a a estudar e hoje, para minha alegria, ela está no que corresponde à antiga quarta série do ensino fundamental. Sua vida modificou completamente. E a da família, também. Ela batia muito nas crianças (4) e, de conversa em conversa, não levanta mais a mão para bater. O marido tem vitiligo. Expliquei para ela sobre a doença e hoje, graças a ela, não existe mais a vergonha que ele tinha de fazer sexo sem estar vestido dos pés à cabeça.

Há uma troca, entende? Não dá para pensar em fazê-la deixar de existir. Meu grande pecado foi juntar um monte de Luzinete num livro só. Ainda assim, consegui (os textos começaram com um propósito e o livro construiu outro.)

Você continua pintando?

Que nada! Furaram meus óios! Fiz uma cirurgia que não deu certo. Todo o humor vítreo do meu olho vazou e perdi um tanto de visão. Estou aguardando um momento para operar a outra vista (o estepe). Preciso de uma clínica e de um médico de alta especialização.

Mas minha pintura era medíocre demais, não me faz falta. Escrevo um pouco melhor do que pinto. Meu forte, no entanto, é o fogão!  E minha missão agora é acabar com a formatação do Luzinete e entrar na correção dos novos textos para o novo livro. Também de contos e mais aprimorado.

O que você anda cozinhando no seu fogão?

Comida acreana: feijão com maxixe, couve, quiabo, jerimum e jabá e rabada no tucupi. Também faço uns vatapás e outras comidinhas baianas. E comida síria, minha especialidade maior.

Além do Luzinete você está organizando outro livro? Para quando?

Sim. André estará aqui em casa até o dia 10 de julho para tocarmos o novo empreendimento. Este, ainda sem título, será prefaciado por Henrique Silvestre.

São trinta e poucos contos. Selecionaremos uns 25 ou mais um pouco. É que não parei de produzir.

Durante a estadia dele aqui arrumaremos o Minhas Vidas Alheias que ficou com uns defeitos na formatação. Logo após revisaremos os novos escritos. Em minha opinião, alguns textos são bem melhores do que os que se encontram no Minhas Vidas. Afinal, as mães acham seus filhos bonitos...

Na fé em Deus, este ano, parirei Luzinete e o outro.

(Antes de enviar outra pergunta, recebo de Leila uma nova mensagem: Parece produção em massa, não é? Acontece que tenho motivos de ter pressa. Sei lá até quando me será permitido produzir!)

Como é sua parceria com o André?

Nem sei explicar direito. É uma relação de amor e ódio. De concreto, ele é meu revisor e meu crítico. E cuida do visual do produto final. Escolhe capas, etc e tal.

Nosso momento mais conflituoso é na hora da escolha do nome do livro: É guerra!

O que eu queria, de verdade, era casar com ele. Mas... Ele já é casado.

Você disse, no começo, que o Acre foi seu lar e seu cárcere. E hoje, o que é o Acre pra você?

Sim, o Acre foi meu lar e meu cárcere. Aí nasci. Nasci ao lado do Instituto São José, quando ele nem existia. Bem na entradinha do bairro das meretrizes sem luxo.

Enquanto vovô esteve vivo, tudo ia de vento em “polpa”. Era um lugar, meio que mato, meio que centro da cidade. Cobras, macacos, lagartos, aranhas venenosas, formigas tucandeiras e outros animais sem grande significado de peçonha adoravam perturbar meu sono. E o calor debaixo do mosquiteiro de filó, hein? Tudo mórbido demais! O clima do Acre é mórbido.

Do lado bom, a mesa farta, a vida em família, os teatrinhos e as danças domingueiras para agradar as vistas do velho Ibrahim e da velha Otília. Depois tinha a loja cheia, pequena no tamanho e grande para os meus olhos. Tinha do charque e do querosene à renda francesa e aos sapatos de luxo da época. A vitrine de perfumes da Coty e as caixinhas musicais onde pequenas bailarinas saracoteavam ao som do “Il lago di Como” e “Pour Elise”. E tinha o principal, o elemento humano: os fregueses.

Foi ali, naquele ambiente, que conheci o Mestre Irineu Serra, o filho de escravos Teodorico Francisco do Sacramento, a negra Eugênia e outros pretos velhos de grande valia e bondade. Também, ali, conheci o velho Montenegro, que ainda tem muitos parentes circulando “pelaí”.

Morreu vovô, morreram os seringais, morreu a infância e começou a hora de botar meu bloco na rua. Ao trabalho, pois!

Tenho vontade de contar detalhes. Isso daria um texto de muitas laudas. Contar do meu Acre, do que foi ter sido brasileira por opção daria direito a ser demitida pelo editor chefe do meu jornal. E por justa causa! A prolixidade não é mais meu forte. É que o tempo “ruge”. Poderia escrever um livro, mas, em respeito aos que morreram e à cadeia hereditária que formaram e ainda circula por aí, melhor deixar de lado.

E foi na fase adulta que o Acre virou prisão. Meu desejo era estudar e alçar voo. Voos longos, distante de empregos públicos, de preferência. Embora deva tudo ao Acre e saber que o Acre não me deve nada, essa é pior parte da história de qualquer um que viva nessa dependência. Mamar nas tetas da grande vaca, como pensam alguns (muitos), não alimenta. Ao contrário, adoece.

Um ilustre nome da área trabalhista, depois de ler minha monografia, perguntou-me, em particular, o que estava fazendo no Acre. Dei calado por resposta. Mesmo insatisfeita, sempre soube dos meus vínculos e das razões de estar onde estive e dos porquês de ter debandado. Tudo tem sua hora. Hoje, pode parecer besteira, prefiro crer que minha estrada não foi traçada só por mim.

O mundo diminuiu de tamanho, você sabe disso. As distâncias encurtaram. Estar na Europa, nos Estados Unidos ou nos Emirados Árabes deixou de ser viagem e virou deslocamento. Tudo é “bem ali”!  E “baratim, baratim”! Nem mais desperta tesão. Pelo menos em mim, não!  Basta uma ou duas vezes, no máximo! Já fartei, pois!

O Acre de hoje, para mim, é o único lugar que está longe. Muuuito longe! Embora digam que “longe é um lugar que não existe”.