quarta-feira, 21 de maio de 2014

Série HISTÓRIA QUE O ACRE ESCREVEU

PENTA UNIÃO CONJUGAL
José Augusto de Castro e Costa


No princípio do século XX, muitos brasileiros, entre profissionais liberais e outros sem capacitação, decidiram realizar o seu desejo de conhecer a amazônia,  que tanto seduzia seus espíritos aventurosos, a maioria em busca de fugir da seca e de   enriquecimento.

Chegando ao Acre, os solteiros, dentro do possível, procuravam constituir família, de qualquer maneira.

O romantismo literário  já houvera cedido lugar ao realismo e parnasianismo, porém, parecia emanar-se da floresta, como a fragrância, personificando  o xodó na alma dos seringueiros.

Entretanto, logo após a virada do século, a chamada boa sociedade mandava que, para efetuar bom casamento, fosse precedido um pedido verbal ou por delicada cartinha de quem fosse alfabetizado.

Nas cidades de Manaus, Belém, Fortaleza e outras, evidentemente, havia nas livrarias diversos livretos apropriados ao assunto, contendo uma infinidade de modelos, para diferentes gostos.

Bazílio Gomes de Lyra, descendente de um dos acompanhantes da segunda viagem do colonizador acreano João Gabriel de Carvalho e Melo, nascera no seringal Remanso, do coronel Quintiliano Ferreira de Mesquita.

Muito dedicado às atividades do barracão, e caindo na milagrosa simpatia do patrão, crescera e, por iniciativa própria, buscara aprender as primeiras letras e as quatro operações aritméticas, daí vindo a galgar algumas posições de relativo destaque no seringal, como capataz, apontador e auxiliar de guarda-livros.

Acompanhara com absoluto interesse e relativas participações as tentativas brasileiras de recuperação do território acreano, desde a investida, conduzida pelo espanhol Dom Luiz Galvez Rodrigues de Ária até a vitoriosa, comandada por Plácido de Castro.

Talvez cansado do celibato, é possível que Bazílio Gomes de Lyra, evidentemente, andara percebendo a necessidade de uma romântica companhia feminina, já que a mocidade passara a dar-lhe sinais de fechar o ciclo, porém as candidatas em quem seus olhos pousavam, não despertavam-lhe  interesse.

Finalmente, Bazílio sentiu e demonstrou que começara a simpatizar seriamente com a viúva Filomena e, depois de algum tempo do que se chama hoje de paquera, sem rodeios, de maneira mais simples possível, escrevera -lhe umas  maus traçadas linhas:

“......Se acreditais que um ser humano, na situação de solteiro, é igualzinho à metade de uma tesoura que nada pode fazer sem a outra metade, permita-me que eu vos ofereça as minhas simpatias e a minha boa vontade para que possamos “ cortar” do melhor modo possível, o tecido da vida “.

A graciosa Filomena que guardara luto, já havia dezoito meses, de Francisco Alves, com quem estivera casada por apenas 48 dias, por conta de um forte surto epidêmico de beribéri, agravado por uma fatídica picada de serpente surucucu-pico-de-jaca, também andara a procura de um parceiro. Daí dedicar-se inteiramente aos termos daquela carta, lendo-a, relendo-a, matutando, pensando, repensando, para, enfim,  enviar, como resposta, uma linda tesoura dentro de um pequeno, mas muito elegante, estojo.

Imediatamente, Bazílio, entusiasmado, decidira encarar aquela que lhe fixara possível ventura, para agradecer-lhe o simpático efeito de seus galanteios.

Luiz Galvez
Em seguida, Bazílio Gomes de Lyra procurara o então presidente do Acre, Dom Luiz Galvez, que de fato fizera seu casamento com dona Filomena, viúva de Francisco Alves.

Pouco depois, fora Dom Galvez deposto e tendo sido organizado o consulado brasileiro no então território boliviano de Porto Acre, o representante do Cônsul, Joaquim Domingues Carneiro, sob pretexto de inventário, legalizara e casara novamente Filomena e Bazílio.

Quase em seguida, andando em desobriga, o monsenhor Francisco Leite Barbosa fez os dois, Bazílio e Filomena, já casados, casarem outra vez, desta vez sob as bênçãos  do religioso-católico.

Ainda não ficando nisso, estabelecido o domínio boliviano, o respectivo representante, querendo organizar estatística ou estabelecer o regimem de que era delegado, exigiu e conseguiu que Bazílio e sua mulher três vezes, em audiência por si conduzida, fizessem novo contrato.

Já teria sido muito, porém não fora tudo: pela quinta vez, um cônsul brasileiro, Carneiro de Mendonça, buscando um pretexto para atacar o ato quatro vezes repetido, em que figuram Bazílio e Filomena, declarou sem competência o agente consular, Domingues Carneiro, e os fez casar de novo.

Dizendo a igreja que tudo quanto é ligado na terra será ligado no céu, um laço dessa ordem, apertado com cinco nós cegos, parece ter sido ligado até no purgatório.
E quanto Bazílio não deve ter desembolsado pelas cinco vezes em que foi obrigado a casar-se, hein!

O fato é que o casal  acabou saturado, e... cansado, batido, vivido e sofrido nos dias seus, retirou-se  definitivamente  para Lábrea, onde, devidamente documentado, deu divulgação à  mais essa originalidade acreana.
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