sábado, 10 de maio de 2014

MISSA NEGRA

Guilherme de Almeida (1890-1969)


A noite é gótica: é uma igreja.
Dom Pôr do sol, o sacristão
tuberculoso, que gagueja
numa hemoptise uma oração,
vai acendendo aos poucos, pelas
naves escuras, as estrelas.

Ao pé das nuvens, os ciprestes
põem-se a fazer genuflexões.
As nuvens são, com suas vestes
roxas, bordadas de galões,
grandes imagens singulares
sobre o mistério dos altares.

O vento é um órgão. E o repuxo,
um báculo de alto cristal...
Lento, arrastando um grande luxo,
velho, talar, processional,
vem Monsenhor Silêncio... E há um grave,
longo respeito em cada nave...

Passa um incenso no ar violeta
do parque. E, num caramanchão,
o luar recorta uma silhueta:
és tu, minha alva devoção!
Santa, que trazes sobre a tua
cabeça a auréola da lua...


ALMEIDA, Guilherme de. Encantamento, Acaso, Você: seguidos dos haicais completos. Campinas: Unicamp, 2002. p.69-70
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