sexta-feira, 9 de maio de 2014

QUEM TEM MEDO DE LEILA JALUL?

Vássia Silveira


A ideia veio em uma sexta-feira de friagem, em Rio Branco. Eu havia acabado de receber um e-mail de Leila avisando que Luzinete tinha virado livro. Daí ao convite para a entrevista e a resposta positiva da autora, foi um pulo. Mas como entrevistá-la à distância – sem correr o risco de perder sua intensidade ou espontaneidade?

Encontrei a resposta no conta-gotas do remédio à minha frente: era preciso ir devagar, sentir aos poucos as palavras e os silêncios dessa escritora acreana que, aos 64 anos e do alto de seu apartamento em uma cidade baiana, nos brinda com textos cada vez mais inteligentes e ácidos.

Propus-lhe, então, enviar apenas uma pergunta: Quem é Leila Jalul? E foi a partir da resposta dada que eu e Leila fomos construindo, no ciberespaço, a prosa que resultou nesta entrevista.  Uma experiência iniciada no dia 8 de junho e encerrada, quase um mês depois, com um saldo de 69 e-mails, oitenta cigarros e alguns goles de cerveja.
Leila Jalul, escritora, pintora e inquieta (Foto: arquivo pessoal)

Quem é Leila Jalul?

Esta eu respondo por música: “Sou como um resto de bebida/ Que alguém jogou fora/E agora, farto de mim, me esqueceu/ Eu fui mais uma taça desprezada/ Quis ser tudo e não fui nada/Ninguém é mais triste do que eu”.

Isso me fez pensar em outra composição cantada por Nora Rey: “Se o caminho da rua ainda é a porta/ Se você não me suporta/Eu sei sair por onde entrei”. Nos dois casos, Leila, o que ou quem é esse outro que despreza?

No meu caso, sou eu mesma. Vou te contar uma do Marmo (Antonio Marmo, ex-marido de Leila): Ele estava procurando emprego e bateu na redação de um jornaleco, pior do que esses daí, e foi direto para a sala de entrevista. Entrou uma moça, que se apresentou como psicóloga, com uma página em branco e fez a seguinte pergunta, com recomendação para ser respondida em apenas vinte linhas: Quem sou eu?
Marmo, prepotente como ele só, tasca a resposta, mais ou menos assim: “Você, segundo me foi comunicado, é uma psicóloga do setor de Recursos Humanos e está aqui para entrevistar os que aqui estamos em busca de uma vaga de jornalista. Sua pergunta me deixou perplexo e digo por quê: Como poderia, em apenas cinco minutos de convivência, dizer quem é você? Do que vejo e sinto, você é uma pessoa extremamente séria e disposta a cumprir seu papel de selecionadora dos candidatos aqui presentes. Fisicamente, com todo o respeito, você é uma mulher bonita e bastante simpática...”
E foi por aí... Saiu da sala e desistiu do emprego.

Você teria feito diferente?

Um pouco pior, talvez!

Já que você tocou no nome do Marmo, como foram ou são os amores de Leila?

Você quer dizer dissabores? Os amores não foram. De bom, de ótimo, há um bem querer enorme pelos netos, Hector e Catarina. Tomara que vingue! Tomara que cresça!
(Logo em seguida recebo uma mensagem de Leila: “Ei, pareço amarga, não? Mas é verdade. E em outro e-mail: “Reformulo: só se tem um grande amor. Quando acabou, acabou. Não há mais que falar de amor”)
Por falar em crescer: eu passei parte da infância frequentando sua casa e a imagem que guardei é a de que era um ambiente criativo, revolucionário, inquieto. Era isso mesmo?
Os tempos eram inquietos. Eu tinha hormônios selvagens. Minha casa era o reflexo disso, do tempo e dos hormônios.

Fale um pouco dessa época...

Havia um acre perdido dentro de um país fudido. Um acre sendo vendido aos pedaços para os "paulistas" – como eram tratados os sulistas, de forma generalizada – e uma trinca de jornalistas dispostos a ganhar uma guerra com um estilingue chamado Varadouro. Um estilingue possante, diga-se. E que cumpriu seu papel. Não fiz parte direta do Varadouro, mas fui, em algumas vezes, a braçal que ajudava na encadernação e levava uns lanchinhos para os “cobras grandes”.
Havia medo, principalmente. Depois havia uma universidade em gestação e muitos brutos no comando. E mais medo. Muito medo. Mas havia, também, uns meninos enjoados e valentões que pensavam grande (e pequeno, também).
Junte-se tudo isso num caldeirão e pense nas borbulhas salpicando água quente para todos os lados. E pense que o fogão, na maioria das vezes, era o lá de casa (você, mesmo criança, entendia tudo. A partir das preocupações do seu pai, entendia e bem!).

Quem eram esses meninos enjoados e valentões?

A começar pelos “oficiais”, Binho e Marina (Marina Silva, ex-senadora e candidata à presidência do Brasil). Havia o Toinho Alves, o chefe dos Libelúdicos. Não vou lembrar o nome de todos, mas o Toinho é bem representativo. O bastante, eu diria!
Vou te contar uma do Toinho: Quando ele era pequeno, numa noite de Natal, ganhou uma roupa de soldado romano. No outro dia, doido para mostrar o presente, vestiu a roupa e foi fazer inveja aos colegas de rua. Quase morreu de raiva! Os meninos da rua estavam todos vestidos de caubóis, com revólveres de espoleta e dizendo: “Mãos ao alto, não se movam!” Tudo no estilo Roy Rogers (Ator estadunidense de faroeste)!
Mas hoje, reflito que aquela roupa de soldado romano, com a reluzente espada e capacete dourado, foi muito importante para a formação do Toinho. Ele jamais atiraria com balas.

Olhando hoje para o passado, no que resultou aquele caldeirão de água quente?

No que deveria resultar: os verdadeiros combatentes, para usar uma palavra da época, continuam coerentes. E pobres! Outros venderam a alma.
Enquanto movimento, o melhor resultado chegou com o reconhecimento de que a floresta é importante. O mundo conheceu a luta do Chico; os "paulistas" aposentaram os chicotes e os troncos.
Na universidade mudaram os esquemas do CCC e do SNI, apareceram novas lideranças e, por um período, ficou parecida com uma Instituição de Ensino Superior de verdade.
Honestamente, minha análise é tão xucra, que me envergonha. Muitas coisas mudaram, isso é certo. Muitas coisas, no entanto, devem ter piorado. O estado, ao que parece, está à mercê dos grupos religiosos...
Sou bastante livre para dizer o que penso, até por não ter religião. Se não bati continência para os milicos, por que bateria para pastores? Acho que o inferno está cheio de milicos danosos, políticos canastrões e de falsos pastores. E de analistas xucros! (risos)
O Acre (e um tanto do Brasil) não sabe o que deve ser um estado laico. Arrisco dizer que o Brasil está equivocado em questão de fé e de política.

Falando em religião, a Marina Silva, que você citou com uma das pessoas que compunha o grupo de jovens enjoados e valentões, hoje faz parte da Igreja Evangélica. Qual sua leitura a respeito?

Veja, Vássia, eu não tenho nada contra religiões. Tenho contra espertalhões, principalmente das igrejinhas e denominações que proliferam nos fundos de quintais e de vinculações e vertentes duvidosas. Tenho tudo contra os exploradores de pessoas ingênuas.
Religião, perfume, roupas, músicas, escritores, maridos, maridas, são escolhas pessoais. Fiquei realmente espantada quando soube que a Marina havia se tornado evangélica. Talvez por deformação de entendimento de minha parte. Fiquei igualmente pasma quando soube que a Jane Villas Boas também havia se convertido. Demorou um tempo para que o meu tico e o meu teco entendessem as razões.
Nesse mesmo espanto, quase estupor, acompanhei a rendição da Baby Consuelo. A louca encontrou Jesus, não é espantoso?
Só que, com o passar do tempo, a conversão de Marina me soou diferente. Todos nós sabemos que ela é sobrevivente dos metais pesados e das cacetadas de malárias que contraiu na sua vida seringueira. E que a ciência aceita a fé como instrumento de cura. Então é isso aí: por questão de foro íntimo, por necessidade, Marina encontrou Jesus e fez com ele um pacto. E está aí, para quem quiser ver.
A prova dos nove, tanto faz ser Marina ou Dilma Rousseff, é não confundir Estado com opções pessoais. Droga, aborto, casamento gay e outras tantas questões não devem e nem podem ser resolvidas à luz da fé pessoal de quem quer que seja. A droga é. O aborto é.

Você é acreana de onde? Fale um pouco de sua família, sua infância.

Sou acreana de Rio Branco. Filha de Zizinha (Azize) e de Manoelzinho Araújo, dois perdidos numa noite suja. (Referência à peça de Plínio Marcos, encenada em 1966)
Vovô Ibrahim era o manda-chuva e vó Otília uma megera adorável. Fui (in) feliz na medida justa. O acre foi meu lar e meu cárcere.
O bonito e o feio, o certo e o errado, enquanto lição, eu aprendi onde nasci e com quem me criou. E ai de quem achar que não foi!

Retrato a carvão de Leila,
feito por Jorge Rivasplata
A referência à peça de Plínio Marcos para retratar seus pais tem algum fundo de verdade? Ou é uma ficção de Leila Jalul?

Não ao pé da letra! Mas tudo a ver. Adoro o Plínio Marcos!
Mamãe era de Umbanda e papai de Quimbanda. As bandas não batiam. Os dois eram filhos de família e se uniram em família. Mas continuaram perdidos numa vida suja.
É uma ficção. Quase! Se houve alguma coisa boa, com certeza, esconderam de mim. Papai era muito sujo! (risos) E muito gente!

E o que isso representou para sua infância? Como era a vida em família, os irmãos, seus medos e sonhos?

Papai era alcoólatra de renomada. Mamãe era triste. Também de renomada.
Papai era jogador e “quengueiro” por vocação... Mamãe era escrava do pai dela.
Não lembro de quase nada do núcleo. Vovô era o grande ditador: ditava normas e cagava regras.
Ao mesmo tempo em que essa parafernália deu medo, também deu desejo de libertação. Fui pai e mãe de meus irmãos mais novos. Ao todo éramos cinco. É que as duas mais velhas não contavam. Papai fugia, voltava e emprenhava mamãe. E nasciam um após outro. Cuidei de todos com certa dose de amor.
Fiquei cansada. Não havia espaço para sonhos. Entrei de sola na vida para alimentar bocas. Não houve retorno. E nem pedi.
De tudo isso sobrou uma constatação: se ninguém morreu de fome, que sejam felizes. Muito felizes. Sempre!
E parece que são.
Não sei avaliar a infância. Nem a adolescência, nem a fase adulta. Estou melhor na velhice. Sozinha e dona de mim.

E como foi em meio a tudo isso, estudar e chegar aonde você chegou?

Foi difícil. Muito difícil...
Aos cinco anos fui para um internato em Sena Madureira. Completei seis anos neste internato e ganhei de presente um copo de leite com Nescau. Mamãe não podia cuidar dos filhos por causa do trabalho escravo na loja de vovô.
Aos 12 anos fui ficar com uma irmã de mamãe que morava em Niterói. Nesta época, vivi terror e preconceito.
Tudo foi lição, entretanto. Aprendi a ser independente: Voltei para o Acre e, com atestado de arrimo de família concedido pelo Dr. Lourival Marques, comecei a trabalhar como aprendiz (de feiticeira).
Tentei estudar num curso noturno e desisti. Só havia contabilidade e eu não tinha habilidade para números e contas a pagar. Só voltei a estudar aos vinte e um anos, já casada e grávida. Fiz um supletivo de vergonha, com aulas presenciais e excelentes professores. Aos vinte e dois entrei no curso de Direito com excelente classificação. No ano seguinte fiz vestibular para o curso de Letras, também com excelente classificação.
Não dei conta de fazer os dois cursos simultaneamente e fiquei só no curso de Direito. Mas não parei por aí. Ainda fiz duas pós-graduações: Administração de Recursos Humanos e Direito do Trabalho. Enquanto estudei, por sorte, fui muito focada e dei conta do recado.

Você falou da loja de seu avô, que loja era e onde ficava?

O comércio do meu avô ficava ali na esquina da Floriano Peixoto com a Ruy Barbosa. Era um comércio de secos e molhados; rendas francesas, calçados, brinquedos, armarinho e tudo em geral. O nome da loja era casa Paraybana, em homenagem à segunda esposa.
 Mamãe era peça-chave do comércio.  Vovô não falava português. Ele conseguiu ser mais preguiçoso que eu. Além de preguiçoso era irascível!

Fala um pouco dessa experiência em Niterói... De que forma você viveu o terror e o preconceito?

Em Niterói convivi com a tia, o tio e dois filhos deles. Fui com a obrigação de ajudar nas tarefas domésticas e estudar. Ajudei e estudei. Mas o tratamento era bastante diferenciado entre nós, meninos.
Havia também uma tia da minha mãe. A mulher era uma louca. As filhas da mulher eram loucas. Fui bastante humilhada por causa do meu pai. Qualquer um se achava no direito de cuspir na minha cara.
As histórias de vida são engraçadas. Há pessoas que se vangloriam e ganham pontos com elas. Até porque despertam piedade. Não é meu caso! Lavei panos de bunda, ouvi impropérios, fui sugada na minha juventude. E daí? Contabilizei tudo de bom e de ruim para buscar a liberdade.

Com quantos anos você voltou para Rio Branco?

Antes de completados os 14 anos. Cheguei pouco antes do Natal e já no dia 27 de dezembro comecei a trabalhar.

Nesta época você tinha os livros como companhia?

Sim. Quando saí da casa da tia fui para o internato do colégio onde estudava (Colégio São José, em Niterói). A biblioteca era enorme. Muitos livros do Monteiro Lobato. A coleção Tesouros da Juventude e mais um tanto de títulos bons. Era um colégio de freiras mineiras. Freiras de Manhuaçu e Manhumirim.
Havia ordem e premiação por méritos. Comecei as minhas atividades tomando conta de uma cadela, a Zoraide. Depois passei para a horta. Depois para a cozinha. Terminei minha vida acadêmica na secretaria do colégio.
Este colégio, o São José, das Sacramentinas de Nossa Senhora foi a minha base educacional. Foi nele, também, que iniciei minha vida política (frustrada). Pertencia ao movimento Juventude Estudantil Católica (JEC). Minha professora de inglês, a Maria Helena, era comunista da hora.

Como leitora, que livros marcaram mais a sua vida?

Tudo marcou. Aprendi a ler. Às vezes não entendia o que lia, mas lia. Devorava livros, esta é a verdade.
Ainda em Niterói fiquei sabendo que mamãe estava passando necessidades. Para voltar para o Acre, creia, mamãe vendeu um fogão esmaltado (movido a carvão). Voltei e comecei a trabalhar. Depois de um tempo fiquei sócia do clube do livro. A estas alturas tinha dinheiro para comprá-los.
Li com ansiedade. Com sofreguidão, diria.  Entre muitos, O Retrato de Dorian Gray (Oscar Wilde), Ulisses (James Joyce). Li Os Miseráveis (Victor Hugo). Li Dante, Tolstóí, Marquês de Sade. Li, li, li. À luz de velas, de lamparina e de candeeiro. Entrei nos livros de bolso. Li Tex, li CorinTellado.
Um dos livros mais marcantes foi a tragédia de Sacco e Vanzetti (contada por Katherine Anne Porter em livro traduzido no Brasil por Sebastião Uchoa Leite). E Crime e Castigo. Para uma delinquente juvenil, nada melhor. Também adorava os latinos: Vargas Llhosa, (Carlos) Fuentes, (Manuel) Scorza e Gabo (Gabriel Garcia Marques). O Clube do Livro era sortidão! Também fui sócia e limpadora de cadeiras do Cineclube do Carlitinho da Núbia. Período de ouro, diria! (continua...)


N.E. Esta entrevista foi realizada em 2012, originalmente para uma revista acreana que segue sendo gestada. Dada a extensão da conversa, ela será publicada em partes no blog (ALMANACRE), de Elson Martins.
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