sexta-feira, 2 de maio de 2014

REPENTES I

Charles Baudelaire (1821-1867)


Ainda que Deus não existisse, a religião não deixaria de ser santa e divina.

Deus é o único ser que para reinar não precisa existir.

O que é criado pelo espírito é mais vivo do que a matéria.

O amor é o gosto da prostituição. Nem há prazer nobre que não possa ligar-se à prostituição.

Num espetáculo, num baile, cada um goza de todos.

Que é a arte? Prostituição.

O prazer de estar nas multidões é uma expressão misteriosa do gozo da multiplicação do número.

Tudo é número. O número está em tudo. O número está no indivíduo. A embriaguez é um número.

O gosto da concentração produtiva deve, num homem maduro, substituir o gosto do desperdício.

O amor pode provir de um sentimento generoso: o gosto da prostituição; não tarda, porém, a corromper-se pelo gosto da propriedade.

O amor quer sair de si, confundir-se com a sua vítima, como o vencedor com o vencido, e, não obstante, conservar privilégios de conquistador.

O rufião, nas suas volúpias, tem alguma coisa, a um só tempo, do anjo e do proprietário. Caridade e ferocidade. São elas até independentes do sexo, da beleza e do gênero animal.

As trevas verdes nas tardes úmidas de primavera.

Imensa profundeza de pensamento nas locuções vulgares, buracos cavados por gerações de formigas.

Anedota do caçador sobre a íntima ligação entre o amor e ferocidade.


BAUDELAIRE, Charles. Meu coração desnudado. Tradução de Aurélio Buarque de Holanda Ferreira. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1981. p.13-14
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