terça-feira, 6 de agosto de 2013

GESTA PRIMITIVA

Leandro Tocantins


Menino acordado pro mundo
no vasto seringal do Acre
(vida acre saudade solidão
minha Mãe chorando rezando
pedindo a todos os santos
regresso a Belém do Pará)
um rio chamado Muru
caxinauá batizou
mandou juntar Tarauacá
mais um de nome Juruá
fez puçanga de água e erva
pajé foi despejar no Amazonas
pedir mulher parindo varão
lutador de cinco rios
não icamiaba guerreira
de peito cortado (coitadinha)
sopro frio encantado
nos mistérios da terra
lá no Espelho da Lua
vou pegar muiraquitã
riscar no vento um pedido
quero amazoninhas nuinhas
bonitinhas indiazinhas
todas elas com peitinhos
cabelo fava de cumaru
levitando sobre as águas
pra brincar de arco e flecha
com menino de seringal
do Acre não tão acre
um pouco doce somente
da doçura da infância


TOCANTINS, Leandro. Cosmoinfância. Rio de Janeiro: Artenova, 1969. p.37

NOTA
Embora Leandro Tocantins (1928-2004) tenha alcançado sua excelência, como escritor, na prosa, ele também foi muito aclamado enquanto poeta. Entre suas obras poéticas, encontra-se: Cosmoinfância (1969); A Memória de Viver (1972); Os silêncios do Canto (1975); Invenção da Floresta (1993, reunião dos três primeiros livros mais Poemas da hora imaginada) e; O aprendiz renascido (1995). Sobre Cosmoinfância, trata-se do depoimento lírico do menino amazônico deslumbrado com o mundo em revelação, e aí revela-se a semente do futuro livro memorialístico Os olhos inocentes (1984), vencedor do Prêmio Oswaldo Orico da Academia Brasileira de Letras.
> A Ilustração é de Poty Lazzarotto, presente em Cosmoinfância.
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