quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

MIRAGEM

Coelho Netto (1864-1934)
(fragmento do romance Miragem)


– Acreditas em Deus, Nazário?

– Eu?! Que pergunta!

– Mas por que me perguntas isso?

– Não sei... Tenho sofrido tanto! Que mal fiz eu? E tu, meu pobre Nazário? E há por aí tanta gente ruim que vive nadando em ventura.

– E sabes lá o que se passa n’alma dessa gente? A felicidade não é o que se vê, rapaz, como o céu não é isso que aí está. Felicidade... Olha esta noite: mais alva que a neve e toda manchada de negro. Quanto mais clara é a luz mais se carregam as sombras. Quem sabe o que se passa no coração desses tais...?! Se houvesse na vida felicidade perfeita, Deus seria injusto e os infelizes teriam razão de revoltar-se contra Ele. Nós sempre nos imaginamos os maiores desgraçados do mundo, do mundo! desse bocadinho de terra em que vivemos. O mundo é tão grande!

Os dias deviam passar de vez levando tudo, tudo! Mas não, deixam ficar bocadinhos e esses bocadinhos crescem, como sementes caídas das árvores, e dão flores tristes e venenosas, como a saudade. Que somos nós? passado. Queres saber? quanto mais peno mais cresço; quanto mais sofro mais me achego à cruz.

Sabes qual é o teu mal? é isso de andares sempre imaginando. Põe-te num alto, bem alto, olha para baixo e tudo te parecerá sereno; desce, e verás as pedras que magoam, os espinhos que ferem, as ondas que afogam, as podridões que tresandam, as maldades da terra e do coração, a vida, enfim. Lá de longe, de onde estavas, vias tudo aqui cor de rosa. Chegaste, aí tens. É assim, meu rapaz. Um parente meu, que esteve em África, contou-me que naqueles sertões de areia anda-se, anda-se dias e dias a fio sem ver água nem sombra. De repente lá surge um bosque de palmeiras. Os que vão morrer de sede dão graças a Deus, aos brados, e galopam para a delícia. É correr, é correr que nem o vento os ganha... E o bosque a fugir diante deles e, quando os coitados chegam ao sítio das verduras, não acham mais que areia e ossadas de outros que morreram da mesma mentira. Isso tem um nome, que me não lembra. Eu chamo-lhe ilusão. Na vida é a mesma coisa: além, sempre o tal bosque, corre-se e que é que se encontra? Tu ainda podes seguir, és moço. Eu... já não tenho olhos para ver ao longe, não me iludo mais: fico onde estou, no meu quieto, até quando Deus quiser. Aqui estás e é o que vês. Tua mãe... tua irmã... Já agora, rapaz, não sei. Salvá-las...? duvido muito! Vai-te embora.


NETTO, Coelho. Obra seleta: volume 1: romances. Rio de Janeiro: Editora José Aguilar, 1958. p.215-217

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