segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

O PRIMEIRO CURSO DE FOUCAULT NO COLLÈGE DE FRANCE

Inês Lacerda Araújo


Chama-se “Leçons sur la Volonté de Savoir”, “Lições sobre a Vontade de Saber”, o curso que começou no dia 09 de dezembro de 1970 e foi até 17 de março de 1971, publicado em 2011 pela Seuil/Gallimard, que eu saiba ainda sem tradução.

Nele Foucault lança as questões que o ocuparam em suas investigações históricas sobre a loucura, a prisão, a sexualidade (sim, ele já estava preocupado com estas últimas bem antes de publicar “Vigiar e Punir” e “História da Sexualidade, Vontade de Saber”, note-se que a noção de vontade de saber é o tema do curso de 1971).

A própria filosofia não lhe fornece instrumento teórico para analisar a vontade de saber, os filósofos, e ele inicia com a metafísica de Aristóteles, sempre se voltaram para o conhecimento, visto como natural, faz parte da natureza humana desejar conhecer, indo da sensação até o conhecimento das causas gerais do cosmo e dos seres. Exceções são Spinoza e, principalmente, Nietzsche. Para este a vontade é o elemento decisivo na busca da verdade, a verdade e o erro, juntamente com o desejo, as lutas, as discórdias, são parte da vida, não pertencem ao conhecimento, nem requerem a unidade de um sujeito pensante e soberano como é o caso dos filósofos de Platão, passando por Descartes, até a fenomenologia no século 20.

Importante a distinção de Foucault entre saber e conhecimento, este sendo “o sistema que permite dar uma unidade prévia, um pertencimento recíproco e uma conaturalidade ao desejo e ao saber”, e “chamaremos saber o que se deve arrancar na exterioridade do conhecimento para nele encontrar o objeto de um querer, o fim de um desejo, o instrumento de uma dominação, o local de uma luta”.

Assim, “Arqueologia do Saber” liga-se ao primeiro curso, que se liga às questões centrais do seu pensamento: como o discurso com pretensão científica (o da medicina, da psiquiatria, da patologia, da sociologia) se insere no sistema penal, que de prescritivo passa a ser investido por uma vontade de verdade. E essa vontade de verdade opera a distinção loucura/desrazão, possui raízes históricas, sua arbitrariedade e modificações em uma série de redes institucionais, isso tudo forma um sistema que influencia outros discursos e outras práticas.

Há relações de dominação engajadas na vontade de verdade, conhecimento surge dessa necessidade, e também saberes, disciplinas e acontecimentos. Como a epistemologia não fornece os instrumentos para essa análise, nem a história da ciência, Foucault os buscou na vontade de saber e suas relações com as formas de conhecimento, em termos teóricos e históricos, com a crucial pergunta de se a vontade de saber dispensa um sujeito fundador ou se ela o reintroduz.

Original e difícil esse caminho, não é o da história do pensamento, nem o da história da cultura, pois estes não chegam a suspeitar de que na história das sociedades, a vontade de saber se articula com processos de luta, violência e dominação. Ao invés de submeter desejo e vontade ao conhecimento, mostrar que no surgimento do conhecimento há desejo, há vontade, que não têm nada a ver com conhecimento, mas com luta, instintos, paixões.
(a ser continuado)


* Inês Lacerda Araújo - Professora de Filosofia durante 40 anos, na UFPR, e nos últimos anos na PUCPR. Atualmente autora de livros sobre Epistemologia, História da Filosofia e Teoria do Conhecimento.
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