terça-feira, 3 de novembro de 2015

SOU FRONTEIRA

Océlio de Medeiros (1917-2008)


Acreana, sou fronteira,
no Noroeste encravada,
seringueira guerrilheira
não mais luto, estou calada.

No lado de cá descaso,
ou me junto, bebo e danço,
no de lá de novo caso,
é só subir o barranco.

A minha irmã é a Bolívia
e o Peru é meu irmão,
mas sou filha da lascívia
e a ambos dou meu coração.

Na fronteira eu tenho ficha,
desde a guerra com meu “guasca”,
com a Bolívia tomo “chicha”,
com o Peru eu bebo “uasca”.

Sob o meu verde colchão,
tenho o peito recoberto,
como terra sou ilusão,
sob o húmus sou deserto.

Meu peito todo riscado,
fui borracha, fui castanha,
nos seringais do passado
minha estória foi façanha.

Sou peito lanhado a faca,
do machado que me corta,
tiram meu couro, sou vaca,
meu sangue o Brasil exporta.

Xapuri, 1942


MEDEIROS, Océlio de. Jamaxi: a poesia do Acre em três tempos. Rio de Janeiro: Arquimedes Edições, 1979. p.310-311
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