quinta-feira, 12 de novembro de 2015

TRÊS POEMAS DE ASTRID CABRAL

RÉQUIEM
Astrid Cabral

Pesado é o coração
do escombro de teus sonhos
e dos mortos que em teus ombros
repousam imortais.
O amor de ontem
é cinza feita chumbo.
Cicatrizes e rugas
lavram a tua carne
de aflições temperada
e a vazante das veias
irriga-se
de subterrâneas lágrimas antigas.


CIRCUNSTÂNCIA-MOR
Astrid Cabral

Não só terra e ar
são teu elemento.
A solidão que te cinge
é a circunstância-mor.
Povoado, o mundo mascara
e te confunde bastante:
família e amigos bordam
com palavras e abraços
a miragem das pontes
a ilusão dos laços.
Mas a tua carapaça
refratária, intacta
não trinca ao toque
de nenhum afago.
És sólido, insólito ovo.
(A vida latejando
recôndita, secreta,
na gema de pedra
que ninguém penetra.)


RITUAL
Astrid Cabral

Todas as tardes
rego as plantas de casa.
Peço perdão às árvores
pelo papel em que planto
palavras de pedra
regadas de pranto.


CABRAL, Astrid. De déu em déu: poemas reunidos (1979/1994). Rio de Janeiro: Sette Letras, 1998. p.28, 39, 239

* ASTRID CABRAL é outro grande nome da poesia brasileira nascida no Amazonas. Possui uma ampla obra, entre as quais, Alameda (1963), Ponto de cruz (1979), Torna-viagem (1981), Visgo da terra (1986), Rês desgarrada (1994), Ante-sala (2007).
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