segunda-feira, 2 de maio de 2016

WILLIAM CARLOS WILLIAMS

EXPLICAÇÃO 
William Carlos Williams (1883-1963) 

Por que eu hoje escrevo?

A beleza das
caras terríveis
de gente nossa que não é ninguém
me estimula a isso:

mulheres de cor
trabalhadoras diaristas –
idosas e experientes –
voltando à casa de noitinha
com suas velhas roupas
suas caras em velho
carvalho florentino.

Também

as peças bem ajustadas
de vossas caras me estimulam –
cidadãos de prol –
só que não
da mesma maneira.


AS ÁRVORES BOTTICELLIANAS 
William Carlos Williams (1883-1963) 

O alfabeto das
árvores

vai desmaiando na
canção das folhas

as hastes cortadas
das finas

letras que escreviam
inverno

e frio
foram iluminadas

com
pontas de verde

pela chuva e o sol –
As regras simples

e estritas dos ramos
retos

vão sendo alteradas
por ses de cor

pinçados, por cláusulas
devotas

os sorrisos de amor –
. . . . . .

até as frases
desnudas

se moverem como braços
e pernas de mulher sob o tecido

e em sigilo o louvor
entoarem do desejo

e do império do amor
no estio –

No estio a canção
canta-se por si

acima das palavras surdas –


OS POBRES 
William Carlos Williams (1883-1963) 

É a anarquia da pobreza
que me encanta, a velha
casa amarela de madeira recortada
em meio às novas casas de tijolo

Ou uma sacada de ferro fundido
com gradis representando ramos
folhudos de carvalho. Isso tudo combina
com as roupas das crianças

que refletem cada período e
estilo da necessidade –
Chaminés, telhados, cercas de
madeira e metal numa época

sem cercas delimitando quase
coisa alguma: o velho
de suéter e chapéu preto
a varrer a calçada –

os seus três metros de calçada
na ventania que inconstante
virou-lhe a esquina para vir 
tomar conta da cidade inteira 
WILLIAMS, William Carlos. Poemas. Tradução e introdução José Paulo Paes. São Paulo: Companhia das Letras, 1987. p.35, 99-101 e 137
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