segunda-feira, 9 de abril de 2012

SUBINDO NAS TAMANCAS - Leila Jalul

Dona Joaninha Santelmo era elétrica e fogueteira. Andava a passos miudinhos e acelerados, fazendo o barulho insuportável do toc-toc dos tamancos de pau pisando firme no chão. Quando estava braba, enfezada com alguém ou diante de alguma injustiça, o pisado ganhava força e velocidade.

De sua boca as palavras saíam e soavam com o vigor que queria nelas imprimir. A força da verdade. Fosse nua, fosse crua: a verdade, somente a verdade.

Mulher simples, de mente acutíssima e crítica, às vezes até podia parecer grosseira. Ao contrário: era apenas justa nas avaliações sobre pessoas e situações. Da idade real fazia segredo que, nem depois de morta – dizia - revelaria a ninguém. Sabia-se, no entanto, que andou tendo vida marital com o filho de um oficial combatente da guerra do Paraguai e que, lá pelo início do século passado, tinha nascido em Montevidéu e foi batizada como Juanita Perez Salvatierra. A quem se importasse e atrevesse em saber de suas primaveras, respondia de chofre: - sou mais velha que o mundo e mais nova que você, seu merda! Virava as costas e fechava-se em copas.

A pensão vitalícia deixada pelo marido dispensava-a do trabalho fora de casa. Ainda assim, de bom gosto, cuidava de crianças pequenas, para que os pais pudessem trabalhar sem maiores preocupações. Na minúscula creche, em contrapartida, ganhava um bom dinheiro que, também de bom grado, salvava as amigas em estado de necessidade. Sabia das mazelas de cada uma. Enquanto viveu, sabe-se, nenhuma delas e seus filhos menores dormiram de barrigas vazias. Uma benfeitora, pois.

A casa onde viveu tinha cores. No jardim de latas de óleo de cozinha, penduradas por toda a parte externa da pequena casa de madeira, eram plantados pés de “bocas-de-leão”, “boa noite”, “dólares em penca”, “boninas” e “onze horas”. Samambaias silvestres brotavam em cascas de cocos. Matinhos insignificantes e sem catalogação, desde que tivessem um verdinho de tonalidade diferente da do gramado, eram apreciados, integravam a paisagem e revelavam o gosto e a boa mão da plantadeira Joaninha Santelmo.

Apesar disso, de todo esse amor pelas cores e flores, não suportava mulheres com roupas justas, por demais coloridas e as de rostos melecados por rouges e batons vermelhos. Visse uma assim na rua, já dizia: - “não parece uma macaca amarrada pela barriga? Só parece!”

De sua inseparável amiga, a brilhante e luzidia Rizoleta Artemísia Cruz, a tudo perdoava. – “Rizô é doida! Tem mente fraca. Tadinha dela! Desse batom que usa e que a deixa com um bico de brasa, desses vestidos escandalosos que lhe cobrem o esqueleto, só Deus e eu sabemos as razões de tanta extravagância!”

No dia em que Rizô foi enterrada, entre pesares e indignações, Joaninha Santelmo, já na saída do cemitério, chamou para uma conversinha o padre Anselmo Tavares e Marilourdes Cruz, a única filha da amiga falecida, vinda de Brasília para as exéquias.

Em sua casinha, com cara de pedra e tamancos batendo forte, foi logo falando:

- Padre Anselmo e Marilourdes, esta será a primeira e a última vez que falarei sobre a doença e a morte de Rizoleta. Chamei o senhor, padre Anselmo, para que sirva de testemunha do relato que farei sobre os últimos anos de vida da minha boa amiga.

Dirigindo-se à Marilourdes, com voz dez vezes mais dura e cortante, disse:

- Menina, você sabe que é a responsável pela prematura morte de sua mãe. Estou afirmando; não perguntando. Ela não soube conviver com as dores e o desprezo que você e o engomadinho do seu marido lhe causaram. Quando você nasceu, disso deve saber muito bem, Rizô virou-se em dez para tê-la como princesa. Seu pai não quis saber de você e nem dela. Não me pergunte quem ele é. Não revelaria, ainda que soubesse. Seu pai e sua mãe foram a Rizô. O seu melhor colégio, a melhor roupa, saúde, carinho e tudo, tudo, o que você teve e usufruiu nesta vida, deveu-se aos esforços e ao amor que ela lhe dedicava.

Com certa tristeza, continuou a “espinafrar” a ingrata filha:

- Quando você ficou mocinha, dela partiram as orientações para a escolha de um bom caminho. Quando adulta, dela, também, partiu o apoio irrestrito em todas as suas decisões. Sua felicidade, garota, era a dela. Estou certa disso. Estou afirmando; não perguntando.

Preciso avivar sua memória de lombriga. Desejo que você reveja o quanto foi ingrata com sua mãe e reconheça que, quando os médicos lhe desenganaram por conta de anemia profunda, foi pelas mãos de Rizô que você foi salva. As transfusões de sangue que recebeu custaram caro. Seu sangue, menina, é classificado como egoísta. Sendo AB+, é receptora universal e doadora restrita. Lembro-me, como se fosse hoje, a luta que empreendeu para arrebanhar doadores e que estes comparecessem no dia e hora marcados. Até transfusão direta, lembra? Na luta pelo seu restabelecimento, esgotada, Rizoleta emagreceu mais de vinte quilos. Estou afirmando; não perguntando. Você há de lembrar. Claro que lembra!

Marilourdes, até então, não havia derramado uma única lágrima. Nem quando o caixão desceu à sepultura. Talvez não desejasse engelhar a pele e desnortear as aplicações de botox que lhe preenchia as bochechas. A velha Joaninha, exasperada, quando viu a moça tentando derramar água dos olhos, com descaso, pediu que se poupasse das lágrimas. E prosseguiu na lição de moral.

- Suas lágrimas, neste momento, são dispensáveis. Vou lhe contar uma particularidade de sua mãe. Ela teve três mortes, em três momentos que lhe destruíram o coração fraquejado: quando você e o escroto do seu marido não a receberam bem no apartamento funcional da Asa Sul, em Brasília; quando do nascimento de sua primeira filha, também primeira neta de Rizô, sem que ela fosse sequer convidada para conhecê-la e, por fim, quando lhe foi negado um tratamento para a profunda depressão que lhe acometeu e causou a morte. Em três momentos você, tal qual Simão Pedro renegou Jesus, igualmente procedeu com Rizoleta. Não foi um bom proceder, estou ciente disso. Não estou perguntando; estou afirmando.

“Sim, se morre de tristeza, Marilourdes. Sim, se morre! Se pensa que você e seu marido são melhores que Rizoleta, tenha fé, não são e nem jamais serão. Onde Rizoleta botou a bunda, os dois, jamais, terão o direito de colocar as caras. A bondade e a alegria dela são privilégios de poucos. Só dos que amam, entenda. Volte agora para o seu marido e para sua filha. Viva a vida cretina e falsa do entorno do poder. Faça bom uso da morte de sua mãe. Estando ela morta, seu passado também estará morto. Já não existirá a vergonha que ela lhe deveria causar. Viva, se puder! Viva tudo! Viva, se possível, carregando a cruz do remorso.

Não posso afirmar, pois não sou Deus, que o fato de Rizoleta ter morrido em plena Sexta-feira da Paixão do Senhor, seja apenas uma grande coincidência ou se a vida quer lhe ensinar uma lição. Hoje, em plena data que se comemora o Sábado de Aleluia, é um bom dia para refletir sobre o gesto traidor de Judas Iscariotes. Há o momento certo do arrependimento, pense nisso. Não há pecador que, arrependido, não mereça perdão”.

Padre Anselmo Tavares, como testemunha que se preza, ouviu babando e calado até o fim.

Não fez julgamentos. Não foi solicitado para julgar, menos para perdoar. Fez boca de siri e semblante de múmia até o final do relato da velha amiga de Rizô. A única reação que esboçou foi quando viu, ajoelhada aos pés de Dona Joaninha Santelmo, Marilourdes implorar:

- Mãe, me perdoa? Deus, me perdoa?

Joaninha Santelmo, sem nada dizer, sem mais nada a tratar, dispensou os dois. Queria estar sozinha, cuidando de outras vidas coloridas. As plantinhas das latas de óleo estavam ressecadas e murchas. A morte da flor Rizoleta deixou-as em segundo plano.

E saiu ligeirinha, batendo fortemente as tamancas... Durante a rega, absorta, ficou a pensar no mistério da ressurreição.



*publicado originalmente no site Lima Coelho.

domingo, 8 de abril de 2012

FELIZ RESSURREIÇÃO! FELIZ PÁSCOA!

PÁSCOA DO SENHOR JESUS

VIVA FESTA COMUNHÃO
NO JARDIM LIBERTAÇÃO
PÓS EXILIO POVO AQUECE
TRÁS DAVI E SALOMÃO
ASMO PÃO RECORDA FUGA
VAI LEVANDO A DOR DO MUNDO
DESCE O CORPO REDENTOR
SAGRA TERRA SOB A CRUZ

CÁLICE DA NOITE CHEIA
FLORES SÃO DA LUZ PRIMEIRA
PAZ CALVARIO LUA MESSE
VERÃO VINHO EUCARISTIA
DOCE ADORNO ANDAR TRANSMUDA
SOL INVERNO MARTIRIA
DIA PLENO DO AMOR
MESA FARTA DA FAMILIA

FELIZ PASCAL SOBE O MONTE
PASCOAL DAS OLIVEIRAS
SANTUARIO UNE A PRECE
FINO AZEITE DA UNÇÃO
SINO ANDOR ANDAR AJUDA
SOLO OUTONO PARUSIA
ASCENSÃO CELEBRAÇÃO
PÁSCOA DO SENHOR JESUS




Clodomir Monteiro
Rio Branco

sexta-feira, 6 de abril de 2012

“TÃO HUMANO ASSIM, SÓ PODIA SER DEUS”

Levado no seio materno, mas reconhecido pelo profeta; também este, encerrado no seio, exulta por causa do Verbo, por cuja causa foi gerado. Envolto em panos, mas liberto dos panos da sepultura. Reclinado no presépio, sim, mas glorificado pelos anjos, revelado por uma estrela, adorado pelos magos. (...)

Fugiu para o Egito, mas fez refugar os erros dos egípcios. Para os judeus, “sem forma nem beleza”, mas Davi o proclama “o mais belo dos filhos dos homens”, refulge sobre a montanha e sua face torna-se mais brilhante que o sol – iniciando no mistério futuro.

Como homem foi batizado; como Deus destrói os pecados; não por necessitar de purificação, mas para santificar as águas. Tentado como homem, venceu como Deus; exortou-nos, como vencedor do mundo, a termos confiança.

Teve fome, mas alimentou milhares, é o pão da vida, o pão do céu. Teve sede, mas clamou: “Se alguém tem sede, venha a mim e beba”; também prometeu que jorraria uma fonte naqueles que cressem.

Cansou-se, mas é repouso para os fatigados e sobrecarregados. Ficou pesado de sono, mas tornou-se leve sobre o mar, intimou os ventos, ergueu Pedro que afundava.

Pagou imposto, mas tirado do peixe, e reina sobre aqueles que o exigem. Chamaram-no de samaritano e de possesso do demônio; no entanto salva o que descera de Jerusalém e caíra nas mãos dos ladrões, é bem conhecido dos demônios, expulsa-os e precipita no abismo a legião de espíritos e, como o raio, vê cair o príncipe dos demônios.

Querem apedrejá-lo, mas não o atingem. Reza, mas atende às preces. Chora, mas enxuga as lágrimas. Pergunta onde puseram Lázaro, pois é homem; ressuscita a Lázaro, pois é Deus.

É vendido, e muito barato, trinta dinheiros; mas compra o universo e por preço altíssimo, o próprio sangue. Como ovelha é lavado ao matadouro, mas pastoreia Israel, agora também o mundo inteiro. Como cordeiro é mudo, mas é a Palavra, anunciada pela voz do que clama no deserto.

Sentiu fraqueza e foi ferido, mas cura toda debilidade, toda doença. Sobre o lenho é erguido, pregado; mas pelo lenho restitui a vida, salva o ladrão crucificado a seu lado, cobre-se de trevas o universo visível.

Dão-lhe vinagre a beber, alimentam-no com fel. A quem? Àquele que muda a água em vinho, que destrói todo gosto amargo, Àquela doçura e todo nosso desejo.

Entrega a alma, mas tem o poder de retomá-la de novo, o véu do Templo se rasga (patenteia as realidades supernas), fendem-se as pedras, mortos ressuscitam.

Morre, mas vivifica; com sua morte destrói a morte. É sepultado, mas ressurge. Desce aos infernos, mas leva as almas para o alto, sobe aos céus, mas virá para julgar os vivos e os mortos e porá à prova estas tuas palavras.

São Gregório Nazianzeno (329 – †389)

NAZIANZO, São Gregório de. Discursos Teológicos. Petrópolis: Vozes, 1984.
*Frase-título da postagem é do poeta Fernando Pessoa.

terça-feira, 3 de abril de 2012

UMA HISTÓRIA DE VIDA COM 82 MALÁRIAS, 34 MIL BATIZADOS; CARTAS À DILMA; REZA PELOS PASTORES E LUTA CONTRA O MANEJO INSUSTENTÁVEL

"Meu sonho era que os seringueiros aprendessem a ler. Quero só um pouco mais de saúde para servir a Deus e aos seres humanos"

SILVÂNIA PINHEIRO E WÂNIA PINHEIRO, DA AGÊNCIA CONTILNET
Recém-saído de uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI), em Brasília...
Recém-saído de uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI),
em Brasília...
...padre Paolino mostra disposição, aos 86 anos, para continuar sua missão
...padre Paolino mostra disposição, aos 86 anos,
para continuar sua missão

Entardecer entrevistando o padre Paolino Maria Baldassari, 86 anos (completados nesta segunda-feira,02 de abril), seria um simples final de dia para qualquer jornalista experiente, não fosse o fato desse italiano, nascido em Bologna, residindo há 58 anos no Acre, ser um vigário agarrado a causas nobres que impressionam até os mais solidários e ousados religiosos.

Recém-saído de uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI), em Brasília, padre Paolino, velho conhecido dos seringueiros e dos indígenas da Amazônia, passou por momentos difíceis. Ele foi submetido a uma cirurgia de hérnia e um cateterismo, antes confundido por alguns médicos com uma pneumonia.
Para Agência ContilNet, ele fala sobre suas 82 malárias...
Para Agência ContilNet, ele fala sobre suas 82 malárias...
...34 mil batizados; reza pelos evangélicos; morte, etc...
...34 mil batizados; reza pelos evangélicos; morte, etc...


“Fizeram todos os exames e, no final, viram que o problema estava no coração. Não sinto dores, somente tosse”; conta ele, sereno e entusiasmado com o desembarque em Sena Madureira, município distante 144 quilômetro de Rio Branco, onde Paolino espera viver até o último dia de sua vida.
Igreja Nossa Senhora da Conceição, em Sena Madureira/Fotos: Wania Pinheiro
Igreja Nossa Senhora da Conceição,
em Sena Madureira/Fotos: Wania Pinheiro
Entretanto, os dias do conhecido “Santo do Iaco” não estão contados. Empolgado para celebrar as missas de domingo e colocar em dia os assuntos administrativos da Igreja Nossa Senhora da Conceição, matriz que coordena, ele lamenta apenas a dieta recomendada pelos médicos. “Eles mandaram eu comer bastante, mas não tenho fome. Quero cuidar da minha igreja e dos meus fiéis”, afirma.

Filho de Angelina Zanarini e Arthur Baldassari, um pedreiro, construtor de igrejas, que trabalhava arduamente para sustentar os oito filhos nos tempos difíceis da guerra, Paolino seguia o mesmo caminho do pai se doando também ao trabalho braçal. “Eu comecei a trabalhar para ajudar minha família. Me sentia responsável por ela. Mas, Deus me mostrou que ela não precisava de mim. Meu irmão me doou alguns milhares para ajudar o Acre. Um exemplo é a Fazenda Esperança, que compramos para recuperar dependentes químicos, que custou R$ 200 mil”, relata.

Numa entrevista à Agência de Notícias ContilNet, padre Paolino discorre sobre assuntos simples, porém pessoais. Diz que já escreveu três cartas para a presidenta Dilma Rousseff; conta como se tornou padre; fala sobre sua luta em defesa dos povos da floresta; diz que reza pelos evangélicos; explica porque não vai a velórios; comenta sobre os 34 mil batizados realizados no Acre; as 82 malárias de que foi acometido; o susto com a doença que o levou a passar dias na UTI e revela o que é notório para um homem que escolheu servir a Deus e ao ser humano com toda sua força e essência: sua pureza sexual.

Agência ContilNet – É verdade que o senhor escreveu três cartas para a presidenta Dilma Rousseff?

Padre Paolino – Sim.

Agência ContilNet – E o que o senhor falou a ela?

Padre Paolino – Falei sobre o manejo sustentável que, para nós, é manejo insustentável.

Agência ContilNet – O senhor tem cópias das cartas?

Padre Paolino – Não.

Agência ContilNet – E o senhor não usa internet?

Padre Paolino – Não. Só escrevo. Enxergo melhor com o olho direito para ler e o olho esquerdo para ver de longe.

Agência ContilNet – O senhor está em fase de recuperação de um problema cardíaco após ter passado alguns dias internado numa UTI, em Brasília. Como está sua saúde agora?

Padre Paolino – Fiz uma cirurgia de hérnia e teve consequências. Fui para Brasília. O Tião Viana fez de tudo para me levar. Lá, eu fiquei num hospital que uma cadeira de roda custa R$ 70 mil. Contei mais de 40 enfermeiros, e os exames do coração são feitos no nosso quarto mesmo. O médico mandou eu comer muito, tomar meus remédios, mas o trabalho pesado não foi proibido. Agora estou cansado. Antes eu andava 50 quilômetros a pé, agora com 50 metros estou cansado (risos). Compraram um sapato para mim que antes eu tinha raiva. Achava que era vaidade, coisa de playboy, mas vi que são confortáveis e que fazem bem para os pés.
Durante a conversa, padre Paolino mostra os hematomas das injeções aplicadas durante sua internação
Durante a conversa, padre Paolino mostra
os hematomas das injeções aplicadas
 durante sua internação

Agência ContilNet – E o senhor não teve medo de morrer?

Padre Paolino – Não. Eu gosto de viver. Quando morrer, quero ser enterrado no cemitério humilde de um seringueiro, a floresta.

Agência ContilNet – Quantas malárias o senhor já pegou nas inúmeras desobrigas que fez pelos rios da nossa região?

Padre Paolino – Oitenta e duas. Fui campeão de malária. Ganhei até do bispo Dom Júlio Mattioli, que pegou 36.

Agência ContilNet – O senhor está no Acre há 58 anos. Como o senhor veio para a Amazônia? É possível retornar para a Itália depois de décadas?

Padre Paolino – Tinha 15 anos quando entrei no seminário. Escolhi morar no Acre quando eu ainda estava lá. Eu conhecia o estado através de uma revista missionária dos Servos de Maria, que falava das desobrigas do padre Miguel nos rios Iaco e Purus, em 1942.
Quando cheguei aqui, fui para Brasiléia, Boca do Acre e então Sena Madureira. A cada dez anos eu vou à Itália, mas hoje há poucos parentes. Quando vivemos muito, muitas pessoas que amamos morrem ao longo desse tempo. Lá, tenho um sobrinho meu de 36 anos que é padre. Ele esteve aqui em Sena, e levei ele para acampar no Caeté.

Agência ContilNet – O senhor é um dos médicos mais procurados pelos seringueiros, indígenas e pessoas de classe alta. Como conciliar a medicina e a prelazia?

Padre Paolino - Quando eu era criança, entre 7 e 8 anos, admirava os médicos e os padres pela disposição deles em atender um chamado de emergência do seu próximo. Na minha mente, lembro que uma vez minha irmã estava com pneumonia e eu vi meu pai desesperado à espera do médico. Ele chegou na neve, encapuzado, montado num cavalo e disse: Arthur, só vim atendê-lo porque escolhi ser médico e fiz um juramento de nunca negar assistência a ninguém, pois hoje estou mais doente do que sua filha. Então, eles eram meus heróis, pois naquela época não havia TV, rádio ou internet. Eu gosto de cuidar dos doentes. Uma vez uma mulher me procurou e gritava de dor de cabeça, e eu disse: espera aí, que vou te botar boa em cinco minutos. E coloquei.

Agência ContilNet – É verdade que o senhor não vai a velórios?

Padre Paolino – Deixei de ir a velórios depois que vi que as pessoas vão para esses locais tomar café, falar alto e beber álcool, muitas vezes. Aconteceu a primeira vez em Brasiléia e, a partir daí, eu disse que esperaria o morto na igreja. Faço a missa de sétimo dia. Fiquei escandalizado com o que vi, mas acho que o padre não pode faltar a um velório.

Agência ContilNet – Há ideia de quantos batizados e casamentos o senhor já realizou no Acre?

Padre Paolino - Casamentos não sei, mas batizados foi algo em torno de 34 mil.

Agência ContilNet – Como o senhor analisa a situação dos valores da família e da vida atualmente?

Padre Paolino – O mundo está virado.

Agência ContilNet – Como é o seu devocional?

Padre Paolino – Eu rezo três vezes ao dia.

O vigário Baldassari pede a caneta e escreve com o próprio punho o nome da cidade onde nasceu...
O vigário Baldassari pede a caneta e escreve com o próprio punho
o nome da cidade onde nasceu...
...a cidade de Bolonha,na Itália, onde deixou os pais e oito irmãos, quando mudou-se para o Acre
...a cidade de Bolonha,na Itália, onde deixou os pais e oito irmãos,
quando mudou-se para o Acre

Agência ContilNet – E a sua relação com os evangélicos?

Padre Paolino – Eu rezo por eles. O que queremos é que existam pastores cada vez mais dedicados para levar o Evangelho para a mata, os pobres, os índios, os seringueiros. Respeito todos os que nasceram evangélicos, como os que nasceram catóĺicos também devem ser respeitados. Só não entendo porque uma pessoa diz que deixou de beber depois que mudou da igreja católica para a evangélica. Por que ela não deixa de beber na Igreja Católica mesmo? A Igreja não manda ninguém se embriagar, se prostituir, ou cometer outros pecados. Essas são decisões pessoais. Falam sobre adoração de imagens. Conheço o Salmo 121 e gosto dos santos. Quando eu cheguei ao Acre, apenas os Pinheiros, do rio Macauã, eram católicos, o restante das famílias eram evangélicas. O problema é que banalizaram as religiões. Todo homem precisa dela, e com o tempo retornam. Foi assim com os anglicanos, os luteranos. Lamentavelmente quando se quer acabar com uma pessoa, se fala mal dela. Confundiram tudo.

Agência ContilNet – O senhor sabe que é muito amado pelo Acre?

Padre Paolino – Alguns me amam; outros, têm raiva de mim.

Agência ContilNet – É verdade que sua família já doou milhões para o Acre?

Padre Paolino – Meu irmão já me ajudou muito. Quando quero ir à Itália, ele manda minhas passagens. Minha família me ajudou em tudo. E um exemplo foi a Fazenda Esperança, que compramos por R$ 200 mil. Também adquirimos aparelhos de ultrassonografia para o hospital Santa Juliana. Além das construções que fizemos como escolas, cooperativas, marcenarias, e muitas outras coisas.

Agência ContilNet – Quanto a relacionamentos pessoais, o senhor nunca se apaixonou?

Padre Paolino – Não. Tinha 14 anos quando decidi ir para o seminário. Além do mais, havia uma pobreza extrema naquela época e uma religiosidade muito forte.
Depois de uma tarde descontraída e um diálogo aberto sobre sua vida, ele se despede da reportagem
Depois de uma tarde descontraída e um diálogo aberto sobre sua vida,
ele se despede da reportagem

Agência ContilNet - Os indígenas do Acre vivem hoje um verdadeiro caos no tocante à estrutura de saúde oferecida pelo Governo Federal. Além desse problema, há ainda os casos de miséria, prostituição, fome e outros. Sua convivência há mais de 45 anos com esses povos lhe traz à memória alguma solução para esses problemas sociais?

Padre Paolino – O problema dos índios é um só: eles morarem na cidade. É necessário que sejam tomadas atitudes imediatas para que eles voltem para o seu habitat natural, voltem a produzir seu alimento, seus medicamentos naturais. Lamento muito a situação em que eles se encontram. Antes eu não deixava eles virem para a cidade e, quando vinham, só trazia de dois. E eles ficavam na igreja comigo. Não iam para a rua, onde o acesso ao álcool e a festas são fáceis. Acho que muitas pessoas tentaram ajudá-los, mas pensando fazer o bem, fizeram o mal. Eu mesmo dei gado e motores para eles, e deu tudo errado. A aposentadoria, então, foi o fim deles.

Agência ContilNet- Por que, padre? A aposentadoria não é um direito do cidadão?
Padre Paolino – Sim, mas deve-se encontrar uma forma de levar esse benefício até eles, já que quando eles chegam na cidade vão em busca dos prazeres da vida urbana. Os Kulinas estão todos alcoolizados, homens, mulheres e crianças. É uma pena!

Agência ContilNet- E de quem é a culpa?

Padre Paolino – Da ganância.

Agência ContilNet – De quem, padre?

Padre Paolino – Os índios por si só não têm noção de maldade, dos riscos que a vida aqui fora oferece, o mal que o álcool pode fazer ao ser humano. E hoje, por conta da ganância de muitos, estão sendo penalizados. Quando eu ficava por meses nas aldeias com eles, eles me pediam: “Paolino, traz álcool pra nós”. Mas, eu dizia: não. Vamos plantar, construir as casas e se consultar. Nós fazíamos entre 40 a 70 consultas médicas por dia. Eles têm fé em mim porque são um povo simples e humilde.

Agência ContilNet – Então, o problema seria político, administrativo, ou o quê?

Padre Paolino – Não adianta colocar a culpa nos governos e nas prefeituras. O Jorge Viana, o Tião Viana, o Binho, eu mesmo, todos tentaram ajudar os índios. O Jorge Viana deu motores para os índios, e eles colocaram óleo de cozinha no que deveria colocar gasolina. Eles ganharam as mais belas embarcações e afundaram todas, além de desativarem 22 motores. Os indígenas eram para viver bem nas suas aldeias, mas muitos deles estão perdidos. Hoje, vários caciques recebem dinheiro para ajudar seu povo, mas os índios vêm para a cidade tomar banho de esgoto e se alcoolizar. Essa é a triste realidade. Os Jaminawas, então, está uma desgraça. Parece um círculo vicioso, que não se resolve. A única maneira seria voltar ao sistema antigo de seringal, dando condições para eles fazerem seu roçado, material para pesca. O melhor presente que você pode dar para um índio é um anzol.

Padre Paolino volta aos seus aposentos para descansar e cumprir orientações médicas
Padre Paolino volta aos seus aposentos para descansar
 e cumprir orientações médicas
Agência ContilNet – Não existiria uma política diferenciada para ser aplicada em favor dos indígenas?

Padre Paolino – Alguém tinha que administrar esta situação,mas deveriam ser leais a eles e não enganarem. Antes, eles eram sadios, não tinham doenças. Hoje, há casos de miséria, fome, prostituição e até DST como gonorreia. Agora, não adianta fazer sanitário e chuveiro para índios que vivem nas aldeias. Isso é uma estupidez. Já vi eles ganharem bombas para puxar água e levarem a bomba para ser usada nos motores dos barcos. Aqui em Sena mesmo eu fiz a Casa do Índio, e eles chegavam de madrugada, alcoolizados, queimando tudo, arrancando o assoalho. Eles têm sua própria cultura e isso deve ser respeitado. Eles merecem respeito e atenção. Os índios têm grandes qualidades que devem ser reconhecidas e defeitos que devem ser compreendidos.

Agência ContilNet – E as entidades responsáveis por esses povos? O que estão fazendo?

Padre Paolino – Depois de ter visto os fracassos da Funasa, do Cimi, da Uni e os meus, me dei conta de que o gado foi o princípio do alcoolismo. Por que eu tinha que dar gado para eles? Quanto à Funai, eu sempre estive em guerra com ela porque eu queria os índios nas aldeias e ela inventou de levar os índios para Brasília e para os Estados Unidos.

Agência ContilNet – O senhor tem preferências políticas?

Padre Paolino – Nunca votei na minha vida.

Agência ContilNet – Como é sua relação com a imprensa? O senhor gosta de jornalistas?

Padre Paolino – Às vezes sim; outras, não. Eles têm o costume de falar o que a gente não disse.

Agência ContilNet – E existe algo que o senhor não fez?

Padre Paolino – Fiz muitas coisas, mas nem tudo deu certo. Me lembro que uma vez fui a pé de Sena para Rio Branco, mas depois dos 80 anos a gente percebe que a nossa força cai.

Agência ContilNet – Qual o seu maior sonho para o Acre e a Amazônia?

Padre Paolino – Meu maior desejo era que os seringueiros soubessem ler. Hoje, quero continuar servindo as pessoas através do Evangelho e da medicina.

segunda-feira, 2 de abril de 2012

COMO SE COMEÇA A FILOSOFAR?

Profª. Inês Lacerda Araújo
Filosofia de todo dia


Para filosofar basta fazer certo tipo de indagação: por que? como? quando?
E ir fundo com as questões. Quais são as causas mais essenciais e imprescindíveis de todas as coisas? Como é possível existirem tais coisas, como elas vieram a ser, não é incrível que haja o ser e não o nada? O que determina que um ser tenha as propriedades e características que o distinguem dos demais? Há um tempo, um "quando" responsável pela origem de tudo?


Essas perguntas também são feitas pelas religiões, e recebem respostas definitivas: no começo o caos ou o nada, depois a organização por forças cósmicas ou por Deus como nas crenças monoteístas. Tudo faz sentido, há um destino para todos os seres e em especial para os seres humanos.

A ciência também propõe investigar e procura respostas para o que nos intriga: tempo finito ou infinito, qual é a origem do universo, como a vida começou? Mas, ao contrário da filosofia e da religião, os cientistas não visam conciliar, consolar, dar sentido, apaziguar a existência humana, nossas dúvidas, nossos anseios.

A filosofia, sim. Ela busca pela razão de sermos no mundo, o que nos move, se há um sentido na história da humanidade, o que se pode mudar e o que nos condiciona.
O questionamento filosófico exige dialogar. Exige que nesse diálogo entrem pessoas dispostas a argumentar, a raciocinar, a ouvir as razões do outro, buscar respostas, inclusive com o risco de não encontrá-las, o que não leva a desistir do diálogo. Até mesmo o cético necessita argumentar para expor suas dúvidas.


Mas se o caminho for o da imposição dogmática, o diálogo cessa. Sempre que um dos lados se considera com a plena razão, resta ao outro submeter-se. É a morte da filosofia e o nascimento da intolerância, da violência, da censura.

Sendo assim, por que os próprios filósofos dificultam o acesso a essas indagações com seu vocabulário especializado, com termos e expressões que parecem nem fazer sentido?

Quem ler o prefácio da Crítica da Razão Pura ou o da Fenomenologia do Espírito desiste, a menos que haja um professor para debulhar conceitos e noções, comparar, expor com termos acessíveis o difícil pensamento dos mestres da filosofia.

Aulas de filosofia são exemplos de diálogos em estilo platônico: examinar conceitos revirando-os para que os alunos possam acompanhar o significado, ou seja, seu uso ou usos.

Se, ao final da aula pelo menos alguns alunos chegarem, eles próprios, a novas questões, se eles chegarem a esse ponto: "Como é que eu nunca havia pensado nisso!", a aula foi bem-sucedida.

Mudar algo na cabeça das pessoas, como disse certa vez Foucault, levá-las a pensar novamente o que estava assentado e dado como evidente, isso é filosofar.

Outros filósofos acrescentariam que há também a esperança iluminista de que tais diálogos melhorem nossas relações, ainda primitivas sob muitos aspectos.




* INÊS LACERDA ARAÚJO - filósofa, escritora e doutora em Estudos Linguísticos. É professora aposentada da UFPR e PUCPR.

domingo, 1 de abril de 2012

HOJE DE ALMA ACREANA NA MÃO

Jairo Nolasco
Jurubeba Juruaensis
Cansado desta patusca sobre polítiqueiras já me preparava para curtir meu final de semana na calmaria de minha Ipapeconha, quando o carteiro chegou e o meu nome gritou com um pacote nas mãos - hoje, entrega-se tudo menos cartas.

Deixemos de frescuragens!

Na verdade os Correios entregaram já faz dois dias. Só hoje é que aqui em casa lembraram de me passar a bola.

Fiquei muito satisfeito em receber o livro por camaradagem do seu autor, o tarauacaense do seringal Sumaré, Isaac Melo, que escreve o blog ALMA ACREANA , direto de Belo Horizonte/ MG.

Irei ler, com calma, deitado em minha rede à margem de qualquer igarapé que banha Ipapeconha para melhor ouvir "o estalar do papel no toque dos dedos (p.7)".

Ainda assim já adiantei a leitura do capítulo que narra um pouco sobre a história do alagoano Craveiro Costa, que marcou presença aqui em Cruzeiro do Sul, notadamente na área educacional.

Aí já começou bater a curiosidade: onde se localizava, na cidade, o Liceu "Afonso Pena" do qual o autonomista Craveiro Costa foi nomeado diretor em 1907?

E em qual morro da cidade (seria o da Glória?) o professor, literato e jornalista morou durante muito anos?

A cada vez que tomo conhecimento sobre os principais personagens dos primórdios da civilização nacional aqui no Juruá, percebo o quanto eram intrigantes.

Eu não procuro herois. À teia do social e do histórico ninguém escapa ileso, se for homem humano. Não devemos julgá-los pela ótica de nosso tempo. Eles foram gente com pecados e acertos lá no seu tempo e espaço.

De alguns os bons feitos ficaram.

Entretanto, uma coisa eu estou comprovando cada vez mais: já fomos melhores em termos de qualidade em nossos dirigentes políticos e intelectuais.

Hodierno, as antas prevalecem por aqui e estão cada vez mais abastardas. E seus maiores feitos? A iniquidade consciente!

Mas deixemos essas tranqueiras pra lá. Cansei.

Ipapeconha, meu paraíso, aí vou eu!

E quanto a você meu caro Isaac, se o seu livro "é singelo e simples como a água do nosso Juruá", deve como tal ser caudaloso a nos levar a conhecer um pouco dessa Alma Acreana dividida em cada curva de nossos rios , meandros.

Aí a gente vai juntando, vai.

Obrigado pelo fraterno. Saiba que é reciproco.

---

Nota: Tudo que a gente escreve, mesmo sem grandes pretensões e recursos, como o Alma Acreana, é sempre gratificante e enriquecedor o diálogo que surge a partir de quem nos lê. Agradeço aos amigos que receberam tão singelo trabalho e partilham suas impressões, abrem outras portas, outras possibilidades. Quanto ao Jairo é um sábio nato, uma inteligência arguta do nosso Juruá. // Já está quase pronta uma nova edição para a venda na internet.

sexta-feira, 30 de março de 2012

O QUE AMAS DE VERDADE PERMANECE - Ezra Pound

O que amas de verdade permanece,
O resto é escória
O que amas de verdade não te será arrancado
O que amas de verdade é tua herança verdadeira
Mundo de quem, meu ou deles
ou não é de ninguém?
Veio o visível primeiro, depois o palpável
Elísio, ainda que fosse nas câmaras do inferno,
O que amas de verdade é tua herança verdadeira
O que amas de verdade não te será arrancado
A formiga é um centauro em seu mundo de dragões.
Abaixo tua vaidade, nem coragem
Nem ordem, nem graça são obras do homem,
Abaixo tua vaidade, eu digo abaixo!
Aprende com o mundo verde o teu lugar
Na escala da invenção ou arte verdadeira,
Abaixo tua vaidade,
Paquin, abaixo!
O elmo verde superou tua elegância.
“Domina-te e os outros te suportarão”
Abaixo tua vaidade
Tu és um cão surrado e largado ao granizo,
Uma pega inchada sob um sol instável,
Metade branca, metade negra
E confundes a asa com a cauda
Abaixo tua vaidade
Que mesquinhos teus ódios
Nutridos na mentira,
Abaixo tua vaidade,
Ávidos em destruir, avaro em caridade,
Abaixo tua vaidade,
Eu digo abaixo.
Mas ter feito em lugar de não fazer
isto não é vaidade
Ter, com decência, batido
Para que um blunt abrisse
Ter colhido no ar a tradição mais viva
Ou num belo olho antigo a flama inconquistada
Isto não é vaidade.
Aqui, o erro todo consiste em não ter feito.
Todo: na timidez que vacilou.




REFERÊNCIA
POUND, Ezra. Poesia. (Introdução, organização e notas de Augusto de Campos; traduções de Augusto dos Campos… [et al.]; textos críticos de Haroldo de Campos). São Paulo: HUCITEC; Brasília: Ed. Universidade de Brasília, 1993.

quarta-feira, 28 de março de 2012

TÃO ACRE: AS INESQUECÍVEIS DO ZÉ LEITE

DUPLICIDADE
Jorge Hadad, o popular Jorgito de Xapuri, era vereador. Más línguas da cidade cívica, que também atende por “Princesinha”, espalharam que dois projetos de sua autoria rocambolescamente fizeram sucesso:
Primeiro: Solicitação ao prefeito para construir dois parques infantis, um para adultos e outro para crianças.
Segundo: Pedido ao Governo do Estado para doar um casal de touros para servir de reprodutores e incrementar a pecuária de Xapuri.


O PREFEITO EXIGENTE
O prefeito de Brasiléia, Elson Dias Dantas, hoje na paz do Senhor, decidiu em 1972 comemorar mais um aniversário do município em alto estilo. Queria os festejos de 3 de julho joeirados e grandiloquentes, principalmente no setor esportivo. Contratou um técnico para preparar o time de futebol de salão, sem medir despesas, afinal o quadrangular teria time de Rio Branco, Cobija e Xapuri.
 Encontra o técnico (da capital), trava diálogo:
 – Então, seu técnico, como vai a turma? Está indo bem?
 – Excelência, vai assim, assim. Falta só o entrosamento.
 Elson Dantas, imperioso e generoso, jogou duro:
 – Pois mande buscá-lo, homem! Pago gratificação, mesa, cama, luz, roupa lavada, só não admito é que por falta do Entrosamento Brasiléia faça feio dia 3 de julho.

TESTE DO ALUÍSIO
Secretário de Segurança Pública, no Governo Jorge Kalume (1966-1970), o deputado Aluísio Queiroz vivia de olho em dois policiais nós cegos, por ele suspeitos de fãs do sétimo mandamento de Moisés. Recebendo uma denúncia de triteragem da dupla, mandou chamar os tiras e no interrogatório quis saber o que andavam fazendo. Como um lhe jurou ter passado a noite anterior correndo atrás de um ladrão, Queiroz, aproveitando o momento adequado, arrematou:
 – Ah, foi? Pois então fiquem aqui agora um correndo atrás do outro.

---

REFERÊNCIA
LEITE, José Chalub. Tão Acre: Humor acreano de todos os tempos. Rio Branco: BOGRAF/Editora Preview Ltda, 2000.

José Chalub Leite (1939-1998) foi um dos maiores nomes do jornalismo acreano. Trabalhou em diversos jornais (Tribuna do Povo, O Estado do Acre, O Rio Branco, etc), fundou com outros a Associação dos Cronistas Esportivos do Acre, a Associação Profissional dos Jornalistas do Acre, a Federação de Pugilismo. Zé Leite, como era popularmente conhecido, legou para o Acre uma das mais belas páginas do humor jornalístico acreano.

segunda-feira, 26 de março de 2012

SOBRE PIOLHOS, PÓ DE GIRAFA E AMENIDADES - Leila Jalul

No sábado, dia 17, tentando umas manobras radicais, saí de casa para um banho de piscina e um almoço em família. Não sou acostumada a almoços em família. É muita pressão! É tudo muito cheio de segundas, terceiras e quartas intenções.

Para não bancar a Dona Encrenca, fiz uma galinha caipira fake, e fui, cheia de má vontade. Família, no dizer de alguém, é um tipo de partido ao qual você nasce filiado e sem direito a ficha de desfiliação. Fui bem comportada, mas... Deu o maior bode.

Piscinas, para velhos tronchos, inseguros e deformados, que nem eu sou, deveriam ser almofadadas, antiderrapantes, rasas e sem escadarias, de preferência. Diriam vocês que isso não seria piscina, nem banheira, e sim um tanquinho de molhar e refrescar a bunda. Tem nada demais se pensarem assim. Não fico ofendida ou magoada. Tartarugas nunca ficam ofendidas, está me ouvindo, Genaro? Borboletas e sapinhas, sim!

Pois bem, acompanhada por um parente, não quis descer para a água sem que antes ficasse segura. Tentei ficar de joelhos, sentar no chão da borda, sentir firmeza nas pernas e descer a passos de tartaruga. De mansinho... EU SOU UMA TARTARUGA! Descobri isto no sábado.

Final de papo: após uma fisgada no joelho, senti o drama, apoiei o corpo com a mão e pé direitos e... Lasquei-me inteirinha. Fiz uma luxação de grau 3 (depois do Idílios perigosos, por imitação, resolvi pontuar todas as minhas dores e sentimentos). Meu pé está com as mesmas cores da tinta do jenipapo e da casca de nogueira: roxim, roxim; quase pretim, pretim!

Em desespero, chamei minha Flor de Lys.

- Luzinete, minha nega, venha pra cá. Está só ou mal acompanhada?

- Estou com Deus, patroinha. À sua disposição e doida para atualizar nossas conversas. Vou de táxi?

- Não, venha de jegue que demora menos, estou com a razão?

- Tô chegando!

Não deu uma hora e Luzinete buzinou o interfone, discretamente e de forma delicada e suave. Genaro, que até pode dar uns coices de vez em quando, é mais sutil, tenham certeza! Levantei-me, usei a cadeira de rodinhas do computador como se fosse um andador e abri a porta. Na velocidade das tartarugas. Ufa!

- Diga lá, minha santa! Estarei enganada ou a senhora só se “alembra” de mim na hora do desespero?

- Luzinete, há pessoas que são tão marcantes que, por mais que se queira, é impossível esquecê-las. São como tatuagens na alma. São pessoas especiais, tais como as sandálias havaianas que não soltam as tiras e nem perdem as cores (uma grande mentira!!!). Já jantou?

- Não se avexe! Fique quieta e deixe que me acerto na cozinha. Trepe as pernas, dondoca! Posso fazer um virado. Com ovos e boa vontade, minha preta, a gente se vira no virado, né?

- Né, Luzinete. Vamos botar os assuntos em dia.

- Dona Leila, a senhora já teve piolho?

- Na infância, com certeza, tive. Não consigo lembrar, mas devo ter sido apinhada deles. Suor, calor e cabelos mal lavados... Cabeça suja é o habitat natural dos pestinhas, não?

- Mana velha, pelas misericórdias, peguei uma piolhada do defunto meu primo. Venho lutando, lutando e não dou cabo neles. Dizem que piolho de defunto resiste até que, quem pegou, abotoe o paletó. Já ouviu falar nisso?

- Não. Nunca ouvi falar. O que os cientistas dizem é que há solução para eles: caseira e medicamentosa. Há pessoas que usam vinagre e mel de abelha. Os bichinhos sentem o azedo do vinagre, correm para o mel e nele ficam colados. Você tentou algum? Nas farmácias tem o Neocid, um pozinho dentro de uma lata e com um buraquinho. A gente aperta a lata e o pozinho cai no couro cabeludo. É tiro e queda! Os gordinhos ficam embebedados e desmaiam no travesseiro. De manhã, ao acordar, você coloca os bebuns sobre a unha do dedo grandão e, com a do outra, “poca” eles. Faz um barulhinho lindo! Faça isso, criatura!

- Quero não. Minha mãe falou que só se mata piolho de defunto, em definitivo, se colocar o Pó de Girafa. A senhora conhece?

- Não. Girafa nem tem cabelo, criatura! Que conversa é essa de pó de girafa?

- Tudo bem. Vou achar, comprar e matar essa “pragaiada” de defunto que está querendo foder minha vida. É tudo inveja! Agora que meus cabelos estão crescendo... Vou devolver a praga, tenha fé! Vamos mudar de assunto?

Luzinete quis abordar assuntos de Brasília, iniciando sobre o homem que não sabe enfiar a minhoca no anzol. E eu, que nem sempre me imiscuo nos assuntos daquela parafernália indigesta, preferi que falássemos de outras amenidades. Meu pé doía a cântaros e minha alma chorava lágrimas de sangue! Quereria derreter meu baço? Nem morta!

Nisso, quando estávamos decidindo na “porrinha” o assunto a ser tratado, aparece na televisão uma matéria sobre um pastor evangélico-fazendeiro, supostamente acusado de ser ladrão, safado, explorador da fé e da burrice, catrepeiro e detentor de todos os adjetivos desqualificativos que se possa imaginar. Vi e ouvi a matéria. Logo descobri que se tratava de um sujo falando de um mal lavado. As moralidades dos donos das duas igrejas que se acusam, em nada, nadica de nada, diferem. É sabido que “ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão”, mas, no caso, são pessoas que, segundo dizem, enganam inocentes. Milhares de inocentes, diga-se! Milhares e milhares de incautos e cegos que fazem da fé suas muletas. Desnorteados e aflitos que entregam suas vidas, almas e bens nas mãos de dirigentes de ministérios inidôneos e já bem conhecidos por suas obras mirabolantes com o dinheiro alheio.

- Luzinete, esse assunto também não é legal. Prefiro piolhos de defuntos a vermes de bandidos vivos. Muda o canal, vai!

- Pronto, a dama de lilás resolveu aloprar. Vamos logo jantar. Virado bom, que desce redondo, é virado quente. Fritei um pouco de bacon, desfiei a sobra da carne de carneiro, tasquei cebola, cebolinha e coentro, mexi no jeito, acrescentei caroços de feijão, umas duas colheradas de arroz, um colherão de manteiga, quatro ovos e, depois de dar uma rebolada em tudo, tasquei farinha e queijo ralado. Tá bom?

- Quantas pessoas vão jantar? Essa panelada dá pra dez pessoas.

- O que sobrar, creia, não irá para o lixo. Vai ser o almoço de amanhã. Meu virado tem prazo largo! Amanhã a gente coloca azeitona e ervilha. Quer mais?

Luzinete, enquanto falava e jantava, coçava a cabeça. Entre um garfo e outro, os anopluras de seis pernas causavam comichão e ela, instintivamente, metia as unhas na pensante infestada, “cavucando” sem parar o couro cabeludo. Aquilo sacudiu meus nervos. Veio-me à mente um defuntinho que vi na infância, no primeiro contato que tive com a morte. Tadeu Jr., o filho do Tenente Tadeu, lascado de vermes e piolhos, se transformou numa imagem escabrosa e que trago gravada de forma indelével. Bem fazia minha avó em obrigar todos os netos a, semestralmente, ingerir uma talagada de Tiro Seguro e, como complemento, um vidro de óleo de fígado de bacalhau – a famosíssima Emulsão de Scott. O ruim é bom, dizia ela. Nenhum de nós morreu e teve lombrigas saindo pelos ouvidos, bocas e narinas. A mulher do sargento era burra demais e, ainda que morasse na cidade, nem um licorzinho de cacau Xavier deu para o Tadeuzinho. Que tristeza! Tadeuzinho morto e os bichos vivos perambulando sobre suas vestes claras e inocentes.

Por gostar de Luzinete, de verdade, jamais pensaria vê-la repetindo a estória de Tadeuzinho. Para despistar e não ser agressiva. Perguntei:

- Luzinete, você fez o Papa Nicolau e a mamografia este ano? Se não fez, trate de fazer, visse? Amanhã de manhã, sem falta, vou ligar para a Drogaria São Paulo em busca do Pó de Girafa, ok? Você só vai para casa depois de acabar com os piolhos do defunto.

Se não acharmos o Pó de Girafa, vai ser com Neocid, DDT dos soldados da malária ou com Detefon. Vai ser com sabonete de Escabiol, pente fino, vinagre, mel de abelha e tudo o que estiver à nossa disposição. Em casa ou na farmácia, visse? Não vai sobrar pedra sobre pedra e nem piolho sobre piolho. As lêndeas não vão mais parir. Acabaremos com a fertilidade delas numa sessão de extermínio à minha moda. Em uma semana, se não houver uma solução, cortaremos teu cabelo. E tenho dito! Vai confiar em mim?

- Primeiro vamos achar o Pó de Girafa, legal?

Assim prometi, assim fiz. O homem da Drogaria São Paulo, quando falei no Pó de Girafa, deu a maior risada na minha cara.

- Senhora, se esse remédio existiu, foi em l830. A senhora está certa disso? Em que ano a senhora nasceu?

- Vá se lascar e pare de rir! O Pó de Girafa existe! Você é muito novo ou muito babaca. Deixe! Vou procurar noutras farmácias e drogarias, seu besta! Seu babacão! Vou passar um e-mail para uma amiga e contemporânea, para saber do Pó de Girafa. Bye, moleque!

- Mil desculpas, senhora.

No domingo, dia 18, o entregador da Farmácia Arpoador chegou com uma lata de Neocid, uma emulsão para piolhos, um pente fino e um condicionador para cabelos secos e rebeldes. Eu e Luzinete, sentadas na área de serviço, iniciamos a operação cata piolhos e fura-bolos. Tudo como mandava o figurino das antigas. A sessão durou hora e meia de relógio. No final de tudo, também como mandava o figurino de mamãe, entrelacei fios de linha de costurar no pente fino. Esse era o procedimento adequado para a fase de retirada das lêndeas. Elas saíam aos montes... Credo

Agradecer Luzinete pelos bons serviços prestados, pela companhia e pelo virado, não era mais que a minha obrigação. Sou uma tartaruga cristã! Piolho não dá em postes, ora pois!

Hoje, 23 de março, quando escrevo, Luzinete já se foi. Saiu daqui com cabelos limpos e sedosos. Sem lêndeas e sem piolhos. Cheia de graça, diga-se! Espero que não haja recaída. De minha parte, embora tudo tenha sido feito com cuidado, estou alerta para qualquer sinal de coceira nos meus sedosos. Até agora...

Depois ficar quebrando a cabeça, salvo engano, lembrei que, há muito tempo, e bote tempo, existia um pesticida de nome Orval ou Torval, que tinha uma girafa na embalagem.

Enquanto isso, sem ficar ligada em Brasília e seus desencantos administrativos, vou assistir o deslanchar da briga entre os pastores acusados de ladroagem. Haja Prinachol!

---

*Texto originalmente publicado no site Lima Coelho.

sábado, 24 de março de 2012

SER DEPUTADO SEM SER VOTADO - José Augusto de Castro e Costa*

A reforma política é, indubitavelmente, uma das mais importantes revisões estruturais a ser levada a efeito no país. Isto porque é a política não apenas uma atividade para alcançar determinados objetivos de grupos ou resolver conflitos, mas para acolher de diversas outras fontes uma multiplicidade de interesses da sociedade. Nela reside a ciência concernente ao Estado, aos negócios públicos, ao ambiente público, aos meios, ao comércio, à indústria, às rendas, à economia, ao ensino, ao sistema monetário, à história, à geografia e à geopolítica (ao povo, às terras, aos rios, à flora, à fauna, à área marítima, ao espaço aéreo). É, por conseguinte, uma atividade vital na qual devem abrigar-se a esperança e os anseios de uma nação. É da política que são esperadas as devidas providências para o equilíbrio, a sobrevivência e a dignidade da pátria.
Alegoria juramento constituição 1824

A história da política brasileira chega a ser, sim, ao mesmo tempo, algo preocupante e bizarro em alguns aspectos. Para não fugir à “regra” de que em todas as histórias há controvérsias, na história da política do Brasil também há. Por tratar-se de um país novo, influenciado por culturas extrínsecas, muitos atos do nosso comportamento político têm mais de uma versão, sobressaindo-se, sempre, a mais vantajosa ou pelo menos a mais aceitável, conduta que parece ser remanescente de nossos colonizadores.

Sobre a Independência do Brasil, segundo o padre Belchior Pinheiro de Oliveira, testemunha ocular da cena, o Imperador D. Pedro I jamais proferiu a célebre expressão“ Independência ou Morte”. Na verdade, segundo o padre, o príncipe recebeu a tal correspondência vinda de Lisboa com exigências para ele inaceitáveis.
Ao tomar ciência do conteúdo, atirou os papéis no chão e os pisoteou. Em seguida disse ao padre Belchior: “Nada mais quero do governo português e proclamo o Brasil para sempre separado de Portugal. Pelo meu sangue, pela minha honra, pelo meu Deus, juro fazer a liberdade do Brasil”.

Brota daí a política brasileira, com vistas à primeira Constituição, onde mentes férteis começaram a arquitetar vantagens próprias, visando interesses pessoais em detrimento aos do país, condicionando, anos depois, a democracia habilitar as maiorias a concretizarem esses interesses. E vemos, a partir de então, nossa história política robustecer-se com fatos mirabolantes que vão da “lei do dedo sujo” a “curral”, “cabresto”, “boto tucuxi”, “fósforo”, etc. etc.
Proclamação da República,
por Henrique Bernardelli.
Lembremo-nos de que o feito da Proclamação da República pode muito bem enquadrar-se em graciosamente original: um Comandante é levado à presença da tropa para sugerir, pessoalmente, uma revolta militar contra o Governo. Em seguida é-lhe trazido em cavalo no qual, ao montá-lo, profere a frase inaudível “Viva a República”. Apea-se do cavalo e retorna à sua residência para, por ser asmático, recuperar-se de uma crise de dispneia. Os demais republicanos (oficiais e civis), em seguida, encarregam-se das providências a serem tomadas.

Revendo-se as regras eleitorais brasileiras deparamo-nos com questões complicadíssimas, quais sejam as referentes ao coeficiente eleitoral e ao voto proporcional, tal qual ocorreu em 2002, quando um pequenino partido – PRONA – elegeu cinco deputados com os 1.573.112 votos de um só candidato, Enéas Carneiro, acreano de nascimento.

Em 1945 ocorreu um fato, talvez o primeiro de consequências esquisitas, semelhante ao de 2002. O político Hermelindo Castelo Branco foi eleito deputado federal pelo então Território do Acre de forma totalmente ignorada pelos eleitores, porém, perfeitamente constitucional.

Nem ele pode votar em si mesmo, uma vez que à época encontrava-se viajando pelo Rio de Janeiro. Contudo, elegeu-se na cola de um colega de partido (PSD), Hugo Ribeiro Carneiro, que obteve mais de 70% dos votos válidos.

Como só havia duas vagas e o partido conquistou mais da metade do eleitorado, teve direito a eleger dois candidatos – e Hermelindo Castelo Branco ganhou a cadeira com a sensacional votação de nenhum voto.

São casos como esse que podem acontecer no sistema proporcional. Se um candidato já tem votos suficientes para eleger-se, a sobra vai para outros candidatos de seu partido.

Por ser complexo, o tema referente à Reforma Política ainda não chegou a um consenso por parte dos legisladores, que com seus partidos dividem-se diante das propostas apresentadas. Daí o motivo das agendas para votação da matéria serem constantemente adiadas, como aconteceu recentemente.

---

*José Augusto de Castro e Costa é poeta e cronista acreano. Reside em Brasília e escreve regularmente para o Jornal Página 20. Escreve também em seu blog FELICIDACRE.