terça-feira, 15 de maio de 2012

Série A POESIA ACREANA > EVELINE NINA DA COSTA ZAIRE

Durante sua vida, Nina mesclou sua produção científica com uma poesia “caliente” construída nas madrugadas e em muitas mesas de bares, sobretudo, Nina construiu relações forte, muito fortes, por isso, esse livro que contém seus escritos, foi construído por muitas mãos, de muitos amigos que contribuíram para continuarmos tendo, sempre, entre nós, “uma gota do olhar”, do olhar de Nina para nós e do nosso olhar para Nina!

Cleonice Duarte


Uma estrela é bela não em razão do tempo de sua existência, e sim pela intensidade de seu fulgor. Há poetas que nascem como nascem certas estrelas cadentes, de existir sub-reptício, porém, suficiente para deixar um rastro de luz e de encantamento. Tal é a impressão que tenho da jovem poeta Eveline Nina da Costa Zaire, que voltou a ser estrela em outubro de 2000.

Uma gota de olhar (2003), obra póstuma da poeta, organizada por familiares e amigos, reúne mostras de sua poesia, tão humana, tão sensível, tão tocante. Parecem flores vicejantes em domingos iluminados, a irradiar perfume e beleza, enquanto se aquecem e se rendem às carícias das mãos cálidas do sol.

Nina canta os prazeres da vida, e anuncia os encantos do amor, de amar e de ser amada. O amor é fugidio, apressado, é preciso retê-lo, eternizá-lo no instante em que é: “Não sei... apenas sinto e como seria bom se o mundo acabasse nesse momento que tenho amor e sou totalmente prazer!”. Na fragilidade da vida tão passageira como um relâmpago que clareia no céu, Nina evoca a consistência do amor, pois “tudo é exonerável, porém amar é tudo!”.

Na ânsia de viver, sem pudismos e falsos moralismos, Nina é apaixonante, apaixonada. Não disfarça, nem reprime desejos, sente-os profundamente: “Vem o desejo... esse desejo... que me faz querer molhar tua boca e todo teu ser, invadir teu corpo como a chuva, a terra”. Amor de outro ser. Amor significativo, significante, completante: “Tu nem sabes o quanto estou contigo, me sinto grávida, possuída por uma nova vida”. Presença que a faz se sentir “mais gente, mais mulher, mais bonita”, porque antes semeou o amor dentro de si.

A floresta, os rios, os índios na sutileza poética de Nina invadem seu imaginário, despertam sentidos, puxam lembranças: “O rio do meu Acre, o rio dos olhos de prata... que virá! Os rios que me fazem sonhar e sentir o prazer de voar por entre tudo o que lembre o luar”; ou “que a floresta se traduza em festas, em força que dá o daime, em luzes que cortam o olhar longe”. E, evocando a força da mata contra a insensibilidade e ganância humana, Nina proclama: “Deus ainda sobrevive nos cantos da floresta”.

A poesia de Nina traz um naco da insubordinação de sua geração, daquela ânsia de liberdade, de gritar, de indignar-se contra as arbitrariedades do “sistema”, sem, no entanto, ser panfletária: “Trago comigo a coragem, / vivo de coragem sem saber pra quê / fracos, oprimidos e sem heranças / não fazem nada. (...) A bolsa da Vera Loyola não cai, / Sua pose tampouco / O point é ir pra praia, (...) mais isso é só dor, não faz a bolsa se alterar. / Mas de quem é a bolsa?”. Apesar de tudo, não deixar a alegria de viver, mesmo não tendo todas as soluções possíveis na arte de aprender a viver “a tarefa é avançar na interrogação sem omitir”.

Henrique Silvestre concebeu palavras magistrais para a poesia de Nina: “Não dá pra ler os poemas da Nina de supetão. É arriscado sufocar-se com extrema ânsia de viver que jorra em cada verso. Carece ir devagar. Sorvendo cada gota de palavra. Como se fosse um cálice de vinho tinto seco. Travando na língua, prendendo na garganta. Após, provocando indescritíveis prazeres”.

O amor nos conduzirá à utopia de Nina, ao grande seringal astral. Sua poesia é um brado de vida, de liberdade, da ânsia de amar. Afinal “que será de nós se estivermos cansados da verdade do amor”. |Isaac Melo|




Sons de clarins
me fazem assim, assim...
Totalmente em mim
O som penetra em meus olhos
Deixando-me cega,
As imagens criam-se e penetram por meus poros
Tudo se faz loucura e me transporta
Sinto longe a voz tua, tua voz forte...
É a sintonia perfeita para o encontro
Tudo é exonerável, porém amar é tudo!

*

Diamantes e cristais
não valem tal poder
contos de luar
ou a história dos homens
Lua vaga vem brincar
e manda teus sinais
que será de nós se estivermos cansados da
verdade do amor.

*

E o céu é azul
Azul da cor do teu
amar de mar.

*

Pressiona o pincel com a
tinta do meu ser... Crie
magias e então o voo se dará.
Que voraz!... Teu corpo
nasce de novo

*

Sou um ser...
talvez absorvido pela única certeza de estar
vivendo.

*

A chuva cai lá fora
e aqui a sala se invade por
um vento de ar molhado
qual a árvore na chuva...
Linda e úmida se encontra a imagem de
outras épocas
em meu pensamento...
Vem o desejo... esse desejo...
que me faz querer molhar tua boca e todo
teu ser,
invadir teu corpo como a chuva, a terra.

*

Queria te possuir
como a noite possui o dia
e te revelar as entranhas.

*

Entre a claridade do quarto
empilhado de sol, roupas e corpos,
ainda há a ilusão de belezas.

*

Pinta, com teu sorriso,
o meu corpo pálido,
à espera de energia transparente,
tão vista e perceptível
aos olhos e corpo da gente.

*

A saudade me invade
De tua praça
de teus homens
de tuas mulheres
do casarão de nossas vidas
de nossa aventura
de nossa luz rompendo as
trevas da noite de Aquiri
de teus encantos de rio,
correndo em nossas veias,
pulsando ao encontro de outros,
que se quer e sente rio também.

*

Corante
que tira a cor do rio,
que mata os peixes,
que fere as veias...
imensidão verdejante
presença em infinito
Deus ainda sobrevive nos cantos da floresta.

*

Na sombra da tua imagem
que passa
deslizam as mãos que te inventam.

 *

Lembras da rosa azul?
Eu a vejo,
e entre sua existência
pertinente persistência,
sua âncora no peito
sou um porto em fim, aonde jamais
outros ventos do mar ousaram bailar
Ao vento, notícias de amar.

*

Fragmentos...
Luzes de versões
de histórias bem amadas
de vontades veladas
de coisas e gente
que fincam o olhar tortuoso
na curva de teus ombros decentes
taciturna fronte
de amante ontem
à brasa de dois carvões a queimar,
e hoje de cinzas a esfriar.

*

E um dia já fui um
dentro do mundo azul do
seringal
que é um barato
um verdadeiro astral!
O total será o reencontro…
No seringal astral.

*

É muita correria no pensar
se atropela ao tentar de dia falar
preciso já!
muito o que fazer,
pouco o que sonhar.
Os sonhos... esses tão ludibriosos encantos,
são sufocados a cada instante.
O átomo dilacerado do tempo atual,
o veneno de nossa alma,
luz refratária de nossos desejos...
homens sem carne, mulheres sem dor,
jovens sem brilho
no mundo tudo mudou.

*

Recriar o paraíso agora
Para merecer quem vem depois...

*

Na canção que invento
você se reflete em poesia
em cada verso, desverso...
e outra descoberta.



REFERÊNCIA
ZAIRE, Eveline Nina da Costa. Uma gota de olhar. Rio Branco: Fundação Elias Mansour, 2003.
* Agradeço ao poeta Clodomir Monteiro por me ter presenteado Uma gota de Olhar.

segunda-feira, 14 de maio de 2012

A ARANHA E A MOSCA - Lopes de Almeida

À beira de larga estrada
Uma aranha tece a teia.
A trama, fina e doirada,
À luz do sol reverbera...

            E a aranha, encolhida e feia,
            Fica à espera.

Voa ali, pousa adiante,
Rápidas curvas descreve...
Ébria de luz, fulgurante,
Segue a própria fantasia!

            Céu azul, ar puro e leve...
 Que lindo dia!

Lá vem a mosca. O caminho
Esplende ao Sol, que se deita
No Ocaso devagarinho...
Zum-zum... Lá vem... Presa rica!

            E a aranha, de longe à espreita,
 Imóvel fica.

Lá vem. Descuidada e linda,
Zumbe no ar. Silêncio em roda.
Por tudo uma calma infinda
A tarde suave estende...

            E a mosca, na teia, toda
            Se enreda e prende.
      
Zum-zum!... Aflita e medrosa,
As lindas asas agita.
Cansa-se lenta; e, furiosa,
Mais sofre, mais se arrepela.

            E a aranha, que a fome incita,
            Vai sobre ela. 

Um lavrador que passava,
Estende a mão rude e tosca,
Liberta a mísera escrava
Que entre as árvores se some...

           E a aranha, perdendo a mosca,
Morreu de fome.



BANDEIRA, Manuel; AYALA, Walmir (orgs.). Antologia dos Poetas Brasileiros: Fase da Poesia Moderna: antes do Modernismo / o Modernismo. Rio de Janeiro: Edições de Ouro, 1967. p.43-44

domingo, 13 de maio de 2012

MINHA MÃE

Rio Branco 07/05/2005


A mulher da foto que vejo ao lado
sempre esteve ao meu lado
no lado do lado do coração

O lado do lado de quem esteve só ao lado
é quem nunca esteve ao lado no lado
ela continua sendo a foto ao lado

Agora estou dentro
e quando olho de dentro não vejo minha mãe
eu sou

Ela está em todos os lados
ao lado e dentro de todos os lados
ela vive falo sempre com ela

Mas jamais sairei do espelho.

ROLANDO UM PAPO - Leila Jalul

Oi, Dona Mãe,

Agora está tudo diferente... Muito diferente! Não teremos galinha com macarrão no seu almoço, mas, que importa isso? É verdade que você não gostava de furdunço, não é?

Seus filhos estão por aqui. Estão bem. De saúde, inclusive. Não falta o pão na mesa de nenhum. Isso basta! Esse era seu maior medo: a falta do pão. Verdade?

Ontem, 11 de maio, enquanto tomava minha cerva gelada na cozinha, liguei para a irmandade pedindo, um a um, que mandasse uma falinha para que, reunidos em pensamento, pudéssemos homenageá-la.

Léa, lá de Florianópolis, quase que corta a ponta dos dedos na hora de escrever. Como ela é muquirana, nem estranhei.

Dona mãe, esses seus filhos são meio malucos! Não sei se sabe que a Léa, depois de velha, danou-se a brincar de roda. É isso mesmo! Depois de cansar de ser contra o Pe. Quevedo abandonou a parapsicologia e virou bailarina! Veja só o que ela escreveu e se não estou certa ao afirmar que ela é mão de vaca:

“(Leila, com certeza, há muito o que se dizer a uma mãe para homenageá-la e demonstrar gratidão, mas o que mais profundo ficou e guardo para mim da imagem da nossa mãe foi a sua simplicidade e é o que ressalto aqui).
Mãe querida, não foram as palavras, mas o teu jeito simples de ser que nos ensinou a caminhar na vida.
Hoje e sempre, agradecida, eu te celebro e te reverencio”.

Do seu caçula, o Chico, recebi quase uma peça de teatro. Espie só:



“Leila, só agora pude parar pra mandar o e-mail que me pediste. Achei legal, gostei da ideia e perguntei aos meninos o que eles diriam pra mãe "viva" nesse Dia das Mães. E assim dissemos:
Chiquinho: - Bença Vó! Feliz dia das Mães. Parabéns. Tudo de bom pra Senhora.
Izabel: - Vozinha... Feliz Dia das Mães. A senhora que soube honrar esse papel tão lindo que é ser "Mãe" e foi com tantas dificuldades, mas com muito amor que cumpriu esta missão de Deus. Parabéns! Bença, Vó!
Azize Cristina: - Vó, bença! Me sinto muito feliz em ser sua neta e ter seu nome. Ah, tenho uma novidade. Consegui na Justiça retificar meu nome. Acrescentei Jalul em sua homenagem e ao meu bisavô e com isso me sinto mais próxima da senhora, com sangue sírio-libanês e realizando um sonho meu. Feliz dia das Mães!
Tânia: - Feliz Dia das Mães, Dona Azize.
Chico: - Ei, velhinha, só pude vir agora com a Tânia e os meninos pra lhe dar um abraço. Em homenagem ao seu nascimento, no dia 5 de agosto passado, eu queria cantar, mas, naquele dia, vieram muitos amigos e familiares, tomaram muito tempo e me deixaram sem espaço. Hoje que estamos em família, peço a Deus que lhe dê muita saúde e vida espiritual longa pra que a senhora possa ver se realizar tudo que rogou a Ele. Os meninos estão formados e trabalhando. Só falta a Izabel, mas já entrou na UFAC.
A casa foi reformada. Estamos vivendo com mais dignidade e com o mínimo de conforto. Outras coisas boas estão acontecendo.
Deus só ainda não lhe atendeu numa coisa. Na realidade, eu é que tenho lhe desobedecido até hoje. Não tive coragem de derrubar o Ipê que amarela o alto e o chão da frente da nossa casa, por uma semana de Julho. É um espetáculo admirado por nós e por todos que passam pela Rua São Sebastião.
Não se preocupe, pois não há perigo algum do pau d’arco cair sobre a casa. Ele só traz sombra e colore a paisagem.
 Feliz Dia das Mães!
Chico e família”

Pois bem, Dona mãe, vou agora juntar a mensagem da Lígia. Pediu-me que não retirasse nenhuma vírgula. Como sou cumpridora de ordens, mando ipsis litteris:

“Oi, MÃE,
Saudades... Por onde anda?
Faz algum tempo que não vem me ver e já estou com saudades.
Lembra da última vez que nos encontramos? Com toda sua simplicidade, estava bonita e muito alegre. Perguntei pra onde ia o que queria já que tinha partido para outras plagas e não mais pertencia a este plano, quando me respondeu que apenas estava vindo me ver.
Mãe, demora não, vem mais vezes prosear comigo como antigamente, pois cada vez que nos encontramos nos meus sonhos, diminui a saudade e me deixa muito feliz.
Mãe, Joãozinho está bem e diz que sente saudades da senhora.
Fica tranquila que estamos cuidando muito bem um do outro, tá?
Mãezinha, não quero lhe cansar. FELIZ DIA DAS MÃES!!!
E não suma, sim?
Lígia”

Minha senhora Dona Mãe, Latif e Manoel não escreveram nada. Talvez por estarem ocupados com outras coisas também importantes.

Como bem sabe, Latif vive entregue à caridades e às funções da vida religiosa. A Pastoral da Criança toma um tempo danado da coitada. Isso sem contar no saquinho das hóstias que ela distribui aos doentes. E tem que fazer a evangelização de meninos barrigudos e as palestras nas paróquias e na diocese. O mais importante que ela tem a dizer é que, na fé e na coragem, conseguiu driblar aquela doença danada e que nem gosto de dizer o nome.

Manoel, o seu queridinho, virou avô do Murilo. Faz uns quinze dias. O menino não pode nem peidar que ele já quer chamar o pediatra. Ele, Rita Maria e Manuela estão de bem com o mundo. Todos com cara de paridores da nova vida que pintou no pedaço.

Quanto ao outro “seu queridinho”, o Callil, você, somente você é quem pode nos mandar notícias dele. A irmandade aqui deseja que ele tenha encontrado a paz que precisava e que possa ter tido um contato imediato de terceiro grau com você. A gente adora se enganar e acreditar em coisas pouco possíveis, não é?

É isso, Dona Mãe! Não vou falar de mim desta vez. Pra quê? Temos os mesmos vícios, os mesmos achaques, o mesmo lundum e a mesma cara de Madalena amazônica. Somos gêmeas, pois!

Abraços e beijos virtuais da récua que você deixou nascer. Só para deixar bem claro, vale reafirmar que todos nós temos pão e fartura na mesa. Relaxe e goze!


* Publicado originalmente no site Lima Coelho.

sábado, 12 de maio de 2012

BRASILEIRO POR OPÇÃO – I

José Augusto de Castro e Costa


Ao julgar-me admirador de atos e fatos históricos, sinto-me imensamente gratificado com o prazer de fornecer dados e opiniões, o mínimo que seja, para quem quiser tomar a si a nobilíssima tarefa de escrever a história da terra que me serviu de berço. Ambiciono apenas glórias para o Acre.

É de suma importância manter-se acesa a chama da história acreana, pelo fato de, conforme é reconhecido por Lews Munford, “ela é contemporânea, e nada talvez mais contemporâneo do que aquelas partes ocultas do passado, que ainda sobrevivem sem que tomemos conhecimento de seu impacto cotidiano”.

Por não se contentar na repetição da história dos demais, o historiador, levado por seu espírito de pesquisa, invade bibliotecas adentro e faz de tudo para chegar às origens da verdade. Com referência à Amazônia assim o fizeram o professor Arthur Cezar Ferreira Reis, Craveiro Costa, Cláudio de Araújo Lima, Ferreira Sobrinho, Leandro Tocantins... Todos, sobretudo por serem amazônidas, com dedicação exclusiva à questão do Acre.

Ao lê-los atentamente fica-se com a impressão de que o Acre, em relação ao Brasil, era como uma criança rejeitada pelo pai que a doou ao vizinho, inclusive de papel passado (acordo de Ayacucho – 1867). A criança já havia adquirido e enraizado a cultura do pai (Brasil), sua língua nativa de sotaques variados, seus costumes diversificados (comidas, danças, espiritualidade, anedotário, vestuário, etc.), há um bom tempo, revestida do mais puro sentimento de orgulho, acomodado em seu âmago. O vizinho, a princípio acordou, projetou, planejou ficar com a criança e até dramatizou resistência mortífera em perdê-la. E o pai... simplesmente alheio ao processo.

A história do Acre merece ser mais difundida, para atingir a correta interpretação pela inteligência brasileira, equivocada, ainda, em grande parte, de compreensões sobre o original processo de incorporação do Acre ao Brasil.

Em linhas gerais, os nordestinos, sobretudo os cearenses, mais os amazonenses, paraenses e maranhenses apenas repetiram feitos dos bandeirantes, nos séculos XVII e XVIII, não obstante o Tratado de Tordesilhas, inicialmente com o objetivo de caçar e apresar índios, posteriormente com interesses extrativistas minerais e vegetais. E nessa de exploração do ouro, há mais de cem anos antes (1722) do tal acordo de Ayacucho (1867) já havia registro de brasileiros cercando a área acreana, ao atingir o Madeira e o Guaporé. Não havia nada de boliviano. A preocupação das autoridades portuguesas, nessa época, era interceptar a marcha dos espanhóis, que também utilizavam jesuítas para fundar missões.

A exploração das florestas ocidentais do continente sul-americano ocorria simultaneamente em busca do eldorado.

Isso foi-se tornando um paraíso que atraia e seduzia inúmeros aventureiros, portugueses, brasileiros, espanhóis e inclusive holandeses dispostos a explorá-lo, ou até mesmo meramente conhecê-lo, a exemplo do grande médico-cientista Esperidião de Queiroz Lima, que desde tenra idade ambicionava embrenhar-se na selva, tanto para pesquisá-la como para nela viver, satisfazendo seu seduzido espírito aventuroso, o que na realidade ocorreu.



* José Augusto de Castro e Costa é cronista e poeta acreano. Escreve o blog FELICIDACRE.

quinta-feira, 10 de maio de 2012

EM RIO QUE MENINO NADA RAIA NÃO FERRA

Isaac Melo

"Por vários motivos, a ficção de Olivia atrai o interesse do leitor. Primeiro, pelo modo firme como suas narrativas são construídas, proporcionando um bom equilíbrio entre os elementos memorialísticos e a invenção dramática. Segundo, pela qualidade do humor, que não interfere na viagem ao interior dos personagens, mas contribui, ao contrário, para revelar sua riqueza ou pobreza interior."


A literatura acreana, por muito tempo marcadamente bairrista, se abre cada vez mais num caleidoscópio de projeções universalizantes. A literatura não se amarra a lugar, espaço, tema, tempo. Destarte, a literatura acreana está, literariamente falando, além do Acre e dos acreanos. A meu ver, fazer literatura acreana é desvelar e revelar a multiplicidade que constitui o Acre humano, sentimental, histórico, cultural, religioso, e o que daí decorre. Por isso não precisa está ou nascer no Acre para fazer literatura acreana, pois esta não se reduz nem se encerra em seu objeto fundante, embora encontre nele o seu impulso.

Em cada nova obra o Acre se reinventa, abre novos caminhos, encontra outras peças de seu mosaico. O ponto final cede lugar às reticências. O fim é um novo começo. Em rio que menino nada raia não ferra (2010) abre outros varadouros para as letras acreanas passar em meio à densa floresta de pedra e de homens. Obra de cepa acreana, como não deixa dúvida o título, nascida nas terras do planalto central. O livro primeiro de Olivia Maria Maia é pujante como as águas voluptuosas de repiquete, quebram barranco, levam canoas, mexem com a gente.

Por não ser crítico literário, costumo tecer meus comentários embasados no impacto e no sentimento que me despertam. O porto a que me atraco neste sentido é o filósofo Richard Rorty, para o qual a função da crítica literária é fazer o cotejo, a comparação de figuras umas com as outras, isto é, dos vocabulários inventados (dados) pelos autores (literatura) com redescrições alternativas que usam vocabulários de figuras alternativas. O contato com a literatura permite a ampliação do nosso número de conhecidos (autores) e, consequentemente, nos permite um conhecimento maior sobre nosso próprio caráter e de nossa cultura. O crítico está sempre revendo antigas e novas concepções. E ao rever seu vocabulário final, simultaneamente, revê sua própria identidade moral. Por esse viés, a crítica literária não está preocupada em explicar o verdadeiro sentido dos livros, nem avaliar o “mérito literário”, mas possibilitar novas redescrições.

Despertei para o mundo... Despertei para o amor... Despertei para a ânsia de viver cada minuto como se fosse o último. Cada palavra de Em rio que menino nada raia não ferra parece querer saltar das páginas para se unir ao leitor num abraço vivificador. Olivia Maia revela que memória não é para parir nostalgia, rancor, melancolia, e sim, vida, saudade, amor. Finca olhares no passado com pés firmes no presente. Não há saudosismo, apenas desdobramentos do amor. Recordar a vida não é amarrar-se ao passado, o qual não é lembrança estática, mas força que nos interpela e nos impulsiona no decorrer da existência. A lembrança, no entanto, não é a força matriz e motriz da autora, e sim o amor, a “casca fininha” que a reveste. Um amor que não conhece nenhum tipo de amarra. Amor libertado, libertador. Força a mover e remover a autora. Afinal é preciso fazer valer a beleza do amor.

Em rio que menino nada raia não ferra não mexe só com o sentimental, revela uma escrita bem elaborada e uma escritora arguta. Sabe como dizer o que dizer. A prosa vira verso no verso feito prosa. Desenvolto, texto flui poético em meio a metáforas, imagens, conotações: “Ficávamos embaixo, a catar panos coloridos que voavam como borboletas”, “minhas lembranças criaram asas e viajaram na imensidão dos tempos vividos”, “ficava torcendo para que um anjo o agarrasse e o transformasse em estrela”. Modo de gente grande de dizer como também um dia dissera, em A Idade da Razão, J.P. Sartre: “Uma grande flor roxa subia para o céu, era a noite”.

Contos, crônicas, estórias, histórias compõem o tecido de Em rio que menino nada raia não ferra. Narrativas que surgem a partir de cenas da vida cotidiana que sob os olhares da autora assumem outra dimensão. Felicidade não vem em grandes tonéis. É preciso aproveitar o que nos é ofertado em pequenos frascos. Por isso a autora vibra com os pequenos detalhes do dia a dia, como a gratidão de acordar ao lado da pessoa a que se ama e que desperta-a com palavras sussurradas ao ouvido; ou a leitura de uma crônica de Marina Colasanti. A vida está aí, basta saber absorvê-la.

Ao longo do livro personagens, cenas e cenários saltam aos olhos do leitor. É o homossexual insatisfeito com o nome (“...Nem Sansão, nem Dalila, apenas dúvidas, feridas...”), é a mulher que recebe uma aparição de Nossa Senhora às margens do Rio Acre (O canto de uma alma embalada pela fé), é o pai que abusa sexualmente dos filhos (O código do silêncio), é o menino que conversa com Deus (Deus andava na minha rua), é o cheiro de peroba (Lembranças de cheiros), é a dor da ausência da mãe (Não conhecia essa dor). Ora surge a cronista, ora a contista, ora a memorialista a revelar uma única Olivia Maia, a que também sabe dialogar com o passarinho caído à sua frente depois de bater no vidro da janela, e anseia por deixar “portas e janelas abertas, sem telas, para que jamais um pássaro pudesse tombar nela e morrer”.

As letras acreanas se alargam com livros como Em rio que menino nada raia não ferra. E me faz pensar Olivia Maia entre escritoras de grande apreço no Acre como Florentina Esteves, Leila Jalul, Robélia Fernandes. O livro tem uma força que, ao final, nos impele a dizer junto com a autora: “que bom ser Olivia, simplesmente Olivia, com uma casca bem fininha me revestindo”, o amor. Amor que transborda de cada página, porque antes inundou o ser da autora, cujas palavras confirmam aquela verdade de Adélia Prado, a de que “a alma vive mais onde ama que no corpo que ela anima”. Afinal, como versejou Drummond, amar é o sumo da vida.



REFERÊNCIA
MAIA, Olivia Maria. Em rio que menino nada raia não ferra. Brasília: Ed. do Autor, 2010.
 * Dou graças a autora Olivia Maia por ter me regalado  com Em rio que menino nada raia não ferra, e mais dois outros livros do poeta Elicio Pontes.

terça-feira, 8 de maio de 2012

PIQUENIQUE DE GENTE GRANDE

Olívia Maia*
Acordei cedo. Senti que fazia muito frio. O que não esperava era que ao abrir a janela encontrasse uma chuva fina e persistente. E o piquenique? Pensei. Como sonhei com um dia de sol. Em poder tirar os sapatos e andar descalça sentindo o estalar das folhas em meus pés. Minhas lembranças criaram asas e viajaram na imensidão dos tempos vividos.

Três crianças correndo pelo meio da casa em algazarra. Era a hora de preparar o piquenique. Saíamos com uma cesta de palha repleta de sanduíches, sucos e frutas. Parávamos embaixo de uma árvore frondosa e nos púnhamos a brincar. Lanchávamos. Deitávamo-nos a olhar para o céu a ver bichinhos formados pelas nuvens. Olha lá que ovelhinha bonita. E aquele patinho parece que está fazendo quá-quá — sonhar era preciso. Passear na Esplanada, ao entardecer dos domingos, e dar pipocas para os gansos. Ir ao parque. Aos canteiros floridos e perfumados. Se deslumbrar com a natureza. Mas sempre em lugares em que não gastassem dinheiro (já que era muito escasso para aquele casal). A noite chegava e exaustos e felizes agradeciam por tudo que vinham recebendo, principalmente aqueles três filhos maravilhosos.

Senti lágrimas pesadas de saudades escorrerem em meu rosto. Ao tempo em que me animei ante a possibilidade de reviver momentos de alegria. Saí da cama com vontade de apanhar a velha cesta de palha e a toalha xadrez. Pensei: que mico! Esse é um piquenique de gente grande. Pequei algumas frutas, sucos, salgadinhos, coloquei-os em uma sacola de uma loja de “grife” e saí achando aquilo muito sem graça. Na porta lembrei-me da pasta com os Contos. Voltei para buscá-los, quando senti um misto de alegria e excitação. Estava indo a um piquenique ouvir, ler, sorver, absorver — poesias, contos, crônicas, sensibilidade, beleza. Começara a fazer sentido, mesmo com chuva, a ida ao piquenique.

A chuva não cessava. Iam chegando, um, outro, outro e outro. A chuva não permitiu que eu tirasse os sapatos e fosse caminhar no chão de folhas secas.

O grupo formou um círculo em uma sala de janelas altas onde nada se via. Sentia-se, apenas o cheiro da mata molhada. Notei, ao meu lado, uma figura exótica: um misto de guerreiro africano, índio, cabelos longos e trançados, aparentando uns vinte anos. Um riso bonito e uma pergunta inesperada:

— Tu és psicóloga?

— Sim. Sou.

Respondi e saí do assunto com outra pergunta: E tu, com esse sotaque, és nortista?

— Sou nordestino de Recife.

Respondeu com uma voz forte e grave e certo orgulho nos olhos. E concluiu, sacudindo as tranças dos cabelos, com um tom reticente:

— Tu tens uma cara de psicóloga!

Pronto, pensei: revelei-me uma “coisa estranha”. Senti-me vista como se olhasse a partir de uma lente diferente das outras pessoas. Um pequeno incômodo se instalou no meu estado de espírito. Eu sempre me perturbo diante dessas situações.

Comecei a lembrar as freqüentes vezes em que me atordoei ante o ofício que escolhi. Algumas pessoas até acham que a gente lê pensamentos e que tem o poder de desvendar os segredos da alma humana. Umas se afastam, outras se aproximam, e também como uma forma de se afastar, perguntam: então você não acha que...?

Detesto achar alguma coisa... Mesmo quando sou eu e não a psicoterapeuta se manifestando deparo-me, às vezes, com situações inusitadas, tipo: por favor, não me venha com sua psicologia; você como psicóloga deveria ter entendido melhor o fulano; não deveria ter dito tal coisa; não poderia ter se comportado dessa ou daquela maneira. Duro e solitário ofício. Respirei cansada em rememorar tais situações.

Senti que a alegria inundava a sala. Inicialmente tomei um banho com essências femininas, com Adélia Prado e Cecília Meireles. Senti-me literalmente de alma lavada. A harmonia, a calma e a paz foram instaladas. O santuário estava preparado para as pessoas se colocarem, melhor dizendo, colocarem suas obras, suas produções, suas almas.

Alguns começaram timidamente e de repente, como crianças em dia de festa, estavam todos querendo dizer: olhem só como eu também sei fazer coisas bonitas, olhe como o meu balão sobe mais. E foi ficando cada vez melhor – salgadinhos, crônicas, panetone, conto, vinho, poesias, sorrisos, lágrimas, tudo se misturava, dando uma tonicidade única para o momento. O sombreado do dia nublado tornara-se azul.

O guerreiro Negro (como resolvi denominá-lo) abriu seu caderno e começou a declamar suas poesias. Elucubrações estilísticas começaram a se estabelecer. Eu não entendia nada nem do que ele escrevera, nem do que as pessoas diziam. Fiquei quieta sem pronunciar uma só palavra. Costumo fazer isso quando não quero sair do meu estado interno de perceber as coisas e o mundo. Deixei-me ser levada pelas sensações e sentimentos que aquelas poesias, aquela forma de falar, de gesticular, me provocavam. Apreciava apenas a expressão genuína de um Ser querer, e poder ser, ao seu modo, corajoso, ousado, contestador, fazendo da força da idade sua combustão para se colocar no mundo.

Nesse momento, percebi que o oficio que escolhi deixava marcas profundas. Estava ali a reconhecer a emoção, as palavras vibrantes, que eram expressas cheias de significado (mesmo que apenas para ele). Porém não me sentia uma “coisa estranha”, uma “lente ambulante”, pois estava desprovida de qualquer conhecimento ou julgamento. Minhas mãos estavam vazias para acolher toda e qualquer manifestação de um Ser.

O piquenique acabou em clima de encantamento. Saí vagarosamente com os pedaços dos diversos Seres, das diversas expressões. Sentindo uma sensação de leveza. Respirei fundo, sentindo, mais uma vez, o cheiro da mata. Disse baixinho para mim: que bom ser Olívia, simplesmente Olívia, com uma “casca” bem fininha me revestindo.



* Olivia Maria Maia é natural de Rio Branco, desde 1972 reside em Brasília. É autora de Em rio que menino nada raia não ferra  (2010).
** Crônica originalmente publicada em luciafonso.blogspot.com.br

segunda-feira, 7 de maio de 2012

O HOMEM QUE VENCEU O TEMPO

Marcos Vinícius Neves


O que um homem acumula ao longo de sua vida? Rancores e ressentimentos? Boas lembranças e conhecimento? Observar o que um homem deixa como herança e legado aos que vem depois dele, pode ser uma boa maneira de encontrarmos a resposta para essa essencial pergunta.


Abrir a porta daquele armário me provocou ao mesmo tempo enorme desespero e imensa animação. A pilha de pastas e envelopes recobertos por grossa camada do pó dos tempos de imediato revelava que os próximos dias seriam muito, muito, trabalhosos mas profundamente recompensadores.

Não é todo dia que um pesquisador tem a oportunidade de se debruçar sobre o conjunto de materiais acumulados em décadas de trabalho de um outro pesquisador. Ainda mais se levarmos em consideração que este conjunto de documentos, cartas, recortes de jornais, manuscritos originais, fotografias, entre muitas outras coisas, nunca haviam sido pesquisados antes. E, principalmente, que foram o produto de toda uma vida de trabalho e dedicação de um dos mais extraordinários e importantes pesquisadores da história do Acre: Leandro Tocantins.

Mas, antes mesmo de continuar a descrever o que foram esses últimos dias em minha vida, é fundamental explicar que essa rara janela de oportunidades extraordinárias foi aberta pelo diretor da Biblioteca da Floresta, o filósofo e amante do conhecimento, Marcos Afonso.

Foi ele que fez contato com a viúva de Leandro Tocantins, a simpática e atenciosa D. Léa Tocantins, e sua filha, a animada e irrequieta Rosane. O objetivo inicial seria o de trazer para o Acre a biblioteca de Leandro, em especial aquela parte dedicada a Amazônia, já que este era com justiça tratado por Gilberto Freire como um Amazonófilo. Infelizmente essa biblioteca já havia sido doada e está motivando uma série de contatos e tratativas que continuam sendo conduzidas por Marcos Afonso, que não costuma se deter no primeiro obstáculo.
 
Por outro lado, durante a primeira visita que a equipe formada por Marcos Afonso (e que incluiu outras três pessoas além de mim e dele) fez a Dona Léa - um assunto que logo será devidamente tratado em artigo escrito por ele mesmo - nos deparamos com um grande volume de documentos e textos originais deixados por Leandro Tocantins. A alegria foi então inevitável e generalizada. Ainda mais depois que Dona Léa e Rosane deixaram clara sua disposição de doar esse acervo documental para a Biblioteca da Floresta, que mesmo num primeiro e superficial olhar se mostrava evidentemente muito rico, para que os acreanos possam dele desfrutar.

E foi assim e por isso que eu e Libério, Chefe do Departamento de Patrimônio Histórico da FEM, desembarcamos no Rio de Janeiro, no útimo domingo, com a missão de identificar, selecionar, encaixotar e trazer para o Acre o acervo documental deixado por Leandro Tocantins.

Muito dificil é pra mim, descrever com propriedade o que senti nos dias subsequentes. A emoção de abrir dezenas de envelopes e pastas acumuladas ao longo de uma vida inteira para nelas descobrir verdadeiras preciosidades é única na vida de um pesquisador. Assim passamos dias inteiros, encontrando fotografias amareladas de uma Belém e de um Acre que não mais existem; telegramas e cartas trocadas com autoridades e intelectuais do calibre de Raquel de Queiróz, Gilberto Freire e Arthur César Ferreira Reis; poesias e textos manuscritos ou datilografados, muitos deles ineditos, incluindo os fichamentos e ensaios que deram origem à fundamental e clássica obra de Leandro Tocantins: Formação Histórica do Acre; entre muitos outros documentos e objetos impossíveis de relacionar aqui neste artigo.

Um prazeroso trabalho que contou com a luxuosa orientação e auxílio de Dona Léa e Rosane que o tempo todo nos acompanharam identificando lugares e pessoas, esclarecendo dúvidas sobre o período em que Leandro trabalhou na Embrafilme, na Embratur, na embaixada brasileira em Lisboa e nos mais diversos acontecimentos da vida desse extraordinário memorialista e historiador.
Um homem que, mesmo tendo deixado Tarauacá aos doze anos e Belém aos dezoito, nunca deixou de ter uma alma amazônica, tanto que suas principais obras permaneceram ligadas umbilicalmente à floresta e ao seu povo simples. Um homem que, apesar de formado em direito, amou a história como poucos.

Mas, além de emocionantes e cansativos, preciso dizer que esses foram também dias muito alegres. A sensação que tive foi que enquanto esvaziávamos os armários das pastas e envelopes tão longamente acumulados por Leandro Tocantins, tirávamos um peso dos ombros de Dona Léa e Rosane que alternavam risos e choros ao verem suas vidas de novo repassadas diante de seus olhos. Afinal, este fantástico acervo agora voltará a vida e passará a estar disponível para todos que por ele se interessarem.

Mas, quando já estávamos perto de terminar o trabalho, uma coisa, um detalhe simples e despretencioso, me chamou a atenção. Em nenhuma das pastas ou papeis encontramos uma traça sequer. Muita poeira, fungos, ácaros, mas traça nenhuma. Pareceu-me, então, que Leandro Tocantins foi e é como aquelas árvores de madeira de lei amazônicas que os cupins não róem porque não conseguem, são duras demais para isso. Tal como a obra de Tocantins, rija, consistente e permanente demais para ser devorada. Sem dúvida um homem que por sua vida e trabalho venceu a voragem do tempo.

quinta-feira, 3 de maio de 2012

APONTE DOS DOIS MENINOS

Clodomir Monteiro
O QUARTO LADO DA VIDA


além do tempo e razão
oculto em nossas origens
eu vejo que nos separa
aquela ponte inconclusa

muito tempo poucas falas
muitas falas nenhum tempo
afinal nos temos ditos
o que a fala não ditou

não ditou que a vida é breve
não ditou que amanhecemos
e os discursos decifraram
sonhos do entardecer

resta pois saber meu pai
aguardar o anoitecer
para juntos combinarmos
noutra ponte mais sensível

onde está o par genético
na razão ou na emoção
voltaremos dois meninos
um no outro escondido?

somando ao tempo a razão
por dentro dita a memória
nos ajunta o que não vejo
de uma ponte indestrutível

terça-feira, 1 de maio de 2012

EM RECIFE: Exposição Mandalas da Floresta

Recife/PE, através da Livraria Cultura, receberá a mostra “Mandalas da Floresta”, da artista plástica acreana, Simone Bichara, durante todo o mês de maio.

Após ter percorrido vários Estados do Brasil e ter conquistado o público e a crítica além das fronteiras brasileiras, a Exposição itinerante Mandalas da Floresta chega a Recife com ares mais florestais do que nunca. Com 28 novas obras delineadas e pintadas em madeira reciclável; idealizadas e confeccionadas de dentro da floresta amazônica acreana pelas mágicas e sensíveis mãos da terapeuta holística, produtora e artista plástica Simone Bichara – essa, que vem colorindo o Brasil não só com as pitorescas mandalas, mas também com a beleza de um trabalho baseado no princípio ecológico e harmônico, resgatando olhares de muita gente para a consciência da importância das nossas florestas. Veja mais em MANDALAS DA FLORESTA.
Exposição Mandalas da Floresta
Dia 02, Livraria Cultura de Recife, no Paço Alfândega, às 19h30min.

Nota.: Conheço de perto a arte de Simone Bichara e posso afirmar que é um trabalho belíssimo, sendo ela uma de nossas melhores artistas plásticas. A mandala AMOR E PERDÃO é uma das obras mais belas que já tive oportunidade de ver.