terça-feira, 6 de maio de 2014

TEATRO AMAZONAS: Um romance histórico de Rogel Samuel! Quem matou Eduardo Ribeiro?

José Ribamar Mitoso


(Jornalista) Lima Silva, quem matou Eduardo Ribeiro? Perguntou a seco Waldemar Scholz, o barão alemão da borracha.

Esta pergunta, formulada ainda no segundo capítulo, move todo o enredo e toda a trama do romance Teatro Amazonas, do escritor Rogel Samuel. Embora os bastidores políticos da construção deste teatro de ópera na floresta seja o mote da narrativa, é esta trama monarquista e escravocrata para matar Eduardo Ribeiro que, no fundo, mais interessa na obra.

Na verdade, são duas tramas que se encaixam: os bastidores da construção do Teatro Amazonas e a conspiração que assassinou Eduardo Ribeiro.

Quem foi o melhor governador do Amazonas no século XIX: José Paranaguá ou Eduardo Ribeiro? Qual o mais importante dos dois: o que iniciou ou o que concluiu a construção do teatro? Por que monarquistas e escravocratas queriam matar (e mataram) aquele que foi o primeiro governador de Estado e o primeiro senador negro da República brasileira? O que é história e o que é ficção na trama do romance? O assassinato do construtor da Manaus Moderna foi político ou passional? Após uma macabra trama para assassiná-lo, o jornalista Lima Silva matou Eduardo Ribeiro apenas porque o Pensador comeu a Marinalva?

Durante a narrativa, através do narrador e através da voz de uma autoridade pública da época, são feitos alguns comentários sobre as obras de governo dos dois governadores do Amazonas.

Sobre José Paranaguá: assumiu o governo do Estado em 1882, ainda como agente indicado pela monarquia, e é descrito por uma autoridade pública como o “melhor governador da história do Amazonas”. Entre outros feitos, “…por ter lançado o projeto do Teatro Amazonas … por ter criado a Biblioteca Pública e o Museu Botânico… por ter criado a infraestrutura para o ciclo da borracha … por ter apoiado os professores, as ciências, as letras e as artes …”. A lista é longa.

Sobre Eduardo Ribeiro: segundo o narrador, governou o Amazonas, eleito, já no período republicano, e em seu segundo mandato, que iniciou em 1893, construiu a Manaus Moderna. O narrador informa ao leitor que Eduardo Ribeiro planificou a cidade, aterrou igarapés, construiu muitos edifícios públicos, praças e monumentos, criou um moderno sistema de saneamento e de abastecimento de água, fez contenções, organizou os transportes urbanos, as linhas dos bondes, a iluminação pública… A lista também é longa.

Porém, não são as obras inanimadas que mais chamam a atenção no romance. Melhor que todas elas, a animação da vida social e a animação da vida individual de Marinalva é que encanta.

O narrador nos informa que Marinalva era, inicialmente, amante de Lima Silva e o enlouquecia. Era “cabocla, pequena, leviana, sensual… e até perto dos sessenta anos continuou uma mulher atraente e sexy… muito elegante, bem-vestida, no rigor da moda de Paris e, ao contrário das demais caboclas naquela idade, continuava em forma”. Mais ainda: (…) “Depois do terceiro uísque, (Marinalva) perdia a compostura, chegava a “flertar” com todos os homens. Marinalva “traia Lima Silva até com os trapicheiros!”.

Contudo, “...junto dela, (Lima Silva) perdoava tudo. Era capaz de beijar seus pés, que, alias eram bonitos… Tinha os cabelos negros, lisos, brilhantes, a pele bronzeada, os seios pequenos. Olhos de índia, de onça, a cor variava pelo amarelo-ouro-esverdeado, cor indefinível, falsa, perigosa. Ela dizia que tinha vindo de Amatari. Não tinha documentos. Quando Lima Silva mandava fazer os documentos dela, Marinalva os perdia. Silva a cobria de presentes, roupas e joias, dizia que queria casar-se com ela, abandonar a esposa, e de fato seria capaz de tudo para ficar com ela. Ela se ria, jurava que sim, e no dia seguinte sumia na orgia da noite, voltava bêbada e louca na manhã seguinte para aquela casa que Silva tinha alugado para ela, na Cachoeirinha. Silva ameaçava abandoná-la e deixava de vê-la. Mas quando Marinalva estava sem dinheiro aparecia no Foro, ou na Câmara, ou mesmo na porta da casa dele. Ameaçava fazer escândalo. Silva segurava o seu braço e a tirava dali, e tudo acabava na cama, ela gemendo, ele extasiado de prazer e de genuíno amor. Não, não tinha cura. Marinalva, ela dizia que se chamava assim. Mas como tudo nela era possível, ele não sabia se era verdade”.

Certa vez, na casa d’O Pensador, na frente de Lima Silva, (…) “Marinalva jogava todo o seu charme em cima do então ex-governador Eduardo Ribeiro. Em dado momento, encostou sua perna por baixo da mesa na dele. Ele delicadamente a afastou. Como ela repetiu alguns minutos depois, ele deixou e com a mão acariciou-a por entre as pernas, curvando-se sobre o papel que o marido dela estava atentamente lendo”.

“Lima Silva nada via ou fingia não ver”.

A partir deste ponto, o narrador começa a moldar a trama do romance de tal modo que a conspiração política para matar Eduardo Ribeiro começa a se misturar com vingança passional. A partir daí, o leitor vai ter que ser bem esperto para compreender que o plano da elite monarquista e escravocrata para assassinar um líder negro republicano e abolicionista começa a contar com fatores extras.

É claro que Eduardo Ribeiro comeu Marinalva e é claro que Lima Silva assassinou Eduardo Ribeiro, mas não é nada claro sobre quem armou e sobre quem estimulou Lima Silva.

O tempo cronológico é o final do século XIX e início do século XX.

O tempo social é a transição da monarquia para a República no Estado do Amazonas, unidade federada do Brasil.

O tempo narrativo é um jogo temporal alucinante, que embaralha passado, presente e futuro, em uma trama capaz de “baratinar” a cabeça de um leitor conservador, acostumado com a narrativa cronológica e linear do romance tradicional. A narração, em certo momento, chega no futuro, nos anos 90 do século XX. É preciso saber ler.

O fluxo narrativo é veloz, sintético e envolvente. Do mesmo modo que seu preciosismo morfossintático: as frases, os diálogos diretos e as descrições estão muito bem encaixados na fluidez do fluxo narrativo. São precisas, rápidas, simples e melódicas.

Verdade que nas descrições faltam árvores, plantas, pássaros, animais, sons, igarapés, rios, fatos naturais e presentes na vida social, especialmente no lazer e na moradia Amazônica de então – ou de “dantanho”, como se dizia na época.

Ao contrário, contudo, há descrições brilhantes de detalhes arquitetônicos, urbanos e estéticos da vida social. Estas descrições da vida urbana de Manaus, possibilitam o refinamento da percepção do leitor, que passa a entender melhor a complexa cidade de cinquenta mil habitantes, encravada no coração da floresta Amazônica. Do colar de esmeralda art-nouveau ao decote da mulher de um barão da borracha, do detalhe rococó da mesa da varanda do Barão Waldemar ao detalhe da marca “do champanha La Grand Dame Veuve Clicquo” utilizada nas orgias. Nada escapa ao olhar treinado do narrador.

Contudo, de fato, é o conteúdo, especialmente o preciosismo da pesquisa histórica, e os fatos narrados, o que mais fascina neste romance ou, pelo menos, que mais fascinou este leitor modesto e desavisado.

Assim como a curiosidade sobre a vida de Marinalva!


*José Ribamar Mitoso é escritor, dramaturgo e professor da UFAM.
> Artigo publicado na página de Rogel Samuel, acesse aqui.

DEMIAN (prólogo)

Hermann Hesse (1877-1962)


Para relatar a história de minha vida, devo recuar alguns anos. Se me fosse possível, deveria retroceder ainda mais, à primeira infância, ou mais ainda, aos primórdios de minha ascendência.

Os poetas, quando escrevem novelas, costumam proceder como se fossem Deus e pudessem abranger com o olhar toda a história de uma vida humana, compreendendo-a e expondo-a como se o próprio Deus a relatasse, sem nenhum véu, revelando a cada instante sua essência mais íntima. Não posso agir assim, e os próprios poetas não o conseguem. Minha história é, no entanto, para mim, mais importante do que a de qualquer outro autor, pois é a minha própria história, e a história de um homem — não a de um personagem inventado, possível ou inexistente em qualquer outra forma, mas a de um homem real, único e vivo. Hoje sabe-se cada vez menos o que isso significa, o que seja um homem realmente vivo, e se entregam à morte sob o fogo da metralha a milhares de homens, cada um dos quais constitui um ensaio único e precioso da Natureza. Se não passássemos de indivíduos isolados, se cada um de nós pudesse realmente ser varrido por uma bala de fuzil, não haveria sentido algum em relatar histórias. Mas cada homem não é apenas ele mesmo; é também um ponto único, singularíssimo, sempre importante e peculiar, no qual os fenômenos do mundo se cruzam daquela forma uma só vez e nunca mais. Assim, a história de cada homem é essencial, eterna e divina, e cada homem, ao viver em alguma parte e cumprir os ditames da Natureza, é algo maravilhoso e digno de toda a atenção. Em cada um dos seres humanos o espírito adquiriu forma, em cada um deles a criatura padece, em cada qual é crucificado um Redentor.

Poucos são hoje os que sabem o que seja um homem. Muitos o sentem e, por senti-lo, morrem mais aliviados, como eu próprio, se conseguir terminar este relato.

Não creio ser um homem que saiba. Tenho sido sempre um homem que busca, mas já agora não busco mais nas estrelas e nos livros: começo a ouvir os ensinamentos que meu sangue murmura em mim. Não é agradável a minha história, não é suave e harmoniosa como as histórias inventadas; sabe a insensatez e a confusão, a loucura e a sonho, como a vida de todos os homens que já não querem mais mentir a si mesmos.

A vida de todo ser humano é um caminho em direção a si mesmo, a tentativa de um caminho, o seguir de um simples rastro. Homem algum chegou a ser completamente ele mesmo; mas todos aspiram a sê-lo, obscuramente alguns, outros mais claramente, cada qual como pode. Todos levam consigo, até o fim, viscosidades e cascas de ovo de um mundo primitivo. Há os que não chegam jamais a ser homens, e continuam sendo rãs, esquilos ou formigas. Outros que são homens da cintura para cima e peixes da cintura para baixo. Mas, cada um deles é um impulso em direção ao ser. Todos temos origens comuns: as mães; todos proviemos do mesmo abismo, mas cada um — resultado de uma tentativa ou de um impulso inicial — tende a seu próprio fim. Assim é que podemos entender-nos uns aos outros, mas somente a si mesmo pode cada um interpretar-se.


HESSE, Hermann. Demian. Tradução Ivo Barroso. Rio de Janeiro: Record, 2000. p.15-17
> Neste blog, leia aqui outros textos de Hermann Hesse.

Série FOTO-POEMA



segunda-feira, 5 de maio de 2014

É MAIS SUSTENTÁVEL NO SERINGAL

Elson Martins


A cheia do Rio Madeira em fevereiro e março, que para os acreanos ainda não terminou, colocou em cheque a ideia de que o Acre de Galvez e Chico Mendes pratique de verdade o desenvolvimento sustentável. Bastou 60 dias de interrupção do trecho da BR-364 entre Rio Branco e Porto Velho para que governo, comerciantes, “barnabestas” e todo mundo corressem para estocar gasolina, gás de cozinha, cerveja, arroz, leite em caixinha e em pó, ovos etc – com as mãos e o caos na cabeça.

Os ricos donos de supermercados foram os primeiros a alarmar a população dizendo que não conseguiriam repor estoques; e os postos de gasolina venderam num mês o dobro do que costumavam vender, porque muitos enchiam o tanque, corriam para esvaziá-lo em casa, em depósitos diversos, depois voltavam para a fila para pegar mais. Os executivos do comércio e da indústria correram a pressionar o governo para que conseguisse créditos especiais e o alargamento de prazos para os comerciantes poderem liquidar faturas no banco.

O choro espalhou e contaminou atividades que não tinham nada a ver com alagação. Uma feirante que nos abastecia de ovos caipira a 7 reais a dúzia, sem mais nem menos, passou pra 10  e sem corar pôs a culpa no Madeira. Tomate, mamão, cheiro verde, farinha, macaxeira, banana, tudo subiu de preço e até agora se mantém lá em cima, como se as águas não tivessem baixado, ainda.

O pior é que ninguém conseguiu uma explicação plausível sobre o que aconteceu nas cabeceiras do rio no Peru.  Ouvimos falar que o Madre de Diós teve a maior enchente dos últimos cem anos e só! O que mais se viu foi autoridade falando que as hidrelétricas Girau e Santo Antônio, recém-construídas em Rondônia, não tiveram nada a ver com transbordamento. Até a Presidenta, que sobrevoou a região atingida num helicóptero, se apressou em negar qualquer influencia das barragens das usinas.

Mas eu li pelo menos dois artigos de estudiosos, afirmando que não se pode descartar, pelo menos, um agravamento da inundação. Afinal, as usinas enfiaram no leito do Madeira toneladas de cimento, pedra e aço, e esse entulho só pode ter atrapalhado o escoamento natural pela calha do rio.

Com relação à sustentabilidade, pensei que o Acre aproveitaria a crise de abastecimento para provar que é possível recorrer a formas alternativas de sobrevivência. Se me chamassem a opinar sobre o assunto, eu diria que na Rio Branco dos anos cinquenta a gente se virava nos trinta. Faltava pão, comíamos macaxeira cozida, pão de milho, banana comprida (cozida ou feito mingau), bejú, farofa com banha de porco, jerimum...

O governador Tião Viana agiu como um herói dos trópicos, querendo apagar centelhas por todos os lados, brigando contra a força da natureza. Quase esqueceu que tinha acabado de concluir o trecho Rio Branco- Cruzeiro do Sul da 364 acreana, garantindo tráfego no inverno. Quando lembrou, mandou vir gasolina e gás de Manaus, utilizando balsas até Cruzeiro, e de lá, a estrada com trinta pontes até Rio Branco. Seria como se os macapaenses precisassem se valer de produtos importados de Caiena, via BR-156.
Caminhões de combustível vieram do Peru (Foto: Arison Jardim)

O pior de tudo, acho, foi que a população de um modo geral se mostrou fragilizada, em pânico, correndo para fazer estoques antes que o vizinho saísse na frente. Tem consumidor que comprou tanta caixinha de leite que parte delas pode estar apodrecendo. E outros talvez precisem abrir uma vendinha de gás de cozinha. Ninguém pensou em improvisar um fogão a lenha no quintal, juntar  pedaços de pau entulhados na rua, inventar um chá das cinco para substituir o café sumido.

Pior do que o pior de tudo foi não refletir sobre o recado que a natureza ofereceu com a tragédia. Seria tão fácil, com a ajuda da Internet, saber dos monstros que estão se formando pela aí, no mundo! Li que, na Groelândia, o gelo tá derretendo com velocidade imprevista, fazendo o nível do mar subir mais rápido do que supunham os cientistas. Está dito que se o gelo continuar derretendo assim, num tempo estimado em décadas, nem tantas, toda a massa gelada vai virar água e fazer o nível do oceano subir 7 metros.

Isso seria suficiente para deixar debaixo d’água 80 das 100 maiores cidades do mundo, alertam os pesquisadores. Quanto ao Rio Madeira, será que tem algum monstro se formando nas cabeceiras?

CANTO DE CIRCONCELIÃO

Humberto de Campos (1886-1934)


Viver só! Morrer só!... Na selva desta vida,
Doida árvore do Mal, sem que o orvalho me inunde,
Darei flor, mas, debalde outra árvore florida
Pedirá, junto a mim, pólen com que fecunde.

Levarei, pela Terra, esta vida de opróbrio.
No intenso batalhar da batalha em que luto,
Passarei, forte e só, de prazer sempre sóbrio,
Levando a maldição da figueira sem fruto!

Este sangue, que é meu, e carrego nas veias,
E foi, no mundo hostil, causa de mágoas tantas,
Jamais há de correr nas artérias alheias,
Que hei de, todo, deixá-lo às artérias das plantas.

Na Terra hei de passar sonhando e batalhando.
A ambição de procriar não me fere e consome.
Sentirei meu prazer se os homens virem dando
Os vermes no meu corpo e o olvido no meu nome.

Não fecundar! Morrer, sem deixar neste mundo,
Por vingança de mau, numa existência breve,
Uma prova, sequer, do meu gesto fecundo,
E um rebento qualquer onde a Angústia se ceve!

Qual o deus imortal que, a obrigar-me que adore
Sua obra, seu poder, seus éditos, influa
Para que eu, forte e deus, me ajoelhe e colabora
Na obediência da lei que a espécie perpetua?

Se Jesus, meu irmão, rola plácida e boa,
Estrela sem igual na doçura do brilho,
Jamais tentou procriar, por que é que amaldiçoa
O ventre da Mulher que não teve um só filho?

Que morram, pois, comigo, a minh’alma e o meu sangue;
Que a humana forma em mim se conclua e se extinga.
Sou humano, bem sei: e eis-me vencido e exangue;
Mas, devia ser deus... É assim que um deus se vinga!...


CAMPOS, Humberto de. Poesias Completas. São Paulo: Opus, 1983. p.279-280

domingo, 4 de maio de 2014

BESOURO

J.G. de Araújo Jorge (1914-1987)


Bato as asas, quero fugir como um besouro
estonteado de luz,
à procura do céu incendiado de ouro
que o seduz!

Esvoaço, tonteio, em vão... Em vão minha alma esvoaça!
Ouço um zumbido surdo, atordoante, crescendo,
das minhas asas sôfregas batendo
numa invisível vidraça!

Lá fora é tudo tão verde! Lá fora a terra é tão bela!
Tudo chama e convida
para a vida,
– e nem uma alma bondoso e distraída
vem abrir a janela!

Poema do livro Cânticos – 1941

Acesse aqui o site dedicado à memória do poeta

QUILOMBO

O filme é uma co-produção brasileira e francesa de 1984, sob a direção de Cacá Diegues, com  roteiro baseado nos livros Ganga Zumba, de João Felício dos Santos e Palmares, de Décio de Freitas.

O filme, aliás, excelente, é para nos ajudar a pensar o 13 de maio, que se aproxima.

sábado, 3 de maio de 2014

Série FOTO-POEMA


OS LIMITES DA LUZ DE MAIO

Rogel Samuel


Mas você conhece a luz dos dias de maio? Já viu o céu e aquela luz filtrada em transparência luminosa, aquela luz azul, radiantemente azul, de um azul tão alto, tão nobre, tão vasto? Sabe de que é feito aquela imensa luz do universo em festa? Sabe de como tudo se transmuda em cristais de límpido brilho dos pequenos córregos que caem das altas montanhas como crianças bailarinas e joias lantejoulas? E sobre as cidades como sobre os campos a luz de maio deita seu limo de íris e de poesia irisada. Já ouviu a música da luz de maio? A "rosa de maio", os lúcidos arpejos dessa temporada em que amamos e em que nosso espírito dança? Pois merecemos viver o mês de maio e suas fragrâncias, nos sagrados bosques de nossas florestas interiores e nos recolhimentos de nossos sonhos renovados...
A visão do mar me lembra uns versos de Valéry:

“Que lavor puro de brilhos consome
Tanto diamante de indistinta espuma
E quanta paz parece conceber-se!
Quando repousa sobre o abismo um sol,
Límpidas obras de uma eterna causa
Fulge o Tempo e o Sonho é sabedoria.”

Valéry escreveu esses versos no longo poema "Cemitério marinho", tão difícil de compreender, mas tão fácil de amar, de sentir. Mas creio que a "função" do poema é esta: a de ser sentido.

Terá a poesia alguma "função"? Precisa o poema ter certa compreensão intelectual?

“Esse teto tranquilo, onde andam pombas,
Palpita entre pinheiros, entre túmulos.
O meio-dia justo nele incende
O mar, o mar recomeçando sempre.
Oh, recompensa, após um pensamento,
um longo olhar sobre a calma dos deuses!”

A tradução é de Darcy Damasceno e Roberto Alvim Correia, que conheci na FNFi nos dias de estudante.

Olhar o mar é isso: ver a calma dos deuses, nas faiscações de pasta de prata. O mar acende seus pandeiros de prata, sua luz miraculosa azul.

“Ergue-se o vento! Há que tentar viver!
O sopro imenso abre e fecha meu livro,
A vaga em pó saltar ousa das rochas!
Voai páginas claras, deslumbradas!
Rompei vagas, rompei contentes o
Teto tranquilo, onde bicavam velas!”
...............
       
“Tesouro estável, templo de Minerva,
Massa de calma e nítida reserva,
Água franzida, Olho que em ti escondes
Tanto de sono sob um véu de chama,
– Ó meu silêncio!... Um edifício na alma,
Cume dourado de mil, telhas, Teto!”

Que a última estrofe de «O cemitério marinho» de Paul Valéry assim canta:

«Ergue-se o vento! Há que tentar viver!
O sopro imenso abre e fecha meu livro,
A vaga em pó saltar ousa das rochas!
Voai páginas claras, deslumbradas!
Rompei vagas, rompei contentes o
Teto tranquilo, onde bicavam velas!»

Uso a extraordinária tradução de Darcy Damasceno e Roberto Alvim Correia.
O poema enorme, difícil.

Desde que o li, pela primeira vez, há mais de quarenta anos, tento penetrar no mar de seu sentido. Às vezes, parece entender-se. Outras vezes, inatravessável é o seu mar. Mas sempre o sinto, o que importa. O que importa é sentir um poema. Não «interpretá-lo». Os intelectuais matam o poema, intelectualizam-no. Por isso Barthes foi tão bom crítico. Barthes fazia o texto falar, deixava-o falar-se.

«Esse teto tranquilo, onde andam pombas,
Palpita entre pinheiros, entre túmulos.
O meio-dia justo nele incende
O mar, o mar recomeçando sempre.
Oh, recompensa, após um pensamento,
um longo olhar sobre a calma dos deuses!»

Seja como for, Valéry nos abre à imaginação o grande oceano da morte. Mas «recomeçando sempre». Sempre, «sobre a calma dos deuses».

Sei que não é algo para ser lido assim, mas que tema mais religioso do que a morte neste túmulo do oceano de «tanto diamante de indistinta espuma», onde «quanta paz parece conceber-se!».

«Quando repousa sobre o abismo um sol,
Límpidas obras de uma eterna causa
Fulge o Tempo e o Sonho é sabedoria.»

O poema tem ímpetos de infinito, abre-se para a eternidade, «massa de calma e nítida reserva»:

«Água franzida, Olho que em ti escondes
Tanto de sono sob um véu de chama,
– Ó meu silêncio!... Um edifício na alma,
Cume dourado de mil, telhas, Teto!»

Valéry disse que seu poema é sua «poesia verdadeira», mesmo as passagens mais abstratas. Disse que via ali uma espécie de «lirismo», algo «abstrato mas de uma abstração motriz mais que filosófica».

“Templo do Templo, que um suspiro exprime,
Subo a este ponto puro e me acostumo,
Todo envolto por meu olhar marinho.
E como aos deuses dádiva suprema,
O resplendor solar sereno esparze
Na altitude um desprezo soberano.”

Diz da vida, do amor, da ordem e desordem da vida e do amor, do mar e do sol, das colinas das ondas, da chave do mistério do «mar de nossa conversa», como dizia Cabral:

“Como em prazer o fruto se desfaz,
Como em delícia muda sua ausência
Na boca onde perece sua forma,
Aqui aspiro meu futuro fumo,
Quando o céu canta à alma consumida
A mudança das margens em rumor.”

É uma reflexão sobre o tempo:

“Belo céu, vero céu, vê como eu mudo!
Depois de tanto orgulho e tanta estranha
Ociosidade - cheia de poder -
Eu me abandono a esse brilhante espaço,
Por sobre as tumbas minha sombra passa
E a seu frágil mover-se me habitua.”

É uma reflexão sobre os movimentos das ondas da vida:

“A alma expondo-se às tochas do solstício,
Eu te afronto, magnífica justiça
Da luz, da luz armada sem piedade!
E te devolvo pura à tua origem:
Contempla-te!... Mas devolver a luz
Supõe de sombra outra metade morna.”

O poema foi publicado no número de junho de «La Nouvelle Revue française», mas ele deve ter trabalhado no poema desde muito tempo.

“Oh, para mim, somente a mim, em mim,
Junto ao peito, nas fontes do poema,
Entre o vazio e o puro acontecer,
De minha interna grandeza o eco espero,
Sombria, amarga e sonora cisterna
– Côncavo som, futuro, sempre, na alma.

Aqui vindo, o futuro é indolência.
Nítido inseto escava a sequidão;
Tudo queimado está desfeito e no ar
Se perde em não sei que severa essência,
Faz-se a amargura doce e claro o espírito.

Ergue-se o vento! Há que tentar viver!
O sopro imenso abre e fecha meu livro,
A vaga em pó saltar ousa das rochas!
Voai páginas claras, deslumbradas!
Rompei vagas, rompei contentes o
Teto tranquilo, onde bicavam velas!”

É esta tradução de Darcy Damasceno e Roberto Alvim Correia.


> Texto retirado da página do escritor Rogel Samuel, 
acesse aqui.

sexta-feira, 2 de maio de 2014

REPENTES I

Charles Baudelaire (1821-1867)


Ainda que Deus não existisse, a religião não deixaria de ser santa e divina.

Deus é o único ser que para reinar não precisa existir.

O que é criado pelo espírito é mais vivo do que a matéria.

O amor é o gosto da prostituição. Nem há prazer nobre que não possa ligar-se à prostituição.

Num espetáculo, num baile, cada um goza de todos.

Que é a arte? Prostituição.

O prazer de estar nas multidões é uma expressão misteriosa do gozo da multiplicação do número.

Tudo é número. O número está em tudo. O número está no indivíduo. A embriaguez é um número.

O gosto da concentração produtiva deve, num homem maduro, substituir o gosto do desperdício.

O amor pode provir de um sentimento generoso: o gosto da prostituição; não tarda, porém, a corromper-se pelo gosto da propriedade.

O amor quer sair de si, confundir-se com a sua vítima, como o vencedor com o vencido, e, não obstante, conservar privilégios de conquistador.

O rufião, nas suas volúpias, tem alguma coisa, a um só tempo, do anjo e do proprietário. Caridade e ferocidade. São elas até independentes do sexo, da beleza e do gênero animal.

As trevas verdes nas tardes úmidas de primavera.

Imensa profundeza de pensamento nas locuções vulgares, buracos cavados por gerações de formigas.

Anedota do caçador sobre a íntima ligação entre o amor e ferocidade.


BAUDELAIRE, Charles. Meu coração desnudado. Tradução de Aurélio Buarque de Holanda Ferreira. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1981. p.13-14

quinta-feira, 1 de maio de 2014

RECEITA MARGINAL

João de Jesus Paes Loureiro


Deixem-no nascer.
O leito da indigência
                        é boa medida...
Sem leite vai crescer
e sem verduras.
A lama há de lhe dar
                        por sob as palafitas
a herança verminosa das marés.
É bom que tenha jeito de sambista.
Escolas não terá
                        e nem infância.
E a juventude, melhor que não floresça
pois seu caule de amor
                                   já foi castrado.
No dia em que sair
                                   de parceria com a lua
( revólver na cintura
                                   e decisão no olhar )
o presunto está pronto, temperado.
Embrulhem-no em manchetes policiais
para servi-lo quente
                                   no café da manhã 


LOUREIRO, João de Jesus Paes. Cantares amazônicos. São Paulo: Roswitha Kempf, 1985. p.233-234
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JOÃO DE JESUS PAES LOUREIRO é prosador, ensaísta e um dos principais poetas da Amazônia. Nasceu em Abaetetuba, no Estado do Pará. Professor de Estética e Arte, doutorou-se em Sociologia da Cultura na Sorbonne, em Paris, com a tese Cultura amazônica: uma poética do imaginário. Sua obra poética tem sua universalidade construída a partir de signos do mundo amazônico – cultura, história, imaginário – propiciando uma cosmovisão e particular leitura do mundo contemporâneo. Dialogando com as principais fontes e correntes literárias da atualidade, Paes Loureiro realiza uma obra original, quase uma suma poética de compreensão sensível do mundo por meio das fontes amazônicas, em que o mito se revela como metáfora do real. 
> Visite aqui a página do poeta.

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OS SEMEADORES

Machado de Assis (1839-1908)

...Eis aí saiu o que semeia a semear...
Mt. 13, 3


Vós os que hoje colheis, por esses campos largos,
O doce fruto e a flor,
Acaso esquecereis os ásperos e amargos 
Tempos do semeador? 

Rude era o chão; agreste e longo aquele dia;
Contudo, esses heróis
Souberam resistir na afanosa porfia 
Aos temporais e aos sóis.

Poucos; mas a vontade os poucos multiplica, 
E a fé, e as orações 
Fizeram transformar a terra pobre em rica 
E os centos em milhões. 

Nem somente o labor, mas o perigo, a fome, 
O frio, a descalcez, 
O morrer cada dia uma morte sem nome, 
O morrê-la, talvez, 

Entre bárbaras mãos, como se fora crime, 
Como se fora réu 
Quem lhe ensinara aquela ação pura e sublime 
De as levantar ao céu! 

Ó Paulos do sertão! Que dia e que batalha! 
Venceste-a; e podeis 
Entre as dobras dormir da secular mortalha;
Vivereis, vivereis!


ASSIS, Machado de. Poesias Completas. Rio de Janeiro: W. M. Jackson Inc. Editores, 1962. p.330-331

MÚSICAS PARA PENSAR TRABALHO E TRABALHADOR

MÚSICA DE TRABALHO - Legião urbana


OURO DE TOLO - Raul Seixas


QUE TRABALHO É ESSE? - Paulinho da Viola


DANÇA DO DESEMPREGADO - Gabriel o Pensador