segunda-feira, 14 de julho de 2014

DAS TRÊS METAMORFOSES

Friedrich Nietzsche (1844-1900)


Três metamorfoses do espírito menciono para vós: de como o espírito se torna camelo, o camelo se torna leão e o leão, por fim, criança.

Há muitas coisas pesadas para o espírito, para o forte, resistente espírito em que habita a reverência: sua força requer o pesado, o mais pesado.

O que é pesado? Assim pergunta o espírito resistente, e se ajoelha, como um camelo, e quer ser bem carregado.

O que é mais pesado, ó heróis?, pergunta o espírito resistente, para que eu o tome sobre mim e me alegre de minha força.

Não é isso: rebaixar-se, a fim de machucar sua altivez? Fazer brilhar sua tolice, para zombar de sua sabedoria?

Ou é isso: deixar nossa causa quando ela festeja seu triunfo? Subir a altos montes, a fim de tentar o tentador?

Ou é isso: alimentar-se das bolotas e da erva do conhecimento e pela verdade padecer fome na alma?

Ou é isso: estar doente e mandar para casa os consoladores e fazer amizade com os surdos, que nunca ouvem o que queres?

Ou é isso: entrar em água suja, se for a água da verdade, e não afastar de si as frias rãs e os quentes sapos?

Ou é isso: amar aqueles que nos desprezam e estender a mão ao fantasma, quando ele quer nos fazer sentir medo?

Todas essas coisas mais que pesadas o espírito resistente toma sobre si: semelhante ao camelo que ruma carregado para o deserto, assim ruma ele para seu deserto.

Mas no mais solitário deserto acontece a segunda metamorfose: o espírito se torna leão, quer capturar a liberdade e ser senhor em seu próprio deserto.

Ali procura o seu derradeiro senhor: quer se tornar seu inimigo e derradeiro deus, quer lutar e vencer o grande dragão.

Qual é o grande dragão, que o espírito não deseja chamar de senhor e deus? “Não-farás” chama-se o grande dragão. Mas o espírito do leão diz “Eu quero”.

“Não-farás” está no seu caminho, reluzindo em ouro, um animal de escamas, e em cada escama brilha um dourado “Não-farás!”.

Valores milenares brilham nessas escamas, e assim fala o mais poderoso dos dragões: “Todo o valor das coisas brilha em mim”.

“Todo o valor já foi criado, e todo o valor criado – sou eu. Em verdade, não deve mais haver “Eu quero!” Assim fala o dragão.

Meus irmãos, para que é necessário o leão no espírito? Por que não basta o animal de carga, que renuncia e é reverente?

Criar novos valores – tampouco o Leão pode fazer isso; mas criar a liberdade para nova criação – isso está no poder do leão.

Criar liberdade para si e um sagrado Não também ante o dever: para isso, meus irmãos, é necessário o leão.

Adquirir o direito a novos valores – eis a mais terrível aquisição para um espírito resistente e reverente. Em verdade, é para ele uma rapina e coisa de um animal de rapina.

Ele amou outrora, como o que lhe era mais sagrado, o “Tu-deves”; agora tem de achar delírio e arbítrio até mesmo no mais sagrado, de modo a capturar a liberdade em relação a seu amor: é necessário o leão para essa captura.

Mas dizei-me, irmãos, que pode fazer a criança, que nem o leão pôde fazer? Por que o leão rapace ainda tem  de se tornar criança?

Inocência é a criança, e esquecimento; um novo começo, um jogo, uma roda a girar por si mesma, um primeiro movimento, um sagrado dizer-sim.

Sim, para o jogo da criação, meus irmãos, é preciso um sagrado dizer-sim: o espírito quer agora sua vontade, o perdido para o mundo conquista seu mundo.

Três metamorfoses do espírito eu vos mencionei: como o espírito se tornou camelo, o camelo se tornou leão e o leão, por fim, criança. – –

Assim falou Zaratustra. E nesse tempo ele permanecia na cidade que se chama A Vaca Malhada.


NIETZSCHE, Friedrich. Assim falou Zaratustra: um livro para todos e para ninguém. Tradução, notas e posfácio Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2011. p.27-29

domingo, 13 de julho de 2014

BOM CONSELHO

Friedrich Hölderlin (1770-1843)


Se tens razão e coração, mostra somente um deles,
   Por ambos te condenariam se os mostrasses juntos. 


GUTER RAT

Hast du Verstand und ein Herz, so zeige nur eines von beiden,
    Beides verdammen sie dir, zeigest du beides zugleich.


HÖLDERLIN, Friedrich. Poemas. Seleção, tradução, introdução e notas José Paulo Paes. São Paulo: Companhia das Letras, 1991. p.99

INO


sábado, 12 de julho de 2014

O VENENO ESTÁ NA MESA 2

Mais um trabalho primoroso, crítico e conscientizador do cineasta Sílvio Tendler
“Após impactar o Brasil mostrando as perversas consequências do uso de agrotóxicos em O Veneno está na Mesa, o diretor Sílvio Tendler apresenta no segundo filme uma nova perspectiva. O Veneno Está Na Mesa 2 atualiza e avança na abordagem do modelo agrícola nacional atual e de suas consequências para a saúde pública. O filme apresenta experiências agroecológicas empreendidas em todo o Brasil, mostrando a existência de alternativas viáveis de produção de alimentos saudáveis, que respeitam a natureza, os trabalhadores rurais e os consumidores.
Com este documentário, vem a certeza de que o país precisa tomar um posicionamento diante do dilema que se apresenta: Em qual mundo queremos viver? O mundo envenenado do agronegócio ou da liberdade e da diversidade agroecológica?”

sexta-feira, 11 de julho de 2014

MUNDO PEQUENO

Manoel de Barros


Descobri aos 13 anos que o que me dava prazer nas
leituras não era a beleza das frases, mas a doença
delas.
Comuniquei ao Padre Ezequiel, um meu Preceptor,
esse gosto esquisito.
Eu pensava que fosse um sujeito escaleno.
– Gostar de fazer defeitos na frase é muito saudável,
o Padre me disse.
Ele fez um limpamento em meus receios.
O Padre falou ainda: Manoel, isso não é doença,
pode muito que você carregue para o resto da vida
um certo gosto por nadas...
E se riu.
Você não é de bugre? – ele continuou.
Que sim, eu respondi.
Veja que bugre só pega por desvios, não anda em
estradas –
Pois é nos desvios que encontra as melhores
surpresas e os ariticuns maduros.
Há que apenas saber errar bem o seu idioma.
Esse Padre Ezequiel foi o meu primeiro professor de
agramática. 


de O livro das ignorãças, poema Mundo Pequeno VII
BARROS, Manoel de. Poesia Completa. São Paulo: Leya, 2010. p.319-320

quinta-feira, 10 de julho de 2014

O MUNDO SEGUNDO A MONSANTO

Um filme que denuncia a gigante dos transgênicos
O documentário “O Mundo segundo a Monsanto” traça a história da principal fabricante de organismos geneticamente modificados (OGM), cujos grãos de soja, milho e algodão se proliferam pelo mundo, apesar dos alertas de ambientalistas.

A diretora, a francesa Marie-Monique Robin, baseou seu filme - e um livro de mesmo título - na empresa com sede em Saint-Louis (Missouri, EUA), que, em mais de um século de existência, foi fabricante do PCB (piraleno), o agente laranja usado como herbicida na guerra do Vietnã, e de hormônios de aumento da produção de leite proibidos na Europa.

O documentário destaca os perigos do crescimento exponencial das plantações de transgênicos, que, em 2007, cobriam 100 milhões de hectares, com propriedades genéticas patenteadas em 90% pela Monsanto.

A pesquisa durou três anos e a levou aos Estados Unidos e a países como Brasil, Índia, Paraguai e México, comparando as virtudes proclamadas dos OGM com a realidade de camponeses mergulhados pelas dívidas com a multinacional, de moradores das imediações das plantações pessoas que sofrem com problemas de saúde ou de variedades originais de grãos ameaçadas pelas espécies transgênicas.

Robin relatou em entrevistas divulgadas pela produção do filme que tentou em vão obter respostas da Monsanto para todas essas interrogações, mas que a companhia decidiu "não avaliar" seu documentário. 

Um capítulo do livro, intitulado “Paraguai, Brasil, Argentina: a República Unida da Soja”, relata o ingresso desse cultivo nesses países, que estão hoje entre os maiores produtores do mundo, por meio de uma política de fatos consumados que obrigou as autoridades do Brasil e do Paraguai a legalizar centenas de hectares plantados com grãos contrabandeados.

A legalização beneficiou obviamente a Monsanto, que pôde cobrar assim os royalties por seu produto. 

Marie-Monique Robin é uma famosa jornalista independente, que, em 2004, gravou um documentário sobre a Operação Condor chamado “Esquadrões da Morte: A Escola Francesa” – para o qual entrevistou vários dos maiores repressores das ditaduras militares dos anos 70. > Notícias UOL

SÃO COISAS DO ACRE...

Isaac Melo


Há algum tempo vinha namorando este livro: “São coisas do Acre...”. Só agora pude adquiri-lo de um sebo do Rio de Janeiro. É seu autor Nelson Correa de Oliveira, cuja única informação que obtive dá conta de que ele era acreano, provavelmente de Cruzeiro do Sul. O livro foi publicado em 1944, no Rio de Janeiro, pela Gráfica Laemmert Limitada. O livro traz uma carta, à guisa de prefácio, de Arthur Cézar Ferreira Reis (1906-1993), grande historiador da Amazônia e ex-governador do Amazonas (1964-1967), que diz: ““São Coisas do Acre...”, meu caro confrade, vale evidentemente pelo abundante documentário que encerra à volta do grande drama social que as populações nordestinas vêm escrevendo na Amazônia. Filtrando os mil episódios da instalação do homem no seio agreste acreano, seus choques com a selva, com as águas, com as diversidades econômicas que o novo ambiente lhe apresenta, você riscou flagrantes magníficos, depoimentos preciosos. Seus panoramas não têm retórica mentirosa. (...) O Acre, nos seus seringais, nas suas desventuras humanas, nos altos e baixos do seu processo econômico, nos seus episódios de brasilidade conquistada a sangue e amor, encontrou em você o exegeta sincero. Romancista ou cronista, em seu livro encontrei um riquíssimo documentário social, insisto, que o Brasil precisa conhecer em toda sua extensão.”

No cômputo geral das obras que retratam o viver dos seringais o livro é ainda de certa forma original, haja vista que a maior parte dos livros posteriores nos dá a impressão que se repetem, mudando apenas os personagens num mesmo pano de fundo e enredo. Nelson Correa nos oferece um retrato esmerado do viver dos seringais acreanos até a década de 1940, demonstrando ter conhecimento de causa daquilo que escrevia, sobretudo, pelo modo como nos apresenta o linguajar seringueiro, em suas nuances tão próprias. O livro é ambientado na região do Juruá-Mirim, afluente do Rio Juruá, e gira em torno da família do seringueiro João Florêncio e Teresa Assunção.

Assim se inicia “São coisas do Acre...”:

“A madrugada começa a apagar as estrelas que o luar tornara esparsas pelo céu. Flutua no ar um vento frio. O rio reflete a sombra da mata e tem a imobilidade de um espelho fosco. A canoa marca na estrada das águas o traço sinuoso da sua passagem, ao ritmo cadenciado e vigoroso dos jacumãs. Aspira-se o bafo morno do rio que os remos fazem espreguiçar ao despertarem-no do sono, dessa esplenderosa noite tropical, e, ao mesmo tempo, sente-se o hálito perfumado da mata que o vento trás numa cerração leve, tênue. A lua branca espreita por entre a folhagem das árvores e desafia a alvura das praias.

– Espia, Sinhazinha, a barraca do Mecenas! Ele deve estar, também, a caminho da festa, porque não se enxerga a luz na casa, nem o fogo do borralho.

Um galo canta e um cão que despertou ao barulho dos remos ladra, soturnamente. A canoa se afasta. A barraca é uma silhueta, ao longe. As remadas pausadas e fortes fazem suceder, uma após outra, as voltas do rio.

A mata toma forma e cor com o dia que nasce. A natureza toda desperta. As araras estridentes levantam-se do poleiro e cruzam o espaço em busca do buritizal. Longe, muito longe, ouve-se o regougo das guaribas. Os saguis, aos pinchos nos galhos da ingazeira, saboreiam-lhe os frutos. E o dia vem cheio de luz, de música e de cores, neste pedaço exuberante da planície amazônica.”


OLIVEIRA, Nelson Correa de. São Coisas do Acre.... Rio de Janeiro: Gráfica Laemmert Limitada, 1944. p.11-12

quarta-feira, 9 de julho de 2014

ESCREVER FITAS

Jefferson Bessa


escrever como quem lança
folhas letras sorrisos ao ar.
quando surgem estas fitas
todas as palavras dançam

entram em festa de linhas
pois recebem teus olhares
passantes de ver sem fim
lendo chega perto de mim

mas não tenha obrigações
é triste ter de carregar fitas
arrastar para depois soltar
ficar para depois reclamar

em saltos para fora da folha
inicia-se no solto das mãos.
como quem lança serpentina
sentindo que mãos se lançam

desçam fitas que se escrevem
fitando por ir do céu ao chão.
ler fitas caindo e caio em ti
para juntos ascendermos

por entre teus dedos e mãos
teus braços, versos e fitas
se arremessar bem no meio
assim caímos bem entre nós 


*Poema retirado da página do poeta, aqui.

terça-feira, 8 de julho de 2014

MARIA HELENA TRINDADE BAYMA

Maria Helena Trindade Bayma foi uma de minhas professoras quando fiz o Ensino Médio na escola Djalma da Cunha Batista, em Tarauacá. Era por todos nós muito querida. É tanto que, em seu aniversário, nossa turma preparou um vídeo homenageando-a, com depoimentos nossos e de alguns de seus familiares. Nossa amizade se estreitou bem antes de conhecê-la como professora, quando ela era ainda secretária da paróquia São José, nos tempos em que eu ainda tinha religião. Simples, meiga e fraterna, sempre tinha um sorriso a oferecer a quem se aproximava dela. Cumpriu uma das mais belas vocações, a de educadora. Perdemo-la fisicamente, porém, seu sonho ainda permanecerá por longo tempo. Nossa solidariedade e carinho à sua família. A gente morre é pra provar que viveu, dizia G. Rosa. Então, muito obrigado por tua vida, Maria Helena, mestra e amiga!
Foto: blog do Kbym

Minha vida duas vezes
Encerrou-se antes do fim;
Outro evento para mim
Incrível, sem esperança,

Imenso como os primeiros
Talvez se oculte no Eterno.
O que sabemos do céu
– O adeus –
É o que nos basta do inferno.

Emily Dickinson


Maria Helena
Não te digo adeus
Pois o tempo que nos resta
– mil anos são como um dia –
Já não se compara ao teu
Agora tu és
Enquanto nós continuamos
A negociar com Deus

Isaac Melo

segunda-feira, 7 de julho de 2014

POR QUE A COPA ESTÁ ACONTECENDO?

José Lisboa Moreira de Oliveira


Há um ano o Brasil foi tomado por uma invasão de manifestações. Pelo ritmo da coisa, parecia que iam acontecer grandes transformações no país. Entre essas transformações, o que parecia mais evidente era que não aconteceria o Campeonato Mundial de Futebol em nosso país. O refrão "não vai ter Copa” passou a ser repetido durante vários meses. Porém, na medida em que se aproximava a realização da Copa, o refrão foi diminuindo. Aos poucos o verde-amarelo foi tomando conta das ruas e o refrão passou a ser considerado "coisa do passado”, praticamente ignorado pela quase totalidade da população brasileira.

A Copa veio, teve início, está acontecendo a todo vapor, os estádios estão lotados, as ruas enfeitadas, os gringos satisfeitos com a acolhida dos brasileiros. E o que há um ano parecia profecia agourenta, hoje foi sepultado pela maré das cores da nossa bandeira espalhadas por todos os cantos do Brasil. As manifestações estão praticamente vazias. Somente algumas dezenas ou pouquíssimas centenas de pessoas ainda arriscam sair às ruas para gritar alguns chavões que quase ninguém escuta.

Tenho procurado estudar a razão de tudo isso. Por que certos brasileiros, de repente, parecem acordar de um sono profundo, fazem muito barulho e depois desaparecem de cena, como se nada tivesse acontecido? E isso não aconteceu somente no ano passado. É algo comum à nossa cultura. Quem não se lembra dos "caras pintadas” que saíram às ruas para exigir a renúncia de Collor de Mello? Passando aquele momento eles entraram em letargia para só acordar mais de vinte anos depois. Parece-me que esse fenômeno tem explicações.

A primeira e principal delas, a meu ver, é que esse tipo de manifestação é promovido e teleguiado pelas elites brasileiras que, usando dos recursos públicos que estão em sua mão (como, por exemplo, a grande mídia), insuflam as pessoas. Mas, como não têm propostas concretas e verdadeiramente voltadas para as reais necessidades do povo, terminam por perder a credibilidade. As elites tentam com essas manifestações criar um clima de insatisfação, visando desestabilizar o momento político e tirar vantagens disso. Mas quando percebem que "o feitiço pode se voltar contra o feiticeiro”, elas mesmas se encarregam de jogar uma ducha fria sobre os fatos. E como lamentavelmente mais de dois terços da população brasileira é formado de analfabetos funcionais, esse contingente de pessoas termina por ser massa de manobra das elites e deixando-se influenciar pelos jargões e refrões. Porém, mesmo sendo analfabetas funcionais, aos poucos vão se dando conta de que tudo não passa de fumaça que, aos poucos, se desmancha no ar. E, de repente, resolvem ficar em casa, vestir-se de verde-amarelo e torcer pela seleção canarinho.

A segunda explicação está na burrice da atual esquerda brasileira, incapaz, incompetente, desunida, arrogante e ególatra. Quem me fez perceber essa realidade nua e crua foi Rubem Alves. No seu livro Variações sobre o prazer (São Paulo: Planeta, 2013) Alves, muito perspicazmente, faz uma relação entre consciência crítica e erótica. Diz, sem meios-termos, que é a erótica que julga as coisas "em função do prazer que elas lhe causam” (p. 64). E, refazendo-se a Nietzsche, afirma que a esquerda, e no nosso caso a esquerda brasileira, como o espírito alemão criticado pelo filósofo, se encontra com os "intestinos perturbados”, sofre de uma tremenda indigestão: "a esquerda se parece com o espírito alemão, identifica consciência crítica com intestinos perturbados. A consciência crítica da esquerda é sempre a consciência infeliz: padece de indigestão crônica” (p. 64).

Continuando sua crítica, Alves relembra que as pessoas são corpo. E, como tais, gostam de coisas gostosas e rejeitam as que não são gostosas. E aprofundando ainda mais a sua crítica, o autor dispara sem dó e piedade, dizendo que "toda a esquerda é cartesiana, acredita nos poderes da razão. Argumenta com ideias claras e distintas. Por oposição, são os nazismos, os fascismos e a propaganda que se movem no mundo subterrâneo dos sentimentos sem nome, do irracional. A esquerda usa, como armas contra o irracionalismo, a transparência ideológica e as ideias claras e distintas, que moram na consciência. A esquerda gosta de luzes. Ela ignora que as ideias que moram nas luzes não conseguem se comunicar com o corpo” (p. 77).

A crítica de Alves dói bastante, mas é a pura verdade. Até hoje, a nossa esquerda não conseguiu se desvencilhar de um linguajar e de um método que ignora por completo a realidade corporal do ser humano. Continua falando e agindo como se o mundo tivesse parado na segunda metade do século passado. Enquanto a direitona consegue sacudir os corpos humanos e envolvê-los numa dança erótica que visa atingir suas intenções e objetivos, a esquerda burra continua pensando como Descartes, como se o ser humano não tivesse corpo e fosse apenas um ser pensante abstrato. Alves conclui: "É preciso entender que a batalha não se trava entre consciência e inconsciência, razão e não razão, entre a cabeça e o corpo. A batalha se trava entre deuses e demônios, ambos habitantes do corpo e, como tais, criaturas do inconsciente” (p. 78).

E se alguém ainda tem dúvida disso basta olhar a situação da atual esquerda brasileira: totalmente dividida em meros frangalhos, disputando entre si míseros pedaços de poder, incapaz de se unir para derrotar o inimigo comum, enquanto a direita, disfarçada de democracia e de socialismo, deita e rola em cima de tudo e de todos. Mais uma vez aquela que seria a "autêntica esquerda” chegará às eleições completamente dividida e obterá resultados inexpressivos. Veremos que em seus breves programas políticos se limitarão a repetir velhos refrões e chavões contra o capitalismo, sem apresentar propostas concretas para pessoas que, além de pensar, hoje têm necessidades básicas que lhe são sinaladas por um corpo vivo. A essa esquerda se junta outra esquerda burra, aquela eclesiástica, que influenciada pelo maniqueísmo é incapaz de ajudar a esquerda política a se dar conta de que o mundo mudou. Caberia à esquerda eclesiástica, a partir dos mais elementares ensinamentos evangélicos, lembrar aos demais esquerdistas que, no mundo real, anjos e demônios estão misturados. Que essa coisa de fazer política sem querer "sujar as mãos”, ou seja, sem se unir a outras forças democráticas menos esquerdistas é pura ilusão e não leva a lugar nenhum.

Assim, por exemplo, ao invés de se associar à "paixão brasileira”, no momento representado pelo futebol, insiste em negar o óbvio, acreditando que o povo brasileiro vai abrir os olhos e rejeitar a Copa Mundial de Futebol. Ao invés de se apoderar, positivamente, daquilo que está no sangue dos brasileiros, e promover uma reflexão gostosa que causa prazer, a esquerda pretende burramente impor aos brasileiros que não vibrem com um evento mundial que está acontecendo no país e mobiliza a metade da população do planeta. Ao invés de reconhecer as conquistas, as melhorias, os avanços obtidos até agora, mesmo por quem não a representa totalmente, a esquerda insiste em negar que o país cresceu e superou muitos obstáculos e situações críticas. Desta forma termina fazendo o jogo das elites que, com simples encenações midiáticas, manipula as massas e impede um avanço mais significativo em direção a "outro mundo possível”.

Continuando dessa forma a esquerda jamais conseguirá mobilizar as pessoas e contribuir efetivamente para uma mudança na direção daquele mundo justo com o qual tanto sonhamos. É hora de uma grande revisão, de sair da ilusão e ser mais realista. Os nossos métodos de esquerda utilizados no passado tiveram seu valor para aqueles tempos. E disso não devemos ter vergonha. Mas o mundo mudou. Talvez esteja na hora da esquerda aprender com o esquerdista Paulo Freire, que dizia: "Desaprender os saberes acumulados a fim de aprender a sabedoria não dita do corpo”. Mais corpo nas ideias, pois, diz ainda Alves, o "corpo sabe ensinar, naturalmente, da mesma forma que a centopeia sabe andar sem tropeçar” (p. 78).

________________
José Lisboa Moreira de Oliveira – Filósofo, teólogo, escritor, conferencista, gestor do Centro de Reflexão e Estudos sobre Ética e Antropologia da Religião (Crear) da Universidade Católica de Brasília, onde também é professor.

SOBRE O OFÍCIO DO ESCRITOR

Arthur Schopenhauer (1788-1860)


Antes de tudo, há dois tipos de escritor: os que escrevem por amor do assunto e os que escrevem por escrever. Aqueles que tiveram ideias ou fizeram experiências que lhe parecem dignas de ser comunicadas; estes precisam de dinheiro, e por isso escrevem, por dinheiro. Pensam com o propósito de escrever. Podem ser reconhecidos pela sua tendência a prolongar ao máximo seus pensamentos e a expô-los com meias-verdades, obliquidade, de maneira forçada e oscilante, em geral também por seu amor pelo claro-escuro, a fim de parecer o que não são; por tal razão, faltam precisão e clareza completa ao seu texto. Sendo assim, pode-se logo notar que escrevem para preencher papel; às vezes isso transparece em nossos melhores escritores: por exemplo, em algumas passagens da Dramaturgia de Lessing e até mesmo em alguns romances de Jean Paul. Tão logo o percebemos, devemos nos desfazer do livro, pois o tempo é precioso. No fundo, porém, o autor ilude o leitor quando escreve para preencher o papel, pois a alegação de sua escrita é ter algo a comunicar. Os honorários e a proibição da reprodução são, na verdade, a deterioração da literatura. Só quem é movido exclusivamente pela causa que lhe interessa escreve o que é digno de ser escrito. Que ganho inestimável haveria se em todas as áreas de uma literatura existissem apenas poucos, mas primorosos livros. Entretanto, nunca se chegará a esse ponto enquanto houver honorários a lucrar. É como se tivesse caído uma maldição sobre o dinheiro: todo escritor torna-se ruim assim que começa a escrever com o objetivo de lucro. As obras mais primorosas dos grandes homens são todas da época em que eles ainda tinham de escrever de graça ou por honorários muito reduzidos. Portanto, confirma-se aqui o provérbio espanhol: honra y provecho no caben en un saco (“honra e dinheiro não cabem no mesmo saco”). O estado deplorável da literatura hodierna, na Alemanha e no exterior, tem na sua raiz o fato de se ganhar dinheiro escrevendo livros. Todo aquele que precisa de dinheiro senta-se à escrivaninha e põe-se a escrever um livro, e o público é suficientemente tolo para comprá-lo. A consequência secundária disso é a deterioração da língua.

Uma grande quantidade de escritores ruins vive tão-somente da tolice do público, que não quer ler nada além do que foi impresso no mesmo dia: são os jornalistas. O nome já diz tudo! Em alemão dever-se-ia dizer “diarista”*.


SCHOPENHAUER, Arthur. Sobre o ofício do escritor. Tradução (italiano) Eduardo Brandão, (alemão) Luiz Sérgio Repa. São Paulo: Martins Fontes, 2005. p.3-5

_____________
*O que caracteriza os grandes escritores (no gênero mais elevado), bem como os artistas, e, portanto, é um traço comum a todos eles, é o fato de levarem a sério o que fazem: todos os outros só se preocupam com as vantagens e o lucro.
Se alguém alcança a glória por meio de um livro qualquer, escrito a partir de uma vocação ou por impulso interno, mas logo depois torna-se um polígrafo, vende sua glória por dinheiro vil. Quando se escreve só para ter o que fazer, nada dá certo.
Só neste século há escritores por profissão. Até então houve escritores por vocação.

domingo, 6 de julho de 2014

SERRA PELADA: a lenda da montanha de ouro

Impressionante história. Filme (2013) de Victor Lopes.

Na década de 80, no coração da floresta amazônica, 115 mil homens garimparam 100 toneladas de ouro, carregando nas costas uma montanha de 150 metros de altura. Hoje, Serra Pelada se transformou num lago de 150 metros de profundidade, cercado por miséria, disputas e lendas. A aventura da maior corrida do ouro do século XX, e a segunda maior concentração de trabalho humano depois das pirâmides do Egito, é uma história que não acabou de ser contada. E, embaixo de tudo, tem uma laje de ouro.

sábado, 5 de julho de 2014

O ECO

Guilherme de Almeida (1890-1969)


Perguntei à minha vida:
– “Como achar a apetecida
felicidade absoluta?”
E um eco me disse:

– “Luta!”

Lutei. – “Como hei de a esta pena
dar cadência serena
que suaviza, embala e encanta?”
O eco, então, me disse:

– “Canta!”

Cantei. – “Mas, como, num verso,
resumir todo o universo
que em mim vibra, esplende e clama?”
Então, o eco me disse:

– “Ama!”

Amei. – “Como achar agora
a alma simples que eu pus fora
pelo prazer de buscá-la?”
O eco, então, me disse:

– “Cala!”

Calei-me. E ele, então, calou-se.
Nunca a vida foi tão doce...
Tudo é mais lindo a meu lado:
mais lindo, porque calado.


ALMEIDA, Guilherme de. Encantamento, Acaso, Você: seguidos dos haicais completos. Campinas: Unicamp, 2002. p.157-158

quinta-feira, 3 de julho de 2014

GOLPE DE ESTÁDIO

Clodomir Monteiro


o campo        sempre          seu                 golpe
                        cumpre                      pé    pega
                        seu gol                      a vida

em mente      mentira                      balança
                        jogo
                        joga                            longe
é a festa                                            do povo

na frente       gente                         exigente
                        torce
                        corre                          estádio
tropeça                                             de novo

e sempre       agita                           a    partida
                        atira
                        gira                             domina
a bola                                                 no centro

na rede          agarra                         boa renda
                        aterra
                        torce                           de dor
na cara                                               do povo

o jogo            embala                      alegre
                        balão
                        rindo                          adorna
é a festa                                            por dentro

combina        comanda já              lança
                        rola
                        saindo     lá               fora
protesto        do povo                     não pensa

controla        pelota                        esperança
                       grita
                       salta                           explode

É O POVO    NA REDE                 DE NOVO


MONTEIRO, Clodomir. Derroteiro de rotinas. São Paulo: Quíron, 1976. p.22-23

ASSIM FALOU ZARATUSTRA (§ 5)

Friedrich Nietzsche (1844-1900)


E assim falou Zaratustra ao povo:

É tempo de o homem fixar sua meta. É tempo de o homem plantar o germe de sua mais alta esperança.

Seu solo ainda é rico o bastante para isso. Mas um dia este solo será podre e manso, e nenhuma árvore alta poderá nele crescer.

Ai de nós! Aproxima-se o tempo em que o homem já não lança a flecha de seu anseio por cima do homem, e em que a corda do seu arco desaprendeu de vibrar!

Eu vos digo: é preciso ter ainda caos dentro de si, para poder dar à luz uma estrela dançante. Eu vos digo: tendes ainda caos dentro de vós.

Ai de nós! Aproxima-se o tempo em que o homem já não dará à luz nenhuma estrela. Ai de nós! Aproxima-se o tempo do homem mais desprezível, que já não sabe desprezar a si mesmo.

Vede! Eu vos mostro o último homem.

“Que é amor? Que é criação? Que é anseio? Que é estrela?” – assim pergunta o último homem, e pisca o olho.

A terra se tornou pequena, então, e nela saltita o último homem, que tudo apequena. Sua espécie é inextinguível como o pulgão; o último homem é o que tem vida mais longa.

“Nós inventamos a felicidade” – dizem os últimos homens, e piscam o olho.

Eles deixaram as regiões onde era duro viver: pois necessita-se de calor. Cada qual ainda ama o vizinho e nele se esfrega: pois necessita-se de calor.

Adoecer e desconfiar é visto como pecado por eles: anda-se com toda a atenção. Um tolo, quem ainda tropeça em pedras ou homens!

Um pouco de veneno de quando em quando: isso gera sonhos agradáveis. E muito veneno por fim, para um agradável morrer.

Ainda se trabalha, pois trabalho é distração. Mas cuida-se para que a distração não canse.

Ninguém mais se torna rico ou pobre: ambas as coisas são árduas. Quem deseja ainda governar? Quem deseja ainda obedecer? Ambas as coisas são árduas.

Nenhum pastor e um só rebanho! Cada um quer o mesmo, cada um é igual: quem sente de outro modo vai voluntariamente para o hospício.

“Outrora o mundo inteiro era doido” – dizem os mais refinados, e piscam o olho.

São inteligentes e sabem tudo o que ocorreu: então sua zombaria não tem fim. Ainda brigam, mas logo se reconciliam – de outro modo, estraga-se o estômago.

Têm seu pequeno prazer do dia e seu pequeno prazer da noite: mas respeitam a saúde.

“Nós inventamos a felicidade” – dizem os últimos homens, e piscam o olho. –


NIETZSCHE, Friedrich. Assim falou Zaratustra: um livro para todos e para ninguém. Tradução, notas e posfácio Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2011. § 5 (p.18-19)

RECADO PARA DILMA, DILMISTAS, COPISTAS, LULISTAS, ETC

Grafite de Paulo Ito

quarta-feira, 2 de julho de 2014

PADRE JOSÉ E AS MENTIRAS REGIONAIS

MENTIRAS REGIONAIS
José Carneiro de Lima (1912-199?)


Nossos seringueiros gostam muito de piadas e de mentiras gaiatas. Por exemplo, outro dia levaram para o hospital da cidade de Xapuri uma mulher com tanta febre, que, mesmo deitada em uma rede, ela ia fazendo murchar o mato por onde passava. No hospital, queimou o colchão da cama e ficou no chão, porque nem cama nem rede aguentavam o calor da febre.

Caçando de noite, deu um vento tão forte que entortou a luz da lanterna e o veado foi embora, porque também o tiro foi desviado.

Caçador caiu em um lago, usava óculos, boiou sem eles, mas um pescador dias depois pegou enorme traíra com óculos na cara.

Mulher é como lua... quando é nova dá impaciência.
                 – crescente, satisfação,
                 – cheia, aborrecimentos,
                 – minguante, desilusão.

Saudade é um parafuso
que dentro da rosca, cai e
só entra se for torcendo,
porque batendo não vai.
Quando enferruja dentro,
nem distorcendo sai.

Encontrei estes versos na casa de um velho cearense e creio que ele trouxe de lá de nossa terra.

Outra estória deste gênero é a de um caçador que estava na espera e uma cotia, chegando perto, começou a roer um ouriço de castanha para comer as amêndoas; mas o caçador, de vez em quando, ouvia o chiado e uma fumacinha subir da beira do igarapé: é que como o ouriço era duro demais, os dentes da cotia ficavam encarnados pela alta temperatura e, então, ela tinha de correr para o igarapé para esfriar os dentinhos na água; daí, o chiado e a fumaça...!

Agora, vejam esta outra, também, sobre cotias: em um seringal, dez cotias, carregavam toda a castanha e davam prejuízo total ao patrão. Perguntei a um seringueiro, como isto era possível! “É sim, cada uma leva um ouriço no dente, dois debaixo do sovaco e vai chutando mais dois: são dez de cada vez ou cinquenta de cada viagem das dez cotias....!”.

Em outro seringal, havia uma paca endiabrada. Ninguém conseguia pegá-la, até que uns índios descobriram que ela tinha oito pernas: quatro embaixo e quatro em cima. Assim, quando era perseguida por um cachorro, ela corria meia hora, depois, então, se virava e corria mais meia hora com as outras pernas, de modo que era impossível pegá-la. Mas, um cearense inteligente achou um meio: pegou dois cachorros e amarrou um nas costas do outro. Soltou-os na mata e duas horas depois a paca estava na panela. Pegaram!

Em Ji-Paraná, um seringueiro levantou-se às duas da madrugada para cortar seringa mas, como não tinha café, foi ao terreiro da barraca e viu que no rio ia passando uma cobra grande, porém não ligou. Tirou lenha; torrou café; pilou; peneirou; fez o café; cozinhou macaxeira (aipim) e, às sete horas e meia da manhã, quando ia entrando na mata, lembrou de olhar para o rio. O rabo da cobra ia terminando de passar...

Outro caso: um explorador da região com 12 índios, cinco burros e os utensílios para uma longa viagem, deparou-se com uma árvore gigantesca, caída na mata. Procura daqui, procura dali, não conseguia passar nem saber onde estava os galhos ou o tronco. Mandou, então, 3 índios para cada lado, fazendo picadas, mas eles voltaram três dias depois não encontrando tronco nem galhos. Então o homem resolveu saber, pelo menos, que árvore era aquela. Fez uma picada de cem degraus, apanhou uma machadinha e subiu. Lá em cima, começou a tirar um pedaço da casca de uns dois metros de comprimento, quando nisto começou a sair sangue dos lados; só aí então, ele viu que estava tirando a escama de uma cobra...

Um seringueiro estava na “paquera” de uma caça apareceu uma alma, com aspecto horrível. Não teve dúvidas: meteu-lhe chumbo grosso. Depois desceu e pôde constatar que acertara o tiro, pois havia bastante sangue no chão... Porém, dias depois, morria o marido da vizinha, com um susto que levara nas matas...!


LIMA, Padre José Carneiro de. Folclore Acreano. Brasília: Gráfica do Senado, 1987. p.71-73
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Padre José Carneiro de Lima, registrado Maurício, nasceu em 23 de março de 1912, em Quixadá, estado do Ceará. Chegou ao Acre aos oito anos de idade, trazido por seus pais Telmino Julião de Lima e Benvinda Cândida de Lima, sendo o 13o dos 16 filhos do casal. Padre José, junto com seu irmão Padre Peregrino, foram os primeiros brasileiros a ingressarem na Ordem dos Servos de Maria, e depois de ordenados na Itália, retornaram, depois de breve passagem por Santa Catarina, ao Acre, onde exerceram o ministério sacerdotal até o fim de suas vidas. Os dois, no imaginário popular, acabaram se tornando lenda, sobretudo, o Padre José, por sua figura irreverente e suas histórias fantásticas. Padre José foi retratado na minissérie global “Amazônia: de Galvez a Chico Mendes”, de Glória Perez. Ambos faleceram na década de noventa.