quinta-feira, 10 de julho de 2014

SÃO COISAS DO ACRE...

Isaac Melo


Há algum tempo vinha namorando este livro: “São coisas do Acre...”. Só agora pude adquiri-lo de um sebo do Rio de Janeiro. É seu autor Nelson Correa de Oliveira, cuja única informação que obtive dá conta de que ele era acreano, provavelmente de Cruzeiro do Sul. O livro foi publicado em 1944, no Rio de Janeiro, pela Gráfica Laemmert Limitada. O livro traz uma carta, à guisa de prefácio, de Arthur Cézar Ferreira Reis (1906-1993), grande historiador da Amazônia e ex-governador do Amazonas (1964-1967), que diz: ““São Coisas do Acre...”, meu caro confrade, vale evidentemente pelo abundante documentário que encerra à volta do grande drama social que as populações nordestinas vêm escrevendo na Amazônia. Filtrando os mil episódios da instalação do homem no seio agreste acreano, seus choques com a selva, com as águas, com as diversidades econômicas que o novo ambiente lhe apresenta, você riscou flagrantes magníficos, depoimentos preciosos. Seus panoramas não têm retórica mentirosa. (...) O Acre, nos seus seringais, nas suas desventuras humanas, nos altos e baixos do seu processo econômico, nos seus episódios de brasilidade conquistada a sangue e amor, encontrou em você o exegeta sincero. Romancista ou cronista, em seu livro encontrei um riquíssimo documentário social, insisto, que o Brasil precisa conhecer em toda sua extensão.”

No cômputo geral das obras que retratam o viver dos seringais o livro é ainda de certa forma original, haja vista que a maior parte dos livros posteriores nos dá a impressão que se repetem, mudando apenas os personagens num mesmo pano de fundo e enredo. Nelson Correa nos oferece um retrato esmerado do viver dos seringais acreanos até a década de 1940, demonstrando ter conhecimento de causa daquilo que escrevia, sobretudo, pelo modo como nos apresenta o linguajar seringueiro, em suas nuances tão próprias. O livro é ambientado na região do Juruá-Mirim, afluente do Rio Juruá, e gira em torno da família do seringueiro João Florêncio e Teresa Assunção.

Assim se inicia “São coisas do Acre...”:

“A madrugada começa a apagar as estrelas que o luar tornara esparsas pelo céu. Flutua no ar um vento frio. O rio reflete a sombra da mata e tem a imobilidade de um espelho fosco. A canoa marca na estrada das águas o traço sinuoso da sua passagem, ao ritmo cadenciado e vigoroso dos jacumãs. Aspira-se o bafo morno do rio que os remos fazem espreguiçar ao despertarem-no do sono, dessa esplenderosa noite tropical, e, ao mesmo tempo, sente-se o hálito perfumado da mata que o vento trás numa cerração leve, tênue. A lua branca espreita por entre a folhagem das árvores e desafia a alvura das praias.

– Espia, Sinhazinha, a barraca do Mecenas! Ele deve estar, também, a caminho da festa, porque não se enxerga a luz na casa, nem o fogo do borralho.

Um galo canta e um cão que despertou ao barulho dos remos ladra, soturnamente. A canoa se afasta. A barraca é uma silhueta, ao longe. As remadas pausadas e fortes fazem suceder, uma após outra, as voltas do rio.

A mata toma forma e cor com o dia que nasce. A natureza toda desperta. As araras estridentes levantam-se do poleiro e cruzam o espaço em busca do buritizal. Longe, muito longe, ouve-se o regougo das guaribas. Os saguis, aos pinchos nos galhos da ingazeira, saboreiam-lhe os frutos. E o dia vem cheio de luz, de música e de cores, neste pedaço exuberante da planície amazônica.”


OLIVEIRA, Nelson Correa de. São Coisas do Acre.... Rio de Janeiro: Gráfica Laemmert Limitada, 1944. p.11-12
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